Versos de Solidão
Já faz alguns anos que adotei a solidão como morada. Inicialmente pensei que fosse algo passageiro, uma fase ordinária. Mas com esse prazo de validade indeterminado, constatei o quão atroz és. Anseio por uma coletividade de prazeres — e, ao mesmo tempo, um regalo nessa terrífica morada que instalou-se no meu peito. Pode parecer loucura, mas essa desarmonia coletiva me faz querer continuar. Sinto falta da pessoa que fui, mas me adaptei nesse ninho eloquente e aconchegante, que abriga a minha obscura particularidade. No mais, por mais insano que pareça, ainda anseio tocar o poente. É isso!
Solidão pressupõe vazio, falta de opção, desolação, sofrimento. E eu não estou vazia, muito pelo contrário. Seleciono minhas companhias, e quando sozinha estou, é por que naquele momento ninguém poderia fazer-me mais feliz que minha própria companhia.
Numa mansão ou num casebre, a solidão sempre se chamará solidão. Porque se sentir sozinho não tem a ver com o tamanho do espaço diante do corpo, mas com o tamanho do vazio diante do peito.
Quando a tristeza é muito grande, a solidão é um calabouço aconchegante. Lágrimas caem, mas não secam, evaporam e pingam a dor em cada lembrança. Por isso, não aceite que o outro seja o avalista da sua felicidade nem o financiador dos seus momentos de amor.
Durante dias de tristezas me veio uma luz, e essa luz me tirou da estrada da solidão e me trouxe de volta para a mesma vida sem amor e emoção.
Há quem maldiga o amor, se abrace a solidão, dissolva-se no rancor, petrifique-se na escuridão. Pobres zumbis afetivos.
Estar sozinho não é solidão, é sim o encontro divino de si mesmo! Esse encontro revela o quanto é maravilhoso nos conhecermos, nos tocarmos e nos amarmos. Nesse encontro sereno e sincero, nos deixa mais puros e verdadeiros. Não temos porque enconder nada e nada é impossível. Tudo clareia e em perfeita harmonia nos colocamos totalmente a vontade, para dizer, entender e renascer do nosso melhor, do nosso íntimo!
