Ruas
Quem conhece a presença de Deus começa a entender que o maior tesouro não é ouro, ruas de cristal ou coroas… é o próprio Cristo. miriamleal
Lá fora está frio e chuvoso e as ruas se encharcam de silêncio. As gotas escorrem nas janelas como se fossem lágrimas antigas que o céu já não consegue conter.
Noite fria, chuva martelando o telhado, vento que uiva nas copas. As ruas estão vazias, a cidade ilumina apenas o que é frio, que não tem vida, não vejo ninguém, como se a cidade tivesse recuado para dentro de si. Caminhar nessa chuva é rasgar-se por dentro, poucos têm estômago para esse abandono.
Eu a procurei nas praças e nas ruas, não a achei nos lugares comuns, mas sim no jardim fechado que reservamos para o nosso reencontro secreto.
Eu caminhei sozinho por ruas estreitas, sentindo o frio e a umidade sob o halo da lâmpada, buscando fugir dos sonhos inquietos
A cidade tem lembranças afiadas como cacos de vidro. Passo descalço por algumas ruas e sinto as marcas. Cada cicatriz urbana me conta quem já soube amar. Há um consolo no reconhecimento das próprias falhas. E, por isso, volto ao lugar que me fez aprender.
Frutos possíveis
Demétrio Sena - Magé
Ouço bichos nas ruas rangendo seus dentes;
levam sangue nos olhos, nas mãos e nos passos;
ninguém pode prever o que vai nessas mentes
que não pensam por si; têm juízos escassos...
Esses bichos atacam os nossos espaços;
nossos ninhos de sonhos; as nossas sementes
de país onde os nós se convertam em laços;
os escravos se livrem de suas correntes...
Nós estamos no rumo, porém os esgotos
novamente libertam seus bichos escrotos,
dá pra ver do meu canto as barbáries lá fora...
No momento nos cabe acordar pra quem somos;
demos flores que ainda poderão dar pomos;
o futuro nos diz: meu começo é agora...
... ... ...
Respeite autorias. É lei
O asfalto sempre soube o nome de Joaquim. Ele era o homem de 60 anos que corria pelas ruas da cidade grande desde os seis anos de idade. Cresceu na periferia cinzenta, em um cortiço apertado perto dos trilhos do trem. Filho de uma lavadeira que trabalhava dezoito horas por dia, ele não tinha brinquedos nem espaço, mas descobriu cedo que a rua era de graça. Ele corria pelos becos de terra batida para esquecer o estômago vazio, corria para não se misturar com a violência que engolia os garotos da sua idade e corria simplesmente porque o vento no rosto era a única coisa que o fazia se sentir dono de si mesmo.
Na idade adulta, a vida continuou pesada. Joaquim trabalhou por quase quarenta anos como gari, correndo atrás do caminhão de lixo todas as noites, debaixo de sol ou de chuva temporal. Era um trabalho invisível, mas ele o fazia com uma dignidade rara. Joaquim conhecia cada morador de rua pelo nome, e muitas vezes tirava do próprio bolso o dinheiro de um pão para entregar a quem não tinha nada. Ele limpava a sujeira do mundo e, nas madrugadas em que não estava trabalhando, continuava correndo pelas avenidas desertas. A corrida não era um esporte para ele; era o seu santuário, o único momento em que não era o homem que recolhia as sobras dos outros, mas sim um homem livre.
Ele finalmente havia conseguido se aposentar. Suas articulações doíam pelo cansaço de uma vida inteira de trabalho braçal, mas seus pés continuavam firmes no asfalto. Até que a brutalidade do acaso o alcançou. Na calçada de uma padaria, enquanto tomava seu café da manhã, um motorista embriagado perdeu o controle do veículo e o prensou contra a parede de concreto. Joaquim não teve culpa de nada. O impacto destruiu sua coluna. No hospital, os médicos informaram que o trauma na medula era definitivo e que a paralisia total avançaria pelo corpo em poucas horas, tirando dele para sempre a capacidade de andar ou correr.
Foi uma injustiça imensa com alguém que passou a vida inteira fazendo o bem e cuja única alegria era o movimento. Joaquim não merecia aquele fim. Ele olhou para as pernas cobertas pelo lençol e soube que não sobreviveria trancado em uma cama de hospital. Sua alma morreria muito antes da carne.
Naquela mesma madrugada, sentindo a dormência começar a subir pelos tornozelos, ele arrancou os acessos do braço. Desabou da cama, arrastou-se pelo chão até a saída de emergência e ganhou a rua escura. Sob o ar frio da madrugada urbana, ele forçou os joelhos trêmulos e, por um último esforço de pura teimosia, o corpo obedeceu. Joaquim começou a correr.
A paralisia subia como uma maré lenta por suas pernas, mas ele continuou avançando pelas avenidas vazias da periferia. Sem sentir o impacto dos tênis velhos contra o chão, ele corria guiado apenas pelas suas memórias. A cada quilômetro, sua mente resgatava o passado: lembrou-se de si mesmo correndo na chuva para levar o remédio da mãe quando era jovem, dos dias de trabalho correndo atrás do caminhão com um sorriso no rosto e do menino que apostava corrida com o barulho do trem nos trilhos do cortiço.
Ao amanhecer, ele alcançou as margens de um pequeno lago esquecido no limite entre a cidade e a rodovia, o único lugar com árvores onde ele costumava descansar na infância.
O quadril travou por completo. Joaquim desacelerou no ritmo exato em que o controle de suas pernas desaparecia, até que os pés se fixaram na terra de uma vez por todas. Ele parou na beira da água, o corpo inteiro tremendo pelo esforço sobre-humano, e desabou de joelhos na grama.
Ele chorou. Foi um choro silencioso, pesado, o choro de um homem que passou sessenta anos apanhando da vida, mas que havia cruzado a sua última linha de chegada exatamente como escolheu: livre.
Joaquim olhou para o reflexo do sol nascente na água do lago, o mesmo sol que iluminava suas corridas quando ele era apenas um menino inocente fugindo da fome nos becos do cortiço. Ele não olhou para o céu com raiva do motorista que o atropelou, nem com rancor do mundo que sempre lhe deu o lixo e o esquecimento.
Com as mãos trêmulas apoiadas na terra úmida, ele respirou fundo o ar frio da manhã. Juntou o restinho de ar que ainda sobrava em seu peito cansado e, com as lágrimas escorrendo pelos sulcos do rosto enrugado, moveu os lábios. O sussurro saiu rasgado, mas firme:
— Obrigado... por terem me aguentado até aqui.
Não era um agradecimento ao destino cruel, mas sim um obrigado direcionado às suas próprias pernas, que nunca o abandonaram. Um obrigado ao seu corpo velho, que o carregou por tantas madrugadas solitárias e que guardou forças para lhe dar aquela última gota de liberdade.
Joaquim deitou-se de lado na grama, encolhendo os braços junto ao peito e recolhendo as pernas agora completamente paralisadas, como um menino cansado que finalmente chega em casa depois de um longo dia de correrias. Ele fechou os olhos devagar. O coração valente do gari deu uma última batida orgulhosa e parou.
À distância, o som dos motores e o barulho da cidade grande começavam a aumentar. O mundo acordava para mais um dia comum, inteiramente indiferente ao fato de que mais um homem honesto e inocente era injustiçado e encontrava seu fim.
Claro que a censura é necessária em alguns casos. Imagine sem censura as pessoas andarem nas ruas sem roupas? Que coisa horrível.
Prender alguém pode retirar uma ameaça das ruas; prevenir o crime pode retirar uma geração inteira do caminho da violência.
“O abandono animal é a forma pela qual a irresponsabilidade privada termina nas ruas e a responsabilidade pública começa a ser testada.”
"Antigamente, as mulheres do bordel saíam às ruas sem parecer que trabalhavam no bordel. Hoje, muitas mulheres que nunca pisaram em um bordel saem vestidas como se trabalhassem em um."
Do Álbum: O Grande Bordel (🌎)
Sim
— By - Marcélio
🤣😂😆
Feito de Ontens - Capítulo IV — A Poesia das Ruas
A jaqueta jeans, que antes parecia um escudo contra o mundo, agora era apenas um casaco
confortável para uma tarde de outono. Tranquei a porta de casa — não para me esconder do que
ficou lá dentro, mas para descobrir o que estava me esperando lá fora. Havia um burburinho na
cidade, aquela energia típica de um fim de tarde onde as pessoas buscam um pretexto para
desacelerar da rotina.
Caminhei sem rumo até a praça central, o coração pulsante da cidade onde os artistas de rua
costumam se reunir. De longe, notei uma pequena multidão se formando em círculo perto do
chafariz. Um som familiar cortou o ar: o dedilhar ritmado de uma viola e o choro sutil de um
violão. Meu coração deu um salto involuntário, mas não de dor. Foi o eco do reconhecimento.
Aproximei-me devagar, misturando-me aos desconhecidos. No centro da roda, dois rapazes jovens,
com os rostos queimados de sol e o brilho nos olhos de quem está começando, cantavam uma
daquelas músicas do "lado B" do repertório dele — uma daquelas canções profundas que não
tocavam no rádio, mas que ele compôs em uma madrugada chuvosa no nosso quarto.
Fechei os olhos por um segundo. Ao meu redor, as pessoas cantavam em coro, baixinho,
comovidas. Um homem de cabelos brancos limpava o canto do olho; uma jovem segurava a mão do
namorado. Naquele momento, percebi a grandiosidade do que tínhamos vivido. Ele não pertencia
mais apenas à minha saudade ou aos meus discos. Ele pertencia ao vento, ao povo, à memória
afetiva de cada uma daquelas pessoas que nunca o abraçaram, mas que se sentiam abraçadas por
suas palavras.
Quando a música acabou e os aplausos ecoaram pela praça, os rapazes agradeceram e um deles
disse ao microfone: "Essa foi para quem sabe que a boa música nunca morre". Sorri. Dei alguns
passos à frente, tirei uma nota do bolso e a depositei na caixa aberta do violão deles. O jovem
violeiro me olhou, surpreso, e fixou os olhos na jaqueta jeans que eu usava. Ele pareceu reconhecer
a energia.
— Bela jaqueta, moça — disse ele, com um aceno respeitoso com o chapéu. — Ele aprovaria.
— Obrigada — respondi, e pela primeira vez, o agradecimento não veio acompanhado de um nó na
garganta. — Ele com certeza está orgulhoso de vocês.
Dei as costas à roda e continuei minha caminhada. O sol começava a se deitar atrás dos prédios,
pintando o céu de tons de rosa e dourado. Eu estava sozinha na calçada, mas já não me sentia
solitária. O amor dele tinha se transformado em arte pública, e eu, finalmente, fazia parte do público
de novo, pronta para assistir ao espetáculo do mundo.
©nilzacarvalho #nilzacarvalho
Nas esquinas das ruas
e das nossas memórias,
fazia sol o chuva,
O sorriso era gratuito
até quando íamos buscar
o prêmio escrito no palito.
Sempre debaixo do guarda-sol
para carrinho de picolé,
vendendo sorvetes ou balas,
Era ponto de orientação
para voltar para casa:
tudo muda, o tempo passa...
Vendo gerações crescer
ou até mesmo se casar,
Nunca mais vi nenhum
por onde tive de passar,
O sorveteiro virou história
para muita gente lembrar.
Controversos
Nas ruas, nos bares, nos elevadores e nas calçadas, vejo todas as pessoas indo e vindo fantasiadas usando suas máscaras,
Entre lebres e cordeiros, lobos e chacais, porcos e gados nelores, estão os zumbis, as mulas sem cabeça e misturados com todos estes vejo também mascarados com fantasias de anjos e demônios,
No coração das trevas, esta o homem com a sua súbita insanidade e seus pensamentos controversos travestidos de evolução e tecnologia.
O ódio, antes contido, hoje se veste de virtude nas redes e nas ruas, alimentando um ciclo implacável de hostilidade gratuita e impiedade.
Não vale a pena investir em alguém que prefere a validação barata das redes sociais e das ruas em vez de preservar a intimidade e a seriedade de um compromisso a dois.
