Peito cheio de palavras Como uma... Rosangela Calza

Peito cheio de palavras


Como uma respiração que não se completa,
fico por cá suspenso entre o ontem e o agora...
com meu peito cheio de palavras
que nunca encontram a coragem de nascer.
O mais profundo dos sentimentos
não morre por falta de amor,
morre por falta de coragem.
E o meu…
ainda vive, silenciosamente agoniado,
feito brasa oculta sob as cinzas,
esperando um passado
que já não volta...
Um passado cada dia mais distanciado de nós.
Às vezes, escuto seus passos
nas salas vazias da memória,
e o coração, ingênuo,
abre a porta para ninguém.
Há ausências que não partem:
apenas mudam de lugar
e passam a morar dentro da gente.
Eu quis dizer “fica”,
mas minha voz se perdeu
na distância entre o desejo e o medo.
Agora, carrego seu nome
como quem carrega uma prece
sem saber se ainda há céu
para recebê-la.
E sigo – incompleto,
respirando devagar,
para não acordar a esperança
que adormeceu em seus braços,
mas nunca aprendeu a morrer.
Eu escrevi silêncios inexprimíveis...
eu gritei, te sacudi, tua cabeça bati...
tudo isso só por amor a ti.
Tu te fizeste silêncio
e não me ouviste,
minha dor não sentiste
e partiste...
me partiste.
Onde andas tu
hoje em dia?
O silêncio ainda é tua companhia?
Os gritos ecoam
desde aquele dia...
Se tu nunca tivesses sido
eu ainda saberia o que é alegria?
Se tu nunca tivesses sido...
Eu, certamente, estaria agora por cá sabendo da vida qual o sentido?