Coleção pessoal de Eliot
- SÓ EU SEI -
Só eu sei
quantas horas da minha vida
gastei nos versos que escrevi!
As mágoas que senti
a Solidão a que me dei
o vazio de que bebi!
Só eu sei
a tristeza sem destino
que nos versos arrastei,
a amargura, a saudade,
e quanta saudade, Deus meu!
Tantas horas d'infortunio
e malfazeja que me encheram
de medo o coração!
Tudo tão meu. Tão colado
ao meu silêncio. Tão impresso
em meu destino!
Só eu sei ... Só eu sei ...
Saudade de nós -
Chegaste tarde meu amor
E no silêncio desta dor
Nem sei bem o que senti;
Uma saudade de nós
Ou talvez por estarmos sós
Uma saudade de ti.
As andorinhas não vieram
E as pessoas não disseram
Se voltavas p'ra mim ou não;
Grito e ninguém me responde
Oiço-te mas não sei d'onde
Nos confins da solidão.
Passo a passo sem Carinho
Acendo velas no caminho
Virando os olhos p'ra Deus;
Porque não há maior tristeza
Do que trazer a Alma presa
Ao Silêncio de um adeus.
Eu nem sei onde me perdi
Que tudo me fala de ti
Entre a terra e os Céus;
Mas podes sempre voltar
Porque eu vou por ti esperar
Jamais te direi adeus.
- Tudo me fala de Ti -
Fado
Tudo me fala de ti
Dos Momentos que tivemos
Em cada hora de vida
Das promessas que fizemos!
Tudo me fala de ti
Dos momentos que tivemos ...
Tudo me fala da noite
Dessa noite em que partiste
E do silêncio que ficou
Na nossa casa tão triste!
Tudo me fala da noite
Dessa noite em que partiste ...
Tudo me fala de nós
Nas tristes horas marcadas
Por uma vida sem rosas
Por tantas dores passadas!
Tudo me fala de nós
Nas tristes horas marcadas ...
Tudo na vida me fala
Dessa noite em que partiste
Das amarras que ficaram
No meu corpo só e triste!
Tudo na vida me fala
Dessa noite em que partiste ...
Viagem -
A vida é uma viagem
Um retorno sem imagem
Nos espelhos do destino,
É um grito sem amarras
Um poema sem palavras
Que vivemos no caminho.
O que trago ou não trago
O que canto e dou ao fado
Só eu sei o quanto dói,
Ver nos olhos de toda a gente
O silêncio de quem sente
O quanto a vida nos destrói.
Visto noites e cansaços
No meu corpo, nos teus braços
Na distância, o teu olhar,
Roda a roda do destino
Acendo velas no caminho
Numa pressa de te amar.
Só há Fado e solidão
Esta dor e um coração
Nos meus olhos a bailar,
E no céu da minha noite
Já nem há onde me acoite
Tanta estrela sem brilhar.
Única Razão -
Na imensa tempestade do ser que sou
há redemoinhos d'ilusões agrestes ...
Mas é este não saber aonde vou
que me faz ser mais um entre Ciprestes!
E há sombras de cedros por mim fora,
de mim a mim, um não sei quê de solidão,
chegar é a certeza d'ir embora
procurando outro caminho p'ra razão!
Razão?! Qual razão?! A única razão
que me faz trazer de longe este sentir
é não conhecer o meu próprio coração!
E não reconheço os olhos de minha mãe,
não reconheço os braços, que um dia, a sorrir,
me deram, por destino, este caminho também!
Sou Eu -
Há um muro de silêncio entre nós,
é a hora em que a terra já não gira,
tu e eu, dois corações tão sós,
corpo de promessa, olhos de mentira.
Sou eu, esta voz de quem te ama,
no olhar, na solidão, perdida,
sou eu, sou aquele que te chama,
neste corpo que arrefece, sem vida.
És tu, o meu grito de revolta,
a minha esperança no amor, tão longe,
meu barco sem destino, sem rota,
pelo mar, sem fim, onde se esconde?!
E oiço na noite a voz do impossível,
e avanço devagar na luz que dorme,
sou eu, num suspiro inesquecível,
és tu, um terror que me consome.
- À Mesa -
soneto
Na Solidão da mesa dos meus sonhos
há um hoje tão diferente que pensei viver,
ausência de ternura, d'olhares risonhos,
só há amargura e desejo de morrer!
Há mesa do que sou não há nada do que fui
e a quietude do nada que acontece é fria,
da dor à melancolia, tudo me possui,
tantas vezes que o disseste e eu não via!
Agora é tarde! Não me tenho nem a ti!
E o que tenho afinal não vale nada
porque afinal do teu amor me perdi.
Estou sentado à mesa com a solidão
e na penumbra dos meus olhos consagrada
vou bebendo do meu próprio coração ...
Senhora da Graça -
Num altar feito de pedra
Está a Senhora da Graça
Reluzente e majestosa;
Seu olhar é como a hera
Não se cansa e abraça
Cada casa onde mora.
Nesse altar de azul vestida
Com um manto de cetim
Com seu filho no regaço;
Tal a graça concebida
Que estando perto, frente a mim,
Quase sinto que a abraço.
Seu olhar sereno, é doce,
É em nós timbre de mel
Como o de uma Mãe real;
Mas que graça à vida trouxe
A Senhora tão afável
Que quis ser Mãe de Portugal.
Como um verso feito em prosa
Como a noite que não medra
Ou o tempo que não passa;
Reluzente e majestosa
Num altar feito de pedra
Está a Senhora da Graça.
Oração à Senhora da Graça -
Senhora da Graça
Mãe dos desvalidos,
dos sem esperança, caídos
em busca de um caminho
de Fé e confiança!
Escuta a oração,
a prece, a petição,
que deixamos a teus pés
neste instante de solidão.
Senhora que não descansas
que proteges as crianças
no ninho do teu regaço,
abençoa a nossa mágoa
e alumia a escuridão
que em tantas horas sem vida
nos invade o coração.
Deixamos a teus pés,
Senhora da Graça,
as dores e os cansaços,
os medos e as tristezas,
todos os sem fé,
cada dor dos nossos Passos,
quem nos ama e nos odeia.
Tudo, Senhora,
sobre o vosso altar,
junto à vela que se ateia
ao critério do vosso olhar!
Senhora cheia de Graça,
no teu encanto, no teu sorriso,
o Olhar de Deus esvoaça
e eu encontro um sentido!
Meu porto! Meu amparo!
Minha casa!
Torna as nossas dores
mais leves e o nosso acreditar
com mais esperança.
Senhora da Graça, lança sobre nós
bençãos de amor, de paz e confiança!
O que mais gosto -
Sobrancelhas como as tuas
difícil é havê-las
são laços de fitas pretas
a prender duas estrelas.
Os teus olhos cor da noite
trazem Céus enluarados
quando em noites pela rua
são cantados como fados.
As tuas mãos de silêncio
trazem nos gestos dois fados
são ninhos d'andorinhas
a chilrear nos silvados.
Teu passar inebriante
espalha ternura no ar
na tua voz trannsparece
uma guitarra a trinar.
Quando Deus sangrou as rosas -
Quando Deus sangrou as rosas
golpeou a Primavera
às escarpas deu as rochas
e ao silêncio uma quimera.
Todo o vento é poeira
quando a esperança fica presa
aos escolhos da cegueira
que a vida nos põe à mesa.
E nas minhas mãos vazias
trago um mar feito de pedra
trago tudo o que não vias
o sonho de quem eu era.
Mas a vida continua
cheia d'Almas ansiosas
nosso amor nasceu da Lua
quando Deus Sangrou as rosas.
Paisagem -
Quando subo a Monsaraz há uma paisagem
que penetra na minh'Alma combalida,
abrevio por instantes a viagem
e fixo a água pelos campos adormecida!
E recordo por momentos a infância ...
Nada além de Estevas havia por ali!
Nada mais que a solidão em permanência
na era desses tempos que lá vivi.
Que saudade Deus meu, da tristeza pura
que invadia Monsaraz, pelo Inverno,
e adornava pelo Verão sua planura.
Contemplo aquela Vila! É um barco!
E guardo ainda nos meus olhos o eterno
pôr-do-Sol que sempre vi no mês de Março!
- QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO -
Esta noite é mais longa do que as outras
É uma noite mais fria do que todas
Nunca uma noite foi tão estranha
Como esta de que falam nossas bocas!
Esta noite cheira a ódios sem destino
É a noite que mergulha o mundo em solidão
E há sombras a espreitar em cada esquina
Com vontade de prender um coração!
Esta noite tudo é podre nos olhares
Só há trevas nos gestos e nos corpos
É a noite que jamais terá retorno
Porque prende na tumba os seus mortos!
Esta é a noite em que o Senhor é manietado
Preso com grilhões de um pé à outra mão!
Que estranha noite é esta cheia de punhais?!
É a noite de Quinta-Feira da Paixão!!!
Do teu silêncio -
Na verdade o teu silêncio 'inda me acusa
como a orla da manhã de Nevoeiro ...
Tudo em ti parece um grito de recusa,
nada do que trago, em mim, parece inteiro!
E o que há em nós de tão diferente do que foi?!
Diz-me p'ra que se acabe para sempre o meu penar ...
O porquê de já não sentires quanto me dói
o abandono a que votaste o meu olhar?!
Tudo agora é silencio, angustia e solidão!
Nada mais do que esperança de te ver junto a mim,
tão longe, como tu, do meu pobre coração!
O que está perto é não saber quando te vejo!
Não saber se o teu afastamento é um fim
ou se torno a sentir na minha boca o teu beijo.
Saudade entreaberta -
Eu sou a vontade de Ser que não se encontra!
Sou o grito de revolta, a saudade entreaberta,
sou a noite, o dia que se levanta
na Sintra que se ergue e me desperta!
Eu sou a manhã de nevoeiro densa e baça!
A tristeza de uma mãe que se lamenta!
Sou no corpo um silêncio que me abraça!
Um pássaro no céu em rota lenta!
E há sonhos nos meus olhos de mãos dadas,
verdades por dizer, estrelas por brilhar!
Há lágrimas no meu rosto em vão cansadas.
Eu sou o verso d'um poeta solitário!
Um nocturno de Chopin que toca sem parar,
frente ao Cristo, no cimo do Calvário ...
Cruz -
Tenho numa cómoda em casa
um Cristo sofredor pregado numa cruz
quem chega, fica arrepiado, não diz nada,
ao ver ali aquela imagem à contraluz!
Estendido num "madeiro de pau santo"
a cabeça reclinada sobre o peito,
semeia nos olhares dor e espanto
quando fixam o seu corpo em vão desfeito!
Que tristeza ver seus olhos enevoados,
parece que o não quiseram matar logo
p'ra morrer antes, vendo os nossos pecados!
E um fio de sangue lhe escorre pelo rosto!
Na minha casa há um Cristo cego e louco
morrendo, há mais de dois mil anos, pouco a pouco.
A solidão da Virgem -
E eis que lá no cimo daquele monte
há um Espirito magoado que me seduz,
um olhar triste, bem de fronte,
mirando o filho, morto, numa cruz!
Uma Virgem de preto guarnecida,
de mãos postas, fixas, junto ao ventre,
entre um séquito de sombras, sem vida,
no rosto, uma mágoa permanente!
Estranho quadro se alevanta no Calvário!
O Filho de uma Mãe condenado por amor
e a Mãe do Filho enrolada num Sudário.
Quando chego enfim ao Lugar de tanta dor
onde a esperança parecia arrebatada
vejo no peito de Maria a Prata d'uma Espada!
Cristo Vivo -
Mas num momento de pura Poesia
o Monte transformou-se em Azinheira
das vestes negras, solitárias de Maria
surgem vestes brancas numa Glória derradeira!
Da noite escura fez-se o dia claro
o Sol no Céu desponta, dança entre as nuvens,
e a Mãe de Deus, num silêncio terno e raro
revela que seu Filho está vivo entre os Homens!
Vi então a prata dessa Espada no seu peito
diluir-se pelo espaço em Raios de Luz
levando a cada Coração os Olhos meigos de Jesus!
Então, alevantando-me do leito,
fixei aquela Cruz que tenho em minha casa ...
Emudeci de espanto! Ele já não estava!
Piedosas Intenções
soneto
Na verdade há um grito na minha voz,
Um suspiro de saudade em mim a vaguear,
Nos meus olhos , uma vontade de estar só
Que me deixa em cada canto a chorar!
E choro por mim, por ti, por todos nós ...
Choro por tudo aquilo que não vivi,
Por aquilo que não tive de todos vós,
P'lo que tive, não guardei e até o que perdi!
Mas talvez não haja solução, meu amor,
Mãos que não dão o que podem receber?!
E no horizonte apenas vejo dor ...
Vejo espuma, névoa e loucura,
Um barco nos meus olhos a perder
A alegria e tantas ondas d'amargura!
- À TOA -
(Para o fado das Horas)
Se eu morrer de madrugada
Numa cama só e triste
Não te esqueças minha amada
Nem de mim te despediste.
Se eu morrer em noite escura
Numa casa sem janelas
Não te esqueças, com ternura
Junto a mim, põe duas velas.
Se eu morrer em dia claro
Numa rua da cidade
Esse dia será tão raro
Deixarei em ti saudade.
Mas não vou por ti morrer
Quero mais acreditar
Vou esperar, não vou esquecer
A promessa qu'irás voltar.
