Falar do universo literário de Henry Charles Bukowski Jr. (1920-1994) é falar de um mundo, na maioria das vezes, sujo, agressivo e cru, mas muito (muito) interessante.

O romancista, poeta, e contista alemão expôs praticamente muito de vida em seus escritos autobiográficos, o que, em conjunto com a sua espontaneidade literária, o tornou um dos autores mais lidos da cena mundial.

Com uma escrita de frases curtas, muita intensidade e quase nenhum pudor, o “Velho Safado”, como ficou conhecido no mundo, é lembrado com um dos autores mais autênticos e viscerais do último século.

Selecionamos os 20 melhores poemas e frases de Bukowski: o escritor maldito mais querido da literatura norte-americana.

O velho safado sabia falar de amor

Começamos por uma viés do poeta que é pouco divulgada, mas tão genial quanto qualquer outra que tenha trabalho: o seu lado romântico. Apesar de ser conhecido por sua promiscuidade, há na obra de Bukowski um desejo latente de amar e ser amado:

Encontre o que ama

Encontre o que ama e deixe que te mate.

Charles Bukowski

Observe este trecho do poema “Confissão”:

(...)
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo.

Charles Bukowski

Em  “Garotas calmas e limpas em vestidos de algodão”, Bukowski surpreende do título ao final:

(...)
preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher
mais do que da máquina de escrever, mais do que do
meu automóvel, mais do que de
Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que posso
senti-la no ar, posso senti-la
(...)
eu sei que ela existe
mas em que parte deste planeta ela está
enquanto as putas continuam me encontrando?

Charles Bukowski

O autor, inclusive, teve um livro lançado em 2016 no Brasil chamado “Sobre o amor”, uma coletânea de poemas que tratam do amor e sentimentos puros. Vários dedicados às mulheres que passaram pela sua vida, mas também a outras coisas pelas quais o autor era apaixonado, como a sua filha e a própria escrita.

Trecho de “Elogio a uma nobre mulher dos infernos

(...)
e você sempre me amaldiçoava quando bebia
seu cabelo para baixo escorria
enquanto você parecia que explodia
mas o que te segurava:
podres memórias
dum
podre
passado,
e quando
você morreu
deixou meu presente
roto
e desde que partiu
da minha mente
há 28 anos
não saiu.

Charles Bukowski

Bukowski sobre o amor

Amor? É como quando você vê a névoa de manhã,
quando você acorda antes do sol nascer.
É como um breve instante que depois desaparece.
Apenas isso, o amor é uma névoa que queima com a primeira luz de realidade.

Charles Bukowski

Sobre gostar de estar sozinho

Um tema frequente nas obras de Bukowski são as mulheres. Ele estava sempre rodeado delas, mas ao mesmo tempo amava estar sozinho. E não tinha problema com a solidão. Veja o que fala sobre sua visão da sociedade e das pessoas:

Eu nao odeio as pessoas

- Eu odeio pessoas, você não?
 - Não. Só quando elas estão perto de mim.

Charles Bukowski

A CRISE
demais, de menos
muito gordo
muito magro
ou ninguém.
riso ou
lágrimas.
os que odeiam
os que amam.
(...)
as pessoas simplesmente não são boas
umas às outras
(...)
eu suponho que elas nunca serão.
eu não peço que sejam.
mas às vezes eu penso sobre
isso.
(...)
certamente existe uma maneira que ainda não
cogitamos.
quem pôs esse cérebro dentro de mim?
ele chora
ele exige
ele diz que ainda há uma chance.
ele não dirá
“não.”

Charles Bukowski

Nunca me senti só

Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar.

Charles Bukowski

Uma embriaguez de sentimentos

É sabido que uma das paixões de Charles Bukowski era o álcool. O autor dizia que sentia-se muito mais inspirado para fazer qualquer coisa enquanto estava embriagado e teve vários problemas na vida por causa de seu alcoolismo.
Não dá para negar que o álcool foi um hábito negativo que regou muito da genialidade do artista:

Sinto que quando bebo

Sinto que beber é como uma forma de suicídio em que você pode voltar à vida e começar tudo de novo no dia seguinte.  Acho que eu vivi umas dez ou quinze mil vidas até agora.

Charles Bukowski

Um trecho do poema “Ressacas”:

(...)
bêbados nunca são perdoados.
mas bêbados perdoam eles mesmos
porque precisam beber
de novo.
é preciso muita resistência para
ser um bêbado por tantas
décadas.
(...)
escrevo isto agora
sofrendo uma de minhas
piores ressacas
enquanto lá embaixo
esperam várias e várias
garrafas de
álcool.

Charles Bukowski

Quando a gente bebe

Quando a gente bebe, o mundo ainda continua aí, mas por um momento ele não te segura mais pela garganta.

Charles Bukowski

Bukowski amava as palavras e seu Pássaro Azul

Quando era adolescente, apenas quinze anos, o escritor escreveu o seus primeiros poemas. Só perto dos quarenta anos de idade é que o autor foi publicado pela primeira vez, com alguns poemas em revistas de literatura. Aos cinquenta e um anos de idade seu primeiro livro, “Cartas na Rua”, foi lançado. Ou seja: boa parte da vida do escritor não teve nenhuma glória. Foi nos seus últimos vinte anos de vida que “conheceu a fama”, mas isso nunca o impediu de continuar escrevendo.

Em um trecho de seu poema “Como ser um grande escritor”, ele evoca grandes nomes da literatura para se automotivar a continuar escrevendo:

(...)
bata na máquina
bata forte
faça disso um combate de pesos pesados
faça como um touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.
se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está
sem mulheres
sem comida
sem esperança
então você não está pronto.
(...)

Charles Bukowski

Essas palavras me protegem da loucura

Essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura.

Charles Bukowski

Em um dos seus poemas mais celebrados, “Pássaro Azul”, o escritor descreve em tom melancólico a sua relação com uma parte de si que pulsa vida, sensibilidade e vontade de voar.

(...)
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro
e tu?

Charles Bukowski

Se você gosta de escrever e se imagina como um(a) grande escritor(a) um dia, ouça o conselho do velho Buk:

Conselho sobre ser escritor

– Você aconselharia alguém a ser escritor?
– Tá querendo me gozar? – retruquei.
– Não, não, falo sério. Aconselharia, como carreira?
– Escritor já nasce feito, não é conselho que vai resolver.

Charles Bukowski

A vida de Bukowski foi uma metáfora sobre ser livre

Considerado um verdadeiro transgressor, marginal, obsceno, Bukowski incentivava a si mesmo e aos leitores, através de seu alter ego e principal personagem, Henry Chinaski, a questionar padrões e viver livre, mesmo que (no caso dele) isso lhe custasse os confortos de uma vida regrada.

E agora

Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manhã, penso, Deus Todo-Poderoso, o que mais agora?

Charles Bukowski

Sua própria forma de escrever, com versos sem rima, frases curtas, linguagem simples e violenta, reflete o estilo de vida que o autor teve durante toda a sua vida.

POEMA NOS MEUS 43 ANOS
terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida—
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter um quarto.
…de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores , médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi…
e você se vira
para o lado pra pegar o sol
nas costas e não
direto nos olhos.

Charles Bukowski

O que é terrível não é a morte

O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas vivem ou não vivem até suas mortes.
A maioria das mortes das pessoas é um engano. Não sobrou nada para morrer.

Charles Bukowski

NASCIDO NISSO
Nós nascemos assim, nisso:
nos hospitais que são tão caros, mas que são baratos para morrer;
com advogados que cobram muito,
é mais barato pleitear a culpa num país onde as cadeias estão cheias
e os hospícios estão fechados;
num lugar elevam idiotas em heróis ricos.
(...)
Nós nascemos nessa triste linha da morte,
lá estará aberto e impunível os assassinatos nas ruas,
serão armas e multidões passageiras,
a terra será inútil
(...)
Nascido fora disso,
o sol escondido estará à espera do próximo capítulo.
(...)
Séculos de poemas
e nós estamos de volta ao
ponto de partida
como a filosofia, história,
medicina, ciência, os poemas parecem
modificar as coisas
parecem conduzir para uma
saída
aí vacilam diante das
correntes inconstantes e crescentes
disputas.  

Charles Bukowski

E terminamos com uma reflexão/pergunta que de certa forma resume a vida e obra deste que foi considerado pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre, “o maior poeta da América.

De algum modo

De algum modo, sentia que estava ficando meio maluco. Mas sempre me sentia assim.
De qualquer forma, a insanidade é relativa. Quem estabelece a norma?

Charles Bukowski