Ricardo Maria Louro

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⁠Sozinho -

Ando na vida sozinho,
à deriva, como um louco,
meu olhar, coitadinho,
do destino sabe pouco.

Ando na vida sem assento,
por capricho ou solidão,
estou vencido, não há tempo,
meu cansado coração.

Ando na vida sem rumo,
à procura de um caminho,
estou perdido mas assumo,
anďo na vida sozinho!

Inserida por Eliot

⁠Miragem de Morrer -

Hoje o dia está cansado
dos meus versos de saudade,
oiço um canto, é um fado
e há silêncio na cidade.

Hoje a noite está perdida
em palavras de amargura
e minh'Alma tão esquecida
no passar da noite escura.

Hoje a morte é só miragem!
P'ra quem tem sorte de morrer
a vida é triste imagem
na vontade de viver ...

Meu destino, nao ter casa,
foi a vida a que me dei,
hoje sinto, não sou nada,
porque o sinto eu nao sei!

Inserida por Eliot

⁠De Poema em Poema -

Fui de poema em poema
à procura da razão
que me fazia ter por tema
a dor, a morte e a solidão.

Mas os versos não sabiam
o porquê dessa loucura,
só falavam, só diziam,
sempre cheios de amargura.

Digo aos gritos sem pudor
que meus versos são um pranto!
Mas o porquê de tanta dor,
tanta morte no seu canto?!

Talvez devesse procurar
a razão dessa agonia,
não nos versos, a chorar,
mas em mim, no dia a dia...

Inserida por Eliot

⁠Teus -

Teus olhos, meu amor,
dois dolentes madrigais
que me inebriam de pavor
por não saber aonde vais!

Teus lábios, meu amor,
duas rosas em botão
que secam ao calor
no canteiro do coração!

Teus versos, meu amor,
são os ecos do agoiro
de um agoiro bem maior!

E teus cabelos, meu thesoiro,
os cordões da minha dor,
mais finos que o fio de oiro!

Inserida por Eliot

⁠Conversa Fiada -

Não me venhas com conversas
que eu já não te quero amar
só quero que tu me esqueças
que eu vou p'la vida a cantar.

Aqueles versos que me deste
faziam tantas promessas
os versos que tu fizeste
rasguei-os ontem à pressa.

Talvez te lembres dos meus olhos
chorando por não te ver
agora choram aos molhos
só já te querem esquecer.

Só tenho mágoa no meu peito
por não te ver como eras
agora é tudo ao meu jeito
só quero que tu me esqueças.

Inserida por Eliot

⁠Cautelosa e Serena -

Quando a morte vier
cautelosa e serena
haverá luto e solidão
no sentir de quem souber
que o seu toque deixa pena
no pulsar do coração!

Quando a morte vier
ninguém sabe quando virá
talvez traga algum encanto
no olhar de quem lhe der
aquilo que ninguém dá
a saudade como um canto!

Quando a morte vier
vem com ela outro destino
vem com ela outra vida
e se alguém a não quiser
terá dor no seu caminho
ao partir sem despedida!

E é mentira quem disser
que o morrer já não importa
só a vida que passou
quando a morte vier
de repente fecha a porta
e quem era terminou!

Inserida por Eliot

⁠Tempo Infimo -

Fecho os olhos por instantes
e ao abri-los novamente
numa dor, triste, constante,
vejo a vida tão diferente!

Esse alguém a quem amava
num passar por entre escolhos
dizia adeus e abalava
deixando mágoa nos meus olhos!

Podem morrer os horizontes
podem chorar todas as gentes
podem secar todas as fontes
que o meu amor é para sempre!

Tempo infimo, esgotado,
dor presente sem destino,
sonho morto, enterrado,
olhar triste sem carinho!

É assim a nossa vida,
ora quente, ora fria,
encontrada ou perdida,
ora noite, ora dia ...

Inserida por Eliot

⁠Chorão -

Ao pé daquela casa onde vivo
há uma árvore em vetusta solidão
da qual se escuta, ao passar, tanto gemido,
como se fora de um Poeta o coração...

Ninguém sabe de onde veio nem porquê!
O que faz ali num estático sossego?
Além da árvore que é árvore ninguém vê
que ela traz dentro de si a Poesia por apego.

Espalha pela rua a magia de um sorriso,
triste, só, ao vento, seja noite ou seja dia,
em diáfana presença procura alguém perdido
e seu corpo de silêncio embala tanta melodia.

E o que faz aquela árvore calada rodeada pela Era
no meio de uma rotunda ao pé da minha casa?!
Presença cinzelada que nada diz nem me revela,
que apenas sinto, na voz de um silêncio que me abraça ...

Que encanto dá à minha rua a alegria daquele mágico Chorão,
dança todo o dia, chora toda a noite e canta, canta e encanta ...
E minh'Alma, pejada de espanto, vê numa parede, alinhada com o chão
uma lápide de mármore que nos diz: Praceta Florbela Espanca!

Inserida por Eliot

⁠Rubra Cor -

Tarde fria, sonolenta ...

E cai o dia, breve instante
num segundo de dolência!

Eu juro que não sei
quem sangrou o peito ao Sol poente
que inunda o horizonte
e o agoniza lentamente!

Tarde rubra, encantada
que deixa tantos escolhos
de uma intima lonjura
no silêncio de meus olhos ...

Inserida por Eliot

⁠(In)confidência -

Minh'Alma
cansada e sem pudor
é onde a sós
estou contigo
meu amor!

É sede, sim,
uma longa tortura,
uma fome de mim,
ó meu amor,
tenho sede de ti!

E tanta dor persiste
na alegria de versejar
pois teu amor insiste
em partir e não voltar!

Inserida por Eliot

⁠Encadeamento -

Hoje é véspera de amanhã
e eu não sou véspera de nada
como a tarde e a manhã ...

O meu ontem é passado
o teu hoje é uma espada
e o meu corpo está cansado ...

Anteontem foi mentira
estar só uma verdade
e minh'Alma tão perdida ...

Inserida por Eliot

⁠Tragédia de um Adeus -

Meu amor o teu silêncio
faz parar meu coração,
numa triste madrugada
minha fria solidão
numa cama já cansada!

Meu amor terás meu corpo,
nos teus olhos meu olhar
e no silêncio das palavras
esta ânsia no mar morto
será eco de um cantar!

E os teus olhos, meu amor,
cor das longas ventanias,
olhos fundos como os meus
dois martírios pelos dias
na tragédia de um adeus!

Inserida por Eliot

⁠Máscara -

Trago em mim uma verdade que não quero,
uma verdade a que me dou mas nunca dei,
algo que de mim sei mas não tolero,
uma triste confissão que não farei ...

Tantas vezes que pela vida vou cantando,
mas no entanto, sinto que me morro,
e na verdade, quase sempre pela vida vou chorando,
e quem me vê sorrindo não sabe o quanto choro!

Inserida por Eliot

⁠Caçada -

Pelos campos, na herdade,
saem galgos a correr,
manhã cedo, uma caçada;
é noite, na verdade,
e entre frio, a chover
desce ainda a madrugada!

Há um galgo branco e leve
a correr direito ao rio
entre a névoa densa e clara,
pelos campos uma lebre
que ao saltar cheia de frio
lhe parece jóia rara!

Desce o Sol no horizonte
e no meio da claridade,
voam tordos pelo ar;
a caçada vai a monte
no silêncio da herdade
correm galgos sem parar!

Inserida por Eliot

⁠Evasão -

No silêncio da minha cama fria,
na loucura do meu quarto sem sentido,
na tristeza da minha casa tão vazia,
caminho passo a passo, em vão, perdido.

Bóiam tantos mortos em torno a mim ...
E oiço alguém desamparado que me fala comovido ...
Alguém que olha com olhos de jasmim,
cujos olhos, cortam o silêncio, como um grito ...

Sua face, escavada, adornada
de solidões ardentes, quase morta,
coberta de cansaços e mais nada,
lembra casas como a minha já sem porta.

Seus olhos de descansos por viver,
de pálpebras frias, pesadas, sem nada,
choram lágrimas de pedra, a arder
em corpos de andorinhas, sós, paradas.

Seus lábios coam água de seus olhos,
sua voz, azeda, balbucia solidões,
o destino, esse, quem lho deu, cheio de escolhos,
cansaços de amargura, tristeza e podridões?!

Nem sei que diga ante dor que é tamanha!
Que triste desencontro! Eu lamento esse dia
que se prende no meu peito, que me apanha,
sempre que escrevo no papel uma poesia!

Inserida por Eliot

⁠Minha Vida é Solidão -

Minha vida é solidão
no cansaço da navegar
nela afogo o coração
como um náufrago no mar.

E mal cheguei à vida
não sabia que era assim
tanta gente, só, perdida
num caminho sem ter fim.

Fui galgando como um rio
tive pressa de chegar,
tantas dores, tanto frio
na loucura de m'encontrar.

Mal disse a minha vida
na procura de uma luz
alma aberta, alma ferida,
sob o peso de uma cruz.

Inserida por Eliot

⁠Fado das Aias -

Introdução ao Fado das Aias:

"Eis que em Portugal, surgem caminhando melancólicas, no areal,
xaile traçado, vestidas de negro, as Aias da Solidão.
Mulheres que choram seus homens, junto à barra-Tejo, no cais da despedida.
Passam absortas, sombrias, solitárias, cantando a dor da separação na voz do Fado.
E há lamento, angustia e solidão ..."

IN O Último grito da Gaivota,
do mesmo autor.


FADO DAS AIAS

Traçámos nossos xailes no coração
junto ao Tejo neste cais da despedida
ai xailes, negros xailes, solidão,
herança que ficou dessa partida.

Por não ter um coração onde se acoite
o fado é um canto de incerteza
gemidos de guitarras pela noite
trinando nossas horas de tristeza.

Em horas de agonia sem razão
cantámos tantos fados que martirio
ai xailes, negros xailes d'ilusão
ai fados, tantos fados em delirio.

Tão longe do amor p'la barra fora,
por mares, navegando sem perdão,
deixaram tantas Almas em penhora
e fizeram de nós Aias-Solidão.


P.S/ O Fado nasce da saudade, a saudade da distância
e a distância do sonho de navegar ...

Inserida por Eliot

⁠Separação Forçada -

Há um vazio que se sente
quando alguém se vái embora
alguém que toma a nossa mente,
dia a dia, hora a hora.

Há uma saudade que nos turva
quando alguém nos diz adeus
e cada estrada, cada curva
nos lembra os olhos seus.

E a distância é um tormento
a solidão é um cansaço
até nos dói o pensamento
no desejo de um abraço.

Duas vidas tão diferentes
dois destinos desiguais
dois lamentos permanentes
que não se cruzam nunca mais.

Inserida por Eliot

⁠Aos Pés da minha Cama -

Aos pés da minha cama
há um baú cheio de versos
uma dor que é tamanha
de um poeta controverso.

Aos pés da minha cama
há um baú cheio de morte
hora a hora de quem ama
e odeia a sua sorte.

Aos pés da minha cama
há um baú cheio de vida
uma vida de má-fama
de tantas regras despida.

Aos pés da minha cama
há uma dor, triste lembrança,
mil poemas, o meu drama,
o baú da minha herança.


Ao baú cheio de versos que está aos pés da minha cama na casa do Outeiro em Monsaraz.

Inserida por Eliot

⁠Retrato Espontâneo -

Num gesto suspenso e cansado
alguém surgiu ao longe
caminhando passo a passo
solitário como um monge.

Era alguém! Bem sei que era!
Alguém sem nada que nada diz
passando livido como a cera
por entre os outros infeliz.

Trazia olhar de prata
olhos negros cor de fado
alguém que a morte não abraça
um poeta já cansado.

Quem seria tal figura
que o destino ali nos deu?!
Olhei com olhos de ternura
e afinal aquele era eu! ...

Inserida por Eliot

⁠Insónias de frio -

Outono, manhã cedo,
tarde quente, ensolarada,
eu dormindo sobre o medo
e tudo igual de madrugada.

Tudo igual na vida,
noite fria, nevoeiro,
minha esperança perdida
e da morte nem o cheiro.

Da morte nem a sombra
que passa por quem leva
e åi de quem se esconda
de um destino que não chega.

Sempre chega, sempre vem,
numa tarde ensolarada
pois a vida vai e vem
numa eterna madrugada.

Inserida por Eliot

⁠Diurno -

E é como se as pedras da rua me gritassem aos ouvidos
e os narcóticos silencios tangidos pelo dia fossem rosas de papel,
gemidos ( ocultos, perdidos,) que se adensam no mais escuro da vida, que se misturam no mais dentro da morte!

Vaidades! Só vaidades!

Saudades que se ocultam nos olhares, vendavais de solidão,
mentiras que subplantam o intimo da verdade e olhares,
mil olhares que desolham quando passo - tudo é vão ... tudo é vão!

Tudo pela rua vai passando, tudo passa sem passar,
mentindo e naufragando, magoando, magoando ...
Passageiro clandestino, assim me sinto, assim me vejo!
Um sem rumo, perdido, em luto! Tão longe e tão perto ... deserto!

Vivendo sepultado onde nunca existi - caminho entre as gentes
que morreram e não sabem - zoombies do destino - sem tino ...

São sombras Senhor! São sombras!
Quando passo não as vejo, só as sinto ...
Estão mortos Senhor! Estão mortos!
E eu tão vivo! E eu tão vivo!

Às vezes queria ser um deles, cego, calado, infiel e possuido ...
Sem norte ou direcção!
E a minha direcção qual é?!
Se a tenho quem ma diz?!

Talvez a solidão que pinga dos meus dedos,
que se prende às minhas mãos,
que resvala no meu peito,
que se inclina ao meu olhar ...

Vou-me embora, Senhor, porque afinal, não sei amar!

Inserida por Eliot

⁠Demissão -

Ao passar vi o destino
ao longe num soluço
parado no caminho
com trajes cor de luto.

Suas mãos sobre o corpo
cheias de noite e solidão
como o destino de um morto
que se lhe gela o coração.

Olhos tristes e velados
num horizonte sem razão
dois cálices cansados
suspensos numa mão.

Então o mundo também parou
o destino estava zangado
por alguém que não chegou
e o deixou amargurado.

Aproximei-me lentamente
olhei adentro ao seu olhar
e perguntei-lhe francamente:
-Por quem é o teu penar?!

" - Cada um tem um caminho
de alegria, pranto e dor ...
Já não quero ser destino
porque perdi o meu amor!"

Que amargura nesse rosto
suspiros longos pelo ar
tal qual o meu desgosto
quando partes sem voltar!

Ao destino que julgava ser destino sem destino ....

Inserida por Eliot

⁠Decisão da Morte -

De suspirar a cada dia já cansado
deitando no meu leito a solidão
eis que junto a mim pegando a mão
senti um toque longo e velado!

Era a Senhora dona Morte
mensageira de todas as nortadas
espalhando pela noite a cor do nada
trazia um tal silêncio no seu porte!

Tinha olhos frios e desgarrados
trajava negro luto sobre o corpo
vi-lhe traços pálidos d'um morto
passos lentos, tristes e pesados!

Falou da solidão onde me afundo
falou da dor que visto no meu corpo
disse que sou vivo mas estou morto
por isso não me leva deste mundo!

Inserida por Eliot

⁠Habemus Nada -

Alguem diz habemus Papam
na varanda de São Pedro
mas da morte Ele não escapa
e o que habemus é segredo!

E o que habemus nós de querer
deste mundo de mortais
além da fama de não ser
tão diferente dos iguais?

E o que habemus nós de ter
não sabendo o que é amar
numa ânsia de correr
sem saber quando parar?

E o que habemus nós de ser
procurando ser alguém
num caminho que é esquecer
que esta vida vai e vem?

E o que habemus nós de dar
a quem nos dá o que não queremos?
O segredo é não esperar
por aquilo que não temos!

E o que habemus de sentir
perante a crueldade
de uma gente que a fingir
é tão má na realidade?

E por que habemus de chorar
quando houver separações
se não temos quem amar
no bater dos corações?

E o que habemus ante a morte
quando a vida é despojada?!
Nada fica, triste-sorte,
e afinal habemus nada ...

Inserida por Eliot