Poesia eu sou Asim sim Serei
Arquitetura
Solidão é quando se sente o próprio hálito,
se se descobre pálido olhando o vão do dedo.
Estar só é morrer de medo do silêncio,
amassar o lenço na palma da mão.
É quando a noção da vida se desloca,
sai do meio da rua, quer a toca,
onde o espaço menor não deixa sobra.
Solidão é o canteiro de obras da emoção:
nele se guardam materiais preciosos,
os pontiagudos, os tortos, os porosos,
que, se devidamente combinados,
serão perfeitamente aproveitados
como estrutura de uma nova construção.
Beijos
Procure embaixo de sua saudade,
um beijo meu.
Em algum instante da despedida
ele se perdeu,
mergulhado, talvez,
numa lágrima perdida.
Não possui nada de especial:
a dose de açúcar
que no beijo é natural,
a umidade das várias emoções.
Com uma certa tendência
a contravenções,
é melhor que seja procurado
em lugares proibidos,
onde ele pense jamais ser encontrado.
Carrega de um lado
uma meia-tristeza conquistada
nos desatinos de uma noite,
daquelas em que a lua vem quebrada;
do outro lado, um sorriso
de quem sabe como chupar estrelas.
Sobraram-lhe sequelas e aderências
das muitas experiências
de quem já foi bolinar o paraíso.
Se for capaz de encontrá-lo,
devolva prontamente,
pois é evidente a falta que ele faz.
Perdoa coração este momento
de introspecção.
Sinto teu aperto,
teu descompasso,
tua pressão.
Peço-te perdão
por mais este instante oprimido,
por todo impulso contido,
cada decepção que te causei:
as grandes cenas que não fotografei,
os beijos que retive,
as risadas que contive,
as brigas que não briguei,
os poemas que não escrevi,
os falsos que respeitei,
as auroras que não vi,
os porres que não permiti,
o amigo que não percebi,
o amante que não amei.
Perdoa coração por este abuso,
mas me recuso a recuar novamente.
É que sempre se morre um pouquinho
a cada emoção que não se sente.
Não vale entrar na vida de mansinho;
tem-se que vibrar intensamente,
ainda que te custe uma palpitação.
Caleidoscópio
Pela fresta observo a dança das cores
nos vidros recortados.
Separam-se, aglutinam-se,
desenham maravilhas
Como se bailassem calçando sapatilhas.
A cada movimento, uma surpresa,
a mesma flor concebida com destreza,
em seguida se espalha e se desfaz.
Por trás de seu processo giratório,
o caleidoscópio avisa:
a forma é fugaz e imprecisa
e o colorido de hoje é provisório.
aspectos
as coisas são
como estão?
o cão vê o gato
bem diferente do rato
(questão de defesa e ataque)
aurora e crepúsculo
são noite dia ou mestiços?
(depende do ponto de vista)
o sol é para todos
e a chuva?
finjo-me esfinge
meia lua meu amor
é tua
a outra metade
guardei-a para o compadre
que me beija a boca
quando chegas tarde
da casa da outra
Calma... Tanta pressa...
Pra quem andava preenchido de quase nada.
Com preguiça de amar.
De construir, de transformar.
Tanta urgência...
Pra quem preferia encher o bolso ao invés do coração.
Que nem se importava mais com abraços e beijos.
Tudo a nossa volta se trata de prisões.
Agora nos damos conta que já faz um tempo que andamos entre as pessoas carregando cadeados.
Agora, não derrepente, nos desespera a vida.
E mesmo compreendendo o mínimo do que é não poder, o que é findar-se. Mesmo assim, estamos aprisionando a tudo que se move, que se liberta.
Tanta pressa...
Pra continuarmos destruindo o que nos alimenta e cura.
Emergenciando sobre a terra, cimento e cal.
Um dia, talvez, nem sobre espaços para os sete palmos de cada ambição.
Então, não deixe as coisas nada urgentes te acorrentarem.
Calma...
Apenas pare um pouco e respire.
Texto: #mirlacecilia
Imagem: #escapingyouth
Procissão a esmo
Vejo os seguidores e vou junto.
Não pergunto do que se trata.
Apenas sigo os passos.
A quem eu sigo?
E o que eu persigo
Nesta procissão a esmo?
O POETA (soneto)
O poeta busca
Em cada verso
O senso diverso
E o estro rebusca
Porém, perverso
Na sua enfusca
D’Alma, sarrafusca
O destino imerso
De instante a instante
Muda do riso à mágoa
Se alegra e, entristece
Do segredo sussurrante:
Da terra, fogo, ar e água
Causa a toda a sua messe...
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
29/03/2020, 19’40” – Cerrado goiano
Goiás
Só te vejo, Goiás, quando me afasto
e, nas pontas dos pés, meio de banda,
jogo o perfil do tempo sobre o rasto
desse quarto-minguante na varanda.
De perto, não te vejo nem sou visto.
O amor tem destes casos de cegueira:
quanto mais perto mais se torna misto,
ouro e pó de caruncho na madeira.
De perto, as coisas vivem pelo ofício
do cotidiano — existem de passagem,
são formas de rotina, desperdício,
cintilações por fora da linguagem.
De longe, não, nem tudo está perdido.
Há contornos e sombras pelo teto.
E cada coisa encontra o seu sentido
na colcha de retalhos do alfabeto.
E, quanto mais te busco e mais me esforço,
de longe é que te vejo, em filigrana,
no clichê de algum livro ou no remorso
de uma extinta pureza drummondiana.
Só te vejo, Goiás, quando carrego
as tintas no teu mapa e, como um Jó,
um tanto encabulado e meio cego,
vou-te jogando em verso, em nome, em GO.
Caminhos
Se caminhamos juntos,
se juntos dividimos,
quem sabe da renúncia
que nos vai conduzindo?
Quem sabe dos intentos
tão distantes, tão próximos,
que amamos em silêncio
como um segredo nosso?
Quem sabe do caminho,
se tudo é tão noturno
e o sonho é como um sino
além, além do mundo?
Tudo isso e mais a fome
da cidade e do sertão,
tudo isso e mais o gosto
da pimenta e do limão,
tudo isso, minha gente,
vai perdendo a tradição,
vai ficando na saudade,
na forma de algum refrão,
de algum discurso eficaz
que possa matar a fome
comendo apenas o nome
das comidas de Goiás.
Comparação
A vida é uma dança desengonçada
No salão do infinito que somos.
O sabor das coisas insípidas,
A casa que nos esconde,
O sorriso que nos camufla,
O sonho que nos move...
Tudo, tudo é nada
Se comparado à comida domingueira
De minha falecida avó.
Quero crescer, vó, mas onde?
Aonde?
sempre me diziam que nessa terra era estrangeiro
mais, o motivo dessas palavras não me diziam
minha carne vale menos que o espirito
era isso que sempre proferiam.
mais hoje eu entendo do porque me chamarem de estrangeiro
pois, mesmo que eu não queira acreditar
não me considero, mais humano, desde meu nascimento
apenas espero desse corpo putrifico me livrar.
mas e claro, escolhi me afastar, me isolar
pois só assim pude perceber
que errado eu não estava
mais sim que esse mundo que venho a me degradar
por isso, vos digo não aceitei nada desde mundo
pois tudo que há nele e passageiro
tanto, que daqui a alguns anos eu como muitos serei esquecido
não imensidão de um buraco escuro
onde eu verei aqueles que comigo foram pelo tempo esquecido
um lugar sem cor,luz,escuridão apenas o vazio
que no passado me perseguia atolado no meu coração
este lugar que só a alma pode chegar ,no centro do espirito
APRENDEMOS...
Aprendemos que somos frágeis.
Que seres indefesos guardam a pureza e estão imunes a contaminação dos homens.
Que o necessário é o simples e todo o acúmulo é fardo sem serventia.
Aprendemos que as vitrines não brilham já que a Luz não pode ser guardada.
Que o brilho se esconde nos olhos e que o preço perde o seu valor na primeira incerteza que a surpresa traz.
Aprendemos a sentir a falta de um abraço e o calor de um afeto.
Que o sorriso precisa de um olhar e que a real fortaleza é o nosso Lar.
Aprendemos que os caminhos existem se seguirmos na direção da esperança.
Que o caos pode gerar sentimentos nobres e resgatar o que perdemos na ambição do imediato e que somente a Luz pode curar a escuridão que reside na falta do Amor.
Aprendemos que os desejos são ecos do ego e destruidores dos justos.
Que o isolamento nos aproxima e que o ser e o sentir precisam do agir para ter significado.
Aprendemos que o medo precisa da razão para clarear os sentidos.
Que a fé não reside nos templos e que os olhos não detém a verdade.
Aprendemos que tudo tem um significado, nem sempre compreendido.
Que a lição verdadeira se esconde na dor,
E que precisamos manter a lição depois de superada a prova.
Aprendemos que precisamos seguir aprendendo, este é o caminho da evolução.
Que Deus nos permite o sofrer para nos tornarmos mais humanos e que é preciso morrer no ter para renascer no sentir.
O ESTRANHO SORRIR DAS FLORES
O mar de cimento frio...
Ficou frio como é.
Motores não gritam mais,
Não se anda nem a pé.
Ninhos empoleirados
Guardam homens apressados
Que não sabem como agir.
São prisões sem cadeados,
Onde o invisível inimigo
Assusta pelo perigo
De não saber para onde ir.
Hoje se escutam os pássaros,
Com maior facilidade.
A família desunida,
Pela obrigação reunida,
Falando de Humanidade.
Ah! Homem confuso,
Que não aprendeu o que quer.
Agora a ambição se acalma,
A vaidade perde a alma,
O ateu fica inseguro,
Seu pensamento não fica puro.
Não há amparo para o que vier.
Estranhamente as Flores
Sorriem pelos caminhos.
Mãos não as matam mais.
Com seus instintos materiais.
A posse e a propriedade,
Sinônimos de sucesso,
Por instantes têm regresso
E perdem sua validade.
As palavras não resolvem,
Mas revelam a verdade.
Na inteligência Suprema,
Não prosperam os dilemas.
Porque Deus reside na consciência
E as escolhas de cada existência
Se tornarão ou não,
Nossas futuras algemas.
Estranhamente as Flores
Continuam a sorrir.
NOVAS FOLHAS VIRÃO
Acredite!!
Deus nos permite a tempestade para que o pó das folhas, desnecessário e pesado possa sair.
Os ventos fortes passarão.
Seja a sua própria fortaleza, pense na força que brota com a União e com a Perseverança, siga atento e valorize o que realmente importa.
Não deixes que o egoísmo e a idéia de que tudo ficará pior contamine o brilho de seus olhos. Dias bons precisam do Sol e o Despertar precisa de você.
Aprecie os ventos e seus ensinamentos, deixe para traz tudo o que não alegra e não faz sentido na sua evolução, seja humano, mas mantenha a razão como o caule forte que não sucumbe as interperies da existência.
Sejas digno de si mesmo, sem esquecer que somos individuais, mas dependentes uns dos outros para toda e qualquer superação
Depois dos momentos de aflição, os pensamentos velhos sucumbem como folhas mortas dando lugar ao verde do renascimento.
A esperança e a calmaria irão nutrir as faces e folhas novas surgirão, tudo que parecia impossível ficará apenas como lição do caminho.
Caminho este universal, mas que cada um percorre a seu jeito.
Logo o Sol irá despontar, um novo amanhecer nos guiará e a tempestade antes assustadora, derrubará apenas o que não nos ajuda mais.
Folhas novas virão, Deus permitiu que cada momento fosse possível porque tinha a ciência de que seríamos capazes.
Bons frutos nos esperam, longe das percepções materiais e egoístas, mas perto do sentido de humanidade que só prospera mediante a incerteza e a derrubada de tudo aquilo que achávamos ter controle.
Se a tempestade vier, caberá a nós espalhar boas sementes para que no amanhecer da calmaria novas folhas possam brotar.
Castelo de Areia
Esquecimento estendido.
O cheiro do sofrível,
Lançados há Natureza.
Batem as porta dos palácios.
E, as pontes elevadiças,
Não contem o cheiro
da humanidade lançadas e
esquecidas a própria sorte.
E, nem todos os tesouros ou
Arsenais.
Contem inimigo em comum,
tão Poderoso.
Que por ironia;
Pequeno e invisível.
Trazendo a luz,
No porão.
Aos tigres de papel
E nem por isso. Menos humano.
Que não escolhe , classe , raça
Ou gênero. E mistura-se,
Para realizar suas atribuições.
Despertando a humanidade adormecida.
Sentimentos de cuidados esquecidos.
Lembranças do que;
O humano não é gasto.
É investimento.
A Vida é mais importante.
Do que qualquer riqueza,
Supremacia de classe.
E direitos de nascimento.
Nenhum privilégio pode ficar,
Contido em fronteiras, casas e muros
De contenção.
Nenhuma conforto.
Justifica ou restitui o equilíbrio
Arrancado a fórcipes da Natureza.
E que; são características inerentes
Da Vida que habita esse planeta.
E que em determinado tempo.
Constituiu-se da ideia de humanidade.
Marcos fereS
(em tempo de corona vírus)
Colo de avó
Tem avó que é diferente,
nada de cachorro, gato,
cavalo ou duende.
Galinha de estimação
é o que a avó carrega
feito mapa do tesouro,
para lá e para cá
(parecem duas dançarinas).
e para quem conta
os seus segredos, fala do tempo,
do que vai colher, do que vai plantar.
A galinha concorda: có,
discorda: cócó,
Às vezes dorme, às vezes acorda
e muitas vezes esquece
que a avó não é galinha.
Apesar de tão quentinha,
a avó é gente.
Se pudesse o menino pularia
corda
com a linha do horizonte,
se deitaria sobre a curvatura
da Terra
para sempre e sempre
saudar o sol,
encheria os bolsos
de terra e girassóis.
Mas chove uma chuva
fina
e o menino vai até a cozinha
fritar ideias
