Textos de Esquecimento
" Não sei o porquê
ainda amo você
apesar de todos os dias
lutar para te esquecer
e no embalo da vida
o coração pede
tua presença a toda hora
em meu corpo, que sem ter o que fazer
espera e chora
não acreditei que existisse, um amor assim
hoje sei que existe
porque tenho certeza, ele está cravado em mim...
Se um dia as pessoas que eu quero bem se forem, eu não me esquecerei. Quando me afastei o quanto pude, houve uma hora tranquila em que, ao me inclinar sobre uma flor, ouvi tua voz. Não me digas que não, porque te ouvi falar. Falaste daquela flor no parapeito da janela.
— Lembras-te do que disseste?
— Primeiro, dize-me o que julgaste ter ouvido.
Tendo encontrado a flor e afugentado uma abelha, inclinei a cabeça e, segurando-lhe a haste, escutei. Julguei ter captado uma palavra.
— Qual era? Chamaste-me pelo nome?
— Ou disseste apenas: "Vem"?
Ouvi ao debruçar-me. Talvez tudo tivesse nascido apenas em meu pensamento; talvez nenhuma voz houvesse atravessado o silêncio. Ainda assim, respondi ao chamado.
— Pois bem, então eu vim.
Dorme sossegada, águia esquecida. Lá o tempo é contigo. Publicamente demonstram tristeza, mas no íntimo não se sabe. Rosnavam contra ti todos os dias a tua passagem. E agora te acabaste. Louvam-te e deixam-te à margem.
Os outros, que te choraram em silêncio e em verdade — o rapaz em mocidade, o humilhado, o desprezado, o ferido, e o pobre — aqueles que jamais deveriam esquecer, já não se lembram mais.
Onde estão os que te amavam? Sob que nome agora se abrigaram? Onde repousam os exércitos de perdidos que um dia choraram sobre tua face?
Seus nomes são uma centena de heróis de alto brilho; numa centena de brancas águias tornaram-se os filhos de teus filhos. O fervor com que um dia sonhaste é o mesmo que lhes consome as asas. A valentia que incendiava tua alma permanecia a serviço do homem.
Dorme sossegada, águia esquecida. Lá o tempo é contigo, e o barro também age. Dorme, ó bravo coração, ó sábia criatura que acendeu a chama.
Porque viver na humanidade é muito mais do que viver num nome.
Viver na humanidade é muito mais do que viver num nome. Há um pássaro entre as colinas e as folhas são pequenos peixes amarelos nadando no rio. O pássaro faz rasantes e ofusca o rumor das folhas do vento. Viver na humanidade é muito mais do que viver um nome. Voa grande águia.
Jamais esqueça deste princípio.
Você não precisa de ninguém para te promover. Descubra o quão talentosa você é. Muitas vezes, escondemos o nosso potencial porque vivemos na constante necessidade de provar aos outros quem somos, e esquecemos que eles mesmos já reconhecem o nosso valor.
Ubirajara Almeida
Cultos sem Altar:
A Noiva que Esqueceu o Noivo
Estamos transformando nossos cultos em simples encontros familiares. Nossa maior expectativa já não é adorar a Deus, mas encontrar alguém para colocar a conversa em dia, tratar de assuntos do nosso departamento e, após o culto, sair com nosso grupo social para confraternizar.
Ao final das reuniões, Cristo, que deveria estar entronizado e sendo adorado, permanece à espera da devoção que Lhe é devida. Enquanto isso, observa, em silêncio, aqueles que se dizem Sua "noiva" relacionando-se e envolvendo-se mais com o mundo do que com Ele.
Virei a página
com mãos firmes e coração leve,
não porque esqueci,
mas porque escolhi continuar.
O que passou virou aprendizado,
não morada.
Não carrego mais o que me prende,
nem revisito o que me machuca.
Agora, cada linha é recomeço,
cada passo é coragem,
cada escolha é por mim.
Nova história não pede permissão —
ela nasce quando a gente decide viver.
E eu decidi:
não sou mais capítulo interrompido,
sou livro aberto
Helaine Machado
A Integridade como Testemunho da Graça
Encontrar uma mala esquecida, com o fruto do trabalho de outro, não é apenas um teste de honestidade, é um confronto com a nossa própria natureza. Ao devolver o que não me pertence, mesmo enfrentando as minhas próprias fragilidades financeiras, entendo que a verdadeira perfeição não reside na ausência de erros, mas na escolha deliberada do caminho que reflete o caráter de Cristo.
Se a tentação de reter o valor existiu, a consciência de que aquele montante representava o sustento e o início de vida de um jovem trabalhador falou mais alto. Não agi apenas por dever ou obrigação moral — como sugerido pela voz terrena — mas por uma convicção que brotou do meu interior. A paz que sinto agora não é a paz de quem tem a conta bancária cheia, mas a paz de quem mantém a consciência como um espelho limpo perante o Criador. Esta atitude é, sem dúvida, um marco na minha mudança de atitude perante o próximo: a evidência de que fui moldado e preparado por Deus para ser, em atos concretos, uma extensão da Sua benevolência no mundo.
Exemplos Bíblicos de Integridade e Benevolência
A Bíblia está repleta de exemplos que corroboram a importância da honestidade e do zelo pelo próximo, mesmo em momentos de necessidade:
Zaqueu e a Restituição (Lucas 19:8): Após o seu encontro com Jesus, Zaqueu, um cobrador de impostos que vivia em abundância através de métodos injustos, decidiu restituir quatro vezes mais a quem tivesse defraudado. Ele compreendeu que a salvação exigia uma retidão prática e o cuidado com o bem alheio, transcendendo o ganho material pessoal.
A Parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:30-37): Este é o exemplo máximo da benevolência ativa. O Samaritano não perguntou sobre a condição social ou a culpa da vítima; ele agiu para restaurar a dignidade e a segurança do próximo, mesmo que isso implicasse um custo financeiro e tempo do seu próprio bolso. O seu ato de "cuidar do que é do outro" é o reflexo fiel da caridade cristã.
José no Egito (Génesis 39:7-9): Quando a mulher de Potifar tentou seduzi-lo, José recusou-se a pecar contra o seu senhor e, acima de tudo, contra Deus. Mesmo estando numa posição de vulnerabilidade como escravo, a sua integridade era inabalável. Ele sabia que o seu caráter não dependia da vigilância dos homens, mas da sua relação direta com Deus.
"Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco, também é injusto no muito." — Lucas 16:10
Esta sua atitude prova que o seu coração está alinhado com o princípio da retidão. A sua escolha de priorizar a dignidade e o futuro daquele jovem é um testemunho vivo, e essa paz que hoje habita em si é o maior tesouro que poderia ter alcançado.
[13/07, 23:13] Emanuel Andrade: Como é que esta experiência de honestidade e escolha ética está a ressoar nos seus outros projetos artísticos e na forma como vê a sua missão de vida atual?
Sinto que a minha arte, ao longo destes quase trinta anos, tem sido um processo de purificação constante, onde a busca pela verdade se torna cada vez mais inseparável da minha prática criativa. Cada vez que me debruço sobre a tela ou sobre as palavras, percebo que não estou apenas a criar formas, mas a transpor para o mundo o alinhamento que busco no meu relacionamento com Deus.
A minha obra tem evoluído de uma expressão focada puramente no abstrato e no imaginário para um testemunho mais assertivo da "poesia da vida" e da importância de criar conexões genuínas entre todos. Sinto que o meu trabalho atual carrega uma seriedade diferente; ele já não é apenas sobre o que vejo, mas sobre o que acredito e como desejo servir o próximo.
Exemplos dessa mudança refletem-se em ações concretas que guiam a minha criatividade:
* A minha intervenção em defesa de pessoas vulneráveis na Rádio Belém e as histórias que partilhei publicamente, como na SIC, são extensões da mesma vocação que aplico nas minhas exposições e antologias de poesia.
* O ato de devolver uma mala perdida, guiado pela minha consciência como filho de Deus, é, para mim, o ápice dessa "arte da vida", onde a ética prevalece sobre a fragilidade financeira, tornando-se o combustível mais puro para as minhas criações.
* A criação de textos como a "Epopeia Contemporânea" e o conto "Acreditar no transformar" mostram que a minha escrita quer agora elevar, inspirar e mostrar que existe um caminho de retidão e esperança, mesmo num mundo cheio de armadilhas.
Ao preparar-me para novos palcos, como o ARTBOX.PROJECT em Zurique, sinto que levo comigo não apenas a técnica do artista plástico, mas a integridade de quem entende que cada obra é um rebento da paz interior que encontrei na oração e na escuta da palavra. Esta "arte de saborear o viver" tornou-se o tom central da minha existência, onde a assertividade que ganhei na fé molda cada pincelada e cada verso que dedico ao mundo.
Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
[...]
Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e ações de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência.
[...]
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
[...]
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar."
Qual a graça de agradar ao outro
se o coração fica esquecido?
De que vale o aplauso externo
quando o silêncio interno é ferido?
A vida acontece enquanto você existe
ou só quando, de fato, decide viver?
Existir é passar pelos dias,
viver é se permitir ser.
E o que é uma história bonita?
Uma fábula bem inventada?
Ou aquela escrita com cicatrizes,
verdade, quedas e alma escancarada?
História bonita é a que pulsa,
não a que tenta parecer perfeita.
É a que foi vivida com coragem,
mesmo tremendo, mesmo imperfeita.
Davi foi rejeitado, esquecido até pela própria casa, ignorado por quem achava saber quem ele era. Mas Deus viu o que ninguém viu. Enquanto o mundo escolhe pela aparência, Deus escolhe pelo coração.
Nem sempre quem pensa saber o seu lugar, realmente entende o propósito. Às vezes, nem você sabe quem é, até Deus chegar e revelar.
A rejeição não era o fim de Davi, era o caminho. O que parecia atraso era preparo. Quando Deus decide, ninguém impede: Ele tira do anonimato, honra o esquecido e coloca no lugar que sempre foi seu por direito.
Vivemos na busca de ser alguém maior,
mas ao vestir o que não somos, perdemos o valor.
Esquecemos do chamado, do plano do Criador,
e trocamos a essência por um falso esplendor.
Saul quis parecer rei aos olhos da multidão,
Davi foi escolhido no silêncio do coração.
José foi humilhado antes de governar,
o sonho não mentiu, só teve que esperar.
Jonas fugiu do propósito, tentou se esconder,
mas ninguém foge do plano que nasceu pra viver.
Pedro negou com medo, chorou na escuridão,
e foi restaurado pra ser pedra e fundação.
Deus não erra na forma que nos faz caminhar,
quem tenta ser outro acaba por se afastar.
Ser quem Ele sonhou é o verdadeiro saber:
não fomos criados pra parecer,
fomos chamados pra ser.
Sei que para seguir em frente é fácil, difícil mesmo é esquecer as magoas que deixaram cicatrizes irreparáveis no coração;
Difícil mesmo é deixar para traz tudo aquilo que construímos entre verdades e expectativas irreais;
Mas mesmo assim ainda penso em você, lhe tenho em meu coração trancada a sete chaves para não te perder de vista;
VAZIO
Vazio, algo que faz parte do meu cotidiano há muito tempo, que às vezes esqueço que ele tá ali comigo, não sei exatamente quando tudo isso começou, só sei que ele está aqui comigo, me acompanhando todos os dias, essa sensação de não pertencer a nenhum lugar ou pessoa, me sinto deslocada de tudo, como se nada fizesse sentido, a sensação é como se eu estivesse afundando
a todo momento sem parar, é como se eu estivesse sozinha em um extenso oceano, nunca consigo colocar em palavras tudo que sinto, é um sentimento de perda com nostalgia, como se eu quisesse voltar no passado para recuperar algo que perdi, mas que algo é esse? Nem eu mesma consigo explicar todas essas sensações, há anos carrego isso comigo, e até hoje não tenho uma explicação para tudo isso, tento fugir da realidade da vida para tentar me sentir um pouco mais viva, eu gostaria de me sentir viva de verdade, de poder sentir o prazer de estar viva, mas não consigo sentir isso já faz muito tempo, e cada fez mais me sinto só e distante de tudo, nunca mais senti meu coração palpitar por alguém novamente, não consigo mais criar conexões profundas que fazem minha alma se encher de amor, só consigo viver apenas momentos rasos com algumas pessoas, mas mesmo assim não sinto nada, e às vezes afasto as pessoas para não entrarem no meu caos, então acabo me tornando ainda mais distante, e sempre acabo mentindo sobre tudo que sinto, só para dizer que está tudo bem, com um sorriso que esconde semtimentos que nunca seram ditos, que talvez serão enterrados comigo para sempre, talvez nunca me livre dos meus pesadelos ou dos monstros que estão presos na cabeça, por muito tempo tentei preencher esse vazio com pessoas, coisas matérias, remédios, só que em um momento percebi que tudo isso era inútil, e só aceitei que o vazio fazia parte de mim e não tinha como mudar isso, e só aceitei tudo, mas ele não foi embora, todos os dias tento ignorar ele, mas ele nunca vai embora.
O Formato da Alma
Às vezes nos esprememos tanto para caber que esquecemos até o formato da nossa alma.
A alma também tem contornos. Tem lugares onde se alarga, desejos onde respira, sonhos onde encontra espaço para existir. É feita das coisas que amamos, das palavras que acreditamos, das delicadezas que guardamos e até das cicatrizes que aprendemos a carregar.
Mas, quando queremos muito pertencer, começamos a dobrá-la.
Dobramos uma vontade para não desagradar. Escondemos uma verdade para não perder alguém. Encolhemos um sonho para não parecer demais. Silenciamos aquilo que sentimos para continuar cabendo.
E a alma vai cedendo.
Um pouco hoje, outro pouco amanhã.
Até que aquilo que era inteiro começa a viver apertado dentro de nós.
Talvez venha daí um cansaço que o sono não resolve. Não é o corpo pedindo descanso. É a alma cansada de passar os dias numa forma que não é a sua.
Porque há lugares em que não precisamos partir para desaparecer.
Desaparecemos ficando.
Ficamos tanto tempo tentando caber que, quando finalmente conseguimos, já quase não estamos lá.
Mas nem todo lugar foi feito para nos receber.
E não caber não significa ser grande demais, difícil demais ou errado demais. Às vezes significa apenas que aquele espaço nunca teve o tamanho da nossa alma.
Talvez partir, então, não seja desistência.
Talvez seja desdobrar-se.
Devolver à alma cada parte que escondemos, cada sonho que diminuímos, cada verdade que calamos. E permitir que ela, depois de tanto tempo encolhida, volte lentamente ao seu formato original.
Porque existem lugares onde não precisamos diminuir nada para permanecer.
Lugares onde a alma pode chegar inteira.
E talvez pertencer seja exatamente isso:
encontrar onde podemos existir sem precisar desaparecer.
O Uber, o Azulejista e o Perigo de Esquecer o Despertador
Era mais um dia normal de trabalho para o motorista peregrino. Pelo menos era o que ele imaginava quando, por volta das seis e vinte da manhã, recebeu um chamado da senhora Luana para levá-la até uma marmoraria localizada na Vila Brasília, na zona norte de São Carlos, próxima à Rodovia Washington Luís e ao campus da UFSCar. Para o motorista, uma corrida com mais de oito quilômetros naquele horário, antes das sete da manhã, normalmente significava que alguma coisa havia acontecido. Afinal, passageiro que precisa percorrer uma distância dessas logo cedo geralmente não está simplesmente passeando. Ou perdeu o ônibus, ou perdeu a hora, ou perdeu a paciência. Às vezes, perde os três de uma só vez.
Dito e feito! Ao chegar ao ponto de partida e confirmar o nome da passageira, o motorista desejou-lhe um ótimo dia e, logo em seguida, perguntou: “A senhora está atrasada para o trabalho? O ônibus não passou? Ou será que o relógio não despertou?”. Luana, uma mulher de estatura acima da média, olhou para o motorista e respondeu, com a maior tranquilidade: “E se eu lhe disser que aconteceram as três coisas que o senhor falou e ainda mais duas?”. Naquele momento, o motorista peregrino percebeu que aquela não seria uma corrida como as outras. O problema agora era descobrir quais seriam as duas coisas que faltavam naquela história.
O motorista ficou todo embananado, tentando imaginar o que poderia ter acontecido com Luana. Por alguns segundos, pensou que talvez fosse melhor não perguntar. Afinal, existem passageiros que entram no carro querendo apenas chegar ao destino, e existem aqueles que parecem carregar uma novela inteira dentro da mochila. Como o peregrino adora conversar com os passageiros e, principalmente, colher histórias para o seu próximo livro, resolveu arriscar: “Então me conte o que mais aconteceu. Quem sabe isso não vira uma história engraçada para o meu livro?”. Luana imediatamente perguntou: “O senhor escreve?”. O motorista respondeu que sim. Ela então completou: “Bem que eu imaginei. Pela sua aparência, o senhor deve fazer coisas muito interessantes”. O motorista sorriu e respondeu: “Olhe, senhora, eu faço tantas coisas que, às vezes, até eu mesmo ponho em dúvida a minha sanidade mental”.
Luana caiu na risada e quis saber: “Mas que coisas o senhor faz para se achar um homem assim?”. O motorista, percebendo que a conversa estava ficando cada vez melhor, respondeu: “Primeiro a senhora me conta quais foram essas duas coisas que aconteceram e que a obrigaram a pegar um Uber. Depois eu conto as minhas”. Luana respirou fundo e começou: “Então está bem. O meu marido, na noite anterior, bateu o carro porque tinha bebido um pouco a mais. Ainda bem que foi bem perto da nossa casa. Aliás, ele chegou a tentar entrar na casa do vizinho. Imagine o estado do meu marido!”. O motorista ficou surpreso e perguntou: “Sim, mas, se isso aconteceu na noite anterior, por que a senhora perdeu o horário do trabalho hoje?”.
“Quer saber mesmo?”, perguntou Luana, já segurando o riso. “O meu marido é azulejista. Ele é um ótimo profissional, mas é muito chato quando não bebe. Eu até deixei de trabalhar com ele por causa das chatices. Quando está sóbrio, parece que o mundo inteiro está assentando azulejo errado.” O motorista começou a rir, mas lembrou que ainda faltava uma parte importante da história: “Sim, mas não me enrole, porque já estamos quase chegando ao destino da corrida”. Luana continuou: “O meu marido, quando bebe, é uma pessoa maravilhosa, muito carinhoso. Então, naquela noite, como eu estava a fim de receber uns carinhos, convidei-o para tomar umas cervejas comigo”.
A história estava começando a fazer sentido. Luana prosseguiu: “Lá pelas tantas da noite, eu o peguei pelo braço e o levei para o quarto. Quando chegamos lá, falei para ele: ‘Sobe aí na cama, agora! Se você dormir, eu te taco no chão!’”. O motorista peregrino já não sabia se deveria rir, fazer outra pergunta ou simplesmente continuar dirigindo e agradecer por ter escolhido aquela profissão. Luana, então, encerrou a explicação: “Para resumir, tivemos uma noite maravilhosa. Eu sequer me lembrei de colocar o relógio para despertar”.
Faltava pouco menos de um quilômetro para chegarem ao destino quando Luana, como quem havia acabado de descobrir a moral da própria história, disse ao motorista: “O meu destino é casar-me com gente que gosta de um mé, de cachaça, de cerveja... Sei lá, de tudo o que tem álcool. O meu primeiro marido bebia bastante, mas era violento. Agora este bebe, mas é carinhoso. Então eu estou num dilema: se ele não bebe, ele nem se lembra que eu existo; agora, se ele bebe, sou eu que não me lembro do trabalho”.
Os dois caíram na gargalhada, enquanto o motorista pensava que, definitivamente, aquela não tinha sido apenas mais uma corrida. Tinha sido uma daquelas histórias que aparecem de repente, entram no carro sem avisar e, quando chegam ao destino, deixam uma lembrança que vale mais do que o próprio valor da corrida.
E talvez seja justamente isso que o peregrino aprendeu nas estradas e também atrás do volante: **há pessoas que entram em nossa vida por alguns minutos e acabam deixando histórias que permanecem por muitos anos**. Algumas nos ensinam, outras nos emocionam, algumas nos fazem pensar e outras simplesmente nos fazem rir. E, para quem gosta de caminhar pela vida com os olhos e os ouvidos abertos, até uma corrida de Uber pode se transformar em uma página de livro.
Peregrino Nino Carneiro
Maumau
William Contraponto
Te conheci no avesso da estrada,
quando o mundo esquecia de nós.
Havia silêncio em cada palavra,
mas teu abraço fazia voz.
Não prometemos céu nem destino,
nem juramentos diante do altar.
Só dividimos o peso dos dias,
sem perguntar onde ia dar.
Maumau,
se o tempo nos feriu, também nos fez.
Nos corredores da tempestade
aprendemos outra forma de viver.
Maumau...
amor não é o nome que se dá.
É quem permanece quando tudo
parece querer desmoronar.
Hoje te vejo travando batalhas
que nem sempre consigo alcançar.
Queria roubar um pouco da dor,
mas só consigo contigo ficar.
Porque às vezes amar é tão simples:
sentar em silêncio, estender a mão.
Ser companhia quando a esperança
esquece o caminho do coração.
E nossos filhos de patas
fazem da casa um pequeno universo.
Bob, o catiolo, corre feliz
como se toda tristeza pudesse perder a corrida.
Baby, a catiola,
deita entre nós sem escolher um lado,
como quem sabe
que amor não precisa tomar partido.
Eles nos lembram, todos os dias,
que carinho é uma linguagem
que nunca precisou de tradução.
Maumau...
se houver manhã, caminharemos nela.
Se houver noite, acenderemos riso
no olhar de Bob e de Baby.
E quando a vida nos pedir coragem,
que ela nos encontre assim:
com as mãos marcadas pelo tempo,
com o coração ainda inteiro,
e com esse amor teimoso,
que insiste em florescer
mesmo onde quase ninguém acredita.
Os Mundos Esquecidos
William Contraponto
Talvez já fomos mais do que lembrança,
E o tempo ocultou nossa passagem;
Restou da antiga e vasta confiança
Somente o mito, herança da viagem.
Se o fogo um dia consumiu cidades,
E o mar levou palácios para o chão,
Ficaram só fragmentos e verdades
Guardadas na discreta tradição.
Quem sabe um templo fosse uma oficina,
Ou um saber tornado devoção;
A história, quando o esquecimento inclina,
Reveste a perda com imaginação.
Não digo que essa hipótese é verdade,
Nem quero sugerí-la como religião;
A dúvida preserva a liberdade
De investigar sem qualquer imposição.
Talvez também sejamos só passagem,
Um breve instante à beira da erosão;
O orgulho não resiste à ventania,
Nem vence para sempre a destruição.
Se um novo amanhecer surgir depois,
De outro silêncio feito de poeira,
Que reste a velha pergunta entre nós:
Quantos mundos perdeu a humanidade inteira?
Alma leve
Pensamento suave
Coração em paz
de repente a lembrança:
brinquedo esquecido
da criança que eu fui um dia
Sem querer algo me pesa
Uma certa tristeza
Vem sempre junto à saudade
e o tempo prosseguiu fluindo
Nesta vida da gente
Pouca coisa existe realmente
Pensamento é quase tudo
Portanto não vale a pena
Carregar lembranças que entristeçam
Quando a fruta apodrece
A semente germina
Uma coisa termina
Algo mais acontece
Pois nem sempre uma queda
Fatalmente
Quer dizer ruína
A gente pode sempre
Não lançar a pedra
Nem dizer palavra
Mas as coisas prosseguem
Estando aqui e ali
A vida rumando
A caminho de um fim
Talvez tudo simplesmente
Seja nada a caminho de nada
Porém
Ninguém afirmou, sem dúvida nenhuma
Que o nada
Realmente seja isso
Creio
Que talvez seja difícil agora
Olhar a tudo e compreender
Mas prossiga tentando
Intuitivamente a gente sabe
Que não nos cabem certas perguntas
Pois, nem todas elas
Juntas e mescladas
Poderão um dia
Responder a qualquer coisa
Pois a paz tão procurada
Quanto o brinquedo esquecido
Que a lembrança carregou na leve brisa
Continuam sempre lá
Tudo isso um dia a gente vai achar
Escondido nas dobras do tempo
Portanto
Mesmo que não sejam
Aquilo que imaginamos vazio
Precisa ser e estar
em equivalência com o Todo
O tudo e o nada
de forma a permanecerem
Perene e eternamente
Perfeitamente equilibrados
E é nisto que tudo consiste
Universo Perfeito
Alegria demais inexiste
e em contrapartida
nada pode ser assim... tão triste
Edson Ricardo Paiva
Eu
Vivendo minha vida
Num mundo que não é meu
Uma lâmpada
Acendida anteontem
Esquecida
Quando amanheceu
Uma voz rouca e profunda
Fruto
De relação desarmônica
Vendo outros olhos
Que veem
Entendo
Que vendo o que veem
Não enxergam nada
Ou pouco dizem
Creio-lhes eu
Pode ser que sofrendo
Insuficiência verbal aguda
Mudas
Corações moldados
Em rocha intrusiva
Uma relação harmônica
Plutônica erosiva
Crônica, agudizada
Cínica em seu modo
Em desarmonia com o meu
Uma lâmpada acesa lá fora
Cá dentro, um lugar à mesa
Creio eu
Pode ser um dia.
Edson Ricardo Paiva.
A gente acorda e não encontra aquele livro, esqueceu. Esse grande desafio e o maior obstáculo da vida, acontece dentro de nós mesmos. A nossa dúvida , nosso esquecimento, nosso próprio everest, ...Que exagero!
Que nosso dia seja tão lindo quanto o sorriso de vocês e nos ofereça tanta felicidade quanto amizades. Que D'us continue guiando todos os passos e iluminando cada vez mais os pensamentos.
Assim acaba a dúvida da Vida,
Vida de Solteiro...
A linguagem sempre revela algo. Nietzsche dizia que as palavras são metáforas esquecidas. Então quando alguém fala “pobrema”, talvez não seja só erro — pode ser retrato de um sistema que nunca ensinou direito. E isso é um problema muito maior que o “pobrema”.
“Os brasileiros que mais tem problema são aqueles que vivem de ‘pobrema pobremas’ — porque às vezes o maior erro não está na gramática, mas na maneira de enxergar o mundo.”
