Evelyn Faheina

Encontrados 12 pensamentos de Evelyn Faheina

À espera


O tempo passa devagar
na longa espera de quem lança o impossível sobre o amanhã.
Já não se vê a vida acontecer,
e os pássaros persistem no vento, indiferentes.


De tanto esperar, o presente começa a rarear.
O instante desfaz-se em promessas.
E o futuro, tantas vezes sonhado,
ocupa o lugar daquilo que ainda respira.

Inserida por EvelynFaheina

Outro dia me perguntaram o que era o bem-viver.
E eu pensei que talvez fosse isso:
um instante em que a alma desaperta,
o momento em que o mundo já não tem tanta força
e o amanhã já não grita tão alto.

Alguns conflitos não surgem porque o outro seja, necessariamente, uma pessoa difícil. Eles surgem porque certas dores não conseguem ser carregadas sozinhas. Precisam de companhia. Procuram um corpo, uma voz, um rosto onde possam continuar vivendo.

Inserida por EvelynFaheina

Aquilo que não pôde ser elaborado reaparece de outro modo. Aquilo que não encontrou palavras procura relações. E as relações, sem que percebamos, tornam-se palco de histórias muito mais antigas do que seus personagens.

Inserida por EvelynFaheina

Algumas pessoas entram em nossas vidas não para representar quem são, mas para encenar aquilo que ainda não conseguimos compreender em nós mesmos.

Inserida por EvelynFaheina

Cartografia do retorno


O corpo reconhece
o que a razão demora a admitir.


Há cenas que apenas mudam de pele:
outro rosto, outro endereço, outro cheiro,
e, ainda assim,
preservam intactas a mesma arquitetura silenciosa.


Há pessoas que retornam vestidas com outros nomes:
novas feições, significações
e maneiras distintas de habitar o mundo,
mas algo nelas permanece preso à antiga fissura da memória.


Tudo parece diferente
e tudo obedece a mesma órbita invisível.


A boca resseca diante de despedidas já conhecidas
e as mãos retornam a abrir portas já abertas.
Mas chega um instante em que o pássaro reaprende o seu voo,
atravessado pelo vento, pela perda, pela memória..


Suas asas já não batem do mesmo jeito
e a repetição cede, aos poucos,
lugar à experiência
à implicação na direção do seu voo.


Então o corpo aprende a não se ajoelhar no mesmo lugar de sempre
e o medo desaprende o endereço da antiga casa.
O amor — já não mais confundido como espelho — abandona a velha rima
e a lembrança perde, lentamente, o comando secreto dos repetidos gestos.

Inserida por EvelynFaheina

Olho o mundo com lentes que não são minhas,
e chamo de meu o que ecoa do outro,
como quem tece, no fio imaginário,
uma pele compartilhada.

Enquanto miro no outro,
na reciprocidade alienada da identificação,
o real me atravessa — sem palavra, sem imagem, sem espelho,
escapando pelas frestas do sentido.

Inserida por EvelynFaheina

Escute meus silêncios!
No murmúrio dos pensamentos indizíveis.
Na cabeça vaga, vazia, cheia de ideias borbulhantes.
Nos não ditos sarcásticos, risos soltos, disfarçados.
Na experiência vivida, sentida na pele.
Na doença repentina, dores de prazer que se repetem.
Nas falas soltas, palavras jogadas ao vento.
No choro intercalado, intenso e frio.
Na fuga das relações, refúgio do medo, da raiva e do amor
Escute seus silêncios!

Escrita

Ontem, escrevi um poema. Um poema cheio de palavras insignificantes que transbordavam pelas linhas de minha memória.
No primeiro momento, entreguei-me à fantasia.
Depois, rememorei o que ainda não havia acontecido.
Senti a emoção e o arrepio dos deuses com as palavras que não eram só minhas.
Troquei o ponto final pela vírgula.
E, apesar de inacabado, o publiquei.

Gira mundo

Gira mundo, vai girando, gira, gira, sem fim.
No desejo infinito que vai crescendo dentro de mim.
Numa hora quero a ‘bola’, mas o que essa ‘bola’ é para mim?
Não pergunto, não questiono, só a quero junto a mim.

Quem não sabe o que quer, perde o caminho de si.
Deseja o que é do outro, numa roda-viva sem fim
Fica tonto, fica mudo, fica só, mas não pergunta:
O que isto é para mim?

Ambiguidade

Não confunda alhos com bugalhos!
Ontem eu encontrei você.
Estava linda,
pronta pra sorrir.
E lembrei da carta
que lhe escrevi.
Eram só palavras,
sem qualquer significado especial.
Mas você nem leu.
Nem sorriu pra mim.
Era só um sonho.