Coleção pessoal de RosangelaCalza
Viva o agora! Viva-o já!
Amanhã!? Bem, amanhã...
posso ser displicente
ser diferente
ou talvez eu me reinvente...
mudando pra sempre...
afinal, já falei... sou consistente
e vivo o presente...
e cada dia é diferente... concorda?
Viva o agora! Viva-o já,
antes que o instante se dissolva
na esquina invisível do tempo,
antes que o sonho se esconda
sob a poeira dos dias.
Amanhã? Bem, amanhã
posso ser displicente,
posso ser diferente,
ou talvez me reinvente,
mudando para sempre,
como quem troca de pele
sem deixar de ser semente.
Afinal, já falei: sou consistente,
feito rio que segue adiante,
mas guarda nas margens
a memória de cada nascente.
Vivo o presente —
este milagre breve,
esta chama que arde
entre o que fui e o que serei.
E quando penso ter partido,
quando o passado parece distante
e o futuro se abre, gigante,
há uma voz, terna e persistente,
que atravessa o silêncio,
me alcança de repente,
e ainda insiste
em me chamar pelo nome.
Então eu paro.
Respiro.
Escuto.
Porque talvez viver seja isso:
não fugir do tempo,
mas abraçá-lo no instante exato
em que ele passa —
e, por um segundo,
também me abraça.
Estou de partida,
cansei desta vida,
procuro, em silêncio,
na penumbra dos dias a porta escondida.
Levo nos olhos
o sal das marés,
um céu despedaçado
e muitos antigos porquês.
Fui ave ferida,
sem ninho, sem canto,
voando entre abismos,
bebendo o fel do pranto.
Mas há, sob as cinzas,
uma brasa acesa;
um sopro pequeno
de pura e doce surpresa.
Talvez a saída
não seja partir,
mas abrir as asas
e aprender a voar por caminhos opacos
me equilibrar entre os que realmente estão a existir.
Talvez o caminho a se fazer... se refazer...
comece no chão,
quando a própria queda
se torna impulso e mão.
Se a noite me cerca com seu véu profundo,
ainda há estrelas espiando o mundo.
E, mesmo cansada,
minha alma se atreve:
há vida escondida neste instante tão breve.
Não parto do mundo,
parto do que me dói;
deixo para trás um medo que me estrangula e me corrói.
Recolho meus cacos,
reaprendo a voar:
sou ave ferida,
mas posso pousar...
e, assim que curada, recomeçar.
Amanhã, talvez,
com o peito aberto,
descubra na estrada
um recomeço perto...
faça eu um voo certo.
Estou ficando velha...
Por que é tão complicado para a mulher dobrar a curva dos anos? É impressão minha que para os homens é diferente? Cabelo branco é charme... estar com mulheres mais jovens é demonstrar poder de rejuvenescimento...
Para nós mulheres... cabelo branco é sinal de desleixo... estar com homens mais jovens? É enfrentar olhares estranhos... é se arriscar a ouvir que se está sustentando um garotão...
O que ouço muuuuito agora que estou ficando velha:
durma muito bem...
cuide de sua alimentação...
exercite seu cérebro...
pratique atividades físicas, mas não precisa ser de forma intensa ou exaustiva...
quando acordar seja criativa: leia, faça palavras-cruzadas, socialize... - não fique parada esperando a morte chegar...
tenha um propósito...
e eu só ouço e penso: mas a maioria desses conselhos não servem pra quem não está ficando velho também?
Nos caminhos da vida
Nos caminhos da vida...
eu sigo sem nenhuma despedida,
minha mochila é levinha, levinha,
não me pre-ocupo,
não tenho problemas,
do medo, arranquei as algemas.
Pelo mundo afora,
sem preocupação,
estou sempre no aqui e agora
pra bem viver é essa a solução...
ou não...
Talvez, vou pensar, quem sabe, pode ser...
não fazem parte do meu dia a dia
sim ou não - eis a solução:
sou sempre adepta ao 'sorria, sorria'.
Sou pura consistência, inocência...
paciência...
ou não.
Não tenho tempo pra esperar,
o mundo sempre a rodar,
o vento a mudar
e eu vou me calar?
Comigo... é tudo agora.
Pra depois? Já fui embora.
Então: sim ou não...
não demore pra decidir,
neste momento já estou pronta pra partir...
minha vida seguir.
Quando você sorri
Pode sorrir, se quiser,
pois esse sorriso encantador
é uma luz magnífica
desabrochando no rosto
e aquecendo o mundo ao redor.
Não permita que a tristeza
encontre abrigo em seu peito
quando seus lábios se abrem
e seus olhos revelam
a alegria pura
do verdadeiro amor.
Não se preocupe com mais nada:
a tempestade já passou.
Levou consigo as sombras,
os medos e as dores antigas,
deixando no caminho
um céu lavado e cravado de esperança.
Agora, há um novo dia a cada dia,
esperando por seus passos...
há um horizonte tranquilo
onde a vida recomeça
com cores mais suaves
e sonhos renovados, abençoados.
Sorria, mesmo devagar, mesmo de leve...
como quem descobre
ainda existir beleza
nas pequenas coisas:
no abraço, na presença,
na fé que insiste em eternamente florescer.
Porque seu sorriso não é apenas alegria:
é promessa, cura e abrigo,
é a prova de que, depois da noite, depois dos dias de escuridão,
o amor sempre encontra
uma janela aberta
para voltar a iluminar seu coração.
Do que somos feitos?
Somos feitos de instantes que se dissolvem,
no ar... na água... na terra.
Chegadas: presenças que já começam a partir,
no instante exato que chegam nasce o momento de embora ir...
Vamos deixando pegadas frágeis no pó do agora...
Vem o vento e suavemente as apaga, e sem pedir licença...
Mas todos sabemos: ficar nunca foi promessa...
A promessa? Todo o que chega tem marcada a hora de ir embora.
Penso silenciosamente
Penso em silêncio e toco levemente o invisível...
Seguro entre meus dedos a água fugidia da existência...
Sinto-a escorrendo pelos caminhos dos dias,
sua natureza é a de não parar,
segue como tudo aquilo que insiste em passar.
O tempo sussurra suavemente sua passagem.
Move-se com passos silenciosos...
Uma rotina a disfarçar um hábito cotidiano eternamente repetido,
um suave vento que mal se deixa ser ouvido.
Dúvidas
É claro que tenho dúvidas...
Sorrisos fingidos,
beijos escondidos...
olhares traiçoeiros...
foi o que era pra ter sido...
foi pela metade...
foi tudo o que deveria ter sido?
Anjo caído.
Se eu gosto de incertezas?
Pode crer... tenha certeza.
Não estou tão certa
se há alguém que sempre acerta.
Nuvenzinha a turvar meu pensamento
por um momento
de dúvidas me encheu:
era você pra ser só meu?
Enfim, pelo o que me diz respeito,
sou feita de dúvidas...
como saber o que é torto, o que é direito?
Diante da vida
O que é tido como certo, duvido
E não me engano a mim mesma, não...
vou montada na minha desconfiança...
E mesmo que eu me distraia e caia
Sou cobaia de mim mesma...
E, por via das dúvidas, nunca fujo da raia.
Peito cheio de palavras
Como uma respiração que não se completa,
fico por cá suspenso entre o ontem e o agora...
com meu peito cheio de palavras
que nunca encontram a coragem de nascer.
O mais profundo dos sentimentos
não morre por falta de amor,
morre por falta de coragem.
E o meu…
ainda vive, silenciosamente agoniado,
feito brasa oculta sob as cinzas,
esperando um passado
que já não volta...
Um passado cada dia mais distanciado de nós.
Às vezes, escuto seus passos
nas salas vazias da memória,
e o coração, ingênuo,
abre a porta para ninguém.
Há ausências que não partem:
apenas mudam de lugar
e passam a morar dentro da gente.
Eu quis dizer “fica”,
mas minha voz se perdeu
na distância entre o desejo e o medo.
Agora, carrego seu nome
como quem carrega uma prece
sem saber se ainda há céu
para recebê-la.
E sigo – incompleto,
respirando devagar,
para não acordar a esperança
que adormeceu em seus braços,
mas nunca aprendeu a morrer.
Eu escrevi silêncios inexprimíveis...
eu gritei, te sacudi, tua cabeça bati...
tudo isso só por amor a ti.
Tu te fizeste silêncio
e não me ouviste,
minha dor não sentiste
e partiste...
me partiste.
Onde andas tu
hoje em dia?
O silêncio ainda é tua companhia?
Os gritos ecoam
desde aquele dia...
Se tu nunca tivesses sido
eu ainda saberia o que é alegria?
Se tu nunca tivesses sido...
Eu, certamente, estaria agora por cá sabendo da vida qual o sentido?
Você partiu...
Você partiu...
e me partiu com os olhos,
e eu fiquei com o que eles deixaram:
um brilho perdido nas ocas paredes da vida,
uma saudade dormindo no sofá,
um vazio que tem o seu nome
e um silêncio que insiste em me lembrar
de tudo o que eu não deixei de falar.
Desde então, converso com a noite,
pergunto às estrelas se você também escuta
o eco dos meus passos
procurando seu caminho de volta.
Mas a madrugada só me oferece
o frio das respostas incompletas
e a sombra do que um dia fomos.
Guardo seus gestos como quem guarda cartas
que jamais terá coragem de abrir.
Cada lembrança floresce devagar,
mas traz espinhos sob as pétalas.
Se um dia você retornar,
não prometo palavras bonitas;
talvez eu apenas chore,
talvez minhas mãos tremam,
talvez todo eu estremeça
ao reconhecer seu rosto.
Porque há partidas que terminam na estrada,
mas permanecem para sempre
dentro de quem estacionou na jornada,
como uma chama silenciosa
recusando-se terminantemente a morrer.
Silêncios
Somos feitos de instantes que se dissolvem imediatamente no instante seguinte...
Ainda assim, amamos como se o tempo
pudesse aprender a deter seus passos,
como se os abraços fossem casas eternas
e os olhos, mapas para o reencontro.
Guardamos vozes no silêncio dos quartos,
perfumes adormecidos em roupas antigas,
risos que retornam quando a noite
abre suas janelas para a saudade.
Cada despedida deixa uma esperança escondida,
um pequeno incêndio sob a pele,
prova de que alguém passou por nós
e mudou, para sempre, a paisagem.
Talvez viver seja isto:
recolher o que o mundo leva,
beber a chuva dos dias perdidos
e seguir, mesmo com as mãos vazias,
carregando no peito a certeza
de que todo fim, ao desaparecer,
também prepara o instante
em que outra presença irá florescer.
Um Universo inteiro
Há palavras frágeis demais
para atravessar a distância do silêncio que ficou
quando você de mim se afastou.
Então, tenho ficado num silêncio abissal...
Tenho vivido de frases inacabadas,
palavras balbuciadas dentro do meu coração.
guardo, sem testemunhas, esse amor que deveria ter morrido quando você se foi.
Um Universo inteiro deveria acontecer entre nós...
Mas está suspenso...
parado no tempo...
esperando pra acontecer em algum momento... sempre jogado pra depois.
Do silêncio em mim
E eu não lhe disse nada...
E, o silêncio que se fez em mim, disse-lhe tudo.
No peito ficou guardado o que não encontrou coragem na voz.
Engasguei-me com a dor e o medo do som das palavras que poderiam de mim sair.
E cá estou eu: vivendo há séculos de frases inacabadas... palavras tartamudeadas, balbuciadas, só dentro de mim...
Silêncio inscrito
Repetidamente ouve-se o eco de um silêncio escrito dos dois lados da rua...
Perpetua-se, pela alameda vazia e fria, o eco de vozes antigas
guardadas na memória... revive-se dolorosamente o peso da ausência.
Enredam-se as palavras, sufocam-se as lágrimas engolindo-se em seco uma dor que insiste em se fazer sempre presente...
Suprimem-se as doces lembranças, que
iludem as veias de um tempo adormecido nos ombros cansados, esgotados de vida.
Insinuam-se em ondas de frio sobressaltos e temores – fantasmas de uma força invisível e maior do que o mundo.
Espalham-se palavras contra os muros, por debaixo de pontes... afogam-se sonhos
que o vento insiste em de volta trazer.
Há em minha lama uma sede feroz a consumir-me a razão... um pulsar loucamente do meu coração numa recusa insistente a ceder... deixar simplesmente acontecer.
Acumulam-se as sombras nos meus olhos...
Persiste sempre esse louco desejo de romper o vazio... de gritar o seu nome...
cravar no peito do impossível seu sobrenome.
Meu caminho segue...
Corda bamba...
Fumaça desgarrada de mim...
Preso à vida por um desgastado, quase roto fino fio.
Há flores
Há sempre flores
que se abrem onde não esperamos...
Sons em lugares onde sequer estamos...
Sabores nos dissabores...
Dias nas noites mais insones
Às vezes é apenas uma janela
que não sabe fechar...
Uma porta que se mantém entreaberta...
Ou algumas frestas que se fazem nascer pra deixar luz entrar.
Há sempre esperança nas nuvens mais densas...
Há sempre um barquinho num porto num canto qualquer desse mar imenso...
Uma voz pra assegurar que tudo se vai ajeitar...
Meu lugar especial
Quem quer passar
no lugar do outro,
se o caminho alheio
pedras há que não se veem?
Melhor de longe observar
os passos que passam,
um após outro,
deixando no chão
a memória de quem neles acabou de passar.
Há pés que não acompanham
o ritmo do mundo;
ficam atrás,
desalinhados, num passo sempre atrasado
aprendendo a dançar
com os desníveis da vida...
Equilibrando-se sempre pra encontrar em tudo a melhor saída
Passam os passos, (des)compassados,
cambaleiam as certezas,
e cada tropeço revela
uma força escondida.
Ninguém chega
ao lugar do outro.
Cada coração guarda
uma paisagem única, um cenário só seu,
um silêncio que ninguém traduz,
uma ferida que ninguém sente
da mesma maneira de quem a viveu.
Por isso, não invejo caminhos.
O meu pode ser estreito,
com curvas a me tontear, lento, tão lento que estou sempre a me atrasar...
mas é nele que estou sempre a aprender
minha própria voz reconhecer.
Meu lugar não é perfeito.
É feito de ausências, carências (in)consistências... encontros, embates, combates...
lágrimas, sorrisos e recomeços.
E é especial:
porque é meu... somente meu.
Dele cada cantinho só quem conhece sou eu.
E, quando o mundo passar por mim,
seguirei caminhando,
com passos talvez incertos,
mas inteiros, certeiros –
em direção à pessoa
que estou me tornando...
Serei eu do jeito que só eu sei ser, enfim!
Você é um amado.
Eu faço tudo errado,
estrago tudo
e, você, mesmo mudo,
conserta num momento
manda embora todo tormento.
E num momento de lucidez,
peço desculpas,
digo é a última vez
que ajo com insensatez.
E você, tão querido,
simplesmente me diz:
- Não me peça desculpas,
você nunca deve se desculpar...
quando você acha que fez algo errado
é só pensar que está do meu lado...
sem você não sei o que é amar.
E, eu:
- Você não existe...
E, você:
- Existo sim... existo sempre que você olha pra mim.
É na saudade e na solidão
É na saudade e na solidão
que os silêncios, pouco sábios,
se escondem entre cartas sem retorno,
perdidas no tempo, vencidas pelo abandono...
Cartas que só vão.
Quando o beijo se faz sem lábios
e a mão procura o que não alcança,
a alma, cansada, sussurra baixinho:
“É chegada a hora da mudança, siga por este mundo perdido... não pare suas andanças”
Hora de vestir a prontidão,
de abandonar esta dimensão
tão bela, árdua, sinuosa e torta,
onde cada chegada anuncia uma porta.
É hora de encontros, de ir embora,
de deixar cair o peso do agora,
sem promessas, sem prêmios, sem donos,
pois a vida oferece apenas os seus insones sonhos.
E, quando o último suspiro se acalma,
que não haja medo, nem demora:
somente a entrada suave de uma alma
noutro mundo, noutra esfera,
onde a saudade já não chora
e a solidão, enfim, não espera...
Já sabe que tudo foi um dia... tudo era...
Sempre por eras e eras.
Camaleão
Camaleão...
Não tenho convicções,
me adapto a qualquer situação...
vou e volto,
dou a volta,
depois volto...
Passo por cima,
passo por baixo...
me encaixo.
Preto e branco?
Comigo não...
domina a razão,
quem manda é o coração.
Meus sonhos têm a cor da minha vida
... (des)colorida.
Repleta de contradições,
tudo me convence...
nada me vence...
começo e não termino
no meio do caminho...
largo tudo e volto
convenientemente
começo tudo novamente.
... mais uma vez.
Camaleão
mudado, transmutado...
(re+vestido de sonhos,
Disfarçado de (des)amores,
O que
Tem de ser feito faço...
‘Melhor feito do que perfeito’ é o meu lema...
Esqueço-me, se preciso for, de seguir qualquer esquema.
Mudo-me como sinto
ou, se acaso pressinto que mudar não é a solução,
simplesmente minto.
Camaleão, pele mudada
núcleo intacto, integro, só a casca desintegrada...
Sou o que preciso,
sem deixar de ser quem era,
ou de ser o que de mim se espera...
Estou aqui, estou lá.
Mudo sem mudar.
A palavra nasce do silêncio, mas não lhe pertence por inteiro. Ela carrega a matéria do mundo: o peso da pedra, a aspereza da terra, o calor da pele, o rumor das águas. Quando nomeamos, tocamos. Quando escrevemos, deixamos marcas no corpo do tempo.
A memória é uma casa sem paredes. Guarda vozes, gestos, cheiros, caminhos. Às vezes, permanece em uma cicatriz; outras, no espaço vazio de quem partiu. O corpo sabe o que a boca esquece. Cada osso traz um território. Cada passo redesenha a distância entre o medo e a coragem.
Resistir é permanecer sem ficar imóvel. É lançar raízes em solo ferido e, ainda assim, procurar a luz. É transformar a dor em presença, a ausência em lembrança, o silêncio em testemunho. Há palavras que quebram muros. Há silêncios que recusam a mentira.
Somos feitos de matéria e passagem, de ruína e recomeço. O território que habitamos também nos habita: entra pelos olhos, permanece nos músculos, reaparece nos sonhos. Nada desaparece completamente. A terra conserva pegadas. A palavra conserva o grito. O corpo conserva a história.
E quando tudo parece se desfazer, resta a insistência de existir: uma voz baixa, uma mão aberta, um nome dito contra o esquecimento. Permanecer é isso: continuar sendo presença onde quiseram deixar apenas silêncio.
