Selecção semanal
5 achados que vão mudar sua rotina Descobrir

Coleção pessoal de Eliot

321 - 340 do total de 1102 pensamentos na coleção de Eliot

- MANDEI CAIAR A MORTE -

Mandei caiar a morte
Na Luz dos olhos fundos
No suspenso dos meus lábios
Onde a vida não se esconde
Nem se dá a outros mundos!

E das searas ao vento
Que de lágrimas reguei
Mandei colher a noite
Contra mim e contra a vida
A que afinal nunca me dei!

Nada é inútil, nada é vão
Rios de sombra, rios de lume
Nestas linhas do meu canto
Velas de todos os ventos
A que dei o meu ciúme!

Poeira de ventos, apenas
Que desejo mas não ponho
Na raiz de cada espiga
Ao passar por mim o vento
No olhar de cada sonho!

Senhor,

Aceita-me como sou!
Com esta sede de amor
Que me consome o viver
Que me tira o fulgor
E antecipa o morrer ...

Aceita o vidro partido
De que é feito o meu coração
A alma entornada
Sem casa nem chão
Cheia de noite, vazio e nada ...

Aceita os versos que te canto
Que no caminho te dou
Os que ponho no pranto
Por não ver o eterno
No transitório que sou ...

⁠Outro fado -

Adeus gentes, minha terra
adeus campos, adeus serras
que em criança me viram;
adeus versos que escrevi
aos amores que não vivi
adeus fados que me ouviram.

Meu coração como louco
sente triste, pouco a pouco
que ao partir não volta mais;
e no meu peito de espuma
esta dor é só mais uma
outra dor entre as demais.

e o meu corpo feito lume
já não tem quem o inunde
d'ilusões, esperanças fagueiras;
e entre pedras e cansaços
caem penas pelo espaço
como cai água das beiras.

E a saudade que me amarra
prende minh'Alma à guitarra
numa angustia de deixar-te;
e toda a história perdida
e toda a vida sem vida
vai nos olhos de quem parte.

Ó minh'Alma onde vais?!
Porque sofres tanto e mais
se o destino está marcado?!
Diz adeus a quem ficou
diz adeus a quem passou
parte em busca d'outro fado ...

PALAVRAS INQUIETAS

Há palavras inquietas
A bailar na minha mente
É o sangue dos Poetas
Minha terra, minha gente.

Bailam versos nos meus dedos
Tempestade que me acalma
O que sinto é meu segredo
Bailam rimas na minh'Alma.

Eu não sei o que me prende
Ao desejo de te amar
A minh'Alma não entende
Se há-de rir, se há-de chorar.

E como baila a solidão
Há palavras inquietas!
Porque bailam sem razão
Nas Almas dos Poetas?!

⁠Era outro -

Ah se eu pudesse não ser eu ...
Acreditem ... era outro!
Pois quem este me deu
deu-me à vida jaz morto.

E se estas pedras falassem
se este chão tivesse boca
talvez todos soubessem
que a minha vida é tão pouca.

E o porquê de ser assim?!
Se eu fosse fariseu
matava em mim
este peso de ser eu ...

Nem eu sou o que sou
nem sou o que queria
desta angustia a que me dou
vou morrendo dia a dia.

⁠O melhor de mim -

Sinto que o melhor de mim 'inda não veio!
Mas de que horizontes há-de esse bem chegar?!
Há magoas a bailar no vale do meu seio
e tantas dores que sinto ainda aconchegar ...

E é ter fome de ser alguém diferente
é ter sede d'encontrar outro caminho,
procurar outro destino, ir em frente,
recordar as ilusões de pequenino.

E é sentir uma vontade de te amar
num campo de açucenas a florir
que se dá, por dar, aos olhos de quem chegar.

Que vontade de adormecer nesse teu seio
que vontade de chorar, contigo rir ...
Serás tu o melhor de mim qu'inda não veio?!

⁠Desconversa -

Pela vida houve alguém
que me falou em ser feliz
mas eu disse-lhe a bem
que também era um aprendiz ...

Manda fora essa tristeza
que puseste nos teus versos
rasga a dor, a incerteza
e encontra outros desejos!

Nada tive p'ra dizer
quem não sente o que outro sente
nunca tem como entender
o que vai dentro da gente.

E falou! Deixei falar ...
Achava velho o que ia ouvindo
fui-me embora sem pensar
disse adeus e fui sorrindo!

HÁ UMA SEDE EM MIM QUE NÃO ENTENDO


Há uma sede em mim
Que não entendo!...

Como se pudesse sentir
Toda a secura das fontes
O grito amargo dos poços
O choro triste das pontes
E tantos, tantos remorsos!

Há uma sede em mim
Que não entendo!...

Sede imensa sem destino
Cujo o destino é dar-me sede
Uma sede que me turva
Que me impele no caminho
E me esbate em cada curva!

Há uma sede em mim
Que não entendo!...

É uma sede de infinito
É uma sede de verdade
Uma sede que vou sofrendo
Uma sede de saudade
Que no fundo não entendo!

VONTADE DEFINIDA

Ó Morte!
Quando vieres
Não chegues em silêncio ...
Quero sentir o toque
Da tua mão,
O gosto do teu beijo
Teus lábios em meus lábios
Adentro ao meu coração!

Ó Morte!
Nessa hora tão minha
Não oiças quem chora
Ou quem reza por mim
O que importa é a hora
Em que a Alma sozinha
Se vai embora por fim!

É este o meu desejo,
Ó Morte, deixa-me sentir
O travo amargo do teu beijo!

⁠Sempre Só -

A Vida é um sonho tenebroso
uma estrada sem destino
é um grito ansioso
um lamento a que me dei ...
E há um mistério na minh'Alma
esse resto de vida que não vivi
esse resto de caminho que não andei
talvez nele pudesse ser feliz!
Nem isso me foi dado
nem a isso tive alcance
sempre só, em vão, cansado
talvez agora, então, descanse!

⁠Falso Eu -

Tantas vezes, sobre os dias, distraído,
sem pensar em mim, na minha dor,
fui vivendo falsamente, ao sabor
de uma alegria, convencido ...

Vivendo uma vida que não era minha
esquecido de que a minha era mais do que passar
mais do que ir ou apenas ficar
num querer que tive e já não tinha ...

E menti! Não aos outros mas a mim ...
E muito me dói a morte dos instantes
em que, perto, me pus tão longe de mim!

Como pode alguém diferente querer agradar
a outros, tão iguais, mas errantes,
que dizem que o não são só pra passar?! ...

Quando eu morrer, não chorem,
Ponham antes,
Sobre o esquife que me alberga,
As mais belas flores que tiverem ...

SAUDADES

Saudades ...

... da alegria que me davas
de quando me dizias
de quando me falavas
daquilo que sentias ...

Saudades ...

... trago-as aos molhos
escorrendo pelo rosto
Caindo-me dos olhos
deslizando pelo corpo!

Saudades ... muitas ... tantas,
como pedras, como lousas,
ocas, frias como campas ...

DOIS CAMINHOS

Vesti meu corpo de poesia
Quando na sina ma puseram
E dei à vida mais vida
À triste vida que me deram.

E deram-me dois caminhos
Um de rosas e um de dores
Mas nenhum desses destinos
No caminho tinha amores.

E vivi sem ter vontade
Num mundo que não existe
Casei depois com a saudade
De quem tive um filho triste.

E o Poeta é tão frio
E as flores tão espinhosas
Em mim só páira o vazio
Que há nos versos e nas rosas.

Não sou feliz!
Nunca fui feliz!

À parte isso,
Antes de ser o que sou
Sei que tudo fiz
P'ra encontrar o amor ...

E a vida passou
Foi andando
Não esperou ...

As rosas que me deram
As flores que plantei,
Tudo, sem excepção, secou!

Minha vida foi embora
Minha esperança morreu
Meu coração parou ...

⁠Outro Sonho/outro menino -

Nunca gostei que de mim tivessem pena
mas mentia se dissesse que não sinto
uma alegria, ora grande ora pequena,
quando me encontro só, de amor faminto!

Meu caminho triste sempre o fiz por mim,
de poesia embriagado, longo e frio,
sempre o caminhei ferido de mim a mim
no alcance de outra terra, de outro rio!

Mas nunca lá cheguei! Aí onde queria ir ...
E aqui onde estou só, não estou só afinal,
estou comigo, mas estou prestes a desistir!

É que lá no fim, onde está isso que quero,
há outro Sonho, outro Menino, outro Natal,
há outro Poeta, mais doce, mais sincero ...

DEI A MINHA VIDA

Dei a minha vida à Poesia
Aos versos, às rimas, às palavras,
Às imagens de poeta!

Dei a minha vida
Ao que nada me deu em troca...
Só o pouco da alegria dos instantes
Em que nasceram os versos
Que nunca quis nem desejei...

Dei a minha vida à Poesia
Aos versos, às rimas, às palavras,
Às imagens de Poeta!

⁠Nada Aconteceu -

Mais um dia que passou
e nada aconteceu
mais uma flor que secou
e uma esperança que morreu.

O que foi deixou de ser
a vida é mesmo assim
não há vida sem sofrer
nem sofrer sem ter fim.

Se contudo a dor é nossa
e toda a mágoa que nela vem
que haja em nós tanto de força
quanta amargura ela tem.

Mais um olhar que se fechou
e pouco ou nada se perdeu
mais um coração parou
e nada aconteceu.

QUEM ME QUISER

Quem me quiser amar
Que me aceite como sou
Fechado num mistério
Triste, frio e sério
Sem saber aonde vou!

Quem me quiser sentir
Que me sinta sem pensar
Quanto valho ou quanto sou
Pois a vida não medrou
No jardim do meu olhar!

Quem me quiser negar
Pois que o faça e faça já
Minha vida é diferente
Não sou igual à outra gente
Já não quero, já nem dá!

Quem me quiser esquecer
É um favor que me faz
Uma alegria que me dá
Ir-se embora que vá já
E me deixe SER em paz!

⁠Na nossa Rua -

Meu amor eu não te vi
Ao passar à nossa rua
Nessa rua onde eu vivi
Bem me lembro, não esqueci
Mas a vida continua.

Dessa casa que foi branca
Nada resta de nós dois
Junto à porta há uma santa
Um letreiro vem depois
Que tristeza, não encanta.

Na varanda não há flores
Nem cortinas nas janelas
A fachada não tem cores
Nada resta, pobre dela
Da casa dos meus amores.

E no meu peito continua
Desse tempo que abalou
A saudade nua e crua
Que da casa já passou
Mas ficou na nossa rua.