Talvez

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a níveis cósmicos

Talvez algumas pessoas não voltem para a nossa vida.

Talvez elas nunca tenham realmente saído.

A gente só aprende a conviver com a distância. Aprende a seguir a rotina, conhecer outras pessoas, ocupar os espaços vazios e fingir que certas histórias ficaram para trás.

(receio de parecer redundante)

E funciona.

Até o dia em que a gente se encontra de novo.

Então acontece uma coisa simples demais para ser ignorada, parece que nada precisou ser recuperado.

A conversa volta ao lugar onde parou. A risada ainda tem o mesmo efeito. Os apelidos continuam fazendo sentido. É como se o tempo tivesse passado para todo mundo, menos para nós dois.

Talvez seja isso que torna algumas pessoas tão difíceis de transformar em passado. Porque, com elas, o passado nunca parece completamente encerrado.

A gente pode passar meses tentando ficar longe, convencendo a si mesmo de que é melhor seguir caminhos diferentes. Mas, quando estamos no “mesmo lugar”, existe uma familiaridade que não precisa ser chamada.

Ela simplesmente aparece.

Como se alguma coisa dentro de mim dissesse

“Ah. Era aqui.”

E tudo volta a funcionar. Não de um jeito perfeito, mas natural.

A conversa se desenrola sem esforço. Uma piada puxa outra, um assunto qualquer vira uma conversa de horas e, quando percebo, estou falando de coisas que COM CERTEZA não contaria para mais ninguém.

Com você, eu não preciso escolher tanto as palavras. Existe um idioma que construímos sem perceber. Você sabe onde tocar para me fazer rir, entende meus silêncios, reconhece minhas manias e percebe qual versão de mim está aparecendo.

Talvez essa seja uma das formas mais profundas de intimidade, não precisar reaprender alguém.

A gente já se conhece.

Só precisou se reencontrar.

E é aí que tudo fica estranho.

Quando estamos longe, parece possível seguir em frente, colocar cada coisa no seu lugar e aceitar que algumas histórias pertencem ao passado. Mas, quando estamos juntos, o mundo parece discordar.

As cores ficam mais vivas. As coisas pequenas ganham importância. Uma conversa qualquer parece suficiente para salvar o dia. Um problema enorme perde o tamanho, não porque foi resolvido, mas porque estamos ali.

Você não melhora a minha vida como quem chega para consertá-la. Você me faz lembrar de como é gostar dela.

Não precisa trazer respostas, prometer que tudo vai dar certo ou mudar alguma coisa. Basta estar. E alguma coisa em mim descansa.

É como se meu corpo reconhecesse uma casa que minha cabeça passou muito tempo tentando esquecer.

Talvez por isso eu tenha a sensação de que nos conhecemos há mais tempo do que deveríamos. Como se a nossa história tivesse começado antes da primeira página que consigo lembrar.

E existe uma coisa ainda mais difícil de explicar mesmo quando a distância vence, alguma parte de mim parece continuar orientada na sua direção.

Não é pensamento. Não é exatamente saudade. É uma espécie de insistência silenciosa.

Como se os olhos ainda soubessem procurar você antes mesmo de eu perceber que estou procurando. Como se meu corpo tivesse guardado, em algum lugar que a razão não alcança, uma noção muito particular de onde você está.

Talvez seja por isso que, entre tantas pessoas, tantos lugares e tantos caminhos possíveis, existe sempre alguma coisa estranhamente familiar quando o caminho termina em você.

Como se certas conexões não dependessem de proximidade para continuar existindo.

A gente pode até tentar ficar longe, mas distância não é o mesmo que ausência. Distância é quando não estamos juntos. Ausência é quando a pessoa deixa de existir dentro da gente.

E você nunca chegou a esse lugar.

Não é que eu precise de você para existir. Nós dois conseguimos viver separados. Mas, quando existe a possibilidade de compartilhar a vida, aparece uma vontade maior do que a lógica.

Ela não pergunta se é conveniente. Não calcula a distância, não consulta o calendário nem faz uma lista de motivos. Apenas olha para tudo que está no caminho e pergunta

“Tá. Mas como a gente faz?”

Os obstáculos continuam existindo. Só deixam de parecer maiores do que a vontade.

A distância vira um detalhe. O tempo pode ser atravessado. O medo vira conversa. O passado deixa de ser uma sentença e passa a ser apenas parte da história.

Porque existe alguma coisa entre nós que não se repete.

Não é só química, saudade ou carinho.

É reconhecimento.

É olhar para alguém que eu já conheci de tantas formas e ainda encontrar algo novo. É saber quem você é e, mesmo assim, continuar querendo descobrir quem está se tornando. É ter história suficiente para entender o silêncio e curiosidade suficiente para continuar perguntando.

E talvez seja justamente isso que torna tudo tão difícil de explicar, há coisas que a gente entende sem saber dizer como. Um olhar que encontra o outro no meio de uma sala. Uma presença que o corpo percebe antes da cabeça. A sensação de que, mesmo depois de tantos caminhos diferentes, existe uma espécie de direção que nunca deixou de existir.

Não sei se algumas pessoas ficam gravadas na memória.

Talvez fiquem em lugares mais profundos do que isso.

Quando compartilhamos a vida, mesmo que por pouco tempo, existe uma paz difícil de explicar para quem olha de fora.

Ninguém entende completamente as nossas piadas, os apelidos, os silêncios ou o motivo de uma frase qualquer fazer nós dois rirmos daquele jeito.

E talvez nem precise entender.

Algumas coisas ficam mais bonitas quando não podem ser traduzidas. Existem relações que podem ser explicadas e existem relações que só podem ser vividas.

A nossa parece pertencer a segunda categoria.

É por isso que nada se compara. Não porque não existam outras pessoas incríveis, mas porque nenhuma delas é você. Nenhuma carrega exatamente a nossa história, conhece a nossa língua ou sabe chegar naquele lugar específico dentro de mim.

O que mais me impressiona é que nós já tentamos ficar fora da vida um do outro. E, ainda assim, quando voltamos a compartilhá-la, tudo parece fazer sentido rápido demais.

Como se, apesar de todos os caminhos diferentes, alguma parte de nós ainda soubesse voltar.

E talvez o mistério não seja entender por que continuamos sendo puxados um para o outro.

Talvez seja perceber o que acontece quando paramos de resistir.

O mundo fica mais leve. A conversa acontece. A vontade vence algumas distâncias. Os problemas diminuem de tamanho. A gente volta a falar aquela língua que só nós dois conhecemos.

Por algumas horas, não existe passado, futuro ou necessidade de definir nada.

Existe você.

Existe eu.

E existe a sensação quase inacreditável de que, entre todas as possibilidades da vida, estamos exatamente onde deveríamos estar.

Quando estamos juntos, não parece que estamos começando de novo.

Parece que, depois de tanto tempo tentando ficar longe, finalmente paramos de lutar contra algo que sempre soubemos

juntos, existe paz.

Existe paz quando abraçamos as nossas crianças internas, um refúgio.

E talvez você não faça a minha vida parecer melhor.

Talvez você faça a vida parecer o lugar certo.

Talvez eu não tenha medo de morrer. Talvez tenha apenas curiosidade para descobrir se, finalmente, alguma coisa terá coragem de ficar.

Outro dia me perguntaram o que era o bem-viver.
E eu pensei que talvez fosse isso:
um instante em que a alma desaperta,
o momento em que o mundo já não tem tanta força
e o amanhã já não grita tão alto.

Talvez algumas das maiores transformações do mundo não comecem fazendo barulho.

Talvez comecem silenciosamente…

no coração de alguém que decidiu transformar a si mesmo primeiro.

DISCUSSÃO

Dizem os sábios,
talvez com justa razão,
que não se deve discutir,
política e religião

Penso que tudo isso é utopia
pois o homem não viveria
sem uma boa discussão.

Somos bons com as palavras
para ferir e acalentar
assim como a natureza
temos dom de destruir
e também de recriar.

Eu sou bom com as palavras
tenho a fagulha certa
para um fogo iniciar
sou capaz de trazer paz
para um coração sofrido
ao passo que sou perito
para flechas atirar
naquele que não comunga
do meu modo de pensar

Eu sou bom com as palavras
todavia, a culpa não é minha
não fui eu quem as inventou
a culpa é da humanidade
que tantas armas forjou
fez do verbo a lâmina fria
e a minha garganta cortou.

Se eu fosse falar a verdade
Talvez você se comovesse.
Perdi meu pai aos onze anos — e com ele, o lar.
A casa deixou de ser abrigo, tornou-se lembrança.
O conforto e a segurança que uma infância promete
se desmancharam na poeira do tempo.

A vida se desenrolou como um fio invisível
que eu apenas seguia, sem saber aonde levava.
Mas não escrevo para comover ninguém.
Sou um homem realizado no pouco que premeditei:
ser poeta — não por escolha, mas por destino.

Desde menino, tive uma clarividência silenciosa
sobre o que viria a ser.
Uma voz interior me dizia
que havia um mandato das alturas:
cantar, mesmo que o canto fosse triste;
dar forma ao invisível;
soprar o fio de Ariadne
que me conduziria pelo labirinto da vida.

Entre fragmentos e quedas,
fui forjado por dores que não escolhi.
E nelas, descobri a necessidade inevitável
de escrever — sempre com lágrimas,
sempre com o sangue secreto da alma.

Não havia mapa, só o instinto e a necessidade.
E foi nas escolhas, muitas vezes cegas,
que aprendi a me reconhecer.

Hoje compreendo que minha existência,
apesar de comum, sempre esteve repleta de sentido:
era o ensaio do homem que eu me tornaria —
um ser moldado pela perda,
mas iluminado pela busca.

Sou um renascentista


Talvez eu tenha nascido fora do tempo,
mas minha alma caminha pelas ruas de Paris.
Não as ruas apressadas do turismo,
mas aquelas onde a madrugada ainda cheira a vinho, tinta e papel.
Onde os músicos tocam como se o destino dependesse de um acorde
e os poetas bebem a lua em silêncio.
É ali que existo — entre o som e a palavra,
entre o piano e o abismo.
Sou um renascentista: músico, poeta, pianista.
Vivo entre o sagrado e o profano, entre o vinho e o verbo.
Cada nota que toco é um pedaço de mim tentando renascer,
cada verso, uma confissão que o tempo não conseguiu apagar.
Não bebo para esquecer, bebo para lembrar —
que a vida, como a arte, é feita de breves eternidades.
Quando sento ao piano, sinto Paris me ouvir.
Os fantasmas de Debussy e Ravel espiam por sobre meu ombro,
e o Sena, lá fora, parece repetir minhas notas nas águas.
O poeta em mim escreve o que o músico sente;
o músico traduz o que o poeta pressente.
É uma comunhão silenciosa entre o som e o pensamento —
a forma mais bela de loucura.
Ser renascentista é não aceitar a indiferença dos tempos modernos.
É crer que a beleza ainda pode salvar,
que o corpo é templo e o amor é arte.
É brindar com o vinho e com o caos,
com a esperança e o desespero,
porque tudo o que é humano é divino quando há música no coração.
Sou um renascentista.
Poeta, músico, homem que vive nas ruas de Paris —
onde o tempo se curva diante de um piano,
e o vinho se torna prece nas mãos de quem ainda acredita
que a vida é, acima de tudo, uma sinfonia inacabada.

Deus existe. Essa poderia ser a sentença ideal para iniciar um livro. Ou talvez: Deus não existe.
Qual delas prenderia mais a atenção do leitor?
Nada é simples assim. Nem uma, nem outra. Ambas são complexas, teses de difícil comprovação. No campo da fé, a primeira frase pode convencer com facilidade, sobretudo pessoas crédulas. Já a segunda talvez encontre terreno ainda mais fértil se o leitor for cético, agnóstico ou mesmo religioso sem convicção profunda. Em ambos os casos, não se trata de verdade ou mentira imediata, mas do lugar íntimo de onde o leitor parte. A frase inicial não prova nada; apenas revela quem lê.
Seguindo por esse caminho, este será o meu livro mais inquietante. Não porque eu nunca tenha tratado desse tema. Ao contrário, como filósofo, escrevi muitos livros que, de uma maneira ou de outra, trabalharam com essas duas possibilidades. Mas este é diferente. Ele nasce do lugar em que me encontro agora.
Para um leitor curioso, este livro será uma janela aberta para dois abismos. Duas escolhas, duas teses, duas possibilidades. Ainda assim, creio que será um trabalho penoso. Habitar o espaço entre esses dois polos, descer ao mais tenebroso caos para investigar, sob uma perspectiva dialética, questões que há milênios retiram a paz de homens e mulheres de alma profunda, exige coragem.
Se Deus não existe, estamos perdidos. Revoltados, em desespero total, sem nenhuma base para a esperança. Com essa afirmação, Deus não existe, enterramos a metafísica e já não necessitaremos buscar sentido nessa ciência frágil. Então, comamos e bebamos, surtemos e executemos todos os desejos carnais, certos de que não haverá julgamento nem punição moral após a morte, apenas o retorno ao pó.
Contudo, antes de concluir qualquer uma dessas afirmações, é preciso investigar a história de ambos os lados. As pessoas que acreditaram em cada uma dessas posições, o que as levou a sustentar tais teses e quais foram os resultados morais, sociais e históricos dessas escolhas.
Mas de onde partiremos, na corrente do tempo? Em que lugar cultural fixaremos nosso ponto de partida? Que história ou mito serviu para determinar o princípio de tudo? Seria ideal partir de uma crença específica, de uma tradição particular, ou isso seria um argumento frágil, sem credibilidade universal?
Se eu escolher o óbvio, o mito de Adão, não lograrei êxito com aqueles que não creem na tradição oral ou escrita dos judeus. Talvez, se optar por outro cerne, como a cultura africana, ainda assim enfrentarei sérios problemas para resolver essa questão inicial. O impasse persiste.
Contudo, é preciso definir um ponto de partida e seguir adiante. O atraso excessivo também é uma forma de recusa. O que me ocorre agora é outra possibilidade. Sugerir várias origens, vários mitos, várias tradições, e deixar a critério do leitor qual delas melhor lhe servirá.
Talvez não caiba a este livro impor uma origem, nem eleger uma tradição soberana, mas oferecer caminhos. Permitir que cada leitor escolha de onde olhar para o abismo. Afinal, a pergunta sobre Deus talvez diga menos respeito à resposta correta e mais à coragem de sustentar a pergunta.
Então, antes de fixarmos a mente no homem como ser racional ou como criação divina, levantemos os olhos. Olhemos para as estrelas.
Comecemos com um pouco de ciência. Observemos o universo não como metáfora, mas como fato. Sabemos hoje que ele não é estático. Expande-se. Galáxias afastam-se umas das outras, o espaço se dilata, o tempo carrega consigo a memória de um início violento e incompreensível. Houve um momento inaugural, que a ciência chama de Big Bang, no qual matéria, energia, espaço e tempo surgiram juntos, sem testemunhas, sem linguagem e sem propósito declarado.
A ciência descreve o como com rigor crescente. Fala de inflação cósmica, de forças fundamentais, de partículas elementares, de um universo que lentamente se organiza a partir do caos primordial. Mas permanece silenciosa quanto ao porquê. Ela mede, calcula, observa, mas não confere sentido. Talvez não seja essa a sua função.
É nesse ponto que a pergunta por Deus reaparece, não como afirmação, mas como hipótese extrema. Onde Deus caberia nesse projeto? Antes do início, como causa primeira? Como princípio organizador? Ou como invenção tardia de uma consciência assustada diante da vastidão e do silêncio?
Olhar para cima é um gesto filosófico. Diante da imensidão indiferente do cosmos, o homem percebe sua fragilidade e, ao mesmo tempo, sua singularidade. Somos poeira que pensa, matéria que pergunta, universo tentando compreender a si mesmo. Se Deus existe, talvez não esteja nos detalhes morais imediatos, mas nesse espanto original diante do infinito. Se não existe, o espanto permanece, talvez ainda mais cruel.
Todo evento, afirma a ciência, necessita de um observador, pois acontece em um ambiente, no espaço e no tempo. Essas condições são frágeis, mas reais. É dentro delas que algo pode ser reconhecido como acontecimento. Essa probabilidade científica, instável e limitada, talvez seja tudo o que temos para buscar algum sentido no estado das coisas físicas, materializadas. Fora disso, restam apenas hipóteses, silêncio e a vertigem de tentar compreender um universo que existe independentemente de nos perceber.

Talvez o niilismo mais perfeito seja justamente aquele que dispensa declarações trágicas, cabelos desgrenhados, vodca, túmulos e adolescentes lendo poetas russos de madrugada. O niilismo operacional veste camisa social, chega no horário, paga previdência, participa de treinamento, sorri na confraternização, responde ‘perfeito’ no Teams e mantém uma agenda admiravelmente organizada. Ele não afirma que nada possui valor; simplesmente vive como se valor significasse funcionalidade

A simplicidade te incomoda? Talvez você ainda não tenha aprendido a apreciar o que realmente importa.

"talvez eu precise de uma terapia especial... pra me destraumatizar e tirar esse rolo de fios, do peito e da garganta... que antes não me deixava respirar e agora não me deixa falar, nem cantar..."

Acaso


Talvez tenha sido acaso...


Você cruzar meu caminho,
justamente quando eu não procurava ninguém.


Talvez tenha sido apenas coincidência
o instante, o lugar, o momento...


Mas algumas coincidências
são difíceis demais de chamar de acaso.


Porque, depois de você,
alguma coisa mudou em mim.


Como se a vida, por um breve instante,
tivesse colocado tudo no lugar
só para que nossos caminhos se encontrassem.


E desde então,
quando penso em destino,
não imagino caminhos, estrelas
ou lugares distantes.


Imagino você.


Talvez tenha sido acaso...


Mas, se foi,
foi o acaso mais bonito
que a vida poderia ter me dado.

Harmonia na Humanidade


Talvez a maior dificuldade da humanidade nunca tenha sido aprender a viver juntos, mas aprender a conviver com as diferenças.


Somos feitos de histórias distintas, sonhos diferentes, crenças, escolhas e maneiras próprias de enxergar o mundo. E, ainda assim, existe algo que nos aproxima: todos desejamos ser respeitados, compreendidos e, de alguma forma, amados.


Harmonia não significa pensar igual, concordar com tudo ou caminhar sempre na mesma direção. Harmonia é compreender que podemos discordar sem transformar o outro em inimigo. É saber ouvir antes de julgar, estender a mão antes de apontar o dedo e reconhecer que ninguém possui sozinho todas as respostas.


Uma humanidade harmoniosa não seria aquela onde não existem conflitos, mas aquela que aprendeu a resolvê-los sem perder a dignidade, a compaixão e o respeito.


Talvez o mundo não precise de pessoas perfeitas. Precise apenas de pessoas dispostas a fazer sua pequena parte.


Porque toda grande mudança começa em gestos simples: uma palavra gentil, um pouco mais de paciência, um olhar sem preconceito, uma mão estendida.


E quando cada um escolhe ser um pouco mais humano, o mundo inteiro, silenciosamente, começa a encontrar seu equilíbrio.

Alguns dias parecem não ter fim. Talvez eu não esteja perdido talvez apenas esteja condenado a repetir o mesmo ciclo, tentando encontrar no amor uma saída que meu próprio coração nunca me deixa alcançar.

AMAMOS, MESMO SABENDO QUE UM DIA SERÁ SAUDADE

Talvez uma das maiores coragens humanas seja amar sabendo que podemos perder. Sabemos disso desde o princípio, embora quase nunca tenhamos coragem de dizer em voz alta. Quem chega pode partir. Quem abraçamos hoje talvez amanhã exista apenas na memória. A voz que agora escutamos poderá um dia transformar-se em lembrança, e aquele rosto que conhecemos de olhos fechados talvez passe a habitar somente o território silencioso da saudade. Mesmo assim, amamos.
E talvez seja justamente nisso que o amor revele sua grandeza.
Porque amar nunca foi possuir. Possuir é desejar permanência; amar é compreender a impermanência e, ainda assim, permanecer enquanto for possível. Há uma espécie de loucura consciente no amor: entregamos partes de nós a pessoas que o tempo não prometeu conservar. Construímos casas sabendo que envelhecerão, fazemos planos sabendo que a vida poderá interrompê-los, criamos lembranças sabendo que algumas delas um dia doerão. Beijamos como se houvesse eternidade, embora saibamos que somos feitos de tempo.
E por que fazemos isso?
Porque talvez o contrário da perda não seja a permanência. Talvez seja nunca ter amado.
Quem tenta proteger-se de toda perda precisa proteger-se também de todo vínculo. Para jamais sentir saudade, seria necessário jamais ter alguém de quem sentir falta. Para nunca sofrer uma despedida, seria preciso nunca experimentar verdadeiramente um encontro. Para impedir que o coração se parta, teríamos que impedir também que ele se abrisse. E que espécie de vida seria essa?
Talvez seja por isso que o amor seja tão profundamente humano. Ele não exige garantias para existir. Ama-se sem contrato com o amanhã. Ama-se uma mãe sabendo, ainda que não queiramos pensar nisso, que um dia seu abraço poderá nos faltar. Ama-se um companheiro sabendo que nenhuma promessa pode derrotar completamente o tempo. Amam-se os filhos sabendo que eles crescerão, partirão e construirão caminhos onde talvez já não sejamos presença cotidiana. Amam-se amigos sabendo que a vida espalha pessoas por cidades, distâncias e destinos diferentes. Ainda assim, continuamos dizendo: fique. Venha. Sente-se ao meu lado. Conte-me sobre seu dia.
Isso é extraordinário.
Talvez Viktor Frankl estivesse certo ao perceber no amor uma das grandes possibilidades de sentido da existência. E talvez C. S. Lewis também compreendesse que amar nos torna vulneráveis justamente porque aquilo que realmente importa pode ferir-nos quando desaparece. Não existe amor profundo completamente protegido da dor.
Por isso não considero a saudade uma inimiga do amor.
A saudade é uma de suas consequências.
Só sentimos profundamente a ausência daquilo que um dia teve presença dentro de nós.
E há algo ainda mais difícil de aceitar: às vezes perderemos tudo.
Perderemos juventude, lugares, objetos, certezas, pessoas. Um dia outros entrarão nas casas onde vivemos. Nossos passos desaparecerão dos corredores. Nossos nomes serão pronunciados cada vez menos. O tempo continuará fazendo aquilo que sempre fez: passando.
Mas existe uma pergunta que o tempo não consegue responder por nós:
enquanto tivemos, nós amamos?
Talvez essa seja uma das poucas perguntas verdadeiramente importantes.
Não quanto acumulamos.
Não quanto conseguimos preservar.
Não quantas vezes vencemos.
Mas quanto estivemos presentes enquanto aquilo que amávamos ainda estava diante de nós.
Porque existe uma tragédia maior do que perder: perceber tarde demais que tivemos alguém ao nosso lado e não soubemos estar ali. Guardamos palavras para depois. Adiamos abraços. Economizamos “eu te amo”. Deixamos para amanhã uma conversa que pertencia a hoje, como se tivéssemos recebido alguma garantia secreta de que o amanhã nos seria concedido.
Não recebemos.
E talvez seja justamente por isso que o amor seja urgente.
Não uma urgência desesperada, mas consciente. A consciência de olhar demoradamente para quem amamos. De escutar um pouco mais. De perdoar quando for possível. De dizer aquilo que precisa ser dito enquanto ainda existem ouvidos para ouvir. De abraçar enquanto ainda existem braços capazes de nos devolver o abraço.
Amar é aceitar silenciosamente uma verdade terrível e maravilhosa:
isto pode acabar.
E, em vez de fugir por causa disso, aproximar-se ainda mais.
Talvez a grandeza do amor não esteja em vencer o tempo.
Talvez esteja em dar sentido ao tempo que nos foi dado.
Porque no final talvez percamos muitas coisas que julgávamos nossas.
Mas aquilo que verdadeiramente amamos terá participado daquilo que nos tornamos.
E então compreenderemos que algumas pessoas podem partir de nossas mãos sem jamais partir completamente de nossa existência.
Elas permanecem na maneira como falamos, nas coisas que aprendemos, nos gestos que repetimos sem perceber, nas histórias que contamos, nas músicas que ainda nos comovem, nas palavras que herdamos e até naquele silêncio inexplicável que às vezes chega quando uma lembrança atravessa o coração.
Talvez seja isso que reste quando tudo parece perdido.
Não a posse.
Não a presença.
Mas a transformação.
Amamos alguém e nunca mais somos exatamente a mesma pessoa.
Por isso continuamos amando, mesmo sabendo que um dia poderemos perder aquilo que amamos.
Porque a alternativa seria atravessar esta breve existência intactos, protegidos e vazios.
E talvez a maior derrota de uma vida não seja terminar com o coração marcado pelas pessoas que amamos.
Talvez seja chegar ao fim com o coração perfeitamente inteiro porque nunca tivemos coragem de entregá-lo.

Ser feliz sem motivo,
é talvez a forma mais bonita
de encontrar a tal da felicidade.
Sem esperar que o mundo mude,
sem precisar de uma razão.

Eu pensei muito se deveria escrever isso.


Talvez eu nem tenha o direito de esperar que você queira ouvir alguma coisa de mim depois da forma como agi, mas existe algo que eu gostaria de te dizer, independentemente de qualquer coisa que aconteça daqui para frente.


Eu sinto muito.


Sinto muito pela maneira como te tratei naquele momento em que você decidiu se abrir comigo. Você estava sendo vulnerável, confiando em mim para mostrar uma parte sua, e, em vez de te acolher, eu fui frio, grosseiro e arrogante.


Quando você precisava de alguém que simplesmente estivesse ali para te ouvir, eu respondi como se aquilo fosse um problema que você tivesse colocado nas minhas mãos para eu resolver. Hoje eu consigo perceber o quanto isso foi injusto com você.


Eu disse que aquilo era um problema que apenas você poderia resolver. Talvez exista alguma verdade nisso, porque ninguém pode viver a vida de outra pessoa ou resolver seus problemas por ela. Mas eu usei uma verdade como uma forma de me afastar de você naquele momento.


Eu confundi não ser responsável pelos seus problemas com não precisar ser responsável pela maneira como eu te tratava enquanto você falava deles.


E eu estava errado.


Você não estava necessariamente me pedindo uma solução. Talvez só estivesse procurando um pouco de compreensão, um lugar seguro para falar, alguém que dissesse: "Eu estou aqui. Pode falar."


E eu não fui essa pessoa.


O que aconteceu antes explica algumas das minhas reações, mas não torna justo aquilo que fiz com você. Você não era aquela pessoa. Você não merecia receber de mim o peso de uma história que não era sua.


E talvez essa seja uma das coisas mais importantes que eu aprendi com tudo isso.


Eu percebi que posso me importar profundamente com alguém sem carregar os problemas dessa pessoa. Posso ouvir sem tentar consertar. Posso acolher sem assumir responsabilidades que não são minhas. Posso estabelecer limites sem precisar ser frio.


E, principalmente, posso escolher ser gentil mesmo quando alguma coisa dentro de mim está com medo de se machucar novamente.


Eu queria ter entendido isso naquele momento. Queria ter respondido diferente. Queria ter olhado para você e percebido que, naquele instante, você não precisava de uma resposta perfeita.


Você precisava apenas ser ouvida.


E eu sinto muito por não ter percebido.


Também quero te dizer uma coisa sobre você.


Nós nos conhecemos pouco, e justamente por isso eu não quero fingir que conheço toda a sua história ou colocar sobre você sentimentos e expectativas que talvez não correspondam à realidade. Mas o pouco que conheci foi suficiente para perceber que havia algo muito especial em você.


A maneira como você se abriu comigo, a sua sensibilidade e a confiança que teve para mostrar uma parte vulnerável de si foram coisas que ficaram comigo.


Talvez seja por isso que tudo tenha me atingido tanto depois.


Eu fiquei pensando no que poderia ter acontecido se eu tivesse sido diferente naquele momento. Pensei em como seria continuar te conhecendo, descobrir suas pequenas manias, suas histórias, as coisas que te fazem rir, os seus sonhos, os seus medos.


Minha cabeça chegou até a imaginar futuros que nunca existiram.


Mas eu também percebi que não quero transformar uma possibilidade em uma certeza que nunca tivemos.


Você foi alguém que eu tive a oportunidade de conhecer, e talvez essa oportunidade tenha terminado ali.Talvez não, eu não sei.


E, pela primeira vez, acho que consigo aceitar que não cabe a mim decidir isso.


Se algum dia você quiser me perdoar, eu vou ficar feliz. Se algum dia quiser conversar comigo novamente, eu vou receber isso com carinho.


Estou escrevendo porque você merecia um pedido de desculpas que eu não fui capaz de te dar naquele momento.


E porque eu precisava reconhecer, para mim mesmo, que eu errei.


Eu não sei se algum dia você vai conhecer uma versão diferente de mim.


Mas eu espero que, independentemente de você estar ou não na minha vida, eu consiga me tornar essa pessoa.


Uma pessoa que sabe ouvir.


Que sabe acolher.


Que sabe colocar limites sem machucar.


Que não foge da vulnerabilidade.


Que não transforma medo em arrogância.


E que, quando perceber que machucou alguém, tenha coragem suficiente para admitir.


Eu gostaria muito que as circunstâncias tivessem sido diferentes entre nós.


Mas, se essa for a única coisa que ficou dessa história, espero que pelo menos tenha servido para me ensinar algo que eu precisava aprender.


Obrigado por ter confiado em mim naquele momento, mesmo que eu não tenha sabido honrar essa confiança.


E me desculpa por ter feito você se sentir menos acolhida justamente quando estava tentando se mostrar para mim.


E, se algum dia nossos caminhos se encontrarem novamente, espero poder te encontrar sendo uma versão melhor de mim.

"Apoiar um escritor anônimo é como acender uma chama invisível: talvez o mundo não veja seu rosto, mas cada palavra ganha vida porque alguém acreditou. A verdadeira gratificação do autor não está na fama, mas no coração que se reconhece em sua escrita."


Roberto Ikeda autor

“O Presságio de Ainda Viver”

A vida é breve, e sabemos disso. Talvez seja justamente essa consciência do efêmero que torne tão urgente a vontade de viver. Não quero atravessar meus dias como quem apenas cumpre uma obrigação silenciosa com o tempo; quero habitá-los, senti-los, experimentá-los até onde minhas possibilidades me permitirem. Trago comigo expectativas, algumas necessárias, outras talvez impossíveis, mas todas nascidas dessa inquietação de quem ainda deseja descobrir o que existe depois da próxima curva.
Hoje trago à vida todas as minhas vontades. Não como exigência arrogante diante do destino, mas como afirmação daquilo que ainda pulsa dentro de mim. Que seja a minha vontade que prevaleça sobre o medo, sobre a hesitação, sobre as conveniências que tantas vezes nos ensinam a desistir antes mesmo de tentar. Durante muito tempo aprendemos a aceitar o inevitável; talvez seja chegada a hora de também aprender a desejar o improvável.
Há em mim pressentimentos que não sei explicar, intuições que aparecem silenciosamente e certos presságios que encontro pelo caminho. Talvez sejam apenas devaneios; talvez sejam o prenúncio de alguma transformação. Não importa. Já não preciso compreender todos os enigmas para continuar caminhando. Algumas respostas somente aparecem depois que temos coragem de viver as perguntas.
A existência é um paradoxo extraordinário: sabemos que somos passageiros e, ainda assim, construímos sonhos como se tivéssemos a eternidade. Amamos sabendo que podemos perder. Começamos sabendo que tudo um dia termina. Guardamos lembranças de momentos efêmeros e descobrimos, com perplexidade, que justamente aquilo que durou tão pouco pode permanecer conosco para sempre.
Por isso não quero desperdiçar meus dias tentando domesticar o inusitado. Quero deixar algum espaço para o acaso, para a surpresa, para aquilo que ainda não possui nome. Quero contemplar uma manhã sem precisar saber como terminará a noite. Quero permitir que a vida me surpreenda e, sobretudo, conservar dentro de mim a capacidade de surpreender a própria vida.
Não desejo uma existência sem melancolia, porque até ela possui sua beleza e sua verdade. Não quero apagar a nostalgia, pois algumas saudades são testemunhas de que verdadeiramente estivemos vivos. Quero apenas que nenhuma delas seja maior que minha vontade de continuar. O passado merece sua morada na memória, mas não lhe darei as chaves do meu futuro.
Há algo de indizível nessa vontade de viver. Talvez porque viver plenamente não possa ser explicado apenas com palavras. É necessário tocar o instante, reconhecer sua sutileza e compreender que cada manhã pode trazer consigo um prenúncio, mas nunca uma garantia. O amanhã continuará sendo um enigma e aceito isso.
Se a vida é breve, que minha presença nela seja intensa. Se o tempo é inevitável, que não encontre em mim apenas resignação. Que encontre curiosidade, desejo, coragem e vontade. Não quero pedir licença ao futuro para desejar aquilo que ainda posso viver.
Hoje, portanto, não faço promessas à eternidade. Faço uma promessa ao instante: enquanto houver caminho, caminharei; enquanto houver desejo, desejarei; enquanto houver alguma coisa capaz de despertar minha perplexidade diante do mundo, continuarei procurando.
E se existir algum presságio nesta manhã, que seja este: ainda há vida diante de mim.
E enquanto houver vida, que prevaleça a minha vontade de vivê-la.

Pensamentos despertam perguntas. Perguntas transformam a vida. E talvez, depois de tudo que você questionou, reste apenas uma coisa: perceber que a resposta sempre esteve mais perto de você do que você imaginava.