Escrever uma carta a uma Criança

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Lembrando da minha infância


Quando eu era criança
Nós morava no interior
No sitio que nós morava
Meu pai era lavrador
Ele sempre me ensinava
Que o homem pra ter valor
Além de andar direito
Tem que ser trabalhador


Alembro e tenho saudades
Do banho de ribeirão
Do munjolinho batendo
Lá no fundo do grotão
Minha mãezinha cantando
Socando arroz no pilão
De vez em quando fazia
Uma formada de pão


Os passarinhos cantando
Quando vem rompendo o dia
Orquestra da natureza
Que faz sua sinfonia
No momento que alembro
Desta hora de alegria
Dá uma saudade danada
Até meu corpo arrepia


Hoje em meu coração
Só tenho tristeza e ais
Lembrando da minha infância
Que os tempos não trazem mais
Tenho que ser realista
Nas considerações finais
Quem viveu neste paraíso
Pode descansar em Paz


Francisco Garbosi

Minha ilusão de Junho.


A criança insegura beijou
Soltou muito ar
não brincou de tocar
Não sabia o que fazia
E nem os seus olhos fechou.


Foi em Junho, eu me lembro,
No guarda-roupa de sua casa.
Minha mão parou em teu ombro
E na tua boca me senti em casa.


Eu gostei da sensação
Chorei de emoção
Jurei que contigo teria um casamento
Mas agora lembro de ti com dor
E ressentimento.


Porém te amo, meu varão
Mas te amar foi ilusão.
Ao mundo com dor testemunho
Tu foste Minha ilusão de Junho.

⁠Jardim


Doce criança chorosa,
Doce e antiga parte de mim,
antigo afeto à memória,
de quando brincávamos no jardim.


Não existia motivo
e nem hora,
olhar nos olhos
não era difícil para mim.
Se envergonharia ao me ver agora,
me afogando em rótulos
e desânimo sem fim.
Minha mente,
procurou conforto outrora
e me lembrou de quando
brincávamos no jardim.

Quando criança, pensei ser piada. Ou mais uma forma de prender a atenção das pessoas, ficção. Porém, hoje posso ver, sem sequer procurar, pessoas plugadas a tomadas, esperando suas vidas carregar.
Pensei que teria que viver muito mais pra presenciar, pessoas sendo trocadas por máquinas, sinonimadas a contatos na lista que contabiliza amizades, mas, aparentemente, estava errado. E creio ainda que, pela forma como segue, ninguém de fato percebeu estar assistindo o passar da vida pela tela do telefone.

O que existe de melhor do que ser criança?

A inocência, o riso fácil, a leveza de viver sem os medos que o mundo insiste em ensinar. Ser criança é o primeiro passo rumo à liberdade.

É descobrir o mundo com curiosidade, transformar o simples em mágico e enxergar beleza até nas pequenas coisas. É ser feliz com o que já nasce dentro da gente.

Quem dera pudéssemos guardar um pedacinho dessa fase pra sempre, pra lembrar que a vida pode ser leve, colorida e cheia de encantos, mesmo depois que a gente cresce

A Menina e o Cachorro


Uma criança brinca com um cachorro
no meio da praça.
Na Praça do Patriarca,
foi lá que eu vi.
Entre cinco e seis anos de idade,
tinha a criança.
Igualmente jovem era o animal.


A garota abraça, beija,
se desmancha em carinhos...
O cachorro retribui lambendo animado
o rosto da menina.
Os dois caem,
rolam no chão.
A menina ora por cima do cão,
ora por baixo.


Alguns pedestres param,
observam, riem, tiram fotos,
maravilhados com a beleza da cena.
Outros, apressados,
submersos em seus problemas,
incapazes de enxergar o mundo à sua volta,
passam sem nada perceber.


Uma mulher se aproxima,
afaga a cabeça do cachorro.
A menina se levanta,
fica de pé, imóvel, séria.
Em sua seriedade,
o esboço de um sorriso enigmático,
quase imperceptível,
me fez lembrar Mona Lisa.


Com o olhar fixo na mulher
acariciando o pequeno animal,
a menina parecia esperar sua vez
de também receber carinho.
A mulher, no entanto, se levanta,
faz um último carinho no cão, arruma a blusa,
ignora a criança e vai embora,
diluindo o sorriso de Mona Lisa da menina,
que a acompanha com o olhar desapontado.


E eu, que a tudo assistia, pensei:
— Infelizmente é assim que nós estamos agora!


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Nascida em meio à pandemia, em 2020, esta crônica em versos descreve uma cena real: uma garotinha em situação de rua e seu cachorro, na Praça do Patriarca, em São Paulo.

De pés no chão a professor




Fui criança de pés descalços,

sonhando com horizontes distantes.

Entre cadernos simples e risadas,

aprendi que o saber abre caminhos.




A vida me moldou em silêncio,

com desafios, quedas e recomeços.

E em cada passo, em cada lição,

crescia também minha paixão.




Hoje, ao entrar em sala de aula,

carrego comigo aquela criança.

Sou professor — fruto da esperança,

carregando no peito ainda o sonho de criança.




Lembro-me da primeira escola, e também da primeira professora,

Era um mundo novo e imenso,

mas cabia inteiro na palma da mão,

entre letras trêmulas e números tímidos,

nascia o sonho, brotava a paixão.




Mas, como nem tudo são flores

Veja bem a situação,

Me entrou na mente

Que ali não era o meu lugar,

E a escola naquele ano deixei de frequentar.




Mas como o destino estava traçado

Para a escola voltei,

carregado de histórias, sonhos e esperanças

de quem passou a acreditar na educação

É sentir que cada lição do passado

me preparou para estar aqui, presente.




Não esqueço de uma frase que minha mãe sempre falava “ quero ver um filho meu formado”

era um sonho costurado com amor,

era a esperança de dias melhores.

Para aquele menino de pés no chão

Não era só um diploma,

Mas a oportunidade de transformar a vida com dignidade.




Com isso me fez perceber que a vitória não era só minha e sim dela também.

Hoje me vejo um homem realizado,

Bem vestido e bem calçado,

Mas jamais esquecerei do meu passado

De um menino de pés no chão,

De um sonho de uma mãe profetizado,

Do barro nasceram meus passos,

do estudo, a esperança cresceu.

E hoje, com orgulho e amor,

o menino tornou-se professor.

Maurilio de Jesus.

Meu perdão

Eu me perdoo porque não tive quando criança a estrutura necessária.
Eu me perdoo porque culpei por muito tempo pessoas que achava ser necessário quando na verdade não eram.
Eu me perdoo porque por um tempo não conseguia ver a beleza da vida nos detalhes.
Eu me perdoo porque me isolei achando que seria o melhor.
Eu me perdoo porque me vesti com uma capa de fúria achando que era a solução.
Eu me perdoo porque amei pessoas mas do que a mim mesma.
Eu me perdoo porque falhei com a minha essência.

Minha oração hoje vai para todas as criança que não possuem o privilégio de ser criança...
Àquelas que tem no olhar o cansaço da lida, ou que tão pequenas já dão a luz a outras crianças...
A quem não tem voz e morre enterrada viva por conta da tradição, e por aquelas que acamadas num leito de hospital, têm seu mundinho reduzido a um quarto.
Por aquelas que são privados da acessibilidade e compõem os grupos negligenciados por falta de conhecimento ou descaso.
Oro, desejando que mais leis protejam estas e mais vozes possam engrossar este coro em amor, no engajamento e abrigo. Pois no final das contas, amor vale mais que qualquer brinquedo.
Oro também por adultos que abraçaram as mais diversas causas em favor desses miúdos. Por Abigail Aquino

“Quando eu era criança, ouvia sempre um ditado popular: ‘Aquilo que não mata fortalece ou engorda.’ 😅
Com o tempo, percebi que a vida fala por golpes suaves ou tempestades.
Às vezes, acreditamos estar no fim… mas, silenciosamente, cada dor nos molda, cada queda nos refaz, e cada dificuldade nos transforma em alguém mais forte do que imaginávamos.”

TULIPA BRANCA
O bonito envelhece,o ouro desgasta,o tempo passa e a criança amadurece, ações viram conduta e meu amor por ti nunca muda
Por que fui á ti sol em dias de chuva,linha reta em meio tanta curva, fui uma certeza subestimada , e a mesma te mostrou o quanto nunca foi amada
Pela intensidade te mostrei, pelos olhos te passei e pelas palavras confirmei que nunca foi amada da forma que só eu te amei
És minha tulipa e deve ser protegida, de todo mal que lá fora abita,chove mentiras de grazino e eu sei que já se machucou com isso, mas tudo acabou,porque à alguns meses o novo começou
Fiz especialmente pra ti, sabendo que sou exagerado e apegado e que talvez agora tu ouvindo não tenha gostado, foi um presente não escrito mas foi lido, e não confunda com uma chata história , porque eu quero que guarde na memória cada verso que foi dito
Antes de terminar, quero só avisar,que meu amor sim por ti vai mudar,ele vai aumentar conforme o tempo passar
Agora por nós vou orar, depois tentar descansar pensando no dia em que vou te recitar. (DINDON)

Pensamento de Criança

Quem ainda não notou,
que o Site é de pensador.
E não de pensar, no que ja pensaram
Os Antigos e antiquados, engraçados pensadores.
Pobres são dos que se foram,
se foram só de pensar.
Viverão por pensamentos,
e morreram de penar.
Pensamentos, pensamentos.
Me confundem os pensamentos,
pois uns dizem que morrer é bom,
uns dizem que não se deve pensar em morrer.
Eu digo que devemos apenas pensar.
Penso tanto, e nada penso..
nao chego a nenhum lugar...
os pesos dos pensamentos,
a cuca não quer carregar.
- cala-boca cuca fresca, para de raciocinar.
Deixa em Paz meus pensamentos,
pois não quero mais pensar no que pensar.

Em desespero, a mãe decidiu que a criança precisava de um “pissicólogo”. É. De um pissicólogo, para deixar bem claro. Como fazem os adultos que sempre contratam “adevogados” ou trocam “peneus”. Sua justificativa esdrúxula era simplesmente a mudança contínua de comportamento da menina, ora bem comportada, ora birrenta e voluntariosa, e algumas vezes até desaforada.
Muitas mães não suportam constatar que os filhos crescem, tornam-se crianças ou adolescentes com temperamentos próprios, vontades pessoais, o que significa não serem mais tão cordatos ou obedientes. Uma variação normal, se não houver extremos como aqueles que transformam nossos filhos em pequenos tiranos ou até minipisicopatas. Afinal, a criança um dia se descobre pessoa e não aceita continuar dominada mesmo em seus pensamentos, os sentimentos e a personalidade.
Na verdade, a mãe da pequena jamais levou a filha para fazer o tratamento. As coisas foram se amoldando aos trancos e contra sua vontade. Não que ela passasse a julgar a ideia inicial desnecessária, mas porque a imagem do tratamento “pissicológico” dava preguiça. Demandaria mais trabalho que o já então vício de arrancar os cabelos, dar gritos histéricos, solavancos na menina. Um desempenho que mais tarde acabou por fazer com que a parentalha a convencesse de que ela, sim, a mãe, teria de procurar não um psicólogo, mas um “pissiquiatra”, pois o neurologista falhara.
Verdade, ainda, que aquela mãe tinha, entre outras coisas, a profunda frustração de nunca ter se livrado da infância reprimida, sem voz nem vez, mesmo nas questões aparentemente mais simples. Questões como as que envolviam a disposição de seus brinquedos (se é que os tinha), o gosto pelas roupas mais adequadas ao seu critério infantil e o desejo de brincadeiras que sujassem ou molhassem as roupas.
Preocupante mesmo seria ter um filho que jamais questionasse, nunca fizesse uma birra nem dissesse um desaforo do tamanho de seus poucos anos. Comportamento invariável, sempre cordato e maduro não combina com criança. Aliás, o adulto precoce de hoje pode ser a criança infeliz e até perigosa de amanhã. Tal criança, sim, precisa e continuará precisando de acompanhamento profissional.

EDUCAR É VIVER

Demétrio Sena, Magé - RJ.

A criança confere o meu discurso
no percurso das minhas atitudes;
na firmeza ou na fuga dos meus olhos;
na transparência do que a fala diz...
O menino defere ou indefere
meus conselhos, as recomendações,
quando a própria postura me autentica
ou as contradições me desmascaram...
Valem mais as leituras das ações;
das lições de vivência consistente
no contexto real de minha vida...
Sou estrada pros passos do meu filho;
sou espelho da fé que o meu aluno
tem ou não neste mundo; nas pessoas...

A beleza de aprender


Aprender é abrir uma janela
Ver com o olhar de uma criança
Cada livro ou palavra descoberta
Vai dando sabedoria e confiança
A vida ganha novo sentido
Gratidão pelo caminho percorrido
É uma luz que acende a esperança.


Na trilha do saber se cresce
Faz descobertas que nem imaginava
A mente infla, vai se expandindo
A mente ganha cor que nem a vista criava
O conhecimento é tesouro profundo
É a chave que abre portas do mundo
Que só a sua imaginação criava.


Ser estudante é plantar ideias
Para colher uma vasta semeadura
É construir, não só idealizar
Recebendo o ganho com fartura
Transformar querer em dedicação
Manter uma ideal persuasão
Reverter obstáculos com ternura.


Há quem nunca cansa de aprender
É digno de aplauso essa grandeza
Acreditando que o futuro é agora
Tem o saber como real e certeza
Aprofundando seu conhecimento
Aproveita cada oportuno momento
Onde reside no aprender a beleza.


Parabéns a quem jamais se cansa
E busca o saber aprofundar
Tem minha admiração e respeito
Porque também vivo a estudar
Que tenhamos mais força a cada dia
Para aprender sempre com sabedoria
E o mundo esteja sempre a melhorar.

Como é estranho e belo o poder da imagem e das experiências.
A criança que corria e sorria não sabia.
Crescia, e sem perceber, as raízes que a sustentavam
se desfaziam em silêncio,
na mesma medida em que o mundo se abria diante dela.

A criança agora é jovem.
Reconhece-se no espelho sem se reconhecer.
Não é mais a infância.
O familiar, de tanto se conhecer, já é outro.
O conhecido também desconhece.

O mundo, ele próprio, é uma imagem.
Flutua, muda de forma, de cor, de sentido.
E ao mesmo tempo é pequeno,
e tão imenso quanto os astros.
Um enigma:
quem o conhece, o perde.
Quem o desconhece, o encontra.

A criança que sentia demais




Ela aprendeu cedo
que o chão podia desaparecer.


Não por terremotos,
mas por silêncios que mudavam de humor,
por paredes que escutavam demais,
por relógios sempre prontos para correr
até um lugar branco, de luz dura.


Cresceu com antenas no peito.
Sentia antes de entender.
Pressentia antes de querer.


Enquanto outras brincavam de futuro,
ela brincava de equilíbrio:
não ocupar espaço demais,
não desejar alto,
não guardar segredos em gavetas frágeis.


Aprendeu a existir em modo de espera.
Como quem segura o fôlego
para não acordar o perigo.


Havia beleza, ainda assim.
Sempre há.
Ela colecionava migalhas de mundo:
um pedaço de céu visto da janela,
o cheiro de algo bom que não durava,
um riso emprestado no meio da tarde.


Com o tempo,
cresceu por fora
antes de crescer por dentro.


Levou para a vida
a inocência dos que nunca foram protegidos:
acreditou demais,
deu nomes às coisas antes de testá-las,
ofereceu o coração
como quem oferece água
num deserto que finge ser oásis.


Roubaram-lhe ideias
como quem colhe frutos de uma árvore
sem perguntar quem a plantou.
Confundiram sua entrega com fraqueza,
sua escuta com permissão.


E ela, ainda assim,
continuou aberta.


Porque quem aprende a sobreviver cedo
demora a aprender a fechar portas.


Mas há um ponto,
sempre há,
em que a criança cansada
olha para o adulto que se tornou
e diz, em silêncio:
agora é comigo.


Não há ruptura visível.
Não há vingança.
Há algo mais raro:
a construção lenta de um centro.


Ela começa a devolver pesos
que nunca foram seus.
A deixar no chão
o que carregou por amor mal compreendido.


Descobre que pode escolher
onde pousar o corpo,
a quem confiar a própria história,
o que merece permanecer intacto.


E então,
sem anúncio,
sem aplauso,
algo muda de lugar.


A vigilância vira atenção a si.
O medo aprende a descansar.


A criança não desaparece.
Ela finalmente encontra abrigo
no adulto que sobreviveu
sem perder a capacidade de sentir.


E isso,
isso é um tipo silencioso de vitória.

Quando criança, vivia buscando maneiras de brincar, jogar, me divertir. Não importava com quem estava, o importante era buscar o novo.


Quando adolescente, vivia buscando maneiras de me provar, maneiras novas de sentir as coisas. Era uma constante busca pelo novo e feliz.
Mas nessa época me dei conta das primeiras dores da minha infância, e as buscas começaram a ser para escapar disso.


Quando adulto. Busco interminavelmente maneiras de fugir do passado, busco efêmeras meios de fugir do presente. Mãos trêmulas, coração disparado, mente tormentada... Cada vez mais tenho medo do futuro, não por medo da morte, e sim medo de continuar sendo quem sou.

A roda está aberta




Quando eu era criança,
o mundo não explicava nada,
apenas acontecia.


As árvores falavam baixo,
os rios riam alto,
e o céu trocava de roupa
sem pedir opinião.


Eu acreditava.
E isso bastava.


Os antigos sabiam:
em algumas aldeias do Sahel,
as crianças nascem velhas
e vão ficando leves com o tempo.
Entre os hopis,
elas chegam trazendo histórias
que os adultos esqueceram de escutar.


Por isso brincam.
Para lembrar.


Quando virei jovem,
o sangue quis correr mais rápido que o destino.
Aprendi com Inanna
que descer aos infernos
também é iniciação.
Com Oxum,
que beleza é força em estado líquido.
Com os gregos bêbados de Dioniso,
que o corpo pensa
quando dança.


Errei muito.
E cada erro
abriu uma janela.


Os astrônomos da Babilônia diziam
que o céu é um livro em movimento.
Os povos do Pacífico navegavam
lendo ondas invisíveis.
Eu também aprendi a me orientar
pelo que não se vê.


Hoje caminho como anciã
mesmo rindo como menina.
Carrego o tempo dobrado nos bolsos.
Sei que o mundo nasce, quebra,
renasce torto
e continua.


As avós da floresta dizem
que a morte é só uma mudança de canto.
Os xamãs da neve
sabem que o silêncio também ensina.
Os griôs guardam universos inteiros
numa pausa bem colocada.


Dentro de mim,
todas as idades conversam.


A criança puxa minha mão
para correr atrás de borboletas.
A jovem acende fogueiras
onde disseram que era perigoso.
A velha sopra brasas
e chama isso de bênção.


E eu canto.
Mesmo sem afinação.
Eu danço.
Mesmo sem plateia.
Eu celebro.
Porque estar viva
é o maior segredo já contado.


Se você chegou até aqui,
não é por acaso.
Os antigos dizem
que quando um texto toca o peito,
é porque ele te reconheceu primeiro.


Então entra.
A roda está aberta.
Tem riso, tem tambor,
tem vida passando agora.

Se soubesse criança como passa o tempo.
Voltavas a brincar.
Continuava sorrir.
Aproveitava o viver.
A vida adulta é pura lamúria.
Tudo tem cheiro de saudade.
Queria ter ainda a confiança do abandono.
Quando me esquecia nas mãos de Deus.
Hoje que cresci e assumi o controle, não vivo.
Tudo é se der,
tudo é quem sabe.