Ricardo Maria Louro

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⁠Esta Vida -

Esta vida que Deus me deu
na indiferença e na saudade
fez-me Poeta que viveu
no silencio da cidade.

Passa o tempo de corrida
passa a vida e a vaidade
nas horas da nossa vida
fica sempre uma saudade.

Choro a vida num minuto,
numa hora, num segundo,
das palavras que não escuto
dos cansaços deste mundo.

E embora goste da vida
do Poeta que sofreu
não esqueço a dor sentida
desta vida que Deus me deu.

Inserida por Eliot

⁠Não me Esqueço -

Entre facas, entre espadas e punhais
corto este silêncio com o gume dos sentidos
e não me esqueço dos meus olhos diluídos
em terramotos, tempestades e vendavais.

Não me esqueço desse inferno que vivi
das angustias, dia-a-dia, que me deram
não me esqueço da mocidade que perdi
chorando por tudo o que um dia me fizeram.

Não me esqueço das palavras como espadas
não me esqueço de como em mim foram punhais
não me esqueço de senti-las como facas
na minh'Alma que não tocam nunca mais.

Inserida por Eliot

⁠Se Alguém me Procurar -

Se alguém me procurar pergunte ao vento
que se agita pelos campos sem se ver
procure o meu olhar por um momento
que se agita na alegria de viver!
Se alguém me procurar pergunte ao vento.

Se alguém me procurar pergunte às fontes
procure em cada sitio onde estive
pergunte até aos versos que me esconde
se um dia nos meus olhos não os tive!
Se alguém me procurar pergunte às fontes.

Se alguém me procurar pergunte ao tempo
porque o tempo deu-me a vida que me deu
procure o meu olhar no pensamento
e a memória de um sorriso que era meu!
Se alguém me procurar pergunte ao tempo.

A vida é este canto que me abraça
como estrelas à luz do firmamento
sou a chuva que bate na vidraça
que se agita conforme agita o vento!
Se alguém me procurar pergunte ao vento.

Poema para Celeste Rodrigues
musica do guitarrista Pedro Castro

Inserida por Eliot

Esquece que te amei -

⁠Depois de ter vivido em vão p'ra ti
pensei que nunca mais me procurasses
mas ao passar na rua eu bem te vi,
ao longe, na distância em que passaste!

Levavas ao teu lado outro qualquer
brindavas seu olhar com teu olhar
não sei porque te dás a quem vier
e foges de quem só te quer amar!

Segui, fui pela rua, indiferente,
firme e arrogante, e mesmo assim,
tu paraste ao longe entre as gentes
depondo o teu olhar sobre mim!

Esquece que te amei e p'ra ti vivi,
entrega o teu olhar a quem te dás
depois de ter vivido em vão p'ra ti
adeus, segue o teu rumo e vai em Paz!

Inserida por Eliot

⁠Glória, Poder e Guerra -


É breve a glória deste mundo
chega com o Tempo, vai-se com a morte,
chega d'um silêncio tão profundo
como os braços negros da má-sorte!

E o porquê de tão vis separações?!
Credos e raças que se odeiam,
homens que se aglutinam, destroem corações!
Porque não se tocam nem se amam?

E é tão breve o tempo - passageiro ...
A vida passa p'ra quem vai chegando ...
Tanta guerra no mundo inteiro
e tanta gente que apenas vai passando!

Inserida por Eliot

⁠Tudo isto é passageiro ...
O que fazemos nós aqui?!
Tempo perdido, esgotado,
somos resto, esquecido, entornado,
sem destino ou direcção ...
E quem se acha encontrado,
é mentira, não foge à solidão!

Inserida por Eliot

⁠Cão sem Dono -

Sou cão sem dono,
cão vadio, cão de rua ...
Como do chão,
dos restos de quem vive,
de quem passa ...
Mas nem sempre foi assim!
Já quis ter casa!
E já a tive ...fugi ...
E corro montes e vales
e não me canso de ser livre,
não me prendo a nada,
a ninguém,
e ninguém se prende a mim.
Não há trelas ...

Quando chove,
cheiro a cão molhado,
sujo, enlameado,
ninguém me quer
e eu não quero ninguém!
Porém, quando a noite chega,
cansado de ser livre,
triste, só, ao relento,
sinto uivos na razão
e tenho fome,
e tenho sede,
e tenho frio de amor ...

Tenho medo
de um dia não ser cão,
de ser igual aos outros
e morrer numa prisão!
E corro, e fujo, e ninguém
me apanha ... e vem o dia,
outro dia como tantos,
onde o preço da diferença
é ser vadio, sem dono ...
E há de súbito, em mim,
a brecha de um vazio,
o peso de um cansaço,
um veneno que salivo,
que degusto no paladar ...

E sinto náuseas, vómitos,
uma angustia que me sulca
no galope de um segundo!
Foi da comida que me deram!
Esses que me expulsaram
por ser um cão maricas ...
Que não queria ir à caça,
nem sabia o que era a rua,
nem queria acasalar ...

Um cão que só queria ser um cão,
simples, afável, alegre, sorridente ...
MAS ISSO É SER MARICAS!!! Diziam ...
Deixem-me apenas ser um cão!
Sem regras nem tratados,
arrogância ou presunção!
E se isso é ser maricas, que seja,
não me importo ...

NÃO! Nunca me hão-de ver na caça!
Nunca me hão-de ver de trela!
Nunca servirei para acasalar!
Nem saberão quem levo no coração!
ANTES ABATIDO!!! ...
Como um cão sarnento! ...
NÃO! NÃO! NÃO!
Nunca lhes darei o prazer de assistir
ao meu declínio embora consciente!
NUNCA!!! ...

E que importa que não sintam
a minha falta?!...
A falta que me sentem é daquele
que nunca fui, não de mim, de quem sou!
Que importa que ninguém pergunte
se estou vivo ou se morri?!
Morto já eu estou, para todos, há muito,
desde a hora em que nasci!
Mas sou um morto-livre!
Um morto que a morte não matou! ...
Porque sou livre! E louco! Mas sou eu ...
... fiel ... a mim ...

Um cão sem dono! Vadio! ...
Um cão maricas que não queria ir à caça,
nem queria acasalar ...
Um cão que nem ladrava!
Que só queria ser um cão!
Que não servia para nada ...
... mas foi livre!!!

Inserida por Eliot

⁠Quando Eu Nasci -

Quando eu nasci
houve silêncio!
E o silêncio fez do campo
terra brava...
Houve calma e quietude.
E o Céu era de pedra.
Os regatos carmesim.
Os rios eram desejos.
Os mares eram finitos
e o eterno era miragem.

Quando eu nasci
voaram andorinhas.
Agitaram-se agonias.
Levantaram-se Poetas.
De poemas se vestiram.
De alegrias se fizeram,
mas tristes,
desejavam não viver.

Quando eu nasci
gritaram solidões.
Procuravam um olhar
onde pudessem descansar.
E sete punhos, sete dores,
sete espadas trespassaram
corações...
Mas eu nasci!!!
Entre poetas e pintores.
Alegrias e cansaços.

E minha mãe, ai minha mãe,
que me adormeceu
no silêncio dos seus braços!
Quem bom lembrar...
Volvido tanto tempo
que alegria recordar!

Inserida por Eliot

⁠Romeiro -


"Lembra-te que és pó
que ao pó hás-de tornar!"
Nasce, vive e morre só
quem na vida não amar ...

Lembra-te que és vida
que à vida vais voltar
nunca houve uma partida
sem haver que regressar ...

Lembra-te que és sombra
num passar que não desvia
não te esqueças que ela tomba
mal do céu desponte o dia ...

Lembra-te que és morte
que à morte vais voltar
outra vida, nova sorte,
temos sempre que tornar ...

Lembra-te que és destino
ó Romeiro inconstante
e ao passar pelo caminho
leva Deus a cada instante ...

Lembra-te que és grito
um silêncio bem maior
pois a roupa que te hei visto
são retalhos de uma dor ...

Lembra-te que és Alma
e que a Alma nunca corre
nesta vida encontra calma
porque a Alma nunca morre ...

Inserida por Eliot

⁠Fragilidades -

Quando não temos um sentido
para a vida que vivemos
como um barco em vão perdido
não sabemos o que queremos!

Há vazio, há dor e espanto,
algo falta ao destino
e há em nós um desencanto
que deixa lastro no caminho!

Mas o mundo não entende
que de normal só temos corpos
e que a morte nos pretende
no desejo de estar mortos!

Quando os olhos só nos fixam,
p'ra dizer, tu és errante,
porque teimam e nos miram
deixem ir o caminhante!

De normal não temos nada
só as cordas deste mundo
que nos prendem numa casa
ao silencio em que me afundo!

Mas às vezes não entendo,
porque dou tal importância,
a quem, me vê - nunca me vendo,
fala em mim com arrogância!

E não me lembro de viver
embora o dia esteja claro
porque o desejo de morrer
é mais forte do que raro!

E não consigo acreditar
que chegue um dia a entender
o que quero encontrar
p'ra deixar de querer morrer!

A morte é fuga do cobarde
a vida é força do audaz
mas antes quero, sem alarde,
poder sentar-me com a paz!

Sou mais frágil do que pensam
eis meu sopro de evidência
e só quero que não esqueçam
que da vida fui ausência!

Inserida por Eliot

⁠Partes quando Chego -

A noite vem descendo, em mim, desce o Passado,
estás longe meu amor e eu não adormeço
e passo pelas gentes como um triste condenado
à procura dos teus olhos que eu nunca me esqueço.

Na mão levo a saudade, a noite me encontrou,
a minh'Alma de sonhar anda perdida e calada,
procuro à Luz do Céu por cada estrela que brilhou,
teus olhos, meu amor, rompendo aquela estrada.

Lisboa é o meu fado, às vezes tão cansado,
estás longe quando parto e partes quando chego,
destino que este fado, em nós, já está marcado,
amor fica a meu lado, és tu o meu sossego.

Inserida por Eliot

⁠Um Tempo -

E o Tempo pára-me por dentro!
E o Tempo pára-me por fora!

E há em mim um Tempo cadente,
há em mim um Tempo Passado,
sem vida nem encanto
de mim esquecido, perdido, calado!

E o Tempo finge não ser Tempo!
E o Tempo deseja não ser Tempo!

E há por mim alguém que grita,
há alguém na minha cama,
um lamento que se alinha, que se agita,
conforme agita a voz de quem me chama!

Inserida por Eliot

⁠Pão -

Há tantos barcos ancorados
no cais de uma paixão
tantos olhos rejeitados
na raiz de um coração.

Há tantos corpos mutilados
que procuram salvação
tantos Homens aninhados
em lençóis de solidão.

Há tantos olhos enganados
sem porquê nem razão
vivem dias parados
trazem mágoas na mão.

Há tantos gestos de culpados
que se culpam sem razão
na verdade há muitos lados
p'ra quem precisa de pão.

Inserida por Eliot

⁠Fúria Lavrada -

Há dias que desejamos estar mortos!
Há noites em que choramos em vão!
Dizem que vivemos nos corpos ...
Mas da vida só vejo podridão.

Há horas que somos vermes sem casa!
Há segundos que sufocamos um grito!
Dizem que a vida não está gasta ...
É mentira! Eu não acredito.

Há gente qu'inda pensa em ser feliz!
Há outras que só estancam o sangue!
Sabem aquilo que a vida não diz ...
Vê-se nos olhos, seu rosto, exangue.

Há viúvas que choram seus mortos!
Há filhos que odeiam seus pais!
Há pais que sepultam seus corpos ...
Dão à terra, seus filhos, como animais.

Há dias em que o pranto seca na face!
Há noites que se ouve uma voz impiedosa!
Acredita-se em Deus como se isso bastasse...
Mas tudo termina em morte vagarosa.

Inserida por Eliot

⁠Súplica Vã -

Quem me dera dormir e não acordar mais
nessas horas em que o sono me trespassa
quem me dera ser a causa dos teus ais
nessas noites, em que só, tu não me abraças.

Se tu soubesses meu amor, ai se tu soubesses
quanto espero ver ainda o teu olhar
não ias pela vida como quem esquece
que um dia nos amámos sem esperar.

Se eu pudesse meu amor, ai se eu pudesse
se eu pudesse ser um pranto em tua voz
chorava a noite que me dói e arrefece
quando longe o teu olhar me deixa só.

Se tu pudesses tocar o meu lamento
que se veste de loucura e solidão
este luto que me pesa, meu tormento
teria a cor das aves, brancas, ao serão.

Inserida por Eliot

⁠Eu tenho um Fado -

Eu tenho um fado na mão
tua culpa, meu pecado
mas não te peço perdão
por me dar assim ao fado.
Eu tenho um fado na mão
tua culpa, meu pecado.

Eu tenho um fado na voz
que se amarra no teu Seio
agora estamos mais sós
amor que foi e não veio.
Eu tenho um fado na voz
que se amarra no teu Seio.

Eu tenho um fado no peito
que só canto por te amar
meu corpo, ferido, no leito
'inda espera o teu olhar.
Eu tenho um fado no peito
que só canto por te amar.

Eu tenho um fado na Alma
que é dolencia e solidão
um fado que não me acalma
e que me rasga o coração.
Eu tenho um fado na Alma
que é dolencia e solidão.

Inserida por Eliot

⁠4 Letras -

Quatro letras me recordam o amor
embaladas no meu corpo de paixão
quatro pétalas caídas tem a flor
esperando ter ainda uma afeição.

Quatro dores se me dão à despedida
quatro zangas me separam desse amor
quatro mastros nos são dados pela vida
tantos sonhos numa barca além da dor.

Quatro Povos nos deram solidão
quando a vida amanheceu e começou
quatro vozes nos sangraram o coração
mal o fado p'las vielas se espalhou.

São quatro esses lamentos qu'inda canto
pelas noites que me abraçam ao serão
são quatro as minhas culpas que levanto
na tristeza dos meus versos d'ilusão.

Inserida por Eliot

⁠Quando a Cruz foi Erguida -

Quando a cruz, ao alto, foi erguida,
e nela, suspenso, Jesus Cristo,
no Céu, um trovão, rasgou a vida,
nunca, nada assim, se tinha visto.

Havia tanta dor junto a Jesus ...
Sua mãe, vestia luto e solidão,
pois ao alto, seu filho, numa cruz,
como um triste condenado, sem razão.

E na tristeza de tão perdido olhar,
trazia sete dores numa mão,
e no peito, sete espadas a brilhar.

Quando, pelo Céu, o trovão soou,
as espadas, no seu peito, eu vi entrar,
eis quando nessa cruz - Jesus - expirou!

Inserida por Eliot

⁠Na Rota do Vazio -

Trago num pensar feito de nadas
memórias que um dia serão morte
não lamento se as horas estão contadas
não sinto do meu corpo as passadas
passam breves, não é que isso me importe
afinal, minhas asas estão quebradas!

Já não tenho as asas que antes tive
no meu dorso as sinto consumindo
regresso a cada sitio onde estive
àqueles onde a morte fui vestindo
nada lá encontro, nada vive
tudo a cada dia vai fugindo!

Já não tenho esse regaço onde dormi
já não sinto o teu olhar profundo
já não sei daquela vida que vivi
daqueles versos que outrora te escrevi
da vontade de ser dono do mundo
quando afinal vivia só p'ra ti!

Inserida por Eliot

⁠Confissão -

Ó pobre vida vivida
sempre à margem do amor
sei que te sentes perdida
ao veres-te assim envolvida
na solidão e na dor.

Não chores vida vivida
porque a esperança não morreu
não és folha caída
não és vida vencida
dá-lhe o que Ela não te deu.

Até um forte vendaval
ou tempestade no mar
são destino, são sinal
de que a vida bem ou mal
tem um dia que acabar.

Numa estrada sem destino
com destino ao coração
num silêncio que encaminho
tantas vezes em desalinho
só encontro a solidão.

Inserida por Eliot

⁠Saudade e Desamor -

A saudade vem de longe
como vem a solidão
vem à pressa, vem a monte
no pulsar de um coração.

A saudade é coisa rara
é vazio em pedra fria
é um berço que m'embala
nesta dor em triste dia.

Traz saudade o teu amor
traz silêncio o teu olhar
da saudade ao desamor
é traçado o meu penar.

Não me esqueço da saudade
por não ter saudade tua
já não tenho liberdade
que a saudade continua.

Inserida por Eliot

⁠Sem Retorno -

Foi na rua dos teus braços
junto à porta da capela
que fiquei apaixonado;
pois do alto da janela
teu olhar imaculado
era a estrela da viela.

Dar-te um beijo quem me dera
delicado como a flor
no teu rosto sem idade;
mas quem espera, desespera
que a saudade e o amor
andam juntos na verdade.

Meu amor é fria a vida
como as dores que se estendem
desde a noite à madrugada;
e os teus olhos, minha querida
não me vêem nem entendem
nesta voz amargurada.

E ainda, creio, agora,
que a ternura nos renega
mas o amor não tem idade;
quem não espera vai embora
vai embora e desespera
no silencio da saudade.

Inserida por Eliot

⁠Quando o Amor Acontece -

Quando o Amor nos acontece
damos à vida outra vida;
o coração o reconhece
e a vida até parece
não passar tão de fugida.

Quem não ama não entende
que o amor é coisa rara;
e ai de quem nunca pretende
numa estrada que se estende
dar à vida mais que nada.

Mas quem espera sempre alcança
vai-se a dor e o quebranto;
e ai dos olhos de quem ama
quando o nosso nome chama
traz um brilho no encanto.

Quando a vida até parece
ser eterna despedida;
eis que alguém nos aparece
eis que o amor nos acontece
damos à vida outra vida.

Inserida por Eliot

⁠Ao Acaso dos Sentidos -

Com a faca dos sentidos
faço um buraco no tempo
e dos sonhos esquecidos
nasce a dor do pensamento.

Há tantos corpos fechados
acrisolados no medo
tantos homens desterrados
por guardarem segredos.

Há tantos olhos de pedra
chorando lágrimas de cal
num silencio quem dera
fossem lágrimas de Portugal.

Há gente morrendo ao frio
com tantas facas por dentro
e alguém se atira ao rio
por viver no esquecimento.

Minha faca já não rasga
a raiz da solidão
a vontade já está gasta
e até eu já sou em vão.

Como silêncio que se aborta
há um tormento na voz
há uma faca que corta
e nos separa de nós.

Inserida por Eliot

⁠Ai meu Amor -

Se o partir for
como te amar
ai meu amor
não me deixes abalar!

Se o morrer for
como adormecer
ai meu amor
como eu quero morrer!

E se o viver for
como acordar
ai meu amor
eu não quero voltar!

Inserida por Eliot