Coleção pessoal de Eliot

1 - 20 do total de 309 pensamentos na coleção de Eliot

⁠Nunca é tarde -

Nunca é tarde demais para viver
nunca é tarde demais para amar,
nunca, nunca é tarde para saber
que a vida é feita a caminhar ...

Nunca é tarde demais para cantar
nunca é tarde nas malhas da esperança
há dias p'ra sorrir outros p'ra chorar;
depois da tempestade vem a bonança ...

Nunca é tarde (mesmo que seja tarde)
p'ra saber que a vida nunca passa
sem nos dar outra oportunidade!

E o desalento que nos abraça
veste a nossa Alma de saudade ...
Mas não é tarde ... a vida nunca escassa!

Ricardo Maria Louro

⁠Penso em Ti -

Penso em ti quando o mar alto e profundo
minh'Alma alcança. Quando sou silêncio e luto
sinto em meus olhos os olhos deste mundo
com sonhos destronados e confusos.

Penso em ti em cada dia e segundo ...
À chuva, ao vento, por entre a noite sossegada!
E é tão pura a paixão de que me inundo
que não te tendo a ti não quererei mais nada ...

Penso em ti com a dor das velhas penas
que o destino num tormento me concedeu
rodeado, numa cama, de assucenas.

E ainda mais te quererei depois da morte
pois recordarei o que a minha Alma já sofreu
até a minha infância densa e forte!

Ricardo Maria Louro

⁠Dia de Portugal:
Esse Porto do Graal;
essa Terra Lusa
tão cheia de Mistérios e de Glórias...
Não queria pertencer a outra Pátria!

Ricardo Maria Louro

⁠O que a Morte não pode tocar -

Grato estou por ter amado o que a morte pode tocar!
Grato à Vida, grato ao tempo e ao Destino
por me ter posto ao lado gente que por amar
tornou mais belo, mais inteiro o meu caminho.

Amo os mortos e os mortos dos meus mortos ...
Para sempre! Guardo-os na memória! Estão em mim ...
Eles foram tanto! Não apenas corpos
agora abandonados subjugados a um fim.

Eu amo a vida que ainda habita os mortos
a que está além da forma incapaz de ver
que aqueles que eu amei habitam noutros Portos.

Navegam noutros barcos no cimo de outro mar ...
Todos estão em mim e na certeza de me saber
grato por sentir que isto a morte não pode tocar.

Ricardo Maria Louro

⁠O que a Morte pode tocar -

Que terrivel é amar aquilo que a morte pode tocar ...
Porque a morte chega cedo e cedo é sempre,
a vida, longa ou breve é curta, finda o ar,
quem sofre, sofre sem parar a dor que sente.

P'ra quem fica resta a pedra de uma lousa
p'ra quem parte é arremedo de um principio
e um silencio vago; infinito pousa
sobre o corpo de quem fica amargurado e frio.

Nao chorem nunca sobre os figados da morte
porque somos parte das suas entranhas
na bussola da vida com destino a Norte.

Mas havemos de chegar a algum lugar
porque tarde ou não ninguém foge às suas manhas ...
Que terrivel é amar aquilo que a morte pode tocar!

Ricardo Maria Louro

⁠Não se prendam à minha imagem.
Ela é uma mera "carcaça" que o tempo
se irá encarregar de apodrecer.
Leiam antes os meus versos.
É neles que íntima e verdadeiramente me podem encontrar ...

Ricardo Maria Louro

⁠A Treva Obscura e Densa -

A minha Alma ignota e agreste, sempre triste,
incapaz de procurar felicidade e alegria
nas demandas que vive, em que persiste,
deleita-se nos versos e na poesia ...

Traz consigo a treva obscura e densa
a profundeza da dor que se perpetua
eterna, prolongada, palpitante, extensa
e a vida que à sua volta continua ...

Eu sou angustia, desalento e mágoa
sou um espelho sem reflexo em parede fria
sou o rio por onde já não passa a água ...

Já não tenho uma familia de pertença!
E porque sou ignorado dia-a-dia
sou silêncio ... sou a treva obscura e densa.

Ricardo Maria Louro

⁠Ecos Silenciosos -
(Sonho)

Ontem, na madrugada dos meus dias,
cheia de choro e neblina,
sombras passearam-se por entre os
meus sentidos ...
Não me lembro o que queriam,
apenas as senti, rodearam-me na cama,
tocaram-me no corpo ...
Quem eram? De onde vinham?
Que angústia, que lamento, que dor as
trespassava?! ...
E havia um véu, uma espécie de cortina
entre nós! Como se de duas realidades se
tratasse!
Tive medo! Não sabia o que pensar ...
... seti-lhes as penas.
Ofegante, despertei, tinha o olhar vidrado
nas vozes daqueles Ecos Silenciosos ...

Ricardo Maria Louro

⁠ Uma Vida sem mim -

Já te habituaste a uma vida sem mim ...
Tem ao menos a coragem de assumir
que não tivemos principio nem fim
na história deste livro por abrir!

Na verdade não pensaste em nós dois
naquilo que podiamos viver;
tudo oque fomos ficou para depois
e até nós dois ficámos sem saber ...

Nada resta do dia em que te vi
mais brilhante que o Sol do amanhecer
quando o meu coração bateu por ti.

Quando a minha Alma pensou saber
que eras toda a minha vida e senti
que era a ti que me haveria de prender ...

Ricardo Maria Louro

⁠Novo Epitáfio -

Aqui jaze
o corpo de um Poeta
que foi ao encontro
da Mulher da sua Vida:
A Morte!

Ricardo Maria Louro

Lápide Funérea -

⁠Aqui jaze
o corpo de um Poeta
que trocou as glórias
deste mundo
pelo Salão de Banquetes
da Eternidade ...

Ricardo Maria Louro

⁠Os poemas surgem do nada
quando o nada é tudo.
E mesmo assim,
na incompreensão de ser é que
me sei perfeito e inteiro,
mais que o mundo, mais que a vida ...
A própria morte!

Ricardo Maria Louro

⁠As Armas de Portugal
no lado esquerdo do corpo
e Cristo nas mãos ... Sempre!

Ricardo Maria Louro

⁠Lotes Vazios -

Uma mão cheia de nada é o que
trago entre os dedos ...
Silêncio, vazio e solidão,
o que de mais inteiro e profundo
habita cada homem!
É um quase sonho de chegar a
qualquer parte, uma quase-vontade,
um quase ser capaz de pronunciar
o teu nome!
Talvez seja egoista este querer estar
sozinho,
este renegar querendo-te,
este pensar sentindo-te
este amar distante ...
Que estranha forma de sentir
tão cheia de poeira e loucura.
A minha Alma está cheia de Lotes Vazios!
Uma mão cheia de nada ...

Ricardo Maria Louro

Dai-me um pouco de Sol -

Dai-me um pouco de Sol
dai-me um pouco de vida
porque ai das Vidas sem Sol
ai das vidas sem Vida!

Porque ai dos olhos sem luz
ai dos rostos sem sorriso
ai do Calvário sem Jesus
que até da morte é preciso!

Ai dos homens que não sonham
ai daqueles que não choram
ai de todos os que ponham
os seus sonhos no que adoram!

Tudo é vago e passageiro
nada Está eternamente
o Destino é derradeiro
ninguém vive para sempre!

Ricardo Maria Louro

Há em mim -

Há em mim
paladinos abismos calados
de que temo falar ...

Há em mim
a vontade de ser que nunca fui
mas que pulsa no destino ...

Há em mim
uma sequência de infinito
sem lei nem preconceito ...

Há em mim
brisas de rosas fechadas
tingidas p'lo Luar ...

Há em mim
um não sei quê d'ilusão
que me veste de silêncio ...

Ricardo Maria Louro

Corações Inquietos -

Há corações indefinidos
a palpitar em muitos peitos
sonhos sem esperança, perdidos,
agonizando em tantos leitos!

Vontades separadas de si
mesmas, à deriva sem amor,
incapazes aqui ou ali
de ver o mundo além-da-dor!

Estou suspenso! Estou incrédulo!
Incapaz de entender o mundo
ou a tristeza deste século
que nos abraça moribundo ...

E passam dias caiados
pelo medo! Casas sem tectos
cheias de sonhos arrasados
por tantos corações inquietos.

Ricardo Maria Louro

⁠Sem dinheiro nem Deus - o mundo de hoje -

O Mundo vive, neste momento, uma longa noite interior. As certezas foram abaladas. Os corações permanecem em silêncio na esperança que o dia renasça. A antiga ruptura com Deus tornou os Homens vazios, austeros, distantes, tantas vezes incapazes de perceber a importância de nos "virarmos para dentro" em momentos de intranquilidade e tristeza como estes que vivemos.

E o que temos? Com o que ficámos? A Pandemia tirou-nos as nossas seguranças exteriores! E agora o que fazemos sem vida social? Para onde nos podemos virar? Sem dinheiro nem Deus quem somos? O que faremos?

Dizem os Orientais que para que tudo mude é preciso que algo não mude e isso que não muda é a própria vida na sua essência. Continuamos vivos e somos vida por isso há esperança. A vida como centro emanador de energia permanece em nós e fora de nós. Tudo o resto é vão. Estamos vivos! Somos vida! Só precisamos tomar consciência desta enigmática mas profunda realidade. Realidade que nos antecede, que antecede a existência, que antecede a própria vida.

O mundo desmorona aos nossos olhos e nós não lhe podemos acudir. Somos impotentes. As sociedades caem como um imenso castelo feito de cartas. A politica como a conhecemos já não serve, é oca. É preciso servir a politica e não servir-se da politica. É preciso mudar padrões, valores, registos ... É preciso rever prioridades, reaprender a revermo-nos nos olhos dos outros.

A morte espreita impiedosa, astuta, a cada canto da vida. E como reaprender o que não soubemos intuir?! A sociedade não nos preparou para tudo aquilo que estamos a passar. É urgente despertar para uma vida interior.

Muito tenho ouvido falar em sacrifício e nos sacrificados da pandemia.
A Culpa, o julgamento e o medo são os três "nós psiquicos" que impedem o Coração de abrir à dimensão da Alma. Infelizmente a humanidade evolui através do sofrimento. O sofrimento que aceita e integra. Quem ultrapassa as dificuldades que vive nunca mais é o mesmo. Esquecemo-nos de que tudo o que acontece de ruim na vida de cada um é para a melhorar, transformar, reerguer, reconstruir. É isso que nos está a ser exigido neste momento pela Natureza.

Todas as renuncias deveriam implicar uma dimensão "lavada" de sacrificio,
pois Sacrificio, vem de SACRO OFICIO, ou seja, Oficio Sagrado.
E todo o Oficio Sagrado deveria ser um serviço que une os Seres Humanos, cada Ser a outro Ser, todos os Seres. Um Oficio Amoroso que dimensiona e integra
o Coração!
Um sacrifio deveria ser um Acto-de-Amor. Assim demonstrou Cristo
ao dar a sua Vida para Ensinar que só o Amor Salva.

O que ocorre é que muita gente que acredita apenas se identifica
com o peso do seu sofrimento tantas vezes marterizando-se, esquecendo a ressureição como meta final. Em analise profunda,
os homens de hoje culpam-se,
julgam-se e teem medo.
Bloqueiam o acesso às suas Almas,
ao Sentir mais vasto e profundo que os habita.

A Natureza da qual fazemos parte está a obrigar-nos a meditar neste dilema e a dar-nos a oportunidade de uma profunda transformação interior. Porque o dinheiro hoje perde-se amanhã ganha-se mas o amor não, a vida não.
Quem vive do medo nunca poderá identificar-se
com uma renovada noção de sacrificio
onde o peso dos actos que pratica ficariam "lavados" pela dimensão Amorosa
que lhes deveria injectar.
Não sabemos fazê-lo. Ninguém nos ensinou.
Qualquer acto, apesar de doloroso,
ao ser identificado com o Amor
fica Baptizado, renovado.
Muitas vezes encontramos seres
que procuram ajudar os outros
sem antes se terem ajudado a si mesmos.
O que é uma fantasia! São seres que fogem
de si próprios em busca no exterior de algo
que só dentro poderão encontrar,
a Paz.
Por lá passei nessa curva do caminho.
Passei e não fiquei, senti e libertei,
morri e Ressuscitei!
Quando se sente que a Vida é um "fardo"
é tempo de reflexão sobre quem somos
e o que estamos a fazer de nós mesmos. Este é o momento. É a hora.
É tempo de verificar se transportamos
coisas que não são nossas e libertarmo-nos delas.
A Vida ensina a Liberdade de Espirito,
de Alma, de Consciência.
Alguém de quem gosto muito afirmou um dia que Amor é Consciência e Consciência é Amor.
Ninguém nos pode dizer quem somos
ou o que fazemos aqui,
somos nós que temos que o descobrir.
No fundo, estar frente-a-frente
com a Ordem do Universo que é Deus,
sem intermediários.
Ninguém atrai peso superior às suas forças! O destino é apenas
a consequência do mundo interior que cada um transporta consigo mesmo, por isso, há que modifica-lo para modificarmos as nossas vidas.
"Conhece a Lei e sê Livre"
dizem os orientais na sua imensa sabedoria.
Quando alguém se assume como "sacrificado"
não cumpre um Oficio Sagrado, um Acto-de-Amor.
Cumpre uma pesada pena que se deu a si mesmo para
se "auto-flagelar" pelo peso das suas culpas.
Culpa-se, julga-se e fecha-se no medo ...
Atenção!
Que se rompam velhos padrões e se conscencialize um Novo Tempo pois é tempo de Amar sem bloqueios ou falsas virtudes. Um novo mundo construído agora nos espera mais adiante. Não adiemos esse futuro tão promissor pois é no presente que se constrói o futuro.

"Coragem! Porque coragem não significa ausência de medo!"

Ricardo Maria Louro

Procissão dos Passos -

Do Espírito Santo sai a procissão
o povo triste vai calado
Calado e triste em cortejo ordenado
triste calado o Senhor ensanguentado!

Entardecer ... sombras vacilantes
caminham p'la cidade sem vacilar
negro vestir, magoados caminhantes
avançam pela luz crepuscular.

A banda toca com empenho
desce o pálio roxo sobre o Bispo
nas ruas só há espanto pois é visto
que o Prelado leva o Santo Lenho.

Adiante os Martirios do Senhor
as Aias de Braçadeira roxa
nas alas os fiéis cheios de dor
choram, pedem, rezam com fervor.

E aonde irá Jesus
nestes Passos do caminho?
É imensa a sua Cruz
seu manto roxo de arminho!

Na Praça do Encontro
sua Mãe espera de rastos
encontra o Filho em tal estado
fica seu peito trespassado.

Segue a procissão! Passos tristes e inteiros
ordenados por Évora amargurada
marcha o povo contristado em oração
como a noite que antecede a madrugada.

(Dedicado à solene procissão do Senhor Jesus dos passos de Évora)

Ricardo Maria Louro

⁠Eu Amo -

Eu amo a esperança que há no mundo
quando nós andamos de mãos dadas
e amo a vasta calma que há no fundo
das horas que a vida traz marcadas!

Amo os abismos que se alinham
em cada minuto que vivemos
e até das coisas que se adivinham
eu amo a esperança que perdemos!

Só não amo o que amo por amar!
Não sei amar o que não sinto
nem sinto amor se não me tocar ...

A vida é muito mais que simple instinto:
um abraço, um beijo, um olhar,
o gesto de ternura de um faminto!

Ricardo Maria Louro