Textos de Esquecimento
Pra não esquecer quem eu sou,
eu marquei na pele.
Três vezes.
Duas.. memória viva.
Coisas que eu criei,
vivi,
fui.
Pra nunca mais duvidar
da minha própria história.
A terceira é guerra.
Um símbolo marajoara,
tribal,
cravado no dedo..
porque pra mim,
dedo é rota.
Caminho.
Direção.
Escolha.
E agora eu sei,
sem hesitar:
pra onde eu não volto.
Mel
O nome dela escorre lento
tipo coisa que não se esquece fácil
gruda na boca, na mente
e pelo visto… até nos teus dedos.
Mel não chega, invade.
Vem com história torta, vida rasgada,
dessas que o mundo tentou quebrar
e ela devolveu com riso meio louco.
Tem gente que passa…
ela fica.
Nem precisa tocar direito
e já bagunça tudo por dentro.
Teu corpo entrega antes da razão,
teu pensamento trai qualquer juízo,
porque tem gente que não é paz…
é vício com nome bonito.
E o pior?
Você sabe.
Sabe do caos, do passado, das grades,
das vezes que a vida mordeu ela sem dó…
e mesmo assim, tá aí,
respirando ela como se fosse ar.
Mel não é leve.
É doce que queima.
É perigo que chama pelo nome
e ainda te faz sorrir enquanto você cai.
E você cai.
Com gosto.
As pessoas esquecem o quanto você foi importante para elas.
Esquecem das mãos que as levantaram quando ninguém mais estendeu as suas.
Esquecem das noites em que você permaneceu, enquanto tantos foram embora.
Esquecem dos conselhos, do cuidado, das renúncias e da presença.
A memória, muitas vezes, guarda o que machuca e apaga quem ajudou a curar.
Mas isso não diminui o valor do que você fez.
Quem age com verdade não precisa viver do reconhecimento alheio. O bem continua existindo, mesmo quando ninguém o enxerga. E quem esquece a importância de alguém revela mais sobre si do que sobre o valor de quem foi esquecido.
Nem toda ausência de reconhecimento significa falta de importância.
Às vezes, é apenas a incapacidade de algumas pessoas de reconhecer e honrar quem um dia foi essencial em suas vidas.
Às vezes, penso tanto no futuro que esqueço de viver o presente. Imagino como será minha vida daqui a alguns anos, quem ainda estará ao meu lado, quem vai permanecer e quem, aos poucos, vai se tornar apenas uma lembrança. E, no meio de tantos pensamentos, acabo me perguntando se as pessoas com quem tanto me importo também imaginam um futuro onde eu ainda esteja presente.
É estranho se preocupar tanto com alguém e perceber que essa preocupação talvez não seja recíproca. Penso se estão bem, se precisam de alguma coisa, se lembraram de mim durante o dia, enquanto muitas dessas pessoas sequer parecem sentir minha falta. Às vezes tenho vontade de mandar uma mensagem, perguntar como estão e tentar me aproximar, mas me cansa sentir que, quando eu paro de procurar, o silêncio simplesmente permanece.
Talvez o mais doloroso seja aceitar que algumas pessoas podem significar muito para nós sem que sejamos igualmente importantes para elas. Mesmo assim, continuo desejando que estejam bem, mesmo quando não perguntam se eu estou. E talvez eu precise aprender a parar de esperar por quem nunca percebeu que eu estava esperando, porque não quero passar o meu presente inteiro pensando em pessoas que talvez nem façam questão de estar no meu futuro.
Me siga
Pra você espero que tenha paz, por isso me siga.
Pra você espero que esqueça e siga adiante, por isso me siga.
Pra você espero que encontre a tranquilidade de ter o aconchego de um lar, por isso me siga.
Pra você espero que me siga e sinta a luz que brilha de um vencedor.
Pra você que esta no escuro da perseguição, sem paz, sem vida, sem motivos próprios para ser feliz, me siga.
Pra você que se sente um coitado, me siga.
Pra você que esta sofrendo e precisa mostrar as pessoas o quanto você não esta em paz, o quanto você é um injustiçado, me siga.
Pra você que precisa da pena das pessoas, pra você que não tem o calor de amigos, me siga.
Pra você que esta a beira da loucura, perdido e sozinho, me siga.
Pra você que é tão rico que só tem dinheiro, me siga.
Pra você que busca a aprovação das pessoas para validar suas atitudes, me siga.
Pra você que tenta corromper as pessoas com mentiras e intrigas com único intuito de ocupar um espaço que deveria estar transbordando de felicidade, me siga.
Pra você que encontra-se perdido num mundo de repleto vazio, me siga.
Pra você que vê a maldade em tudo e em todos, me siga.
Pra você que quer continuar sofrendo e demostrando isso a todos, mesmo que no fundo todos estejam rindo nas suas costas, me siga.
Você precisa muito de mim eu sinto isso!
Eu vejo seu sofrimento, sua dor!
Eu vejo você se passando de forte, com textos grandes de revolta.
Mas no fundo eu sei que você precisa de mim.
Eu sei que você precisa de mim mas seu coração é duro, esta revolto, ferido, triste.
Me siga, você não fala comigo, eu não te escuto, dobre os joelhos para que chegues até mim.
Eu lhe vejo, sinto sua dor transvestida em prepotência.
Eu posso te curar, eu sou Rei, já fiz isso varias vezes.
Eu sou cristo, morri por você, e vou te proporcionar a paz que precisa.
Apenas pare e me siga, fale comigo.
Esqueça as flores com laços de fita e toda essa bobagem romântica que vendem nas vitrines.
O amor de verdade não amarra nada, ele chuta a porta.
É como abrir a última garrafa de uísque barato às três da manhã, quando você achava que a noite já tinha acabado e o fígado implorava por trégua.
Ele chega sem pedir licença. Não quer saber do seu passado caprichado ou dos seus sapatos limpos.
O amor que liberta te joga no chão da cozinha, arranca a sua camisa velha e rasgada, e te faz rir da própria desgraça.
É um gole forte.
Daqueles que queimam a garganta, limpam as feridas e te deixam cru, sem as máscaras que você usa para caminhar entre os idiotas na rua.
Ele não te prende em uma gaiola de promessas falsas; ele escancara a janela e diz: "O mundo lá fora é um hospício, mas aqui dentro a gente pode ser louco em paz".
Você acorda com dor de cabeça, o cinzeiro cheio e o gosto de fumaça na boca.
Mas olha para o lado e vê que as amarras sumiram.
Você está livre. Livre para falhar, livre para beber mais um copo, livre para ser o poço de defeitos que sempre foi, mas agora sem carregar o peso do mundo nas costas.
O amor não é um nó de marinheiro na garganta.
O amor é o saca-rolhas.
A Fortaleza que Habita em Nós
Nos dias de calmaria, muitas vezes esquecemos do tamanho da força que trazemos guardada na bagagem da nossa alma. É nas horas de tempestade, quando as lutas diárias parecem pesadas demais, que essa energia oculta desperta e nos sustenta. Você não caminha sozinha e nunca recebe um fardo maior do que a sua capacidade de carregar. Confie na sabedoria da vida e na centelha divina que habita no seu peito. A mesma força que ajudou você a vencer os tombos do passado está ativa agora, pronta para guiar seus passos rumo às próximas conquistas.
Tatue o nome de alguém que você queira esquecer.
De preferência num lugar onde o verão a denuncie, onde o espelho a encontre primeiro e a camisa jamais consiga mentir.
Escolha uma tinta resistente, dessas que sobrevivem ao sal, às madrugadas, e aos discursos que fazemos quando juramos ter seguido em frente.
Tatue o nome de alguém que você queira esquecer.
Depois viva.
Colecione cidades. Troque de mesa, de estação, de calendário.
Aprenda idiomas suficientes para dizer adeus sem parecer ferido.
Ainda assim, numa esquina qualquer da memória, o nome continuará ali, feito fronteira desenhada em mapa antigo.
Tatue o nome de alguém que você queira esquecer.
Há pessoas que partem.
Há pessoas que ficam.
E há aquelas mais perigosas: as que partem e ficam.
O tempo, esse cambista desonesto, troca paixão por distância, e distância por silêncio;
mas raramente devolve o valor exato das coisas.
Por isso alguns amores terminam como impérios:
não por falta de grandeza,
mas pelo excesso dela.
Tatue o nome de alguém que você queira esquecer.
Porque um dia você acordará sem lembrar daquela voz um pouco rouca por conta do cigarro,
sem lembrar do perfume,
sem lembrar dos cílios, das unhas longas,
e daquele cabelo com um desenho que parecia sempre mudar quando você olhava de novo.
Sem lembrar da última mentira
ou do último beijo.
Mas bastará a pele respirar sob a luz
para que a cicatriz leia em voz alta
aquilo que a memória finalmente havia aprendido a calar.
Descobrirá, tarde demais,
que tinta não guarda pessoas.
Guarda sentenças.
E não existe crueldade maior
do que transformar um corpo vivo
no túmulo de alguém
que continua respirando em outro peito.
Tatue o nome de alguém que você queira esquecer.
Então ame de novo.
Beije outras bocas.
Durma em camas onde nunca pronunciaram esse nome.
E, ainda assim, toda vez que alguém tocar exatamente aquele pedaço da sua pele, será ela quem responderá primeiro.
Porque certas loucuras
não são feitas para durar.
São feitas para durar em nós.
E a tatuagem,
essa jamais foi uma homenagem.
Foi a forma mais elegante
que o desespero encontrou
de nunca mais esquecer.
Depois viva.
Cruze fronteiras onde ninguém saiba pronunciar o nome dela.
Perca-se em estradas que terminam no mar.
Descubra que o pôr do sol muda de país, mas continua encontrando o mesmo pedaço da sua pele.
Haverá fotografias.
Numa delas você estará sem camisa, rindo em alguma praia do Uruguai, com a impressão de que finalmente venceu.
E ela talvez deslize o dedo pela tela, ache bonita a paisagem, inveje a liberdade daquele homem, sem perceber que a resposta para tudo o que viveram estava escrita no seu peito, naquela mesma fotografia.
(Ele literalmente tatuou o nome dela no peito)
Algumas tocarão a tatuagem com curiosidade.
— Quem foi?
Você acenderá outro cigarro, olhará a fumaça subir como quem assiste uma cidade desaparecer ao longe e responderá qualquer mentira suficientemente bonita.
Porque existem perguntas
que não merecem a verdade.
...
Então ame de novo.
E ame direito.
Cometa o erro de acreditar outra vez.
Deixe que outra boca percorra exatamente o lugar onde um dia você decidiu condenar a sua pele.
Talvez ela beije as letras sem saber que beija um fantasma.
Talvez diga que a tatuagem é bonita.
E nunca descubra que algumas obras de arte foram feitas no exato instante em que o artista perdeu a razão.
...
Porque certas loucuras não são feitas para durar.
São feitas para atravessar países, colecionar hotéis, sobreviver a novos corpos, a novas camas, a novos nomes.
Até que um dia você perceba a perversidade mais refinada do destino:
já não sente falta dela.
Dizia-se amar as flores, mas esquecia de regá-las e cultivá-las.
Amar é mais do que o plantio de uma semente, é mais do que mostrar que tens um jardim e regá-las apenas na primavera.
Amar é proteger sem pose, é cultivar sem medo de perdê-las.
Amar é oferecer aos outros o jardim que gostaria de receber delas.
Você é o silêncio,
o silêncio que eu insisto em preencher,
A vírgula esquecida em tudo o que eu quis dizer.
É estranho como quem nada me entrega,
acaba sendo o meu lugar de descanso.
Você não se vê nos livros que sublinhei,
nem ouve seu nome nas canções que decorei.
Não que você seja o centro do universo,
mas, quando se trata de você, tudo foi sentido ao extremo,
tornando-se assim a minha maior fonte de inspiração.
Obrigado por ser, mesmo sem pretender,
A beleza do que eu não pude ter.
E aí, o dia amanhece, a gente agradece, dos problemas de ontem a gente se esquece...
E aí, a gente enche o peito de ar, renova as esperanças e o brilho no olhar e, de novo, se dispõe a lutar.
E aí, a gente entende que cada dia tem sua maravilha, que estar vivo é é a maior de todas elas e que, no fim das contas, o que importa é ser grato, é recomeçar, é dar continuidade, é nunca, em hipótese alguma DESISTIR.
É que da vida, a gente não DESISTE, a gente LUTA, a gente insiste.
Há dias que nunca se esquecem.
Sejam de glórias, de dores, de tristezas ou de intensas alegrias,
as lembranças desses dias sempre provocarão o marejar dos olhos.
Num dia, chora-se.
Noutro, celebra-se.
Viver é experimentar de tudo:
lágrimas e sorrisos, perdas e conquistas, despedidas e reencontros.
Porque a vida não é feita de um único sentimento,
mas da soma de tudo aquilo que nos transforma.
Estado de Suspensão
Pareço ter nascido em coma,
entre o despertar e o esquecimento,
como quem abre os olhos
sem jamais alcançar a vigília.
Tudo anuncia um princípio,
como a aurora que promete eternidade,
mas, antes que o primeiro passo encontre o chão,
o caminho já se dissolveu.
As sementes ensaiam romper a terra,
contudo, fenecem antes da primavera.
Os horizontes acenam com abundância,
e recuam no instante em que me aproximo.
Nada se concretiza.
As formas apenas simulam permanência.
O futuro veste-se de certeza,
para despir-se em um único piscar de olhos.
Coleciono começos
como quem herda ruínas.
Cada esperança ergue um edifício,
e cada instante o reduz ao pó.
Talvez a vida seja apenas
uma arquitetura de miragens,
onde tudo parece prestes a existir,
mas escolhe permanecer possibilidade.
E sigo...
não entre vitórias ou fracassos,
mas entre o quase e o jamais,
como alguém condenado
a contemplar o nascimento das coisas
sem nunca assistir ao seu florescer.
Guardamos nomes em gavetas trancadas da mente, esperando que o esquecimento faça o trabalho que o tempo negou. Contudo, basta um aroma esquecido no ar ou uma canção distante para que a chave gire e tudo volte à superfície. A memória é esse lugar sem lei onde o passado insiste em ser o presente mais doloroso que podemos carregar.
- Tiago Scheimann
No fim das contas, a gente passa tanto tempo tentando parecer forte que esquece o básico, quase infantil, quase óbvio, mas ainda assim tão difícil: abrir a boca e dizer. Dizer o que incomoda, o que pesa, o que lateja baixinho no peito como quem pede socorro sem fazer barulho. Porque tem dores que não gritam, elas sussurram. E são justamente essas que mais machucam quando a gente decide ignorar.
Eu fico pensando que amar, de verdade, não tem nada a ver com esse teatro bonito onde ninguém erra, ninguém sente, ninguém reclama. Amar é meio bagunçado mesmo, meio torto, meio cheio de pausas estranhas no meio de uma conversa que deveria fluir melhor. Amar é ter coragem de olhar pra quem está do nosso lado e dizer com uma sinceridade quase constrangedora: olha, isso aqui me doeu. Não foi grande coisa pra você, eu sei. Mas aqui dentro fez barulho.
Porque quando a gente não fala, a gente cria. E a mente, ah, ela é uma roteirista dramática. Ela inventa histórias, aumenta detalhes, distorce intenções. O que era só um incômodo pequeno vira uma novela inteira dentro da cabeça. E aí a gente começa a se corroer por dentro, como se estivesse sendo consumida por algo que poderia ter sido resolvido em uma conversa simples, dessas de fim de tarde, com um café morno e um pouco de coragem.
Tem gente que acha que amar é aguentar calada. Que é nobre engolir o choro, fingir que não viu, que não sentiu, que não doeu. Mas isso não é amor, isso é acúmulo. E tudo que acumula uma hora transborda. Não como uma poesia bonita, mas como uma ferida aberta, daquelas que já poderiam ter sido tratadas lá no começo, quando ainda era só um arranhão.
Amar, no fim, é quase um exercício diário de manutenção emocional. É perceber o pequeno antes que ele vire gigante. É ajustar o que está fora do lugar antes que a casa inteira desmorone. É escolher conversar mesmo quando dá vontade de se fechar. Porque se fechar parece proteção, mas muitas vezes é só isolamento disfarçado.
E eu digo isso como quem já ficou em silêncio quando deveria ter falado. Como quem já criou mil histórias na cabeça por falta de uma frase dita no tempo certo. A verdade é que não existe amor que sobreviva bem ao silêncio constante. O silêncio até acolhe, às vezes, mas quando vira regra, ele distancia.
Então, talvez o que realmente importe seja isso mesmo: sentar, respirar e dizer. Sem ataque, sem defesa, sem roteiro pronto. Só dizer. Porque amar não é fingir que nada dói. É ter coragem de mostrar onde dói, enquanto ainda é possível cuidar.
E se tem uma coisa que a vida ensina, meio sem pedir licença, é que sentimentos ignorados não desaparecem. Eles só mudam de forma. E nem sempre a nova forma é gentil.
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No dia 28 de julho de 2024, vivi uma situação que jamais vou esquecer.
Eu estava em casa, muito doente, sem imaginar que meu corpo estava entrando em colapso. O que mais tarde descobri era que eu estava com septicemia, uma infecção generalizada gravíssima, que já estava levando meus órgãos à falência.
Procurei atendimento na UPA de Barra do Corda, Maranhão. Mostrei os exames que tinha em mãos, expliquei o que estava sentindo e deixei claro que havia uma suspeita séria do meu quadro. Mesmo assim, recebi uma injeção e fui mandada de volta para casa. Disseram que o que eu tinha era ansiedade.
Mas não era ansiedade.
Enquanto eu tentava sobreviver, meu organismo estava travando uma batalha silenciosa contra uma infecção que avançava rapidamente.
Voltei para casa sem a cirurgia que precisava e sem a urgência que a situação exigia. Passei aquela noite em uma condição extremamente grave, sem saber se veria o dia seguinte.
Foi então que Deus usou outras pessoas para mudar o rumo da minha história.
No dia seguinte, meu sogro entrou em ação. Através de um contato que ele possuía, conseguiu mobilizar ajuda para que eu finalmente recebesse a atenção necessária. Graças a essa intervenção, fui encaminhada para uma cirurgia de emergência.
A cirurgia aconteceu a tempo.
Os médicos constataram a gravidade do meu estado. Eu estava com septicemia e falência de órgãos. Quando penso em tudo o que aconteceu, não consigo deixar de refletir sobre o quanto estive perto da morte naquele período.
O mais impressionante é que, algum tempo depois, retornei à mesma unidade de saúde. Durante o atendimento, me perguntaram quais eram minhas alergias. Respondi normalmente e informei tudo com clareza.
Ao receber a receita médica, resolvi ler antes de sair.
E ali estava prescrito justamente um medicamento ao qual eu havia informado ser alérgica.
Naquele instante, um filme passou pela minha cabeça.
Se eu não tivesse lido a receita, o que poderia ter acontecido?
Esses acontecimentos me ensinaram que ninguém deve abrir mão de acompanhar o próprio tratamento. Ler receitas, conferir exames, fazer perguntas e buscar esclarecimentos não é desconfiança. É cuidado com a própria vida.
Hoje, olhando para trás, sinto gratidão por estar viva. Gratidão a Deus, ao meu sogro e às pessoas que cruzaram o meu caminho naquele momento tão crítico. Porque a verdade é que, sem essa ajuda, talvez eu não tivesse a oportunidade de contar esta história.
E isso é algo que nunca esquecerei.
O Último Lugar ao Seu Lado
Há uma cadeira que o mundo esqueceu de mover,
ainda diante da janela onde o teu silêncio aprendeu o meu nome.
A poeira tornou-se a coisa mais fiel que ficou;
as pessoas, diferente dela, sempre descobrem um jeito de partir.
Carreguei a tua ausência
como antigas estações carregam o eco dos trens que partiram—
sem pedir que voltassem,
apenas lembrando o peso do adeus.
Dizem que o tempo é um cirurgião paciente.
O meu costurou a ferida com fios invisíveis,
para que ninguém pudesse admirar a cicatriz,
e mesmo assim cada batida do coração a rasga outra vez.
A pior solidão não mora num quarto vazio.
Ela sorri entre pessoas,
enquanto os olhos procuram, em rostos desconhecidos,
aquele que nunca mais voltará a ocupar o lugar ao nosso lado.
Há noites em que invejo a chuva.
Ela pode cair sem pedir perdão.
Eu aprendi a ser homem,
e isso tantas vezes significou sangrar sem testemunhas.
Talvez as mulheres conheçam outra dor:
a de deixar pedaços da própria alma
em quem jamais percebeu
que segurava um universo inteiro entre mãos delicadas.
Se o amor sobrevive em algum lugar,
não é nas promessas, nas alianças ou nas fotografias.
Sobrevive no gesto tolo
de virar o rosto para um espaço vazio,
como se alguém ainda pudesse estar ali.
Se um dia lembrares de mim,
não te lembres da minha voz.
Lembra-te do silêncio que ficou depois dela;
foi nele que escondi tudo
o que nunca encontrei coragem para dizer.
Um dia outro desconhecido ocupará aquela janela.
A cadeira não saberá os nossos nomes.
A poeira não contará a nossa história.
Mas, para além do alcance dos relógios,
toda alma que não conseguimos guardar
continua caminhando ao nosso lado—
calada, amorosamente,
como um trem que chega para sempre
a uma estação que existe apenas dentro do coração.
Coisas de Vovô!
Eu sou aquele tipo de avô, que esquece do mundo, não dimensiona bem as suas responsabilidades e que fica totalmente surdo às broncas dos filhos e da esposa.
Interajo as minhas emoções, e raciocino como se tivesse a mesma idade minhas netas.
Aprendi que para ser feliz, a gente precisa sair do lugar. E hoje,o meu melhor lugar é aonde estão as minhas netas.
( Nino Carneiro)
Somos sobreviventes.
Caminhamos sobre os escombros de um tempo que se esqueceu.
Ao nosso redor, o silêncio do mundo é o eco do que tudo consumiu;
mas aqui, onde nossos passos se encontram,
o frio não nos alcança.
Somos o refúgio um do outro,
a prova viva de que a brutalidade não conseguiu apagar todas as luzes.
Temos autonomia e sabemos,
coisa que a maioria apenas ensaia.
Não conte a ninguém nosso segredo,
nem mesmo a quem parecer poder ajudar;
a inveja tem olhos mordazes,
sempre esperando o pior acontecer.
E nós, nós sabemos ser e tecer
plenamente...
Há quem diga que esquecer é questão de tempo. Eu desconfio. O tempo só aperfeiçoa a memória; ensina ela a usar máscaras melhores.
Sem perceber, eu continuo te procurando.
Não em fotos. Essas eu já conheço de cor. Te procuro nas coisas que nunca te pertenceram, mas que aprenderam teu idioma.
Quando o primeiro acorde de Arctic Monkeys atravessa o silêncio, meu peito ainda olha para a porta, como se alguma parte de mim acreditasse que certas músicas continuam sabendo o caminho de volta. Oasis faz pior: transforma saudade em paisagem. É como caminhar por uma rua antiga onde ninguém mora mais, mas todas as janelas permanecem acesas.
Eu te encontro nos livros que compro sem motivo. Há sempre uma frase que teria arrancado um sorriso teu, e, por um instante, leio em voz baixa para alguém que já não está. Fecho a página como quem fecha uma conversa interrompida.
Também te procuro nas pessoas.
Não porque elas se pareçam contigo. Seria injusto com elas e impossível contigo. Mas existe um gesto, um silêncio, uma maneira de inclinar a cabeça enquanto escutam, um riso que dura meio segundo a mais... e, por um instante vergonhoso, meu coração pergunta se finalmente te encontrou de novo. Nunca encontrou. Eram apenas desconhecidos carregando pedaços que a minha memória decidiu roubar.
Há cidades que conspiram.
Volto a lugares onde estivemos e eles insistem em manter tua ausência exatamente onde você a deixou. A mesa continua pequena demais para duas pessoas. A calçada ainda sabe a direção dos nossos passos. O vento atravessa a mesma esquina com a mesma delicadeza, como se ignorasse que agora sopra apenas contra um corpo.
É estranho viver assim.
Como alguém perseguido por um fantasma que não assombra a casa, mas os detalhes. Um perfume na rua. Um casaco da mesma cor. Uma música tocando ao fundo de um café. A dedicatória esquecida na primeira página de um romance. Nada é suficiente para trazer você de volta, mas tudo parece suficiente para lembrar que um dia esteve aqui.
Talvez seja esse o verdadeiro peso de amar alguém.
Não é sofrer pela ausência da pessoa. É perceber que ela contaminou o mundo inteiro. As músicas deixam de ser só músicas. Os livros deixam de ser só livros. As ruas deixam de ser ruas. Tudo passa a existir em dois tempos: antes de você e depois de você.
E eu sigo vivendo.
Converso, sorrio, conheço rostos novos, aperto outras mãos. Mas existe uma parte de mim que continua fazendo comparações em silêncio, como quem procura uma constelação específica num céu cheio de estrelas. Não porque as outras sejam menores, mas porque meus olhos aprenderam, há muito tempo, exatamente onde repousava aquela luz.
Talvez um dia eu pare de te procurar.
Ou talvez não.
Talvez algumas pessoas não terminem quando vão embora. Elas apenas se espalham. Ficam escondidas entre acordes, páginas, esquinas e olhares alheios, transformando o mundo inteiro numa coleção discreta de lembranças.
E o mais cruel é que ninguém percebe.
Só quem continua procurando.
