Boneca
As crianças negras de menos de cinco anos já veem a boneca branca como a linda e a boazinha e a boneca negra como a feia e má. Por quê? Eles nascem com ódio deles mesmos? Claro que não. A sociedade cria este ódio.
A boneca já foi um sonho na vida das meninas,
era um símbolo da pureza e beleza numa
infância construída pelo amor...
Hoje ela foi trocada pelo celular,
deixando a ingenuidade para o passado
de quem conheceu o calor humano e
não a frieza de uma máquina!
Lembro da minha primeira foto 3x4, da minha piscina de plástico, da minha boneca descabelada, de quando descobri que papai noel não existia, de quando eu chorava por motivos fúteis, dos meus tombos inacreditáveis, da minha época do rock, das minhas amigas de infâncias, que jamais serão esquecidas, dos meus pensamentos que pensava eu nunca mudar, dos meus sonhos que prevalencem até hoje e das pessoas que tanto queria estar aqui agora.
- Menina
Ela chegou Menina, boneca, flor...
Caras e bocas, olhares sorrisos,
Na frente sozinha sorria o trabalho aos poucos fazia...
E ele pouco entendia do futuro que ali jazia...
O olhar se cruzou... Nada acontecia...
Aos poucos a palavra ecoou,
No silencio de um obrigado
E nas ondas invisíveis do ar
O convite ao teatro chegou.
O sim veio de encontro,
Nas linhas errantes da vida,
O tempo aos poucos parou,
E a peça tão esperada,
Para traz aos poucos ficou.
E naquele primeiro encontro,
À vontade, no oi não cessara,
Os olhos brilhando, ardentes
Como a lua que lhes iluminara.
Ele e ela sozinhos,
Na imensidão que a noite ganhara,
Ele então pediu um Beijo,
E ela tampouco negara.
Os lábios então se tocaram,
Em um veludo, recíproco desejo,
Carne tão doce era a dela,
Provada no toque de um beijo,
Menina, Boneca, Flor...
Garota com quem ele sonhava,
Nas noites que então se seguiram,
Até o dia em que se reencontravam.
Aos poucos tornou-se comum,
O gosto do beijo tão doce,
Que bom seria a semana,
Se os dias, lindos como aquele momento fosse...
Menina, Boneca, Flor..
Ele e ela a todo o momento
Nas ondas invisíveis do ar.
Encontram-se todas as noites,
E ele espera sempre ansioso,
Outro fim de semana chegar.
Ninguém sabia como ela se sentia. Por fora forte. Por dentro uma boneca que acabara de ser quebrada.
Boneca de nada
A tenção não para,
As horas vão e os dias passam,
mas a tenção não para...
Sinto que a força vai quebrando
destruindo os sonhos,
as idéias ficam longe, sem imaginação.
Procuro encontrar motivação, não há.
Procuro sentir razão, não encontro.
Procuro aquecer meus sentimentos por
todos os que convivem comigo, mas não...
Não sinto a falta, não sinto o sentir...
Porque?
Não sei dizer...
Não sei justificar...
Não sei explicar...
Não há o que falar.
Sei que não sou o que me sinto,
Sei que não sinto o que quero,
Sei que não há nada dentro de mim,
Não tenho órgãos, sou oca,
Não tenho preenchimentos,
Sou costurada em linha de ilusão...
Não sei se falo ou se ouço,
Minha história infinda,
minha ignorância infâme,
minha meia verdade,
minha vida sem tempo de validade...
Não sou fantasia,
mas também não sou realidade.
Sou apenas um nada,
Mas desse nada, me faço o tudo que sou.
Me procuro nas moléculas de polietileno,
Nas fibras do algodão,
Nos fios do nylon que recobrem
o inútil do gigantesco crânio,
Mas ainda assim, meu interior...
Meu vazio...um oco...espaços que
não se preenchem, respostas que não
explicam as perguntas que não se calam,
Imagens que não são vistas, memórias
que não vão ser registradas,
alma desencarnada, espírito que vagueia
sem saber onde será sua parada...
Sou eu...
Boneca de nada...
Menina Maria Sonsa
Maria Sonsa era boneca atrevida, se fazia de amiga para poder orbitar.
Passava a vida recitando cantigas nativas, para ruminantes ninar.
Marcava presença, hasteava a bandeira ao som de galos a cantar;
Sorriso nos lábios, olhar apertado, esperando a cena a se desenhar.
Ah! Menina, Maria, Maria Sonsa, querida, não penses que estou a pestanejar.
Quando achas que o angu esta a cozer, então foi que meu moço acabou de jantar.
- Mas como se tudo me contas e até onde sei não me veio falar.
- É que de onde estou sinto bem o cheirinho, e de onde estas se quer dá pra olhar.
Desde criança fui seletiva, se eu não tivesse a tal boneca, brincaria com outra. Se eu não tivesse o tal chiclete, teria um pirulito que manchava a língua. Ou então, desde pequena, ciumenta, egoísta, querendo tudo e todos. Mãe, eu quero aquela Barbie Rapunzel. Mãe, aquela menina tem a blusa igual a minha. Talvez, a criança que há dentro da gente, nunca morra. Sempre sobra aqueles restos, aquelas pequenas partículas de uma vida pequena, um sonho pequeno e um amor mais pequeno ainda.
- Para baixo.
Eu estou me sentindo super "down";
Uma boneca de pano sem costura,
tentando apenas mudar sua conduta.
Uma criança sem amparo em sua travessia,
pedindo ajuda nessa monotomia.
Uma menina francesa sem o seu chapéu.
Em um conto de fadas sem réu.
Eu estou sozinha,
em uma estrada cruzada, sem direção,
buscando apenas uma solução.
Qualquer uma que me leva até os seus braços,
e faça você me dar uns amassos.
Eu realmente acho,
que hoje eu acordei super "down"
UMA AMÉLIA EM MIM
Posso parecer uma boneca de luxo. Mas não sou. Aqui escrevo para contar que as pessoas se enganam, e muito. A letra Retrato pra Iaiá seria pefeita senão esse final (...)"Numa moldura clara e simples sou aquilo que se vê (...) Somos exatamente aquilo que ninguém vê. Todos enxergam a Holly, mas posso apostar que ninguém suspeita da Amélia.
Vim confessar aqui que Amélia não sai de mim. E tenho achado bem bonito as coisas que Amélia aprecia. Acredita que a Amélia essa semana parou só para observar um casal em uma loja de eletrodomésticos escolhendo uma geladeira?! Pois bem, Amélia me surgiu com força. Olhei mesmo algumas peças e me entristeci por não ter alguém para montar comigo um ninho de amor. ( é, desculpa! Acordei meio brega hoje!) Só que Amélia não admirava a geladeira que estava para ser escolhida pelo casal, Amélia admirava a cumplicidade, os detalhes. Aqueles planos que deviam estar por trás daquela geladeira branca. Amélia admirava com olhos fiés e tentava imaginar toda a história vivida entre eles até chegar naquela geladeira.
Nossa! Amélia .... Amélia gosta de ter para quem cozinhar, gosta de companhia para degustar um bom vinho, gosta de cuidar da roupa do marido, gosta de uma casa para colocar em ordem, gosta do cheiro de lavanda nos lençóis. Amélia gosta dos pés pequeninos correndo pela casa, da desordem que o cachorro deixa, da lerdeza na faxina da empregada. Amélia gosta do cheiro do feijão que vem da panela de pressão e o relógio de parede na cozinha. Da banana madura na fruteira e do arranjo de flor amarela na mesa de jantar. Amélia gosta da pasta do marido jogada no sofá da sala, dos sapatos aos pés da cama, e os pés dele juntos aos dela pouco antes de levitar. Amélia gosta dos olhos dele nos dela antes de acordar. De amor de bom dia e beijo de boa noite!
E eu? Eu quase que escapo da Amélia, mas parece que apesar de almejar o moderno, fui lançada ao trivial arroz com feijão, e me vejo louca para acrescentar uma farinha, se é que me entende?! Depois de toda essa inveja branca* ( como diz meu cabeleireiro toda vez que quero minhas unhas da cor das unhas dele) ela comprou uma Brastemp daquela de duas portas sabe? Aí que pontada de inveja super branca. Amélia sempre quis igual!
PENÚRIA
Menina pobre
boneca de pano
cinco marias... Pode,
ter fé em seus planos.
Pobre menina
sem rima sem cheia
misera clareia
toda a sua teia.
Viaduto calçada
morada na ponte
não tem horizonte
não pensa em nada.
A fome se expande
no dia apos dia
menina seu bonde
não tem alegria.
Seus vôos são passos
pêndulos na calçadas
seus sonhos, embaraços
seu prato é fada.
Menina pobre
Pobre menina
mesa sem café
sofrer é sua sina.
Antonio Montes
BONECA DE LOUÇA
Boneca, bonequinha moça de louça
Com olhos vidrados de vidro
E seus loiros cabelos de ouro
Te peço se me escuta me ouça
Mas se te olho mudo, calo não falo.
Oh minha boneca linda de louça?!
Não me deixe assim tão infeliz!
Molhe os lábios dessa boca louca
Sossegue essa minha voz rouca
Não me faça a viver como giz.
Sempre com seu semblante branco
Na face, quer dizer, mais não diz
Rosto no jeito feito de encanto
Boneca eu sei, você não tem pranto
No entanto não é assim tão feliz.
Antonio Montes
MINHA BONECA DE VERDADE
Quando criança ainda, lá com meus seis anos de idade, morava com meus pais e mais sete irmãos no sítio e não possuía nenhum brinquedo de fábrica. Todos eram confeccionados em casa, em conjunto com as amiguinhas vizinhas, com meus irmãos e às vezes minha mãe tirava um tempo e nos ensinava a fazer algumas coisas interessantes.
Nós, as meninas, fazíamos bonecas de sabugo para brincar. É, sabugo mesmo, aquela parte que sobra do milho seco depois de debulhado. Escolhíamos o maior de todos os sabugos disponíveis no paiol. Cortávamos retalhos de tecidos cedidos por minha mãe, que sempre os tinha guardados numa sacola, pendurada atrás da porta de seu quarto de costura. Escolhidos os tecidos, pegávamos a parte mais grossa do sabugo, o que seria a cabeça da boneca, nele colocávamos o tecido na extremidade, como se fosse uma touca, amarrando firme com uma tirinha, para não se soltar (porque cola nós não tínhamos). Em seguida, escolhíamos outro retalho e fazíamos uma saia, pregueada ou franzida, com as mãos mesmo, nada de agulha ou linha! A coleguinha ajudava a amarrar com tiras finas da própria palha do milho. Com um lápis preto ou mesmo um pedaço de carvão, desenhávamos os olhos e com semente de urucum, a boca.
Pronto! Estavam ali nossas bonecas. Lindas! Cada uma com a sua. Diferentes umas das outras, devido a escolha dos retalhos coloridos. Felizes, brincávamos por horas a fio.
Mas um belo dia, uma priminha da cidade, veio com meus tios nos visitar, trazendo consigo uma boneca de verdade. Fiquei encantada! Nunca havia visto uma, e tão linda. Tinha os olhos azuis e cabelos cacheados.
Daquele dia em diante minha vida mudou. Não quis mais saber de brincar com boneca de sabugo. Eu queria uma boneca de verdade. A novidade mexeu com meus sonhos, até então acessíveis.
Chorava e implorava para minha mãe. "Quem sabe no Natal", dizia ela. Pedir para meu pai, nem pensar. Para ele, brinquedo era desperdício de dinheiro. Era o jeito dele ver o mundo infantil. Posso jurar, foi o ano mais longo de minha infância: Eu queria minha boneca de verdade e ela só viria no Natal.
Chegou o Natal, como tantos outros, mas para mim seria diferente, eu teria minha boneca de verdade. O "talvez" de minha mãe eu esquecera.
Fomos com toda alegria, bem cedinho, ver os presentes debaixo da linda árvore natalina. Cada um procurando o seu, embrulhados em papel comum, mas com nosso nome marcado pela letra de minha mãe. Porém, cadê a minha boneca de verdade? Ela não veio. Ganhei sim, uma pequena sombrinha, que no dia seguinte já estava quebrada.
Chorei muito e ainda levei umas boas palmadas de meu pai. Ninguém me consolou. Não compreenderam a minha tristeza. Minha mãe deve ter percebido, mas como nada podia fazer, não deixou transparecer; apenas prometeu-me que daria um jeito, "talvez" na próxima ida à cidade grande, na época das compras. Isto não me consolou. Foi, sem dúvida, o Natal mais triste de minha infância.
Depois daquele fatídico Natal, em que não ganhei meu presente desejado, minha tristeza, felizmente, durou pouco.
Janeiro era o mês do padroeiro da cidadezinha onde frequentávamos a escola, o catecismo e as missas dominicais. São Paulo, lembro-me bem, era o santo padroeiro da capela e nome do sítio de meu pai, onde morávamos.
Todo ano os moradores se reuniam e preparavam uma bela quermesse, com direito à visita do bispo, padres de outras paróquias, fazendeiros, sitiantes e colonos de toda a redondeza para uma linda missa cantada. Para a quermesse eram doados bezerros, sacos de café, leitoas, carneiros, frangos e artesanatos feitos pelas mulheres e moças prendadas da comunidade.
Uma rifa foi organizada, cujo dinheiro iria para a reforma da igrejinha. Um bezerro era o prêmio e de brinde, vejam só, uma linda boneca confeccionada por dona Mariquinha, mulher muito conhecida por suas habilidades na agulha.
Quando vi aquela boneca, fiquei deslumbrada! Eu queria uma boneca de verdade e esta era a minha chance. Procurei por minha mãe, que estava na cozinha de uma das barracas, liderando outras mulheres no preparo da comida a ser servida durante a festa. Implorei que comprasse um número, porque eu queria uma boneca de verdade. Meu pai não era dado a gastar dinheiro com estas extravagâncias, mas naquele dia ele sucumbiu ao meu apelo e cedeu. Comprou um único número. Nem preciso dizer que dei muitos pulos de alegria.
Ao anoitecer, quase no final da festa, chegou a esperada hora do sorteio..Bingo! Meu pai ganhou o bezerro e eu ganhei a minha “boneca de verdade”.
Ela era deslumbrante aos meus olhos de menina. Tinha uma aparência diferente. Fora feita à mão, uma boneca de pano com jeito de moça. Trajava um vestido branco de renda, com fitinhas coloridas de cetim, por toda borda da barra da saia. O decote mostrava o início de fartos seios. Perfeito! Minha boneca de verdade, com corpo de moça feita, seria a mãe de todas as bonequinhas de minhas coleguinhas da vizinhança.
No dia seguinte, de tardinha, minhas amigas e eu fomos brincar de boneca, numa ansiedade sem tamanho. Nos instalamos dentro de um velho bambuzal, e lá ficamos por horas, nos deliciando em nossas fantasias infantis de mamãe, comadres e tias. Sim, porque toda boneca era batizada, ganhava um nome e uma madrinha.
Antes do anoitecer, minha mãe me chamou para ajudá-la nos afazeres do jantar. A brincadeira se desfez e aos poucos a noite chegou.
Na manhã seguinte, acordei aos pulos. Eu havia esquecido minha boneca de verdade no bambuzal. Corri para buscá-la. Qual não foi meu espanto quando a vi: estava toda encharcada, estufada, desbotada, manchada, descolorida, quase decomposta.
Havia chovido a noite toda!
Autora: Melania Ludwig
Porque na infância, com pouco fazíamos muito. Com uma espiga, fazíamos uma boneca. Com uma lata e tampinhas, fazíamos um carrinho. Dávamos vida as bonecas e criávamos para elas uma história. Preocupação era apenas se ia chover ou não. As brigas eram pela manhã e a tarde já estávamos de bem. Era tudo simples e belo. Era um coração maior que o mundo. Era a bondade e a inocência no olhar. Era um mundo encantado, apesar de seus defeitos.
eu lembro daquela boneca
lembro dela como gostaria de lembrar
de vc
eu toco aquela boneca como gostaria de lhe tocar
eu vejo outras crianças brincarem com ela
e sinto oque queria sentir ao te ver falar de alguém
eu sei da existência daquela boneca
e sinto que não faria diferencia se ela não existe-se
hoje não faria mais diferença
mais ela foi pra mim que nem vc é hoje
eu amava aquela boneca
adorava brincar com ela
adora dormir com ela
eu brigaria se alguém pegasse ela
eu morreria por ela..
mais assim como aquela boneca vc chegar a ser apenas uma boa lembrança.
