Coleção pessoal de Eliot
É inútil acreditar -
É inútil acreditar
quando alguém já nos mentiu
fere sempre até sangrar
da mesma forma que já feriu.
Uma espada de dois gumes
que trespassa até matar
duas chamas num só lume
é inútil acreditar.
É inútil acreditar
em olhos que já mentiram
insistem sempre até magoar
num amor que não sentiram.
Mas um dia há-de haver fim
o que começa há-de acabar
nessa história, ai de mim,
se voltar a acreditar.
Perguntei ao teu olhar -
Perguntei ao teu olhar
se tinhas por mim amor
mas dissestes a chorar
não perguntes por favor.
Quando a Alma nos agita
e as palavras contradizem
as verdades que não ditas
só os olhos no-las dizem.
Mas se os olhos nunca mentem
porque o faz a tua boca
que eles digam o que sentem
pois a vida é tão pouca.
O silêncio também fala
quando tira a voz da gente
quando a tua boca cala
o teu rosto nunca mente.
- Desabafo -
Há coisas que não doem porque já doeram,
medos que chegam sem chegar, e quando chegam,
não passam de temores, agruras, enfados, abanões ...
Há gente que vai e vem num continuo movimento de cumprimento e despedida,
e é nesse tempo do meio, entre chegarem e partirem, que estamos nós, parados, incólumes, em silêncio, a apreciar uma viagem circular.
Porque quem se vai, um dia torna, mas quando volta, já nem sempre os esperamos ... e adeus, sigam o destino ...
E há milhares de sentimentos que já sentimos: desilusões, tristezas, altos e baixos, momentos de solidão ...
Os sentimentos são como as pessoas, vão e veem, chegam e partem, mas quando voltam, já não os recebemos do mesmo modo. Tudo porque já um dia os acolhemos e já um dia nos abandonaram.
Hoje tenho medo! E não é fraco quem diz ser! É forte! Coragem não significa ausência de medo. Porque todo o corajoso tem medo, por isso é corajoso ...
Hoje visto-me de medo! Como com o medo! Bebo com o medo! E durmo com o medo, vivo com o medo ...
Um medo diferente, bem o sei, mas medo!
Minha casa, minha cama, meu fado, meu jardim d'angustias e solidão!
Dou-te a minha mão, olho-te nos olhos e desabafo: AMO-TE!
Ricardo Maria Louro
Café a Brasileira
Chiado/Lisboa
- AO VER-TE DAQUI -
É tão estranho hoje ver-te, ao ver-te daqui,
O amor quando chega a gente não espera,
A vontade de amar que um dia perdi
Talvez volte por ti, ai quem me dera!
Nem mar ou silêncio ou vendavais que vivi
Nada é mais triste que o amor que matei
Mas tenho medo de sofrer o que já sofri
Passar por aquilo que um dia passei.
Não quero voltar a chorar por ninguém
Nem mesmo que a vida um dia mo pessa
O amor que te tenho não veste o desdém
Haja o que houver, aconteça o que aconteça.
Já nada me espanta, já nada me espera
Já não quero sentir o que um dia senti
Acabou o Inverno, já é Primavera
E assim nasceu este amor que sinto por ti!
- QUEM DERA PODER NASCER DE NOVO -
Quem dera poder nascer de novo!
Ser diferente do que sou -mais feliz!-
Voltar alegre ao colo de meu Avô
E não lembrar a vida que já vivi ...
Quem dera poder nascer de novo!
Rasgar os tristes horizontes que guardei,
Deixar partir o passaro perdido, o corvo
adormecido, que ao meu destino acorrentei.
Quem dera poder nascer de novo!
Esquecer de quem um dia me fez mal
Sentir dentro de mim que os absolvo
E acreditar que nada mais será igual...
Mas tal coisa não irá acontecer!
Sou assim: vivo à margem deste povo,
Só esperando pela hora de morrer,
P'ra quem sabe, poder nascer de novo ...
- CERTEZA VAGA -
Na solidão dos dias parados
Há esperas inúteis que nos doem
E há olhares do tipo cansados
Que nos entristecem e consomem.
No peso das horas marcadas
Há em nós suspiros profundos
E há mágoas que pesam, cansadas,
Em busca d'encontrar outros mundos.
Na loucura d'encontrar o amor
Fiz d'amargura um grito maior
E no passar dos dias, à dor,
Conheci-lhe os sonhos de cor.
Afinal ... Nem sei bem da onde vim!
Nas esperas inúteis que nos doem
Tracei um caminho de ti a mim
E meus sonhos já não vivem só morrem!
Mais vida -
I
A vida é um mistério sem tamanho
Às vezes uma pressa que nos cansa
Quem ama por amar tem tudo ganho
A vida é um poema que nos alcança.
A vida é como um rio que segue o leito
O sonho no olhar de uma criança
Um forte coração dentro do peito
A vida numa palavra é confiança.
REFERÃO
E um dia hei-de dar mais voz à vida
Saber que a solidão não é mais forte
Romper qualquer amarra com a morte
E um dia hei-de dar mais vida à vida!
I I
Há vida no olhar de quem se ama
Na boca quando fala uma verdade
No corpo de um poeta feito lama
Há vida em cada gesto de saudade.
Há vida num silêncio feito grito
Num pássaro que voa sem destino
No eco de um adeus que não foi dito
Há vida em cada passo do caminho.
Outro dia -
I
É triste sentir que a esperança é coisa rara
ninguém encontra um caminho ou direcção
tanta gente que se dá e só embala
saudades, lado a lado, a par de coração!
E quando passam todos há silêncio
na raiz da noite tudo é em vão
e já ninguém se esconde, é permanente
viver amargurado em solidão!
Refrão
Mas sei que a vida traz sempre um caminho
creio no amor mais forte que o vazio
pois sinto que sonhar não é fantasia ...
Porque pomos tantas dores no destino
se a vida vai passando como um rio
nas margens do silêncio, dia-a-dia!
II
Há tantos ódios pelo mundo a dançar
penetrando o amanhã, 'inda por vir
e é fácil ser diferente, basta amar
como o Sol que se levanta a sorrir!
A esperança nunca morre, diz o Povo,
a vida nunca acaba, diz a esperança!
O que falta a cada Homem é amar de novo,
sorrir, acreditar, voltar a ser criança...
(Des)Campanha politica -
Há p'las ruas da cidade
Muitas caras em cartazes
Uns sinceros, com verdade,
Outros disso tão incapazes!
Quem são uns ou quem são outros
Não me cabe a mim saber
Mas que saibam aqui todos
Há um ratado a bem d'zer!
Que haja ratos na cidade,
Já sabemos, teem manhas!
Mas comem por maldade
Os cartazes das campanhas?!
Ainda há uns impecáveis
Limpos, claros, sedutores,
Mas os mais indesejáveis
São rasgados por doutores!
Foi só um o maltratado!
Até um dente lhe faltou!
Mas quem seria o irritado
Que ao seu charme se curvou?!
Ora deixa lá Henrique
Que o teu nome já é Sim
Que este gesto prejudique
Quem traçou nele o seu fim!
Há muito que nesta Praça
Não se vê que haja Lei
O que irritou foi teres Graça
Só por teres o ar d'um Rei!
Fiz um poema -
Fiz um poema:
Rimei esperança com virtude
saudade com cegueira
distância com regresso
nada com vazio
e água com poeira!
Fiz um poema:
Rimei silêncio com amor
alegria com paixão
medo com pavor
e o teu olhar
com coração!
Aquela Cruz -
Lá no alto, aquela Cruz
tem um Cristo cansado;
pobrezinho, não tem luz
abandonado, ó Bom Jesus
por mal do nosso pecado!
E uma tão bela Mulher
chorando ao ver tanta dor;
disse, não posso viver
sem a vida me dizer
porque mataram o meu Senhor!
Tristemente Jesus morreu
numa tarde sem amor;
e uma voz se ouviu do Céu
vem a Mim ó Filho Meu
que esse mundo só traz dor!
E os homens desde então
por este gesto numa Cruz;
puderam ter em comunhão
a cada Passo da Paixão
o Corpo e Sangue de Jesus
Conversão -
É loucura não saber de onde se parte
sempre que se parte de algum lado,
para amar, precisamos de ter arte,
ser fortes p'ra fugir do que é errado!
Tantas vezes que afinal nos enganamos
com olhos que nos olham sem verdade
porque erradamente acreditamos
que esses olhos são olhos de saudade!
Deixa Deus falar-te ao ouvido
só Ele te pode encaminhar na vida
e mostrar-te qual é o teu sentido ...
Entrega em oração o teu penar
e abre o Coração a Esse Amigo,
pois Ele, jamais te irá abandonar!
Sino da Fome -
Quando se ouvem badaladas
Desse sino solitário
Fala a fome das consagradas
De Santa Helena do Calvário!
No silêncio da cláusura
Entre o dia e a penumbra
Grita o sino por ternura
Contra a fome que se apruma!
E as Trindades vão soando
E a fome vai batendo
Toca o sino de quando em quando
E à Abadessa vai morrendo!
E não há quem não pereça
Ao saber que num Sudário
Morre a última Abadessa
De Santa Helena do Calvário!
Dor sem rosto -
Sou na vida um filho triste
sou um pobre solitário
sem presente nem passado
a viver neste Calvário.
No silêncio dos meus olhos
inclinados para o chão
trago medos, deixo culpas
nos caminhos da paixão.
Desde a hora em que nasci
que a minh'Alma ferida canta
que o destino me enrolou
uma corda na garganta.
Na fraqueza dos meus braços
sobre o peso desta cruz
já não rezo, só já canto,
porque eu ó Bom Jesus?!
Pela Rua da Amargura
vou sofrendo sem falar
tantas vezes minha mãe
tu me vens aconchegar!
- IMPOSSIVEIS -
Há pessoas de quem os olhos não se esquecem
por quem a pele grita, outro instante!,
pessoas por quem os sonhos adormecem
na esperança que estejam mais presente!
A boca, o toque, o odor, o paladar,
tudo grita em nós o nome dessa dor
e os olhos cheios d'amargura teimam em chorar
carregando de noite a memória desse amor!
Mas a vida é mesmo assim, dá e tira,
é um vendaval de sonhos, vai passando,
e o que fica é a perda que em torno gira,
de quem se deu, acreditou e foi sonhando ...
E O MUNDO CONTRAPÕE
I
Da natureza deste mundo de vaidade
nada resta além do que é triste e banal,
ser Cristão é assumir uma Verdade,
ser Bem-Aventurado, não ser igual!
Felizes dos que são pobres em Espirito!
E o mundo contrapõe: Felizes os poderosos,
aqueles que dominam, os que dando um grito
dizem, coitados desses tolos generosos ...
Felizes são os mansos de coração!
E o mundo contrapõe: Felizes são aqueles
que estando em solidão geram violência e solidão...
Felizes daqueles que choram p’lo caminho!
E o mundo contrapõe: Felizes daqueles
que tendo tudo sentem que mandam no destino ...
II
Felizes dos que querem a Vontade de Deus!
E o mundo contrapõe: Feliz és tu se fores livre
de um Deus ultrapassado que diz que vais p’ro Céu
se sofreres em silêncio e o seguires ...
Felizes dos que tratam os outros com Misericórdia!
E o mundo contrapõe: Não se impressionem
com a miséria nem a fome, elas são próprias
da natureza humana, não se emocionem ...
Felizes são os sinceros de coração!
E o mundo contrapõe: Felizes dos que mentem
porque a mentira alimenta a elevação ...
Felizes os que constroem a paz entre todos!
E o mundo contrapõe: Felizes dos que não sentem
medo de viver em guerra dominando os outros ...
III
Felizes os que são perseguidos em nome de Deus!
E o mundo contrapõe: Felizes os que sobem na vida
sem pensar nem olhar a quem sofreu
gerando em seu torno dor e dúvida...
Eis a diferença entre dois reinos tão duais!
O Reino de Deus não é o reino dos Homens!
O Céu e a Terra são realidades desiguais
onde alimentos tão diferentes se consomem ...
E continua a ecoar no mais dentro de nós:
“Sede hospitaleiros com os outros!”
Façam-no sem murmurar! Guardai a voz ...
Acolhei os Peregrinos, dai as mãos,
vede, todos os cuidados serão poucos
porque Cristo está no olhar de cada Irmão!
Inspirado no discurso do Sr Reitor Manuel Maria Madureira da Silva, Cónego da Sé de Évora e Prior de Santo Antão em noite de Novena à Senhora da Conceição na Catedral de Évora.
Évora 5 de Dezembro de 2017
- CASA DO COMENDADOR -
Naquela casa esquecida
Há janelas de saudade
Um brasão desenhado
E uma história perdida
D'um morto consagrado.
Pássaros sem asa
Olhares sem vida
Gente que sofreu
E quem por lá passa
Diz: "A casa morreu!"
O tempo falou
Nas paredes caladas
Mas a Alma da casa
Em nada mudou!
Alguém a abraça ...
Retornou o passado,
A casa renasceu!
E numa hora estranha
Viu-se a Tez do Fidalgo
Dom Infante Paçanha.
Poema ao Solar brasonado de Dom Infante Paçanha no centro histórico de Ferreira do Alentejo.
Um Piano na Sala -
Na solidão dos dias cansados,
num apanágio de silêncio,
há um Piano na Sala ...
O barulho das gentes
vai e vem e volta sem sentido!
Nos rostos cansados, severos,
que a parede proclama,
suspendem-se os gestos
de quem está.
No ar ... o Piano ... a musica ...
... a voz suspensa, calada,
dos estáticos homens
e a voz dos que vivem, sentem
e falam ... tudo no espaço
em torno do Piano!
Há Poesia no ar ...
E a musica ... sempre a musica
... união entre mundos!
- SOL TRISTE -
Nos braços do sofrimento
tudo é nulo, tudo é vão,
e é em vão o pensamento
que dá voz à solidão ...
Sol triste dos dias meus,
dá luz aos meus cansaços,
traz-me novamente Deus
p'ra que eu durma nos seus braços.
Mas se vier a Primavera
e eu já tiver morrido,
(ai Senhor, ai quem me dera)
nestes versos estarei vivo!
Já que a dor está no sangue
esconde ao menos quem a fez
p'ra que a Alma sempre cante
mal lhe doa outra vez ...
CANTIGA DE ESCÁRNIO E MALDIZER:
Quando as tripas te doerem
Ou tiveres diarreia
O XANAX, é bom saberem,
Faz passar, é boa ideia!
Na farmácia Malagueira
A Crispina ao balcão
Dá XANAX p'ra cegueira
A quem vem com comixão.
Aos jantares de Natal
Só lá vão os coitadinhos
deixa estar que não faz mal
Serão sempre pobrezinhos.
Um XANAX, é bom saberem
Faz passar a diarreia
Quando as tripas te doerem
Bota-a-Baixo, é boa ideia.
