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Coleção pessoal de Eliot

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⁠Triste Confissão -

Estou cansado da loucura
de um sentir que grita em vão
no meu peito que amargura
já não bate o coração.

Já não pulsa o meu destino
só há dor, contradição,
chorem pedras do caminho
que sou filho da solidão.

Há tanta gente na rua
procurando o que virá
também eu vou de Alma nua
caminhando ao Deus dará.

E se um dia tu souberes
que eu parti p'la barra fora
chora tudo o que puderes
vou sentir-te a toda a hora.

⁠Sou Cadáver -

Sou cadáver de um Poeta
a quem parou o coração,
sem ter nada, sem ter meta,
a caminho da solidão.

Sou cadáver de mim mesmo
sem vontade nem opção
e as palavras que escrevemos
nunca hão-de ter razão.

Porque os mortos já não dormem
os mortos já não sonham
aos cadáveres já não doem
aqueles que os não amam.

E aqui estou sem querer estar
só já vivo p'ro que der
e a quem me quer consolar
digo sempre, sou cadáver.

Silêncio que me abraça -

⁠Vislumbrei o teu olhar
por entre dor e escuridão
mas o caminho p'ro tocar
só podia ser o coração.

Por ali a solidão
parecia não ter dono
perdi de vista o coração
fiquei só, ao abandono.

E minha vida hoje segue
como segue tanta vida
ora triste, ora alegre
ora aqui, ora perdida.

Também segue o desespero
que se aninha a quem amar
e as horas que te espero
custam muito a passar.

Até a vida já não passa
nem a morte é certeza
e o silencio que me abraça
é mais triste que a tristeza.

⁠Eu Nasci -

Eu nasci do silencio das nortadas
que se adensa pelos campos solitários,
das tormentas, aguaceiros, trovoadas,
das tristes badaladas dos velhos campanários.

Eu nasci daqueles que nunca morrem
mas convivem com a morte dia a dia,
do silencio daqueles que não dormem,
das mães que os filhos choram, da poesia.

Eu nasci do Sol-Poente que desponta
a cada dia, orgulhoso, sobre o mar
e se deita, sempre, sobre as águas a chorar.

E tanta madrugada que a Minh'Alma conta
em que na demência dos sentidos me perdi,
apodrecido, jaz no ventre de quem nasci.

⁠Ainda Espero -

Ainda espero por ti
numa cama de cetim
em lençóis de solidão,
a minha esperança vazia
a minha história tão fria
sem Alma nem coração.

Tantas rosas proibidas
tantas lágrimas perdidas
há na dor do meu olhar,
numa cama sem ternura
estão meus olhos de amargura
em teus olhos a bailar.

Estes versos são um grito
uma saudade que agito
como as ondas, mar revolto,
do que fui e já não sou
do que dei e já não dou
são um grito, um grito solto.

⁠Amor sem nome; amor sem rosto -


Um amor sem nome
um amor sem rosto
chegou e levou-me
o coração do corpo.

Um amor sem fé
um amor tão só
se é verdade ou não é
vou prende-lo a nó.

E estar só o que é?!
Condição ao nascer
que vestida de fé
termina ao morrer ...

E o amor passou-me
tão perto do corpo,
um amor sem nome
um amor sem rosto.

⁠Amargura -

Ai de mim que estou cansado
de viver além da vida
eu nasci p'ra dar ao fado
tanta amargura perdida.

Eu vivi sem ter nascido
porque o mundo não me quis
vou morrer sem ter vivido
e que mal à vida fiz?!

Os teus olhos não são mais
que uma faca de dois gumes
dois silêncios, dois punhais
ao sabor dos teus ciúmes.

Os meus versos são herança
p'ra deixar a quem se esquece
que afinal até a esperança
já não resta a quem padece.

⁠Campa Vazia -

Numa campa triste e fria
há um corpo sepultado
que já não tem poesia
pela Morte naufragado.

É o corpo de um Poeta
já sem luz no seu olhar
e uma rosa que não seca
está na campa a soluçar.

Tão só, abandonado,
cheio de dor e solidão
naquela cova parado
está um pobre coração.

Até os versos que escreveu
não passaram d'um momento
mil instantes que perdeu
mal morreu o pensamento.

E até o epitáfio
já se foi da lousa branca
e o seu corpo tão frio
sem memória nem lembrança.

Pois viveu no lado errado,
passo a passo, dia a dia ...
Estará o Poeta sepultado
nesta campa triste e fria?!

Diz a voz daquela gente
que tal cova está vazia
porque uma estrela cadente
o levou da campa fria.


A Luiz de Camões.

⁠Cama de Linho -

O teu corpo é um grito
que está longe do meu leito;
e a minha cama calada
com barras feitas de nada
procura em mim o teu jeito.

O meu corpo é noite escura
sem o toque da tua mão;
e a minha boca fechada
e a minh'Alma cansada
de solidão em solidão.

E o que trago ou não trago
ponha Deus no meu caminho;
peço ao destino outra vida
e peço à Morte guarida
na minha cama de linho.

⁠Espirito Cansado -

No meu Espirito cansado
há muito d'amargura e solidão
e até aquelas horas do passado
alvoroçam o meu pobre coração!

E há gritos, palavras e punhais
que se escutam em mim de lés-a-lés
sonhos que não voltam nunca mais
espinhos no caminho que ferem os meus pés.

É mentira o que me diz a tua voz,
a rua já não fala, a noite já não vê,
e eu, aqui, sou resto, tão só, tão só.

O caminho é longo e doloroso
cheio de buracos e abismos,
e eu, perdido, triste e ansioso ...

⁠Precisava -

Queria tanto que alguém gostasse de mim ...
Esta ansiedade no meu corpo já não quero!
Precisava ser amado até ao fim,
pois ser poeta, nesta vida, não tolero!

Precisava de um olhar no meu olhar
alguém que me visse como alguém
queria tanto dar silencio ao meu penar
e arrancar do meu sentir tanto desdém!

Dizem que sou fraude, sou mentira,
que mereço ir à forca ...
Pobre de quem tanta pedra me atira!

Mas eu sou como a água, vem e vai,
não fura a pedra pela força,
mas pela persistência com que cai!

⁠Pesares -

São tantos os pesares que a vida dá
que, não há quem, sobre a terra permaneça
agarrado à saudade! Também ela passará
quando a memória de nós se desvaneça!

Porque a saudade come à mesa da memória
e a memória alimenta-se da vida
e a vida dá lugar à nossa história
e a nossa história, um dia, será tolhida!

E só a morte nos salvará
deste mundo injusto e infiel
onde nada, além do escuro, nos tocará!

A vida é amante do vazio, mãe da solidão,
neta do cansaço com um toque de cruel,
gerada por quem, nunca teve um coração!

⁠A minha boca Calou-se -

A minha boca calou-se
foi loucura, foi desdém
o meu olhar fechou-se
e o meu destino também!

Eu não sei aonde vou ...
Como um barco naufragado
o meu coração parou
e tudo ficou parado!

Nem uma lágrima de dor
nem um suspiro de paixão
tudo ficou parado, amor,
ao parar meu coração!

E os meus olhos magoados
como um grito que se solta
são dois noivos separados
vestidos de revolta!

Sou poema inacabado
sou carta sem destino
sou Presente sem Passado
sou as pedras do caminho!

Sou um verso tão profundo
que ninguém sabe d'onde vem
sou a loucura do mundo
que é de todos e de ninguém!

E tudo passa sem parar
e passamos nós também
passa a vida devagar
neste eterno vai-e-vem!

⁠Vivemos dia-a-dia debaixo do Céu
e em cima da Terra, porém, quando morrermos,
o nosso corpo irá para debaixo da Terra
e a nossa Alma para cima do Céu!
As cicatrizes da Vida só mostram quem fomos
e de onde viemos, não o que somos nem para
onde iremos ...

⁠Figueiras Tristes -

Figueiras tristes que se arrastam p'los caminhos,
por estradas, caladas, só debruços,
por pedras, cardos, silvas ou espinhos,
falem entre espasmos e soluços!

Debruçadas, solitárias, sobre poços,
sobre escarpas, no vazio ou por abismos,
Figueiras de quem fogem tantos olhos
nem pássaros vos querem para os ninhos!

Porque nem a vossa lenha se aproveita?!
Porque vos odeia toda a gente? Triste dor!
E nem a vossa sombra nos dá paz e aconchega?!

Mas o fruto da Figueira todos querem!
Nasce da ramagem sem dar flor
como as lágrimas dos tristes qu'inda gemem!

⁠Velha Guitarra -

Silencio velha guitarra
porque o meu amor partiu;
deixou meu corpo cansado
na minha voz este fado
e o meu destino vazio!

Silencio triste saudade
saudade qu'inda me amarra;
só ficam os desenganos
sofridos por tantos anos
na voz desta guitarra!

Mas o Passado morreu
e com ele o teu olhar;
silencio velha guitarra
adeus saudade que amarra
adeus vontade de amar!

⁠Vejo a minha Vida Passar -

Vejo a minha vida passar ...
Vejo cumprir-se o meu destino ...
Vejo a minh'Alma perdida
cheia de penas no caminho!

Alta noite,, horas mortas,
quando não se vê ninguém,
abro livros, fecho portas
e o meu coração também!

Choro a dor desta lembrança
dou à Alma o que não tenho
e tiro à Vida confiança!

Esse poço de onde venho
vivo nele desde criança
como um grito que sustenho!

⁠Cegamente -

Se os meus olhos não te vêem
como vêem toda a gente
desta vida nada têem
hão-de amar-te cegamente!

Ao viver não sei por quem
fui cegando pouco a pouco
fui mais cego que ninguém
ao amar-te como um louco!

E a minh'Alma fez-se cega
como um cego que não vê
tanto tempo à tua espera
à espera não sei de quê!

E em cada madrugada
já não dói o teu desdém
se eu p'ra ti não fui nada
tu p'ra mim não é ninguém!

Cinismo -

⁠Foi na Praça do Geraldo
que uma Moça se perdeu
encontrou o seu Amado
e aos encantos não cedeu!

Era pobre o tal Amado,
Ela rica, assim se diz,
contra aquele pobre coitado,
Porcos, Barahonas, Cordovis!

Não insistas nesse amor
não importa quanto andes
esta gente só traz dor
Cabras, Noronhas e Fernandes!

Até o Padre da Paróquia
que mal sabia d'zer o terço
vem à Praça fazer troça
do rapaz que não tem berço!

A Moça que era esperta
disse a Todos que era Crente
e mal viu a Porta aberta
fugiu logo desta Gente!

Pretensiosos Sociais
levam tanta rabecada
mas ficam sempre iguais
parece que não foi nada!

Há-de a história repetir-se
não haver a quem acudam
das bocas há-de ouvir-se
só os Nomes é que mudam!

⁠Eis-me -

Num acesso de loucura
vim à vida sem vontade
sempre cheio de amargura
sempre cheio de saudade.

Cansado como a noite
cheio de noite e solidão
sem um colo onde me acoite
levo o silencio na mão.

Ai que tristeza contida
ai que martírio maior
ai é tão longa esta vida
cheia de dias sem cor.

Ai veneno que me deste
ai que silencio de morto
ai solidão tão agreste
que me corre no corpo.

Tanta gente perdida
tanta boca fechada
tanta gente despida
tanta Alma calada.

Adeus vida que me foge
sem nunca me ter tocado
venha a morte que me toque
e me possua em pecado.

Ai se eu pudesse morrer
com a luz do teu olhar
eu voltaria a nascer
só p'ra voltar a te amar.