Poesia eu sou Asim sim Serei
FRÍVOLO
Manhã da roça
bacia de biscoito
vento solto
relincho de potro
sentimento afoito
tudo torto, tudo oco.
Barcaça das águas
fundo do mar morto
rabanada do boto
rosa do porto
olhos loucos
rebolo, tolo.
Pena de poema
tema treslouco
tudo ainda pouco
topada no toco
nesse ninho choco
... Tinoco, broco.
GALGAR
O tempo passa
a gente passa
hoje passa
o passar passa.
O amanhã passa
o ontem passou...
Tudo passa!
E quando o futuro passar
o passado também passa
e tudo fica sem graça.
Antonio montes
Sentir
"Por que devo sentir ?
Por que devo sorrir quando estou feliz ?
Por que devo chorar quando estou triste ?
Por que devo odiar quem me odeia ?
Por que não posso sorrir para esconder a tristeza ?
Por que não devo chorar de felicidade ?
Por que não devo amar meu inimigo ?
Não seria mais fácil ?
Por que não sentir o que ninguém sente ?
Por que não posso ser diferente ?
Afinal, não somos todos diferentes?
Mas ao mesmo tempo iguais"
A discussão sobre a morte
Falamos da morte como inexorável,
às vezes tentando ignorar
sua postura austera,
intransigente, inquebrantável...
Não há entre os homens vivos
nem entre os mortos, entre sábios ou tolos
alguém que saiba responder,
além de delírios ou hipóteses
o que é a morte, nem o que lhe segue,
qual sua verdadeira causa ou intenção...
Poetas e pensadores, não raro a descrevem,
arriscam seus palpites, outros falam em tese:
“a morte é o fim de tudo, ou início de nada.”
a sonhos e a pesadelos se atribui teorias,
doutrinas bem intencionadas...
a morte poderia ser, mas ela não é
não há Por vir, nem De vir,
tudo é abismo e talvez....
Mas se a vida ignorasse a morte,
se não houvesse pesar nem temor,
físico, metafísico ou moral?
A morte não seria o que é
nem o que não é...
a morte é apenas uma rima
que o homem tenta decifrar...
mas lhe falta tempo, espaço e sorte.
Evan do Carmo
LICENÇA PARA AMAR
Escrevo por excessos e exceções,
talvez porque escreva para ti,
e se exacerbam as minhas emoções,
crio neologismos, hiperbolizo,
abuso da licença poética aqui e ali,
e continuo a versar fácil e versátil,
te exulto, exalto em cada nuance,
és da minha inspiração a amante,
já não sou mais sequer poeta,
posto que me confundo a poesia.
Rabisco minhas linhas rebuscadas
com palavras já a tanto usadas,
racionalizo apenas o supérfluo
o essencial, esse eu sempre sublimo,
meu sentimento é primoroso
assim exagero,extrapolo, alucino,
destilo esse bem gostar melífluo,
tinjo meu verbo com exuberâncias
que aprendi nos jogos de minha infância,
posto que me confundo a poesia.
E se algum dia alguém me perguntar do por que,
responderei simplesmente: Por amor, nada mais.
SAUDADE (soneto)
Um segundo, não mais que um segundo
o andamento já vivido, num tal lampejo
derretido na lembrança, passado mundo
do tempo no tempo num sucinto cortejo
E neste breve segundo, e tão profundo
o antigo tornou-se não mais que desejo
duma tal recordação, em que me inundo
numa saudade que fala e na alma arpejo
Neste minuto conciso o suspiro oriundo
traz agridoce eternidade... num ensejo
pra amenizar o ser em ser moribundo
E ao final, nesta saudade em manejo
o que teve de valor foi o amor fecundo
que no sentimento... - palpito e adejo!
Luciano Spagnol
Outubro, 2016
Cerrado goiano
Sobre a verdade
A verdade não é relativa,
não a minha, nem a tua,
a verdade de cada um
é inexorável como o sol,
todos a verão...
Mesmo que a ignorem,
saberão da sua existência
cruzarão com ela
face a face...
Minha verdade
assim como a de Pilatos
não é relativa...
ela não é discurso de Cícero
nem retórica de Homero
ou banquete de Platão.
A verdade é transparente
e purificadora, na tragédia
e na comédia ela revela
a alma do seu agente
expõe o abismo das palavras
a verdade não é divina
a verdade é humana
é a soma das nossas ações.
Evan do Carmo
INTEIREZA
Tudo que tenho é por inteiro,
é intenso, completo, certeiro,
nada me preenche na metade,
nem mesmo, medo e saudade,
sou a parte completo do todo,
o visco inteiro e verde do lodo,
peça que fecha quebra cabeça,
o final onde tudo mais começa.
O amor está em mim até o fim,
plantado bem cravado no peito,
arraigado na raiz de meu verso,
se enterra e espalha feito capim
e me serve de estrada e de leito,
é completo, pois é meu universo.
INSTANTE TRISTE
Hoje está triste a noite, sem lumiar minh’alma,
e mesmo assim uma fagulha de alegria, resiste,
insiste no íntimo, deita a minha dor com calma,
luto contra tal mutante ferida fria, que persiste
ASSEAR
Pela rua a água
lava catacumba
e afoga as magoas.
Mareja a saudade
d'aquele sentimento
e da frágil felicidade.
Enxuga as lagrimas
fincada no tempo
rascunho do desalento.
Pela rua a água
vai lavando as calçadas
as favas e as lavras.
Antonio Montes
INÉRCIA
Dia de finado
... Flores...
rascunho da calma
... Lagrimas.
Dia para chorar a vida
celebrar a morte
E sentir saudade
... Da partida.
Dia de finado
... Lagrimas...
Água da alma
poesia da existência.
Antonio Montes
SONETO MELANCÓLICO
Chove, embrusca o céu do cerrado
o horizonte ribomba em trovoada
nuvens prenhas, parindo gota d'agua
"cachoeirando" o telhado poeirado
Tomba galhos, ventos na esplanada
um cárcere sombrio, espírito calado
a alma com os seus ais embrulhado
contempla os sonhos em disparada
E o tempo a ver, o chão ensopado
escorrendo devaneios pela fachada
dos sonhos, em rodopios atordoado
Salpica na janela, medos em pancada
melancolia, num espanto não desejado
dos meu olhos em pranto, numa cilada...
Luciano Spagnol
Novembro, 2016
Cerrado goiano
TRAMONTANA
Ponte aérea,
aponta a fera
globo, atmosfera...
Tantas asas no ar!
Voando a terra
n'essa grande era
qualquer um pode chegar.
Ponta fina
aponta afronta
e por sua conta
não desconta.
Passa da conta
tonta, atonta...
A linha reta da ponta.
Antonio Montes
Amantes em Liberdade
Sinto a liberdade no olhar dos amantes
Apaixonados e delirantes,
Sonhadores noturnos,
Em dias que se clareiam,
Em faces que se maquiam
Aos sons da poesia.
Vejo os amantes em liberdade
Que soltam em voos longos
Fundo mergulho, profundos gostos,
Em jardins a perfumar.
Tocando em violas,
Falando em prosa,
Pondo o coração em versos,
De quem sabe, oh Deus, amar!
E deles, libertos atos são feitos,
Em tons de regras impunes,
Vão-se enamorando...
Sem pecado e com ardor,
Encobertos de álibis e de presumes
Tirando de si, tudo que dentro sentia.
REMINISCÊNCIA
Pagina branca sobre a mesa
... Uma carta ao tempo
uma nuvem ao vento
rascunho dos sentimentos
... Alveja a saudade tesa.
Uma sombra ao chão
Olhos tristes, atentos
feitio de um pensamento
trilhos de contentamento
... Coração moda paixão.
Feito da imaginação
pautas cheias, poemas belo
esquecimento amarelo
passos treloso no castelo
... Mãos sofreguidão.
Antonio Montes
NADA SERÁ...
Se a vida for um vazio,
um vazio de vida será...
Se o gesto for sem brio,
hostil o gesto será...
Se o ter lhe for tardio,
o possível não lhe será...
Se o existir não for sadio,
a existência nada será!
Pois, ser é tornar o amor luzidio,
aí a vida proverá..
Luciano Spagnol
Cerrado goiano
IDADE SEM VAIDADE
Aquela casa lá embaixo,
com a árvore na frente,
é a minha casa,
a arvore é da minha infância,
veja as flores violáceas,
estão em botão
e logo florescerão,
e o muro amarelecido
este envelheceu comigo,
é meu amigo tenho histórias,
algumas velhas, outras novas,
feito o sabiá que ali está,
ambos adejamos,
cada qual a sua maneira,
ele alado
eu sem penas
a não ser as da poesia.
Naquele gramado tão verde
era eu a criança que ria
e aquela balança
foi a justiça da minha infância,
feliz infância, muito feliz infância,
hoje estou velho,
demoro mais no meu passeio,
porém ganhei em contemplação
aquela casa lá embaixo
com a árvore na frente,
me ensinou que a vida
é muito mais que uma simples ilusão
É SIMPLES!
Anda!
Vem calar a saudade,
vem encurtar o tempo que foge.
Corre!
Contra os contratempos,
contra o sentido da rosa dos ventos.
Foge!
Deixa o lugar habitual,
deixa pra trás a vida sem sal.
Embarque!
Nas nuvens de minha estação,
nas quimeras dormentes da ilusão.
Anda!
Contra os contratempos,
contra o sentido da rosa dos ventos.
Corre!
Deixa o lugar habitual,
deixa pra trás a vida sem sal.
Foge!
Nas nuvens de minha estação,
nas quimeras dormentes da ilusão.
Embarque!
Vem calar a saudade,
vem encurtar o tempo que foge.
Anda!
Deixa o lugar habitual,
deixa pra trás a vida sem sal.
Corre!
Nas nuvens de minha estação,
nas quimeras dormentes da ilusão.
Foge!
Contra os contratempos,
contra o sentido da rosa dos ventos.
Embarque!
Deixa o lugar habitual,
deixa pra trás a vida sem sal.
Anda!
Nas nuvens de minha estação,
nas quimeras dormentes da ilusão.
Corre!
Contra os contratempos,
contra o sentido da rosa dos ventos.
Foge!
Deixa o lugar habitual,
deixa pra trás a vida sem sal.
Embarque!
Vem calar a saudade,
vem encurtar o tempo que foge.
Inocência perdida
"Na varanda onde me encontro, me vejo enfastiado e risonho
Olhando para o chão onde as crianças brincam e se sujam
Na ladeira a beira da rua movimentada pelo caos
De ladrões, facções, revoltas, lâminas e oitões
Cena nada bonita para uma criança e nem mesmo para um adulto
O mais incrível disso tudo é que todas as crianças enxergam as flores
As aves e o seu próprio reflexo no esgoto
Ou na poça de sangue
Quebram janelas com suas faltas batidas no futebol
Perdem-se em meios os becos no esconde-esconde
E o sentimento nostálgico faz-me contestar
Onde esta toda a minha inocência de antes?
Se foi quando?
Quando estava dormindo e tento mais um pesadelo?
Quando estava alisando o travesseiro e imaginando seu cabelo?
Quando estava mordendo a toalha e imaginando o pescoço de alguém
Quando?
Será que se foi quando eu traguei você
e a matei dentro de meus pulmões para que eu possa
Respirar o seu ar, e inalar o seu doce veneno?
Pode ser que ela tenha saído
Na noite em que me disse não
e virei um caminhão de uma bebida
Inflamável
Bem, não sei quando foi
Sei que como você
eu a quero de volta
De volta
Volta?
Volta, porque não aguento mais a desesperança
Da dor da lembrança, da inocência e manhas
Que tinha quando era criança
Quero voltar a ser como antes e ver meu reflexo na poça de sangue! "
COMO SORRIR
Farras da vida
tempo que finda
terras aos ventos...
Para cobrir a sua tenda.
Olhos com vendas
não mais contendas...
Seu blue,
seu verde
que falta lhes fará água
se não és mais o dono da sede?
Farol sem luz
torre sem vale
de que vale o universo
se seu corpo debruçou!
Se o mundo aos seus pés
não existe...
Como sorri
como sorrir...
depois que o amor mingou?
Sorria para o hoje
que o ontem se foi
momentos passados... Acabou.
Antonio Montes
