Coleção pessoal de RosangelaCalza
Dor profunda
A dor que às vezes inunda o peito profundo
toma forma e essência num instante fecundo...
Entre sombras e luzes, a alma vai navegando,
encontrando na poesia um porto seco e seguro.
Assim, envolve a vida com melodia suave,
fazendo do sofrimento um doce enclave.
Na dança das palavras, tudo ganha sentido,
e o espírito encontra seu caminho perdido.
Tudo, num piscar de olhos, acaba fazendo algum sentido.
Sementes
Nos segredos desta vida, no germinar da semente,
a alma se enlaça em suave poesia crescente.
Envolvida em véus de ternura e dor contida,
transforma a tormenta em serenidade fluida.
Sussurros tristes do vento acariciam o ser,
revelando histórias que só o silêncio pode entender.
Cada lágrima é gota que rega o coração,
fazendo brotar a mais doce e terna canção.
Noite, soturna noite
A noite vem às vezes tão perdida,
um véu silencioso que abraça o peito,
onde sombras dançam com a alma ferida,
e o tempo se perde em seu leito.
Sussurros tristes do vento, tão distante,
têm segredos que a lua sabe contar,
em cada estrela um sonho que se esconde...
memórias que insistem em ficar... tatuadas neste lugar.
No silêncio, o coração se revela,
entre suspiros e saudades trêmulas,
a esperança, ainda que singela,
pinta de luz as horas mais nubladas.
Assim, a noite, com sua calma profunda,
envolve a alma em suave poesia,
transformando a dor que às vezes inunda
em serenidade e melodia.
Da noite
A noite vem às vezes tão perdida,
um véu silencioso que abraça o peito,
onde sombras se insinuam com a alma ferida, dorida...
e o tempo se perde em seu leito meio desfeito.
Quase nada parece bater certo,
as horas escapam, fugazes, incertas,
há qualquer coisa em nós, um deserto,
inquieta, lesão, entre portas abertas.
O que era fundo torna-se tão perto,
segredos antigos ecoam no escuro,
o coração pulsa um ritmo aberto,
um sussurro calmo, leve e puro.
Na penumbra, a dor encontra abrigo,
e a esperança nasce na ferida aberta,
pois, mesmo a noite, no seu perigo,
traz a promessa de uma manhã certa.
Assim, na noite perdida e silente,
floresce a alma, livre e presente.
Silenciosamente
Nuvens pesadas, silentes, silenciosas, deslizam pelo céu como segredos sussurrados entre velhas amigas. Elas se entendem na quietude, trocando histórias sem som, carregando em si o mistério da chuva que ainda não caiu. A terra sedenta espera, em êxtase contido, sentindo o peso desse silêncio cúmplice. Cada gota que ali dorme é promessa de alívio, um abraço suave que vem saciar a sede profunda. O ar se adensa, o horizonte se curva, e o mundo parece prender a respiração. Então, no instante delicado do encontro, as nuvens rompem seu segredo, derramando sobre o solo um cântico líquido. A terra agradece, entregue à dança das gotas, renovada, viva, preenchida por um banho de esperança e vida. Assim, o ciclo se mantém, eterno e sereno, entre segredos que só o céu entende.
Tecendo sonhos
A vida persiste, tecendo sonhos que se aproximam da eternidade.
No silêncio das manhãs, a vida desperta,
como um fio delicado sobre o tear do tempo,
tecendo lindamente sonhos feitos de esperança e luz,
bordando no tecido invisível da alma,
um mosaico de desejos que jamais se desfazem.
Cada instante é um ponto colorido,
uma promessa sutil de eternidade,
onde o ontem se mistura ao amanhã,
e o presente se entrelaça entre as mãos do destino.
Os sonhos, navegantes incansáveis,
singram mares de possibilidades infinitas,
provocando ondas que beijam a areia do ser,
revelando que a vida, mesmo em sua fragilidade,
é um canto profundo que nunca se cala.
Assim, persistimos — almas entrelaçadas,
tecendo para sempre a teia do infinito,
onde o hoje se faz tão terno... eterno em cada batida do coração.
O céu da alma
Nuvens carregadas cruzam o céu da alma,
pesadas de dor, tecem véus de tristeza.
No horizonte, o deserto sussurra em silêncio,
sedento e vazio, busca a esperança perdida.
Poeira, pó... fino manto cobre o que restou,
enterra sonhos sob o peso do desamparo.
Cada grão, um suspiro de abandono,
cada vento, um lamento perdido no espaço.
Mas mesmo na sombra densa do sofrimento,
há um brilho tênue, escondido nas fissuras.
Pois até as nuvens mais negras se desfazem,
e a vida insiste — renascendo na ternura.
Esvoaçante
Na janela, uma cortina esvoaçante balança insinuante.
A brisa suave traz o cheiro de maresia misturado com esperança.
Um mundo colorido se revela na luz...
Nuvens fugidias pelo céu a mão de Deus conduz.
Desce ele pela ladeira dos sonhos perdidos,
cada passo ressoa em ecos sentidos.
As cores palpitam, vibrantes no ar...
Um espetáculo vivo a nos encantar.
O sol sorri alegre, brinca com as sombras,
cochicha segredos que da alma assomam.
As flores, em festa, se inclinam para ouvir
as histórias do vento, contentes a sorrir.
E assim, nesta dança de vida e cor,
Janelas e portas se abrem, convidando ao renascer do amor.
Nuvens carregadas cobrem o céu da alma, espalhando dor e tristeza, enquanto a desesperança sussurra segredos de um amanhã incerto.
E assim sigo eu...
Rosangela Calza
Canção do vento
O vento me atrai, me cativa, me fascina…
O vento me seduz, me encanta, me deslumbra...
O vento meu rosto acaricia... meu corpo envolve... minha paz me devolve.
Gosto do vento frio
Gosto do arrepio
Gosto do meu nariz gelado,
pelo vento deixado.
O vento sopra forte.
O vento me refresca em meio ao sol forte.
O vento me revigora...
Me avisa da hora de ir embora.
Gosto do som dos galhos das árvores balançando.
Gosto dos sinos dobrando.
Gosto das venezianas batendo.
Gosto do vento arruaças fazendo... e ninguém o vendo.
O vento segue soprando...
As nuvens moldando...
Os papéis derrubando...
Tudo separando... tudo misturando...
As saias levantando.
Da janela do meu quarto vejo o vento a soprar...
Passa, passa sem parar...
Pelas frestas da vida
Se divertindo vai seguindo...
Rindo... feliz da vida... tudo a bagunçar.
Liberta-te das amarras
Em meio ao silêncio pesado,
onde os grilhões sufocam
corações aprisionados,
é hora de romper a forte cerração... transformar em leve bruma...
Espalhar pela a escotilha branca espuma.
Rótulos que nos vestem,
como capas de um conto sem fim,
imposições que nos oprimem,
mas a alma grita: “Vem, sim!”
Quebrar as regras impostas,
um despertar em cada passo,
soltar-se e esvoaçar com as nuvens,
encontrar liberdade no abraço fraterno.
Fazer da vida um bailar eterno.
O vento canta a nossa história,
carrega os medos para longe,
na busca incessante da vitória,
o ser livre é o maior de todos os alvos.
Levanta, oh espírito valente,
revela teu brilho, tua verdade!
Na dança da vida, serás presente,
liberto, pleno de saciedade.
Inverno implacável
No inverno que se estende, frio e implacável,
minha alma vagueia, perdida e sem abrigo.
Procuro a poesia, mas a esperança é frágil,
as palavras escapam por entre meus dedos, como o vento pelas frestas da janela... gelando completamente meu lar, meu abrigo.
Desiludida, caminho por ruas de sombra,
onde o eco do silêncio grita ardorosamente.
A beleza se esconde, a luz já não assombra,
e em cada estrofe, sinto o peso da vida... meus pés dormentes.
Mesmo na noite mais sombria e profunda, porém,
a chama do sonho não se pode apagar.
Pois mesmo cansada, a busca é fecunda,
e um dia, quem sabe, renasça a esperança de recomeçar.
Assim, a dor se transforma em verso,
e o inverno cede espaço ao calor que amana do universo.
Das cinzas nos reerguemos
No silêncio da eternidade, onde o tempo se esconde,
o denso medo se avoluma, como neblina em noites ruidosas, abrumadas e profundas.
Ventos sussurram segredos, esgueirando-se entre as sombras,
soprando nuvens escuras, que cobrem o céu com suas ondas.
O coração acelera, preso na angústia do momento...
cada rajada traz lembranças, ecos de um passado lento – vivido em pleno tormento.
Mas uma luz tímida cintila, bem no olho da tempestade...
prometendo que, após a chuva, renascerá outra vez uma vida com amores de alegrias e verdades.
E, então, entre o medo e a calma, a batalha se desenha...
Entre nuvens sombrias, a esperança tem força... pra tudo transformar ainda se empenha.
Na penumbra do infinito, o vento continua a soprar...
revelando que, mesmo na dor, podemos, feito Fênix, nos reerguer das cinzas, refazer nossa vida e amar.
Perfume das flores
As flores murcharam, o perfume se esvaiu,
A vida, outrora colorida, agora em tons de cinza e frio...
Olhares que se buscavam, hoje trazem tristeza e dor,
e os sonhos compartilhados se desfizeram em incertezas e desamor.
Mas na dor que persiste, há um brilho a resplandecer...
um lembrete sutil de que é preciso dia a dia... passo a passo... renascer e nunca se deixar vencer.
Seguir, mesmo com feridas abertas, abraçar a solidão,
Pois cada desamor ensina a força da renovação.
Mares tão bonitos
Em mares de verde-azulado, a vida resplandece por todo lado,
Águas puras dançam sob o sol que tudo aquece.
Em cada gota, um mundo a pulsar,
refresca a alma, faz o coração docemente entre flores perfumadas se aninhar.
À sombra das árvores, um sussurro suave...
Natureza exuberante, um presente extremamente valioso.
Sede saciada no fluir silencioso,
Canta a brisa eternamente um encanto precioso.
Assim, na serenidade deste lugar,
encontro paz, deixo-me levar,
Pois, na pureza das águas, sou um só...
com a essência da vida, um eterno filho do pó!
Danças Vespertinas
Em meio à névoa vespertina,
surge a dançarina, delicada como o mais puro ar...
Seus passos deslizam, um suave remanso,
no doce embalo de um amor a se desvendar.
Candura em cada volta, cada giro encantado...
Seu olhar reflete estrelas que no céu estão a pirilimpimpar,
E, no silêncio da noite, o coração aflito
encontra nesse amoroso e afetuoso bailado seu modo de amar.
No sussurrar do vento, uma melodia eterna...
as sombras sombrias se rendem a esse delicado traçar...
E, assim, na penumbra, entre risos e ternura,
o amor se revela, tão leve, a flutuar... em cada momento suavemente ase revelar.
No frasco da memória
Esperança inatingível surge em cada instante,
Como estrelas que bailam no céu da memória...
no silêncio partilhado, na risada contagiante...
E, em cada lembrança, nosso amor... nossa história.
Um amor que perdura há anos, mais forte que o mais intenso luar...
um elo invisível, que insiste em querer provar que o melhor do mundo é nunca acabar de amar.
No frasco da memória, guardo carinhosamente esse amor...
Um néctar doce cujo sabor, da minha boca, nunca desaparece,
As horas passam lentamente... acompanhadas da mais sofrível dor,
A esperança brilha, eterna, e se entrega vagarosa, esperançosa... inutilmente... busca nos espaços em branco o que foi o nosso amor.
Entre sombras do passado, nossos olhares se encontram,
A fragrância do que um dia foi se renova...
Um laço indelével que nunca se desponta,
Como estrelas no céu, que nunca se movem.
O tempo é um artista que nada destrói...
Em cada lembrança, um toque divino...
O amor perdura, um hino feroz.
Inatingível, em cada destino... que ousa fazer ouvir sua voz.
Serena noite
Noite serena, entrelaçada em silêncio,
Ruelas escuras e sombrias guardam segredos mudos,
Portas fechadas, sussurros esquecidos,
o tempo se esconde em sombras e fluidos.
A lua, tímida, derrama seu véu prateado,
sobre pavimentos frios, sonhos abandonados...
Corações pulsando, ecos distantes,
Nos caminhos escuros, passos descompassados e errantes.
O ar é um mistério, um convite sutil,
A cada esquina, uma história, outra e mais mil.
No silêncio da noite, a alma se entrega,
Entre ruelas e portas, a vida navega.
Num ir e vir (des)contínuo o homem perdido de si se desespera e ao desconhecido se entrega.
Em frascos de felicidade, guardamos o amor,
Essência eterna, que desafia o tempo.
Nos olhares cúmplices, no toque suave,
Um eco de promessas que nunca se vão.
O homem disso sabe... procura e procura... mas sempre em vão.
Lembrança de amores perdidos
Os ventos sopram frios, trazem lembranças
de amores perdidos, sem nenhum traço de ínfima esperança.
Há beleza nessa fraqueza... há um brilho sutil,
há um canto suave, há um amor que é febril.
Embora o corpo claudique, a alma ainda suavemente folgueia, alegremente rodeia,
encontrando na dor a força, a esperança e a confiança.
A vida, com suas cores, desafia o tempo
e, em meio às tempestades, floresce o mais belo dos sentimentos.
No horizonte, o tempo lentamente se esvai...
Como areia entre os dedos frios da solidão.
Nuvens negras flutuam nos céus, trazem ventania,
uivos do vento em profunda e deprimente canção.
O relógio toca, mas não marca a hora,
cada batida ecoa um vazio profundo.
A alma busca abrigo, a paz que implora,
Nos fragmentos de um sonho que se esconde num mundo que chora e chora.
E na tempestade que ruge sem fim,
caminho só... busco por mim.
esperando esperançosamente que as nuvens se dissipem e deixem brilhar a luz que espera, pronta que já está, a voltar e mude o meu triste fim.
Intempéries da vida
Nas sombras do ser, mágoas se armam,
ecos sutis de um mundo que nunca se acalma.
Reflexos de males, insuportáveis e sós,
na dança das vidas, perdemos a fé... perdemos a voz.
A dor é um fruto, amargo, profundo,
enraizado na terra que abriga todo o sofrimento do mundo.
Entre as feridas, porém, brota a esperança,
A poesia se ergue, em silenciosa lança,
e os corações doridos alcança.
Nos versos encontramos a luz da redenção,
um sopro de vida, uma nova canção.
Pois mesmo nas mazelas, há beleza a brilhar,
E nas rimas da vida, podemos generosidade e luz encontrar.
Caminhando entre sombras do passado,
a velhice sussurra em seus ecos cansados.
Intempéries da vida moldaram meu ser,
cada ruga uma história, cada lágrima um aprender.
A velhice segreda em seus ecos abatidos,
intempéries da rotina estafante conformaram meu ser,
cada ruga uma história, cada lágrima um aprender.
No silêncio das manhãs, a alma tece seus segredos,
e o tempo, suave amigo, embala sonhos antigos, mistérios e medos.
