Coleção pessoal de Eliot
Desabafo sem medo -
Eu canto porque o meu canto é da cor
do sangue,
porque o meu sonho é maior que o mar
e porque a vida tem de cumprir-se!
E outros dias virão!...
E com eles outros versos
menos amargurados, mais sentidos,
como pedras primeiras, bem alicerçadas,
na reconstrução de vidas destruídas!
A tristeza dos dias tumultuosos secará,
a fonte dos meus olhos minguará
e o poeta poderá enfim cantar...
Praia Deserta -
Naquela praia deserta
deixei outrora um amor
e a solidão que me aperta
veste o meu corpo de dor.
Passou o tempo e a idade
naquela praia deserta
só não passou a saudade
que no meu peito me aperta.
O que ficou foi tão pouco
que tudo em mim se consome
gritei então como louco
gritei ao vento o teu nome.
Parti depois sem pensar
da solidão que me aperta
deixei meus olhos no mar
daquela praia deserta.
E outros dias virão!...
E com eles outros versos
menos amargurados, mais sentidos,
como pedras primeiras, bem alicerçadas,
na reconstrução de vidas destruídas!
A tristeza dos dias tumultuosos secará,
a fonte dos meus olhos minguará
e o poeta poderá enfim cantar...
Eu canto porque o meu canto é da cor
do sangue,
porque o meu sonho é maior que o mar
e porque a vida tem de cumprir-se!
Barco antigo -
No cais da minha saudade
Atracou num barco antigo
Que julguei não ver jamais;
Um amor de pouca idade
Que o destino decepou
Em agrestes temporais.
A noite calou meu ser
Senti perto dor e perigo
Senti medo do passado;
Era o medo de te ver
Porque em mim nada mudou
Só a voz neste meu fado.
O barco chegou à praia
Fez-se perto aquele grito
Que deu voz ao alto mar;
E na proa que desmaia
Nesse barco que aportou
Vi um braço a acenar.
Nada trouxe de verdade
Afinal estava perdido
E nós ficámos iguais;
Do cais da minha saudade
Foi-se embora o barco antigo
Que julguei não ver jamais.
Leme -
Na rua do meu silêncio
há um grito de saudade
é como o Céu tão cinzento
nos dias da tempestade.
Quando sopra qualquer vento
na minh'Alma há muita dor
pois na raiz do pensamento
sempre baila o nosso amor.
E no cais de qualquer porto
há sempre alguém que se demora
bailam saudades no meu corpo
como as dores de quem chora.
Alguém chora e não agarra
este meu sentir tão louco
sou como um barco sem amarra
que se afasta pouco a pouco.
Cegos de Amargura -
Às vezes procuramos o que temos
na iminência de inventar felicidade
e ali está, ao nosso lado, não a vemos,
cegos de amargura e de saudade!
Somos da História um filho do meio
à procura d'um lugar que não é nosso
procuramos o que temos, que já veio,
vida que respiro mas não toco!
É tão estranho estar vivo e parecer morto
estar alegre e sentir uma tristeza
que nos invade de lés-a-lés o corpo
deixando a Alma revestida d'incerteza!
Será loucura acreditar na felicidade?!
Será a felicidade feita de loucura?!
Nada existe sem um pouco de saudade
porque a saudade é feita de ternura ...
Tremores -
E eis que na solidão da praia deserta
Caem águas do meu triste olhar,
Mas essa água que me aperta
Não é menos que as águas do mar.
Não me lembro de existir dentro de mim
Algo maior que a palavra solidão,
Algo mais seco que a amargura d'um jardim
Plantado junto aos portais do coração.
Há uma noite enleada aos desejos de cada um,
Um grito, uma metáfora de saudade,
Uma vontade de comer que é jejum
Que a trazemos desde o berço por piedade.
E o que ser para além d'um silêncio sem destino?!
Um planeta sem elipse, uma curva,
Uma pedra só, pisada no caminho,
Um punhal numa fonte de água pura!
Tem cuidado -
Tem cuidado com quem diz gostar de ti!
Muitas vezes é o tempo de criar
uma teia de mentiras aqui e ali
deixando-te à mercê de bocas sujas a falar.
Na verdade, de promessas está o inferno cheio,
de gente que por lá perde a sua Alma,
coitado de quem trái o bem alheio,
será abandonado por quem ama ...
E quem jura e rejura em falso, por seu mal,
nesta vida pagará essa mentira,
do inferno lhe há-de vir um catarral!
Nada mais há a dizer do que obrigado!
A roda do destino, não pára, sempre gira,
por isso, meus amigos, tenham cuidado.
Hei-de rir-me -
Diz o povo e muito bem
Quem vê caras não vê corações
Mas o povo diz também
Que se apanham os aldrabões.
Quem vive alegre de traição
Ou de promessas sobre os Mortos
Há-de morrer do coração
Apodrecendo-lhe nos corpos.
Pobre gente da intriga
Cuja língua é veneno
São mais tristes que a lombriga
Que lhes vai no pensamento.
Hei-de rir-me dessa gente
Ao vê-los tristes por aí
Hei-de vê-los de repente
Caídos onde eu caí.
Cobras Condenadas -
Quando se acredita em alguém
que diz ser verdadeiro
e grita amar-te a uma voz
não se percebe como vem
a calúnia e o mau cheiro
da mesma boca contra nós.
É mentira e nós não vemos
mas até desconfiamos
quando jura sempre em falso
dessa LAIA não seremos
e é por isso que deixamos
que se enterre passo-a-passo.
E depois quando te afastas
conta tudo à sua maneira
porque pensa que te enterra
o teu silêncio serão facas
porque a matas na fogueira
da mentira onde ela BERRA.
Essas cobras venenosas
com bom ar e elegância
que vagueiam por aí
morrerão todas ranhosas
do veneno e da ganância
que destilam contra ti.
"S. Miguel" perdeu a espada -
É mentira é mentira
É mentira o que ela diz
Aldrabona, mentirosa
Vê-se logo no nariz!
Interessou-se por alguém
Que eu não quis e não a quer
Muito pura, muito casta
Tinha fome, quis comer!
Ai coitada, pobrezinha
Foi p'ra Lagos e voltou
S. Miguel como previsto
Nem com um dedo lhe tocou!
Ou o Santo perdeu a ponta
Ou ela está desesperada ...
Mas todos sabem na verdade
Que o S. Miguel perdeu a Espada!
Será que o Santo é maricas
Ou a velha está usada?!
Destas velhas, destes Santos
É melhor não esperar nada ...
Nã passes tã fria -
Nã passes tã fria à minha igreja
Que me dexas triste, sem acção,
A conversa é forte, c'mas cerejas
Vê lá se cais num cagalhão!
Nã! Nã passes tã fria por alí
Que assim até perdes a razão
Anda, anda daí até aqui
Talvez, 'inda tenhas salvação!
Mas tu já não tens a salvação
Nas costas tens uma marreca
Só já te resta o cagalhão
E uma vida de pileca!
Filho do Passado -
E há silêncios na rua do meu medo
por entre as vagas ondas d'um Sol abrasador
e páira pelo ar o suspiro d'um segredo
deixando em quem lá passa desamor.
Sou na vida um deserdado sem esperança
um filho do Passado só e triste
Alguém que já perdeu a confiança
numa vida que não vive, só resiste.
Sou um filho da poesia, endiabrado,
a pausa entre as notas que faz a melodia
a memória d'um mendigo rejeitado
que vai matando a vida dia a dia.
Sou alguém qu'inda se lembra do ter sido
uma culpa que não tem pai, bastarda,
os olhos d'um desenganado, vencido
ou até o Pranto de Maria Parda.
Bota - Abaixo -
Bota-abaixo as bocas sujas
Que vagueiam pelo lixo
E adoram pôr-te culpas
P'ra fugirem, bota-abaixo!
Aos que juram com maldade
Sobre os mortos, bota-abaixo!
A quem trai uma amizade,
Denúncia, bota-abaixo!
Quando pensam que te enganam
O que fazes?! Bota-abaixo!
Quando há nomes que te chamam
Fazes bem: bota-abaixo!
Fica longe da gentalha
Desses ninhos que é só lixo
Bota-abaixo essa canalha
Tu não queres nem papas disso!
Marafada -
Lá vai ela p'la calçada
vai tão bela e formosa
onde será a barracada
dessa triste mentirosa!
A cabeça está vazia
nas mãos leva mentira
no passar de cada dia
mais parece a pomba-gira ...
... e gira ... gira ... gira ...
tão rodada que ela é!
É rodada a pomba-gira
mesmo igual ao que ela é!
Lá vai ela marafada
p'ra lixar algum amigo
lá vai ela endiabarada
fujam todos, é perigo!
Perdas -
Há silêncios magoados
Que nos trazem solidões
Amarguras lado a lado
Em par dos corações.
E há olhares cansados
E há vidas sem destino
Tanta gente sem passado
Tantas perdas no caminho.
O que há eu já não sei
O que sinto também não
Porque a vida a que me dei
Não passou de solidão.
E ao viver de mão em mão
Vivi silêncios magoados
E a par do coração
Amarguras lado a lado .
Há verdades que ficam por dizer
Olhares que falam sem falar
Tanta coisa que fica por viver
E a vida não pára de passar ...
Hão-de lembrar-se de mim -
Hão-de lembrar-se de mim quando quiserem ver-me,
e eu, volvidos tantos anos, estiver morto,
hão-de lembrar-se de mim quando não poderem ter-me,
porque a terra já desfez meu pobre corpo!
Hão-de lembrar-se de mim ao verem nos meus versos
amargura, tristeza, dor e solidão
e hão-de sentir como traição dos vossos beijos
um punhal profundo cravado no coração!
Hão-de lembrar-se de mim, acreditem, ao ler-me,
e sei que me lerão, porque já terei valor,
"Rei morto, Rei posto!", todos me terão amor!
Mas se afinal, em vida, ninguém pôde querer-me,
vale a pena dar valor a quem chegou ao fim?!
Quando as lágrimas correrem hão-de lembrar-se de mim.
Olha -
Olha o tempo que passou
e nada aconteceu
vê a vida que voou
no olhar de quem sofreu!
Olha as vezes que disseste
"este amor não é p'ra nós!"
tantas coisas tu fizeste
que p'ra sempre estamos sós!
Olha a esperança que não veio
que caiu em solidão
no silêncio do teu seio
no vazio de um coração!
Tudo passa e arrefece
até a dor de quem não fomos
na verdade não se esquece
do olhar de quem amámos!
Ao passar pela vida -
Ao passar pela vida
Não levei nada na mão
E ai da minh'Alma perdida
Ai do meu pobre coração.
E houve momentos de comunhão
E houve instantes de poesia
Tantas horas de emoção
No viver do dia-a-dia.
Só a mim levei comigo
E foi muito ou talvez não
Que das saudades contigo
Só ficou a ilusão.
Agonia consentida
Lastro de pura solidão
Ao passar pela vida
Não levei nada na mão.
