A palavra nasce do silêncio, mas não... Rosangela Calza

A palavra nasce do silêncio, mas não lhe pertence por inteiro. Ela carrega a matéria do mundo: o peso da pedra, a aspereza da terra, o calor da pele, o rumor das águas. Quando nomeamos, tocamos. Quando escrevemos, deixamos marcas no corpo do tempo.
A memória é uma casa sem paredes. Guarda vozes, gestos, cheiros, caminhos. Às vezes, permanece em uma cicatriz; outras, no espaço vazio de quem partiu. O corpo sabe o que a boca esquece. Cada osso traz um território. Cada passo redesenha a distância entre o medo e a coragem.
Resistir é permanecer sem ficar imóvel. É lançar raízes em solo ferido e, ainda assim, procurar a luz. É transformar a dor em presença, a ausência em lembrança, o silêncio em testemunho. Há palavras que quebram muros. Há silêncios que recusam a mentira.
Somos feitos de matéria e passagem, de ruína e recomeço. O território que habitamos também nos habita: entra pelos olhos, permanece nos músculos, reaparece nos sonhos. Nada desaparece completamente. A terra conserva pegadas. A palavra conserva o grito. O corpo conserva a história.
E quando tudo parece se desfazer, resta a insistência de existir: uma voz baixa, uma mão aberta, um nome dito contra o esquecimento. Permanecer é isso: continuar sendo presença onde quiseram deixar apenas silêncio.