Talvez
olhos de jabuticaba
A gente nunca marcou de se encontrar.
Essa talvez seja a parte mais estranha da nossa história.
Porque toda vez que eu decido seguir em frente, a vida resolve colocar você no caminho de novo. Num bar qualquer. Na rua. Na festa que eu nem queria ir. Na fila de algum lugar. Sempre parece coincidência demais para ser coincidência e acaso demais para ser destino.
A gente se olha como quem já sabe exatamente o que vai acontecer.
Primeiro vem aquele sorriso tímido, quase educado. Depois uma conversa boba sobre a vida, sobre o trabalho, sobre o tempo que passou. Fingimos que somos duas pessoas que só têm assuntos em comum.
Mas nunca é só isso.
Existe um momento em que o resto do lugar começa a desaparecer. Eu paro de ouvir quem está falando do meu lado. Você também fica um pouco mais perto do que precisava. Ninguém comenta. Ninguém pergunta. Acontece.
E então vem o beijo.
Sempre o beijo.
Como se todos os meses que passamos longe um do outro fossem apagados em poucos segundos.
É engraçado como a gente sempre acredita que dessa vez vai ser diferente.
Você ri e diz que não faz sentido continuar nisso.
Eu concordo.
Você fala que essa foi a última vez.
Eu respondo que também acho.
A gente se despede convencido de que finalmente conseguiu.
E, por algum tempo, consegue mesmo.
Até a vida resolver brincar de novo.
Eu nunca entendi o que somos.
Não somos um casal.
Também nunca fomos apenas duas pessoas que ficaram algumas vezes.
A gente conhece versões um do outro que ninguém mais conheceu. Você sabe como eu fico quando estou ansioso. Eu sei quando seu sorriso é verdadeiro e quando ele só está tentando evitar uma conversa difícil.
Mesmo assim, nunca conseguimos morar na vida um do outro.
Só conseguimos fazer visitas.
Às vezes penso que nosso erro sempre foi acreditar que precisava existir um fim definitivo.
Como se um beijo pudesse encerrar tudo o que veio antes.
Como se fosse possível convencer o coração usando lógica.
“Essa foi a última vez.”
Quantas vezes a gente já disse isso?
Cinco?
Dez?
Vinte?
Eu perdi a conta.
O problema é que nunca foi sobre o beijo.
Era sobre aqueles cinco minutos antes dele.
Quando você me olhava do outro lado e eu já sabia que tinha perdido de novo.
Quando nós dois fingíamos conversar com outras pessoas enquanto esperávamos um dos dois criar coragem para atravessar a distância.
O beijo só confirmava uma decisão que já tinha sido tomada pelos nossos olhos muito antes.
Talvez um dia exista realmente uma última vez.
Talvez a gente se encontre de novo e finalmente consiga passar um pelo outro como dois desconhecidos.
Talvez um de nós esteja apaixonado por outra pessoa.
Talvez a vida, cansada de insistir, resolva nos deixar em paz.
Mas, se esse dia chegar, eu desconfio que nenhum de nós vai perceber.
Porque todas as outras últimas vezes também pareciam verdadeiras.
E, no fim, bastava um reencontro.
Um “quanto tempo”.
Um abraço que demorava um segundo além do normal.
E lá estávamos nós outra vez, prometendo que agora era sério.
Enquanto, no fundo, os dois já sabiam que a única promessa que nunca conseguimos cumprir foi justamente essa.
Talvez exista quem coleccione cartas. Eu colecciono silêncios que nunca tiveram coragem de pronunciar o meu nome
Quem cala talvez tenha a consciência limpa, tranquila e sofre a dor e o peso das acusações das quais é inocente
e não porquê consente.
"Talvez você mesmo não seja luminoso, mas você é um condutor da luz."
Livro: Sherlock Holmes, Volume 2
Autor: Arthur Conan Doyle
Ref.: Página 232
Quando eu esqueço de me escolher
Hoje, a melancolia chegou sem pedir licença.
Talvez porque, mais uma vez, eu tenha percebido o quanto consigo dar importância a pessoas que, tantas vezes, só me procuram quando precisam de um lugar para despejar os próprios vazios. E o que mais dói não é não saber. É saber de tudo e, ainda assim, abrir a porta.
Se fosse qualquer outra pessoa, eu já teria ido embora há muito tempo. Eu sei partir. Sei fechar ciclos. Sei me proteger.
Mas com ela, alguma coisa em mim desaprende.
Não sei explicar o que existe entre nós. Só sei que, quando ela se aproxima, minhas defesas silenciam. Eu fico vulnerável, esqueço das cicatrizes e me entrego como quem ainda acredita que, desta vez, talvez seja diferente.
E então tudo se repete.
Eu perdoo o que me feriu, abraço o que me faltou, aceito migalhas como se fossem banquetes e chamo de esperança aquilo que tantas vezes já me provou ser ausência.
Talvez minha maior frustração nem seja o que ela faz comigo.
Talvez seja perceber o quanto eu me abandono quando se trata dela.
Porque eu sei que mereço mais. Sei que deveria escolher a mim mesma. Sei exatamente onde esse caminho termina.
Ainda assim, existe uma parte de mim que continua voltando.
Como quem conhece o abismo pelo nome, sabe a profundidade da queda, lembra de todas as vezes em que se machucou...
e, mesmo assim, caminha até a beira outra vez.
Talvez o amor mais difícil de aprender seja aquele que começa quando finalmente decidimos não nos perder de nós mesmos para permanecer na vida de alguém.
Talvez não estejamos perdidos.
Talvez apenas tenhamos passado tanto tempo procurando uma porta que esquecemos de perguntar se algum dia existiu uma saída.
Escrevo porque, depois que eu partir, talvez estas palavras sejam uma lembrança de que passei por esta terra e deixei um pouco de mim.
Primavera. Dias de vento, de chuva e de mudanças.
Talvez seja tempo de abrir as gavetas da alma, reorganizar o que ficou guardado e revisitar aquilo que, por algum motivo, deixamos para depois.
Dias longos de reflexão, de escuta e de silêncio.
Um tempo de paz, não como ausência de conflitos, mas como possibilidade de ouvir o que existe dentro de nós.
Na psicanálise, escutar também é uma forma de cuidar: dar espaço às palavras, aos sentimentos e até aos silêncios que tantas vezes tentamos esconder.
Que esta primavera nos inspire a olhar para dentro com mais delicadeza, compreender nossas histórias e deixar ir aquilo que já não precisa permanecer.
Cleide Regina Scarmelotto
Deixei algumas palavras escritas nas redes sociais, talvez porque um dia eu não possa mais escrever. O tempo passa, as pessoas seguem seus caminhos e, talvez, tudo isso um dia seja esquecido. Mas enquanto eu estiver aqui, deixo um pouco de mim em cada palavra.
Talvez um assassino peque menos que você, pois ele peca nas vezes que ele mata, e você, quantas mentiras tem contado durante seu dia?
Eu amo uma mulher que talvez nunca saiba a dimensão do que sinto. E, ainda assim, não quero prender o coração dela ao meu. Prefiro amá-la em silêncio, desejando que a vida lhe sorria, mesmo que esse sorriso não seja por minha causa.
— Patrick Wallace
Meu inferno não tinha fogo nem enxofre. Tinha rostos, nomes e pessoas que eu amava. Talvez seja isso que torne algumas batalhas tão difíceis: não é o lugar, mas quem deixamos e quem aprendemos a amar nele.
SEQUINDO EM FRENTE
O mais difícil não foi te perder. Porque talvez eu nunca tenha tido você de verdade. Mas o mais difícil é saber que, depois de tudo, uma parte de mim ainda espera por você. E olha que você nunca me prometeu nada. Eu digo pra mim mesma que um dia eu vou conseguir te esquecer E essa é a maior mentira da minha vida Eu ainda penso em você mais do que deveria Acho que é porque desde quando você foi embora Desde quando paramos de... Paramos de se ver, paramos de conversar, existe um vazio. Um vazio dentro de mim. Que nada... Que nada consegue preencher. Eu tento. E eu sigo tentando Seguir em frente Conhecer pessoas, essas coisas, sabe? Ocupar a mente, fingir E dizer pra mim mesma que está tudo bem Mas quando eu percebo Eu já estou Pensando em você E sabe o que dói em mim? Eu sinto que eu virei apenas uma lembrança Pra você Uma lembrança E isso que dói em mim? Eu sinto que eu virei apenas uma lembrança Pra você Uma lembrança E isso me dói Isso me dói porque pra mim nada mudou E eu sei que pra você mudou Eu imagino que pra você tenha mudado Porque você é racional demais E você gosta de resolver problemas E pra você eu sou um problema É por isso que E você gosta de resolver problemas e pra você eu sou um problema. É por isso que pra mim te perder não foi e não é o mais difícil. Difícil realmente é ter a certeza de que eu sempre vou querer você. De que você sempre estará dentro do meu coração, que eu vivi uma história incrível que passou, que eu virei uma lembrança para vocês só. É difícil. Esse é o mais difícil.
Não sei exatamente quando tudo terminou. Talvez as coisas importantes nunca terminem de uma vez. Apenas vão deixando de poder existir. Durante muito tempo pensei que amar fosse permanecer. Hoje suspeito que, em certos casos, permanecer é apenas outra maneira de consentir com a própria destruição.
Eu não queria partir. Se ainda houvesse alguma forma honesta de continuar ao seu lado, eu teria aceitado qualquer sofrimento. O que não pude aceitar foi outra coisa. Fui embora porque permanecer significaria obrigar o meu amor a conviver com a própria humilhação.
Ela levou quase tudo, e era inevitável que levasse. Quem ama não entrega apenas o que possui. Entrega também aquilo que imaginava ser.
Ainda assim, uma coisa permaneceu comigo.
O amor.
Não o amor que tinha por ela. Esse continuou pertencendo-lhe por muito tempo. Talvez pertença ainda. Refiro-me a outra coisa. O que preservei foi algo mais difícil de perder e mais difícil ainda de salvar. A capacidade de amar sem renunciar à minha dignidade. Porque o desrespeito raramente mata o amor. Antes, tenta convencê-lo de que a humilhação é o preço da permanência.
Recusei esse preço.
Desde então, penso que algumas perdas não nos empobrecem. Apenas nos impedem de nos tornarmos estranhos àquilo que existe de mais verdadeiro em nós. Perder quem se ama dilacera o coração. Perder a si mesmo para conservá-la corrói a consciência. E desta última ferida, quando não se morre, quase nunca se volta sendo o mesmo.
