Ricardo Maria Louro

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⁠Elegia da Paixão -

E é como se o teu beijo tocasse no meu ventre
e é como se a tua pele me vestisse de cetim
e é como se o teu olhar num sopro de repente
me levasse nas asas de um desejo sem ter fim.

E é como se o suor dos nossos corpos fosse um rio
e é como se os nossos lábios fossem duas rosas
e é como se a noite nos levasse num navio
onde as nossas linguas se entrelaçam saborosas.

E é como se o teu toque esculpisse o meu regaço
e é como se a minha cama fosse o teu abrigo
e é como se o teu cheiro fosse o meu abraço
nessas noites em que não podes estar comigo.

E é como se tudo, em torno, sem ti, fosse vazio
e é como se em mim, esse vazio, fosse criança
e é como se ao meu peito ausente, gelado e frio
voltasse aquela angústia que vivi na minha infância.

E é como se os teus olhos fossem dois pedintes
e é como se os meus fossem dois poços de amargura
e é como se a minha dor já não tivesse ouvintes
nesta tórrida procura de afecto e de ternura.

E é como se nas veias o sangue não corresse
e é como se as viuvas pelos mortos não chorassem
e é como se no peito o coração já não batesse
e as andorinhas pelos Céus já não voassem.

E é como se afinal os poetas não escrevessem
e é como se o destino já não quisesse o fado
e é como se do fado as guitarras se perdessem
e os povos não tivessem o destino já marcado.

E é como se o mar já não tivesse os horizontes
e é como se o Céu se afundasse sem destino
e é como se tivessem pela vida secado as fontes
e eu voltasse aquela triste idade de menino.

E é como se a morte se espalhasse pelo ar
e é como se a vida fosse um pássaro na mão
e é como se estes versos que escrevo por te amar
fossem a mais bela Elegia da Paixão.

Inserida por Eliot

⁠Vidros Quebrados -

Trago vidros quebrados
no mais intimo da vida
e nunca tive telhados
na minha casa partida.

E se verde é a esperança
a minha é cor de solidão
da loucura de quem avança
pelo mar do coração.

Pois da vida que me vedes
sou apenas um Asceta
meus olhos não são verdes
mas minh'Alma é de Poeta.

E fui louco até ao fim
jogando a vida sem ter dados
neste mar de mim a mim
só trago vidros quebrados.

Inserida por Eliot

⁠Já vai alta -

Já vai alta a madrugada
que se levanta pela noite
traja liquidos de prata
traz um verso que nos mata
num poema que nos coube!

Já vai alta a solidão
que se ergue pelo espaço
deixa um lastro pelo chão
é loucura, é paixão
que nos mata de cansaço.

Já vai alta a minha dor
é intensa, tão profunda
que vá a vida onde for
da loucura que a inunda
vai tão alto o meu amor.

Inserida por Eliot

⁠Na Exactidão da Partida -

É como se antes de nascer
a dor me conhecesse
e a poesia me escolhesse
no momento de viver.

É como se antes de viver
a loucura me vestisse
e a morte me seguisse
como um galgo a correr.

É como se antes de correr
este mundo me evadisse
e a noite me despisse
vivendo nú sem saber.

E ao lado da saudade
passo a passo fui vivendo
pela vida fui sofrendo
à deriva, sem vontade.

Na verdade quis a morte
quis à vida pôr um fim
quis voltar p'ra onde vim
em procura d'outra sorte.

Mas fiz da vida uma cadeia
da minha casa um jazigo
do meu caminho fui mendigo
e tanta gente na plateia.

Vou-me embora sem esperar
abandono toda a gente
solto a corda que me prende
aqui não é o meu lugar.

Inserida por Eliot

⁠Ode ao Limbo -

Há um grito que me envolve ...
Vem da terra - cresce em mim...
Nada nele me devolve
à beleza de um jasmim!

Na solidão de que me alimento
sou da noite, sou assim,
sou do fado, vil tormento,
um lamento sem ter fim.

E na raiz de que sou feito
está a força de pensar
minha raça vai ao peito
vai no punho o meu penar.

Mas se trago no pensamento,
as palavras, uma a uma,
sou um verso escrito ao vento
na mentira que é a bruma.

Então a bruma é a vida
e a vida são estilhaços
somos Almas combalidas
morrendo passo a passo.

Nesta humana Eucaristia
não há pão e não há vinho
só a morte dia a dia
a tolher-nos o caminho.

E não há bem! E Nao há mal!
Nesta demência que nos mente
ir do berço ao pó da cal
é o destino de toda a gente.

Inserida por Eliot

⁠Tragédia -

Trago a minha dor na ponta de uma espada!
Eu sou a vontade. Alguem é a solidão.
Levo a minh'Alma da cor da madrugada!
Alguem é a saudade. Eu sou o coração.

Levo a minha angustia numa espera em dia vão!
Eu sou a loucura. Alguem é o meu corpo.
Trago nos meus ombros uma oculta maldição!
Alguem é a ternura. Eu sou um pobre louco.

Trago nos meus versos a certeza que não tive!
Alguem não é verdade. Eu apenas iludido.
Levo no meu peito o vazio que tu não viste!
Eu sem liberdade. Alguem de mim perdido.

Levo horas, tristes horas, em mim a soluçar!
Eu sou o vazio. Alguem a ousadia.
Trago versos,tantos versos, que em mim estão a chamar!
Alguém é o meu frio. E eu sou a poesia.

Inserida por Eliot

⁠Num mundo à parte -

Estou longe, à parte, neste mundo onde vivo,
num mundo de Poetas onde a vida é de sobejo!
Vivo noutro mundo, em palavras tão esquecido,
procurando em cada verso dar resposta ao meu desejo!

Desejo em vão perdido! Encontrar
uma casa, um caminho ou um abrigo
para a Alma que caminha devagar
procurando direcção p'ro seu caminho...

É à parte esta procura que me sangra,
é à parte o que escrevo e o que sinto,
é à parte, tudo é à parte, p'ra quem ama!

Porque tudo é vaidade e vai ao fundo,
tudo é vão e passageiro - sem abrigo -,
tudo morre p'ra quem vive neste mundo!

Inserida por Eliot

⁠Valette de Paus -

Há sempre um cavaleiro que se espera
vindo de uma bruma de saudade,
alguém a quem dar o coração - ái quem dera -,
que viesse cavalgando p'la cidade ...

Vindo de uma noite perdida
de uma sombra que o acolhe,
alguém que viva além da vida
e abrande o passo quando olhe.

Mas esse oculto dos saraus,
cedo ou tarde, sempre surge e aparece
como um Valette de Paus.

E mais um dia passado,
mais uma noite que acontece
e um destino marcado!

Inserida por Eliot

⁠Flor de Sonho -

Procurei recondidos olhares num amor ideal,
no regaço, mil esperanças, tanta flor,
o ideal foi sonho, a realidade, porém, punhal,
e tão só, naveguei em Mar de dor.

Afoguei nas águas meu destino
esqueci os olhos de minha mãe
fui tão só no meu caminho
e em meus sonhos também ...

E o que fiz daquele brilho no olhar?!
O que fiz da esperança e da ternura,
dos poemas, e de ti, a quem tanto quis amar?!...

Tudo ao largo do meu corpo,
que tormento, que destino, que ventura,
solidão ardente, boiando no Mar Morto!

Inserida por Eliot

⁠Nas Curvas do Destino -

Quando penso em ti sinto saudade
vontade de me atirar da ponte ao rio,
o que sinto, meu amor, na verdade
quando falo em ti, é dor e frio ...

Quando fixo os rostos que encontro pela vida,
que cruzam seus olhares com os meus,
só lembro a promessa em vão perdida
dos meus olhos só olharem para os teus.

Não esqueço, meu amor, aquelas tardes delirantes
em que vinhas de mansinho com ternura
e trazias a esperança de, um dia, sermos mais que amantes!

Descalço vou, sozinho, agora, traçando outro caminho,
talvez te encontre, um dia, pela vida, que loucura,
nas estradas ou nas Curvas do Destino ...

Inserida por Eliot

⁠A Senhora de Vale-Flôr -

De pele trigueira e olhar firme
porte de gazela, pelos campos ao calor,
- ó Poeta -, fala, escreve, diz-me,
alguém há que se assemelhe à Senhora de Valle-Flor?!

Alta, esguia, perturbante,
passa por entre os nobres sem temor,
deixa a um canto a Senhora Duquesa de Brabante
a Senhora Marquesa de Valle-Flor.

Vestida de brocados e cetins,
pedras, pérolas, jades incolor,
desliza p'los salões ao toque dos clarins
a muy nobre dama Senhora de Valle-Flor.

Mas um dia, algo terrivel ocorreu,
chega-lhe a noticia que a deixa sem fulgor,
Jenny, sua filha, tão jovem, morreu!
Pobre e contristada Senhora de Valle-Flor.

O Marquês, deixara-a antes tão nova,
esse, a quem dera tanto amor,
agora, sua filha, 20 anos, vai à cova,
triste, no Palácio, a Senhora Marquesa de Valle-Flor.

A Rainha, Dona Amélia de Bragança,
vem ao Paço dar a mão à sua dor,
traz-lhe flores e um abraço de esperança:
"- Aceitai estas Rosas Senhora de Valle-Flor!"

De negro vestida, véu cobrindo o rosto,
tão ressentida, pálida, sem cor,
cai aos pés da rainha - tal o desgosto
da muy nobre Dama - a Senhora de Valle-Flor.

" - Alevantai-vos!" Diz a Rainha. "- Pobre mãe,
alembrai de Maria a sua dor,
sabeis agora o que é ser mãe - tão bem,
Senhora Marquesa de Valle- Flor."

"- É tão funda, Senhora de Bragança,
a dor que me assola o coração,
que não há Rosas nem esperança
que me tirem deste valle de solidão!"

Ainda hoje, à porta do jazigo da defunta,
se vê passar um vulto que liberta um odor
das Rosas que leva no regaço! Quem é? Alguém pergunta!
E há um suspiro que se escuta. É a Senhora de Valle-Flor!


(Poema à Senhora D. Maria do Carmo Dias Constantino Ferreira Pinto Valle-Flor (1872-1952) Primeira Marquesa de Valle-Flor, e à sua filha, Jenny Valle-Flor, falecida muito jovem, ainda adolescente ...)

Inserida por Eliot

⁠Madre Solidão -

Há um tecto muito antigo
naquela casa onde vivi
testemunha do perigo
da infância que sofri!

Um tecto com goteiras
como os olhos que sofreram
sem limite nem fronteiras
para as dores que me deram!

Naquele tecto outrora feito
por mãos que a morte acarinhou
estava posta ao seu jeito

uma Madre que o tempo consagrou!
Uma Madre escusa e fria que no leito
em solidão tantas vezes me tapou!


(À Madre do tecto da casa da Quinta do Malhão em Évora onde passei parte da minha infância.
Casa hoje inexistente. Fica a memória e a saudade...)

Inserida por Eliot

⁠Estranho e Sombrio -

Talvez houvesse um amor
esquecido no coração
mas só havia dor
e gritos de solidão.

É tão negro o que pressinto
quando passo àquela rua
que ao sentir o que não sinto
sei que a dor não é só tua.

E se uma lágrima caida
trouxesse luz ao teu olhar
faria desta vida
um lamento ao passar.

Mas levo o corpo fechado
o teu retrato na mão
e num gesto calado
um punhal no coração.

Inserida por Eliot

⁠No dia do meu Enterro -

No dia do meu enterro
quero que os sinos se calem
minha vida é um erro
não quero que a dobrem.

No dia do meu enterro
quero silêncio na rua
na verdade que encerro
minh'Alma irá nua.

No dia do meu enterro
não quero luto nem pranto,
quero a morte, primeiro,
só depois algum canto.

No dia do meu enterro
irá meu corpo a passar
e nesse instante certeiro
minh'Alma a voar.

Inserida por Eliot

⁠Abismo Profundo -

Em meu corpo que dia a dia se levanta
levo o negro de uma roupa que vesti
levo o peso da mágoa de quem canta
na loucura destes versos que escrevi...

Tanto que meu corpo em silêncio te falou
mil versos meu punho em tantas folhas te escreveu
fui aquele que um dia pela vida mais te amou
perdido nos abismos desse amor que era só meu!

Tinha no meu peito o teu amor! Quem mo roubou?
Quem pisou a dor destes versos desfolhados?
Meu lamento, minha taça, meu sangue envenenado ...

Afinal o que tenho e o que sou?!
Sem ti que faço?! Nem sei aonde vou...
Vou sem vida, pela vida, mal amado.

Inserida por Eliot

⁠Espectros -

Desde a hora em que em meu peito entraram versos
que nunca mais a paz em mim pairou
e na loucura de poemas controversos
meu destino desde então se consagrou!

Mas foi loucura ter aberto o coração,
o mundo não me entende, sou cravo num canteiro
que procura água na secura, solidão,
num jardim de rosas em Janeiro!

Assim é a vida destes seres sonhadores,
diferente, num mundo imenso e abissal,
onde nada nem ninguém acolhe as suas dores ...

Homens livres, na verdade, sem sorte,
vencidos na vida, afinal,
destinados a triunfar depois da morte!

Inserida por Eliot

⁠Louco sem chão -

Meu corpo de esperar-te envelhecido
sente a mágoa de um destino solitário
do meu peito, o teu olhar, em vão perdido,
como um crente rezando diante d'um sacrário.

Não vejo nada, só a tua ausência,
e vou no mundo, passo a passo, no vazio,
no mistério, na esperança e na clemência
da morte me afogar na dor de um rio.

E tudo passa, tudo acaba, que loucura,
que destino, amar e ser esquecido,
por alguém que parte sem ternura.

Por ti, de ti, em ti - saudade!
Em mim, de mim, por mim - perdido!
Um louco, sem chão, pelas ruas da cidade ...

Inserida por Eliot

⁠Nunca Mais -

Odeio a vida porque sempre me enganou!
Nunca dei um passo onde não tenha caido,
traido, abandonado, esquecido - não vou,
não passo de um lamento em vão perdido!

Alguém maior que os outros sempre rejeitaram
alguém diferente que o destino sempre apedrejou
alguém que as gentes sempre malograram ...
Quem me chama?! Não vou! Não vou!

Chega de silêncio! Não me calo nunca mais!
Estou cansado de em vão acreditar
que um dia o meu destino vai mudar ...

É loucura! É mentira! Ó dor aonde vais?!
- Procurar na morte o silêncio em alguém
porque na vida jamais me quiseram bem!

Inserida por Eliot

⁠No Túmulo de Florbela Espanca -

Caminhando pelo chão dos meus cansaços
encontrei em cada esquina solidão,
na rua, vi tristeza e cada passo
me lembrava a amargura de outro coração.

Vila viçosa, como um campo de trigais,
triste, nocturno, sem chama ...
Pelas ruas, mil suspiros, tantos ais,
me lembravam, ao passar, Florbela Espanca!

Entrei no cemitério, fui além,
cheguei onde outros não chegaram,
pelo espaço, só os mortos, mais ninguém.

Mas no meio deles alguem sorria ...
De entre todos os que um dia sepultaram,
Florbela Espanca 'inda vivia!


(No cemitério de Vila viçosa
junto ao túmulo de Florbela Espanca.)

Inserida por Eliot

⁠As Rosas do Choupal -

Passei de madrugada entre as rosas do Choupal
ternas, sequiosas, ansiando dias puros
oscilando entre o vento, entre o bem e entre o mal
como pálidas donzelas por desejos inseguros.

Eram Rosas meu amor, eram rosas
eram Rosas que ao longe se avistavam
alvas, doces, meigas, ternas, porém espinhosas,
eram Rosas sequiosas que pela tarde se arrastavam.

Eram Rosas inseguras, desfolhadas pelos dias
eram Rosas esquecidas, bailando sem sentido
eram Rosas , meu amor que tu não querias
na dolencia de um caminho ressequido.

Essas Rosas infelizes cheiravam a saudade
por terras do Choupal de silêncio e mel
pois lembravam, ao passar, aquela lenda da cidade
que fala no regaço de Santa Isabel.

(À mata do Choupal em Coimbra.
À Rainha Santa.
E à Lenda das Rosas.)

Inserida por Eliot

⁠Berço de Poeta -

Porque trago junto a mim
tanta vida e tanta morte?!
Foi no ventre de onde vim
que nasceu a minha sorte ...

Minha mãe o que dizer
neste mundo a esta gente?
Que trazias sem saber
um poeta no teu ventre!

Desde a hora em que nasci
ao passar de mão em mão
que no berço onde dormi
estão a dor e a solidão.

Minha mãe o que fazer
se este mundo não me entende?!
Cantarei até morrer
a dor que minh'Alma sente ...

Inserida por Eliot

⁠Ai Senhor -

Ai Senhor que destino
que turbilhão de incertezas
desses tempos de menino
de loucuras e tristezas.

Ai Senhor que tormento
me enlaça o coração
me afoga o pensamento
e me tolda a razão.

Ai Senhor que lamento
me escorre o corpo todo
que a morte e o sentimento
me afogam no lôdo.

Ó Senhor que te não vejo
neste caminho perdido
fui traido com um beijo
porque me tens tão esquecido.

Inserida por Eliot

⁠O Morgado de Selmes -

Houve outrora um Morgado
na bela aldeia de Selmes
um homem desalmado
que o povoado ainda teme.

Numa herdade fria, escura
vivia o tal Morgado
um homem sem ternura
sombrio e mal amado.

Montava o seu cavalo
pelas ruas da aldeia
era um nobre sem passado
que chorava uma plebeia.

Sua amada que morrera
por decreto do seu Punho
era jovem e de cera
fora morta ao mês de Junho.

Não gostava do Morgado
essa jovem doce e bela
e ante todo o povoado
fora morta p'la guela.

E o Morgado duro e frio
do alto do cavalo
dera a ordem que feriu
o olhar do povoado.

E a raiva e o horror
do Morgado se ressente,
sem lamento nem pudor
matava toda a gente.

Na fogueira sem piedade
tanta gente lhe implorou
e a arder nessa maldade
uma bruxa lhe imprecou:

" - Que esta morte vos dispa
a Vós e à vossa geração
e que uma maldição vos vista
até mil anos sem perdão! "

Mas um dia a Santa Igreja
fachada da Matriz
caiu e até Beja
chorou, Selmes, infeliz.

Era Ele do Santo Oficio
D. Manuel Nunes Thomaz
o Morgado que vos digo
era um homem perspicaz.

" - Que se erga outra fachada
a Catarina vossa Santa,
mas ao lado, minha casa,
ficará como uma anta!"

E ao lado da capela
construiu o seu jazigo
esperando p'la donzela
como sendo um sem abrigo.

Passa o tempo, passa a vida
morrem gentes, nascem outras
e junto àquela ermida
o Morgado mira as moças.

Qual delas era a sua
a que volta e o liberta
da maldição da rua
do jazigo à porta aberta.

Mas um dia emparedaram
o jazigo do Morgado
e o seu ódio despertaram
como outrora no passado.

E houve mortes, acidentes
tanta gente possuida
p'lo Morgado de Selmes
do jazigo e da ermida.

Até que a porta foi aberta
e o Morgado adormeceu,
no jazigo está à espera
da amada que morreu!


(Poema a D. Manuel Nunes Thomaz, Morgado de Selmes, Senhor da herdade da Rabadoa no Alentejo. Membro honorário do Tribunal do Santo Oficio (Inquisição). Um homem de poder, severo e cruel, frio e distante, apaixonado por um amor infeliz. Morreu em 1878, deixando, segundo a lenda, uma maldição naquelas terras. A maldição do Morgado de Selmes. Que descanse em paz, Ele que partiu, e nòs que ficámos...)

Inserida por Eliot

⁠Rosa ao Vento -

Há uma ansiedade efémera que te habita,
um vazio estranho e proibido,
uma voz, uma ausência, alguém que grita:
saudade, amor - silêncio! - É perigo!

Ansiedade que te consome sem razão,
sombra triste que te fala sem palavras ...
Por quem bate o teu cansado coração,
rosa branca, ao vento, triste, desfolhada?!

Que o destino assim te fez!
Solidão, não é, por certo,
é distancia, amor, talvez ...

Esperar alguém é dor cansada,
amar alguém, recorda, só de perto,
rosa branca, ao vento, triste, desfolhada ...

Inserida por Eliot

⁠Tenho Medo -

Tenho medo de tudo o que não vejo,
da amargura dos olhares que se perdem,
das dolencias, dos abraços e dos beijos,
tenho medo das tristezas que não doem!

Tenho medo das palavras e dos versos,
tenho medo do teu cheiro no meu corpo,
tenho medo de tudo o que está perto,
tenho medo, tanto medo de estar louco!

Bem sei que somos feitos, por um Deus, eternamente,
tambem sei que nunca o quis na realidade,
por isso, a Alma sofre e sente-se demente!

Tenho medo de ficar só por ser diferente,
medo de morrer em lençóis feitos de saudade,
afinal, tenho medo de não ser igual à outra gente ...

Inserida por Eliot