Silêncio inscrito Repetidamente ouve-se... Rosangela Calza
Silêncio inscrito
Repetidamente ouve-se o eco de um silêncio escrito dos dois lados da rua...
Perpetua-se, pela alameda vazia e fria, o eco de vozes antigas
guardadas na memória... revive-se dolorosamente o peso da ausência.
Enredam-se as palavras, sufocam-se as lágrimas engolindo-se em seco uma dor que insiste em se fazer sempre presente...
Suprimem-se as doces lembranças, que
iludem as veias de um tempo adormecido nos ombros cansados, esgotados de vida.
Insinuam-se em ondas de frio sobressaltos e temores – fantasmas de uma força invisível e maior do que o mundo.
Espalham-se palavras contra os muros, por debaixo de pontes... afogam-se sonhos
que o vento insiste em de volta trazer.
Há em minha lama uma sede feroz a consumir-me a razão... um pulsar loucamente do meu coração numa recusa insistente a ceder... deixar simplesmente acontecer.
Acumulam-se as sombras nos meus olhos...
Persiste sempre esse louco desejo de romper o vazio... de gritar o seu nome...
cravar no peito do impossível seu sobrenome.
Meu caminho segue...
Corda bamba...
Fumaça desgarrada de mim...
Preso à vida por um desgastado, quase roto fino fio.
