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Coleção pessoal de Eliot

281 - 300 do total de 1102 pensamentos na coleção de Eliot

⁠Mãe -

Se escutasses este fado
minha mãe a esta hora
esse teu olhar cansado
não teria ido embora.

Tu partiste e eu perdi
teu regaço doce e quente
minha mãe quanto eu sofri
ao partires para sempre.

Esse teu último olhar
foi p'ra mim último beijo
minha mãe vi-te a chorar
numa ânsia, num desejo.

Minha mãe, ó minha mãe
se na vida tudo passa
por que não passa também
esta dor que ainda me abraça.

- 100 Anos de Fátima -

Foi num vale de silêncio
Numa tarde meiga e quente
Que desceu à Serra d'Aires,
Revestida de Poesia,
A Mensagem que nos trouxe
Os Lábios doces de Maria!

E mais nada foi igual!
Nas mãos trazia a Luz ...
No rosto a Voz de Deus ...
Cada gesto, um abraço ...
Nos olhos uma esperança ...
E um terço no regaço ...

E o mundo ajoelhou!
Na ternura da Mensagem
Vinha o fim do sofrimento.
E p'ra sempre aquela Imagem
Sobre Fátima pairou
Na voz do pensamento ...

Cem anos se passaram
Tanta gente alí rumou
E a noite que era negra
Fez-se branca como as vestes
Daquela Senhora que Falou
Sobre os Braços da Azinheira!

P.S./ Ricardo Maria Louro com os olhos do coração postos em Fátima.

⁠Sina -

Na minha boca há um grito
que é feito do teu silêncio
nem sei amor o que sinto
se a noite vem em segredo
como uma onda que agito.

Nas asas brancas do vento
não há vida nem morte
que o nosso amor não tem tempo
pois sinto que a nossa sorte
é filha do sofrimento.

E como uma rota traçada
tracei a sina na mão
esperei tanta madrugada
vesti tanta solidão
de ti não tive mais nada.

⁠Poentes encalhados -

Se um dia o meu destino se encontrar
com o amor, se um dia, por ventura,
alguém disser que me quer amar,
hei-de abandonar esta amargura.

Se me derem desse cálice a beber,
a prisão dos meus sentidos cessará,
e, por fim, o mundo inteiro irá ver
que um Poeta d'outra estirpe nascerá.

E deixarei p'ra sempre de me queixar
hei-de dar às rosas os meus olhos
e no jardim dessa promessa caminhar.

E hei-de amar os Poentes Encalhados,
hei-de repousar nas sombras, entre folhos,
e dar meu corpo ao silêncio d'outro Fado.

- ESTIGMATISMO -

Eu sou o drama
Sou a solidão
Eu, só, na cama
Sem ter coração.

Eu sou o nada
Eu sou o pó
Eu sou na estrada
Um triste só.

Eu sou quem sou
Que por ser, serei,
A alma que dou
E que nunca darei.

Mas sou do que vês
A vida que foi
E no fundo, talvez,
Seja tudo o que dói.

⁠Aplaudam -

A alegria de um olhar
A doçura de um gesto
Um anseio, terno e calmo
Que trazemos na mão
Para poder aconchegar ...

Um aplauso soluçante
Num empedrado frio
Um destino viajado
Um cetim agreste
Num desejo constante ...

A água da infância
Numa fúria por dentro
Num mundo que não tive
Com cheiro d'açucenas
Em eterna permanência ...

Aplaudam minha dor
Riam do eu que vivi
E com espanto e alegria
Vejam que em meus olhos
Ainda há amor ...

⁠No céu da minha noite -

No céu da minha noite as estrelas já não brilham!
No mar do teu silêncio os barcos estão parados!
A música não soa, os Homens não partilham
os desejos nem os sonhos, e os olhos estão cansados.

E não há palavras que descrevam este suplício!
Não há angústia maior do que não termos quem nos ame!
Porque estará a vida rodeada de tal bulício?!
De não termos no destino ninguém que por nós chame?!

Que o dia em que vim ao mundo seja posto em escuridão,
cheio de nuvens, que se oiçam gritos de viúvas
e agonias vestidas d'uma imensa solidão!

Que ao largo dos meus olhos as lágrimas se agitam
e agitam-se dores pela estrada, tantas curvas,
pois no céu da minha noite as estrelas já não brilham!

⁠O Silêncio do Papa -

Que momento tão doce
Que instante profundo
Que alegria nos trouxe
Aquele +Homem do Mundo.

Tanta gente perdida
Que na vida sofreu
Tanta esperança caída
Que da vida se perdeu.

Tantos olhos sem miragem
Tanto grito magoado
Que ao ver aquela Imagem,
Ali, ficou abandonado.

Emudeceu a garganta
Foi Presente o Passado
Frente à Virgem Santa
O Mundo ficou parado.

E aos Pés de Maria
Onde nada é Novo
Um gesto de Amor
Um +Papa do Povo.

⁠Vida Suspensa -

Há uma voz de espuma e sangue
a gritar dentro de mim
nesta hora apetecida!
É a espuma d'um silêncio
é a fome d'um Poeta
uma esperança concebida ...

Sou meu próprio sofrimento
sou ausência integral
rasgando gestos de perdão
e cada sonho que persigo
na ilusão do alcançar
é um sonho diluído!

Eu sou a vida suspensa
sou a verdade calada
num bater d'asas caídas
p'ra que a vida renasça
na manhã clara do dia
que a mim nunca me abraça!

E já não oiço aquela voz
aquela musica triste
um quase vento no rosto
aquela angustia cansada
uma sombra crescendo, e outra
na minh'Alma parada!

⁠Pesadelo -

Por momentos julguei sentir o eco dos teus passos por entre o silencio da horas inquietas! Julguei sentir a culpa das palavras que não disse, dos momentos que perdi e dos instantes de saudade. Por momentos desejei que fosses tu, caminhando para mim como um Sol d'Inverno ...

Mas os teus passos vinham sobre a noite opaca e triste ... mesmo assim ... desejei que fosses tu!

E tudo terminou à hora do Sol-pôr ...

Meus olhos, na distância, na miragem, cheios de água e solidão, encheram-se de silencio e desenharam no horizonte das tardes quentes d'Agosto, um não sei quê de poesia ...

Ah! Que ninguém venha pedir-me "que razões!" O porquê de amar alguém que não nos quer?! Não sei! Não sei! As razões, essas, transcendem-me, ultrapassam-me os sentidos ...

E há bocados de sonhos despedaçados, caídos na noite, sem fim! E tudo está gasto! Menos a dor que me atravessa nesta hora e que me deixa estático, parado a meio tempo, como se fora o principio de tudo ou o fim de qualquer coisa ...

E não peçam que me cale! É impossível ficar aqui - no silêncio! Estou farto de sombras mudas - mortas! O amanhã não existe mas é teu ...

A noite cobriu meu ser de um mar de trevas e o Pesadelo aconteceu ... o silêncio apodreceu nas minhas veias e um punhal trespassou a minha Alma!

Outros dias virão! Adeus!

- HORA INÍQUA -


A tristeza apodreceu-me as veias,
Calou-me a voz no sangue,
Ficou suspensa nos meus olhos ...

Meus lábios secaram na angústia
Das palavras por dizer ...
E veio a noite, sobre mim, coberta
De punhais! ...
Madrugadas! Tristezas! Vendavais!

Minhas mãos pararam ...
Meu corpo arrefeceu ...
E as horas, passaram, discretas,
Além de mim, p'ra lá dos torreões!

Meus pés, sobre silêncios,
Numa flácida quietude,
Pisaram sonhos, rasgaram ilusões!

⁠Amo o que não vejo -

Amo tudo o que não amo!
Por mim, por todos, por nenhum ...
E amo a vida que renego
por não me dar amor algum!

Amo a bandeira do Poeta
e o lodo que o enreda
e até amo o canto rubro
que o prende e não liberta!

Tudo é vago! Estéril como eu!
Vem a dor ... começa ... não tem fim ...
Quem me deixou descarnado e nú
num espaço oco entre ti e mim?!

É a hora crepuscular!
Entardecer sonâmbulo ...
E eis que em todos os relógios,
de repente, pára o pêndulo!

Contemplo tudo o que não amo!
E amo tudo o que não vejo!
Há nomes que já não chamo
mas há bocas qu'inda beijo ...

⁠Se eu nascesse amanhã -

Se eu nascesse amanhã, talvez minha vida
não fosse tombada, inútil e vã,
e meu olhar, ao ritmo do amor, brilhasse,
se afinal eu nascesse amanhã!

A saudade é o grito de quem parte,
de quem fica, o grito, é solidão ...
Mas se afinal eu nascesse amanhã
teria a dor que tenho no meu coração?!

De que seriam feitos os meus passos?!
Teria a mesma infância - triste e órfã?!
Por certo, seria tudo tão diferente,
se afinal eu nascesse amanhã!

Não me conheço! Nem sei quem sou!
O silencio faz de mim loucura sã
e mais não posso ser do que viver só
nesta dor de não nascer amanhã ...

- DO SILÊNCIO -

Há nos traços do meu rosto
Há no brilho do meu olhar
Um não sei quê de saudade
Uma tristeza sem par!

Nos meus dedos levo gritos
De lágrimas cansadas
Levo culpas, levo medos
Levo sonhos, levo nadas!

Há no corpo que me veste
À amargura d'um Poeta
E na dor que não se cala
Uma tristeza concreta!

Do que fui já não me lembro
No que sou não há verdade
Serei sempre do silêncio
Este grito de saudade!

- LADAINHA AO SENHOR DO CALVÁRIO -


Ó Bom Jesus do Calvário
Que tem a cruz de oliveira
Pela rua, solitário
Sobre os espinhos da roseira.

O vosso santo cabelo
Mais fino que o fio de oiro
Que tristeza tive ao vê-lo
Baço e sujo esse thesoiro.

A vossa santa cabeça
Coroada de mil espinhos
Não me afaste nem impeça
De seguir vossos caminhos.

Esses vossos Santos olhos
Inclinados para o chão
Deles caem dor aos molhos
Nos caminhos da Paixão.

Essas vossas santas Faces
Cheias de cuspo nojento ...
Ó Senhor porque não fazes
Que se acabe este tormento?!

Nessa vossa santa boca
Puseram fel amargoso
Pobre gente, fria, louca
Pobre filho doloroso.

À vossa Santa garganta
Enlearam uma corda
Vossa mágoa era tanta
Senhor Deus misericórdia.

Esses vossos Santos ombros
Encostados a um madeiro
Pobre Cristo entre escombros
De que fosteis Vós herdeiro.

Esses vossos Santos braços
Estendidos sobre a cruz
Pelos nossos pecados
Perdoai ó Bom Jesus.

Esse vosso santo peito
Foi aberto com uma lança
Durma eu sempre no leito
Cheio dessa confiança.

À vossa Santa Cintura
Cingiram uma toalha
Essa pobre investidura
Foi vossa santa mortalha.

Esses vossos Santos pés
Mais claros que a neve pura
Arrastados nos sopés
Pela rua da Amargura.

Pela rua da amargura
Vai o Senhor a chorar
E uma santa com doçura
Logo acorreu p'ró limpar.

Ó quem fora tão ditosa
Que vira o Senhor Chorando
E numa pressa dolorosa
O abraçou, ficou limpando?!

E há um grito de mulher
Junto à cruz, lá no Calvário
Vossa Mãe, triste, a sofrer
Que abraçou vosso Sudário.

Juntarei os meus pecados
Pô-los-ei aos pés da cruz
Que eles sejam perdoados
Para sempre amém Jesus.


(Quadras inspiradas numa antiga Novena que se fazia para chover)

⁠Évora tão perto -

À quina do Geraldo
na Praça dos Poetas
situa-se a Igreja de Santo Antão!
A Fonte e as Arcadas,
as calçadas tortuosas,
tudo cheira a solidão ...

E há pombos nos beirais
que voam de mão em mão,
há esplanadas soluçantes
que dão assento por ali,
ao corpo, ao coração,
ao cansaço dos passantes ...

E cai o Sol sobre a Igreja!
Entardecer meigo e doce
nesta terra de suavidade ...
E ninguém leva o que trouxe
pois na Praça da cidade
nada é como se fosse!

E seja sonho ou realidade
há magia ao Luar
quando desce a luz da Lua
e passe quem passar
sentirá quanta saudade
há nas pedras pela rua.

É que aqui parou o tempo!
Cada rua é um deserto
cada canto uma demora
e o desejo é imenso
pois quem tem Évora tão perto
nunca mais quer ir embora ...

⁠Ser teus pés -

Senhor! Estou perdido nestas horas
incertas que me deste ...
Enlouqueço cada canto do meu corpo,
perco-me de ti e dos sonhos que já tive!
Porque os tive não os tenho
e os que tenho, agora, são tristes,
flácidos e amargos.
Estou partido! Estou disperso!
Há correntes que me prendem ...
Diz-me Senhor se sou digno de ser teus pés!
Diz-me se sou digno de ser teus passos!
Se posso, ao menos, carregar a tua cruz ...

- VIANDANTE -

Ser poeta é meu fado
É tristeza, é solidão
Talvez seja um cansaço
A caminho do coração.

Desisti de saber quem sou
Nesta viagem errante
E não saber aonde vou
Faz de mim um viandante.

Vou dormindo o meu destino
Embalando a dor no peito
Como a vida d'um menino,
Recém-nascido, no leito.

As coisas são como são
E aceita-las sendo assim
É sofrer de mão em mao,
Chorar, chorando só por mim.

⁠Caso perdido -

Hoje calei os gritos que trazia
à solta no eco do meu coração,
e não sei, mas sinto que me prendia
um não sei quê cheio de dor e solidão!

É em mim a dor de todos os Poetas,
amargura, silêncio, mágoa e saudade,
e não me alembro de querer este destino
que me prende a outro tempo sem idade!

As trevas d'onde vim gritam-me ao ouvido ...
Matei todos os Sonhos! Sepultei a meninice
pois nunca deixarei de ser um ser perdido!

Não fui nada porque a vida não deixou!
"- O teu destino é assim!" Alguém o disse.
E o que sobra, agora, é nem saber aonde vou ...

⁠Silêncios Negros -

Se a minh'Alma fosse vista a olho nú
que viriam os olhos que me vissem?!
Nada mais que cicatrizes indiscretas
no plaino abandonado que atraíssem ...

Lírios de um roxo macerado e triste
plantados ao sabor das dores que vivi
silêncios negros de tantas horas vãs
embebidos naqueles sonhos que perdi!

E uma infinita tristeza viriam
os olhos dos gentios que me vissem
se vissem p'ra lá dos lábios que sorriem...

E quando a custo um sonho me desponte,
sinto a velha Esperança que senti, de ser feliz,
mas nada acontece, no meu velho horizonte!