Ricardo Maria Louro

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⁠Termo sem Fim -

E então cheguei ao fim!
Gritei por Deus e foi em vão,
Ele nem olhou p'ra mim,
fiquei só, caido ao chão ...

E o que dizer das preces que lhe fiz?
Que as fiz sem mesmo acreditar
que as fazia num chorar que vem de mim
deixando as minhas penas pelo ar ...

Rezar p'ra quê se nem Deus ja pensa em mim?
Chorar porquê se ninguem me ouve nem me quer?
Cantar o quê se a minha voz chegou ao fim?
Pois vou sem rumo vivendo o nada que vier!!!

Inserida por Eliot

⁠Lágrima Contida -

Num encontro ou num olhar
procuramos em alguém
um amor que saiba amar
sem mentira nem desdem.

Ilusão que só nos prende
às amarras da loucura
da tristeza que se estende
ao amor que não tem cura.

E há um grito que magoa
quando alguém nos faz doer
há um lirio que destoa
pelos campos a morrer.

E uma lágrima contida
corre a face da solidão
basta a esperança estar perdida
p'ra sofrer um coração.

Inserida por Eliot

⁠Gastei a Vida -

Gastei a Vida
numa espera inutil
numa esperança vã!
Gastei a vida
numa dor sombria
em loucura sã!

Gastei a vida
na alegria que não tive
a pensar no que sobrou!
Gastei a vida
e a vida que escolhi
foi a vida que passou!

Gastei a vida
numa espiral inversa
que tudo me levou!
Gastei a vida
uma flor que nasceu
e nos campos secou!

Gastei a vida
a escrever poemas
num papel cansado!
Gastei a vida
a pensar na morte
a cantar o fado!

Gastei a vida
num suspiro errado
num pensar sombrio!
Gastei a vida
chegou a morte
morri de frio ...

Inserida por Eliot

⁠Cheguei ao Fundo -

Cheguei ao fundo
das ilusões que não tenho.
Das esperanças que perdi
dos olhos que não viram
das loucuras que senti!
Cheguei ao fundo ...

Cheguei ao fundo
das palavras que esqueci.
Das coisas que vivi
dos sonhos que partiram
das vezes que menti!
Cheguei ao fundo ...

Cheguei ao fundo
dos amores que não tive.
Dos que tive e que não quis
dos que quis e que partiram
da vida que vivi!
Cheguei ao fundo ...

Inserida por Eliot

⁠Incompreensão: Destino Envenenado -

Na loucura de um sentir inconsciente
sempre quis amar e ser amado
amar tudo e toda a gente
que caminhasse junto a mim, a meu lado.

Porém, poucos houve que me entenderam
nem eu mesmo me entendi
e só aqueles que morreram
ficaram mais perto de mim.

Julguei que aos outros aninhava
alem do mau feitio, dentro do peito,
hoje sinto que a todos rejeitava
por nunca entenderem o meu jeito.

O meu jeito de poeta miseravel
escravo de um sentir sem porto
prisioneiro das palavras, ser instavel,
desejando a paz eterna de estar morto.

E diziam, não podes ser assim,
tens que aprender a viver a vida!
Mas o que sabiam eles do que ocorria em mim?!
Pensariam que eu gostava de viver de Alma perdida?!

Ah se eu pudesse matar este sentir
que me cavalga o pensamento,
se eu pudesse afastar, resistir
à solidão, ao sofrimento ...

Não posso! Não sei nem tenho como!
Tábua fria onde me deito e meu corpo é velado,
essência dos poetas qu'inda tomo
destino que Deus me deu envenenado.

Inserida por Eliot

⁠Contra o Tempo -

E a vida foi passando
o destino foi correndo,
minhas dores crescendo,
com elas amei, com elas sofri.
Minha ângustia ficou
meus sonhos morreram,
tudo passou, só eu não morri!
E tudo me deram
sem principio nem começo
sem virtude nem fim ...
Pelas noites bebi medo,
bebi sonhos e magia,
desecanto, dor e solidão.
Perdão Senhor! Perdão!

Inserida por Eliot

⁠Vitima/Algoz -

Se eu soubesse que esgotando as palavras
esgotava o meu sofrer,
esgotalas-ia por certo!
Pior seria se as palavras se esgotassem
e o meu sofrimento não...
Nunca mais teria como escoar a minha solidão.
Se a poesia vive de mim, do meu sofrer,
o meu sofrer tenta "matar-se" nos braços da poesia!
Eis a relação da vitima com o algoz!
Ambas vítimas! Ambas algozes!

Inserida por Eliot

⁠Lassidão -

Na rota de um destino que vivi
numa intensa e trágica planura
meus olhos rasos de lonjura
são dois versos de um poema que perdi.

Numa perpétua e árdua procura
numa busca impossivel de acabar
fiz dos versos um apelo de loucura
que o silêncio nunca soube em mim calar.

Mas longos, revoltosos, violentos
foram os punhais que me espetaram
sete facas apontadas, meu tormento,
foi só isso que os poemas me deixaram.

E na dolência das noites tenebrosas
foi meu corpo uma tocha incendiada
foi minh'Alma criança apaixonada
nas mãos de uma infância dolorosa!

Inserida por Eliot

⁠Périplo -

Uma lágrima correu
na face da solidão
uma esperança se perdeu
no galopar de um coração.

E há um canto no sangue
há um silêncio na voz
há um grito cortante
no mais fundo de nós.

E o que fica de chorar
é loucura que não somos
é não ter o que entregar
à demência do que fomos.

E é mentira ter piedade
há um tempo para o corpo
da Morte à Eternidade
vai a pausa de estar morto.

Há em nós silêncios de água
há vulcões em noites breves
há palavras cor de mágoas
que o destino nos escreve.

Nossos olhos debruados
demarcados na lonjura
são dois campos macerados
de uma trágica planura.

A hora passa devagar,
vazia, despojada,
e passa longa, a chorar,
numa ultima jornada.

Somos praia ao Luar
terra ferida sem nortada
vai-se o sonho de sonhar
fica a triste madrugada.

Mas um dia voltaremos
ao cais d'onde partimos
será aí que nos esquecemos
da mania de existirmos.

Inserida por Eliot

⁠Confissão sem Padre -

Sou Poeta
um sem-nome
alguém que nunca veio
alguém que sempre foi
esquecido de existir
turvo de pensar
desejoso de morrer
cansado de rezar!

Sou Poeta
um sem Pátria
sem familia nem destino
com destino de ficar
a caminho de onde vai ...
E aonde vai
este neto de si-mesmo
sem mãe nem pai?!

Sou Poeta
por caminhos de ninguém
sem ninguém a quem falar
com vontade de comer
a dor, a solidão,
meu destino é sofrer
onde irá meu coração
nessa ânsia, a correr?!

Sou Poeta
de si perdido
por Deus esquecido
de nadas feito
palavra amarga
ser Poeta
estar desfeito!

Inserida por Eliot

⁠Figuras de Estilo -

De sonhos passados
a fogo rasgados
vestidos de nada
meus dias toldados
acrisolados na Alma
que me afastam dos lábios
o sorrir e a calma.

São dias sem noites
são noites sem dias
tão perto da morte
tão longe me vias ...
Ser poeta é ter Sorte!!!
Destino sem Norte
porque mentias???

Eu sou uma analepse
que a vida não esquece
uma antitese ou hiperbole,
prolepse, repetição,
eu sou a falha da Nação
sou o Poeta que parece
nesta Pátria não ter chão.

Inserida por Eliot

⁠Apontamento -

Eu os versos e a solidão,
o titulo certo para uma
história de Vida que vivi!

Inserida por Eliot

⁠Tenho Sede -

Tenho sede de viver
como as dores que me abraçam
como as mãos que se entrelaçam
tenho sede de te ver!

Tenho sede de esquecer
aquela hora em que partiste
aquela hora em que não viste
que por ti me ia perder!

Tenho sede de saber
as coisas que viveste
os poemas que escreveste
por quem andas a sofrer!

E esta sede de amor
que me deixa perdida
é uma sede sentida
que me adormece na dor!

Minha sede do Fado
minha sede sem calma
no cansaço da Alma
meu destino marcado!

Tenho sede podes crer
podes crer na minha sede
e quem há que nunca a teve
esta sede de viver!

Inserida por Eliot

⁠Quadras aos Santos Populares -

Santo António é padroeiro
Da Lisboa d’encantar
Mas São Pedro é o porteiro
De quem no céu quiser entrar!


Santo António milagreiro
Que és um Santo tão Santinho
Dá-me lá mais um dinheiro
Qu’inda sou tão pobrezinho!


Diz a boca do demónio
Destas gentes da intriga
Que outrora o Santo António
Gostou d’uma rapariga!


A ti deixo este meu canto
Óh meu rico Santo António
Não te esqueças deste pranto
E arreda-me o demónio!


Óh meu querido Santinho
Vou fazer o teu altar
Comer pão e beber vinho
Pelas ruas a marchar!


Óh meu lindo São João
Dá-me moças pr’a dançar
Deixo aqui meu coração
A quem o quiser conquistar!


São João os teus cabelos
Tem ondas amarelas
Envoltas em segredos
Já não damos conta delas!


São João dos Caracóis
Procurava uma amada
E mandava os rouxinóis
Cantar uma toada!


São João é do Estoril
Santo António é de Lisboa
O São Pedro é d’águas mil
E o poeta é Pessoa!


O são Pedro tem a chave
Da porta desta festa
Mas se o “homem” não a abre
O Santo António já não presta!


Arraial por toda a parte
E sardinhas pelo pão
O São Pedro que me aguarde
Se estragar o São João!


Se chover no São João
O São Pedro está tramado
Santo António sem perdão
Vai deixá-lo entalado!


Nesta mesa dos artistas
Há gentes que se vejam,
Poetas, músicos, fadistas,
Tantos “santos” que nos beijam!


Temos dias sem sentido
Que nos deixam solidão
Vai a quadra ao manjerico
E a alegria ao coração!


Lá vai o arco e o balão
Pelas ruas sem ter mal
Pois agora a solução
É fazer um arraial!

Inserida por Eliot

⁠Divida herdada -

Despi-me dos cansaços
das loucuras de menino
e esperei p'los teus abraços
nas dolências do destino.

Fiz da vida um serão imberbe
numa casa sem ninguém
e como um pobre qu'inda deve
fiquei da divida refém.

Mas o que devia e a quem?!
Não me lembro de pedir
herdei a divida de alguém
sou um louco a fugir.

A fugir da solidão
a fugir dos dias turvos,
fujo à dor do coração
por caminhos que São escusos.

Inserida por Eliot

⁠De uma Velha Solidão -

Há um peso tão grande dentro em mim
nestas horas em que a vida não me escuta
um tormento que parece não ter fim
como espada que nos fere numa luta!

E há um pranto que me escorre em solidão
um vento que se agita pelas curvas
sou filho das pedras pisadas pelo chão
um poço de amargura e água suja.

A minha dor vestida de brocados
foi traje de amargura num corpo de sereia
e adorei-a, de joelhos, prostrado,
como um naufrago morto na areia.

Inserida por Eliot

⁠Destino Derradeiro -

Venho aqui dizer-vos
que o destino é o destino
e que ao destino ninguém foge!
Que do destino somos servos
na vida peregrinos
e fugir-lhe ninguém pode!

Venho aqui em solidão
dizer que a vida é breve
e que o tempo é passageiro!
Venho aqui sem pretensão
pedir memória breve
p'ró destino derradeiro!

Inserida por Eliot

⁠Agosto -

E já se foi Agosto!
Um dia e outro dia
horas de loucura
lembrança e desgosto
d'um amor que se perdia.
Só ficou este silêncio
o silêncio de Setembro
que o mês de Outubro
'inda trazia.
Dois loucos calados
na casa de ninguém
vestidos de negro
em corpos fechados
das mortes que fui
em memória de quem?!...
Dois mortos calados
na casa de ninguém!

Inserida por Eliot

⁠Banquete -

Ao nascer fui chamado a um banquete!
Deixei tudo e aceitei. Mas quem era aquela gente?!
Entre eles me sentei, mas nao fui aceite,
nem eu os queria tais parentes ...

Fiz tudo o que se faz. Até brindei!
Fingi estar lá, não estando,
sorri, falei, escrevi e até cantei,
mas no peito, o coração, ia secando ...

Ao tempo, pensaram ser um deles,
mas era tarde e o destino era reles!
Foi então que uma voz se levantou:

"- Nesta mesa houve alguém que não comeu!"
Fui eu! Respondi com prontidão ...
E não comi porque o banquete é vosso nao é meu!

Inserida por Eliot

⁠Olhos Inclinados -

Meus olhos são dois lirios
no Portal daquela Igreja
são dois cantos, dois martírios
Nossa Senhora os proteja.

Num lamento Virgem Santa
trago a ti minha oração
meu olhar não se levanta
vai aos tombos pelo chão.

Horas mortas que passaram
de uma vida mal vivida
que meus olhos enxugaram
no teu manto, dia-a-dia.

Fica a minha Solidão
no portal daquela Igreja
e meus olhos pelo chão
Nossa Senhora os proteja.

Inserida por Eliot

⁠Celeste Rodrigues -

Chegaste e eras vida ...
Chegaste - eras ar- ternura,
gestos e palavras
que a própria vida
te dava por loucura!

Chegaste e eras tempo ...
Chegaste - eras areia - praia,
ondas e marés
e o próprio vento
bordava a tua saia.

Chegaste e eras xaile ...
Chegaste - eras Sol - calor,
a mantilha dos poetas
eras musica e baile
um poema ao amor.

Chegaste e eras fado ...
Chegaste - eras verso - tão só,
guitarra e lamento
caminho destinado
a dar corpo à voz.

Resta-nos ser o que Tu és
esse fado a que te davas
ter nos versos tanta fé
ser um campo de rosas bravas.

Inserida por Eliot

⁠Esperança Imortal -

Pus nos versos uma esperança
que nem a noite mais forte
ou o desejo da morte
me tiraram por vingança.

Nem a pessoa mais culta
ou alguém que até duvida
nem a vida que dá vida
ou a morte que sepulta.

Ninguém de mim arranca
cheio de dor e solidão
estes versos que serão
quem dá vida à minha esperança.

Que a minha vida é assim
esperar por ti como um louco
vestir a dor em meu corpo
chorando lágrimas sem fim.

Inserida por Eliot

⁠Para Natália Correia -

Eras Poeta
e esta gente não entendia!
Eras noite
mas a Lua, por inveja,
não te queria,
e o dia, com medo, de ti,
também fugia!
Eras vida
e até a morte te procurava...
Mas a tua dimensão
não era a vida nem a morte
mas sim a solidão!
Porque ninguém te entendia ...
Eras tu, aurora dos poetas,
eterna madrugada
que antecede os dias puros...
Eras poeta
e esta gente não entendia,
não te queria, nem te via.
Por isso, em teus versos, teu olhar, sofria...
E ninguém entendia ...
Ninguém entendia ...

Inserida por Eliot

⁠Aos Caidos -

Ando na vida aos caidos
procurando quem resgate
meus olhos tristes, perdidos,
antes que uma noite os mate.

Ando na vida aos caidos
num esperar que é ilusão
soluçando mil gemidos
no pulsar do coração.

Ando na vida aos caidos
procurando quem me entenda
e destes versos proibidos
ter alguém que me desprenda.

E tanta noite perdida
na loucura dos sentidos
tanta gente esquecida
pela vida aos caidos.

Inserida por Eliot

⁠A dor do Mar -

Um Pintor pôs numa tela
um lamento por adorno
e fez do Mar uma aguarela
na pressa de um retorno.

Um Poeta pôs nos versos
a saudade da amada
o Mar secou-lhe os beijos
por a ter nele afogada.

Um Fadista pôs no canto
a mentira de um amor
e afogou-se de quebranto
no Mar alto, sem pudor.

Ó Mar que tanto inspiras
a arte das viagens
porque trazes e agitas
tanta dor nas tuas margens?!

Ó Mar que na neblina
tantas mágoas se dissolvem
tanta esperança se fulmina
tantos mortos em ti dormem.

E como as ondas que se enrolam
do mar alto até à margem
minhas dores já não choram
são no Mar uma miragem.

Inserida por Eliot