Eu pensei muito se deveria escrever... Willian Ikeda
Eu pensei muito se deveria escrever isso.
Talvez eu nem tenha o direito de esperar que você queira ouvir alguma coisa de mim depois da forma como agi, mas existe algo que eu gostaria de te dizer, independentemente de qualquer coisa que aconteça daqui para frente.
Eu sinto muito.
Sinto muito pela maneira como te tratei naquele momento em que você decidiu se abrir comigo. Você estava sendo vulnerável, confiando em mim para mostrar uma parte sua, e, em vez de te acolher, eu fui frio, grosseiro e arrogante.
Quando você precisava de alguém que simplesmente estivesse ali para te ouvir, eu respondi como se aquilo fosse um problema que você tivesse colocado nas minhas mãos para eu resolver. Hoje eu consigo perceber o quanto isso foi injusto com você.
Eu disse que aquilo era um problema que apenas você poderia resolver. Talvez exista alguma verdade nisso, porque ninguém pode viver a vida de outra pessoa ou resolver seus problemas por ela. Mas eu usei uma verdade como uma forma de me afastar de você naquele momento.
Eu confundi não ser responsável pelos seus problemas com não precisar ser responsável pela maneira como eu te tratava enquanto você falava deles.
E eu estava errado.
Você não estava necessariamente me pedindo uma solução. Talvez só estivesse procurando um pouco de compreensão, um lugar seguro para falar, alguém que dissesse: "Eu estou aqui. Pode falar."
E eu não fui essa pessoa.
O que aconteceu antes explica algumas das minhas reações, mas não torna justo aquilo que fiz com você. Você não era aquela pessoa. Você não merecia receber de mim o peso de uma história que não era sua.
E talvez essa seja uma das coisas mais importantes que eu aprendi com tudo isso.
Eu percebi que posso me importar profundamente com alguém sem carregar os problemas dessa pessoa. Posso ouvir sem tentar consertar. Posso acolher sem assumir responsabilidades que não são minhas. Posso estabelecer limites sem precisar ser frio.
E, principalmente, posso escolher ser gentil mesmo quando alguma coisa dentro de mim está com medo de se machucar novamente.
Eu queria ter entendido isso naquele momento. Queria ter respondido diferente. Queria ter olhado para você e percebido que, naquele instante, você não precisava de uma resposta perfeita.
Você precisava apenas ser ouvida.
E eu sinto muito por não ter percebido.
Também quero te dizer uma coisa sobre você.
Nós nos conhecemos pouco, e justamente por isso eu não quero fingir que conheço toda a sua história ou colocar sobre você sentimentos e expectativas que talvez não correspondam à realidade. Mas o pouco que conheci foi suficiente para perceber que havia algo muito especial em você.
A maneira como você se abriu comigo, a sua sensibilidade e a confiança que teve para mostrar uma parte vulnerável de si foram coisas que ficaram comigo.
Talvez seja por isso que tudo tenha me atingido tanto depois.
Eu fiquei pensando no que poderia ter acontecido se eu tivesse sido diferente naquele momento. Pensei em como seria continuar te conhecendo, descobrir suas pequenas manias, suas histórias, as coisas que te fazem rir, os seus sonhos, os seus medos.
Minha cabeça chegou até a imaginar futuros que nunca existiram.
Mas eu também percebi que não quero transformar uma possibilidade em uma certeza que nunca tivemos.
Você foi alguém que eu tive a oportunidade de conhecer, e talvez essa oportunidade tenha terminado ali.Talvez não, eu não sei.
E, pela primeira vez, acho que consigo aceitar que não cabe a mim decidir isso.
Se algum dia você quiser me perdoar, eu vou ficar feliz. Se algum dia quiser conversar comigo novamente, eu vou receber isso com carinho.
Estou escrevendo porque você merecia um pedido de desculpas que eu não fui capaz de te dar naquele momento.
E porque eu precisava reconhecer, para mim mesmo, que eu errei.
Eu não sei se algum dia você vai conhecer uma versão diferente de mim.
Mas eu espero que, independentemente de você estar ou não na minha vida, eu consiga me tornar essa pessoa.
Uma pessoa que sabe ouvir.
Que sabe acolher.
Que sabe colocar limites sem machucar.
Que não foge da vulnerabilidade.
Que não transforma medo em arrogância.
E que, quando perceber que machucou alguém, tenha coragem suficiente para admitir.
Eu gostaria muito que as circunstâncias tivessem sido diferentes entre nós.
Mas, se essa for a única coisa que ficou dessa história, espero que pelo menos tenha servido para me ensinar algo que eu precisava aprender.
Obrigado por ter confiado em mim naquele momento, mesmo que eu não tenha sabido honrar essa confiança.
E me desculpa por ter feito você se sentir menos acolhida justamente quando estava tentando se mostrar para mim.
E, se algum dia nossos caminhos se encontrarem novamente, espero poder te encontrar sendo uma versão melhor de mim.
