Poesia eu sou Asim sim Serei
a garça
estrangeira parque d’água
equilibra-se
na madeira arcada
de mangas
tece
de curva e pescoço
o ninho estranho
atrás da casa toda
água é lama
e a deusa
branca
torna-se galho
pelos calcanhares
o pássaro olha
a criança que rasga coxas
caule acima
atrás de rasgar a pele da fruta
depois de seis meses de espera
os bichos se encaram
o pássaro firma, cúmplice
sabem
que é papel dos velhos
cochilar durante os furtos
caranguejo
retroescavadeira
na areia preta
acanto
estrutura espinhosa
sobressalente no corpo crustáceo
serve
para risco traço fosso aberto
na areia preta
entre lama
e fuzileiros navais
um caranguejo
de carne pouca
pra tanto lodo:
ilha das flores
casa
de um caranguejo magro
e fuzileiros navais
ela
ferida preta
fosso aberto
entre peito e útero
a carne pouca
pra tanto lodo
de resto
pensava não
com o cérebro
com o corpinho
úmido e mole
que nem ela
nem a lesma
eram fortes
como o tardígrado desidratado
que vira e amara
no espaço sideral
e um dia
quem sabe
no dia de são nunca
à tarde
não haverá
mais horrores
nem ditadores
nem desamores
mas se for nunca
pra sempre
que seja à noite
hora de sentir
nossas dores
no silêncio
da solidão
de profundis amamus
Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso
Estação
Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove
miudinho
Muita vez
vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça
you are welcome to elsinore
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
radiograma
Alegre triste meigo feroz bêbedo
lúcido
no meio do mar
Claro obscuro novo velhíssimo obsceno
puro
no meio do mar
Nado-morto às quatro morto a nada às cinco
encontrado perdido
no meio do mar
no meio do mar
Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade
Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião
Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá
E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar
Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro
"O corona vírus está nos transformando em socialistas de iPhone. Muitos estão em casa, comendo pão com mortadela, sem trabalhar, sem produzir, apenas esperando a solução cair dos céus e contando com qualquer ajuda do governo..."
Thiago Oliveira (1986 a)
Seja o seu espelhar. Um reflexo de luz para a Vida. Sabemos não sermos perfeito. Mas podemos emanar luz e alimentar os corações dos nossos irmãos. Quanto mais luz Você reflete, mais leve fica seu espirito. E as densas brumas dos pensamentos sombrios. Vão se desfazendo como nuvens. E; de repente; Você fica tão leve. Que sente , que poderia, até voar. E assim o Amor se faz. E as coisas verdadeiras acontecem e permanecem em sua Vida. Como recompensa. transformando cada vez mais o seu Viver..
marcos fereS
Não sei se lavo as mãos,
Ou esfrego o corpo.
Se me isolo então
E me entrego todo.
Talvez assim
cheio de mim
viva mais um pouco
Até voltar a saber
o que não fazer de novo.
André Luz
JULGA (soneto)
Ah.... o poeta procura
A alma em cada verso
Rimar o olhar disperso
Num canto de ternura
Porém, tem senso averso
Também, na sua estrutura
E de tal jura, na sua leitura
Que faz do leitor submerso
E, de momento a momento
Que varia o sintoma diverso
Levando-o na ilusão ter fuga
E, é em vão só o sentimento:
Se é alegre ou se é perverso.
Pois, ao poeta não cabe julga!
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
27/03/2020, 17’14” – Cerrado goiano
Fascínio
Lugar onde o ego se enrijece.
E nada mais, consegue chamar a atenção.
E a curiosidade, a vontade de possuir
Tudo e a todos, dá lugar a uma doentia,
Forma de estar.
Tudo o mais. Fica parado.
Dependendo da força que impulsiona,
A vontade fascinada.
Apenas se move em direção,
Daquele foco em que está presa.
E só consegue se libertar com o
Tempo. A vontade fascinada
É o grande aprisionador dessa era.
A visão e audição condicionado ao
Estado de belo e conforto.
Paralisa outras funções dos sentidos.
Daí a necessidade. Da Realidade
Permeando, os pensamentos considerados
Sensatos. Porque; para se fascinar, e viciar.
É rápido. Principalmente, para quem já
Nasceu nesta geração. O mundo se torna
Um imenso sonho. E a Vida apenas um filme,
Que se repete, em infinito epílogos.
Sagas, e episódio. Como; por milagre.
No próximo episódio. Os problemas
Vão se resolver. Mas não é isso.
A mente está em alta ilusão.
O vício, está instalado.
E a Vida prisioneira, em um
Quadrado , cheio de imagens e sons.
Inspira , que todos são verdadeiros
Artistas e importantes.
Mas, a Realidade; sempre foi difícil.
Por isso, salvávamos as consciências infantis.
Geração infantilizada. E tudo termina em X.
Depois, somente, arquivos, de um mundo que
Existiu. E que ficou enterrado nos escombros
Da sociedade em que o homem reinou por
Uns tempos.
Progesterona. Não é mais a força que manda no Mundo.
Mas a força da mente.
Porem ela encontra-se fascinada em frente ao espelho,
Que a colocaram. E precisa acordar , o quanto antes
Para a Realidade da Vida.
Senão o passar do tempo, será como um filme,
Assistido várias vezes, e que não encontra
Continuação. E a sensação de tédio,
É inevitável. Porque esqueceu a forma
De redescobrir o mundo a sua volta.
Marcos fereS
Tens uma face
doce e tranqüila
talvez por isso
às vezes penso
que te conheço
desde sempre
que posso dialogar
contigo, estando sentado
encostado no tronco
liso do castanheiro
a refugiar-me
dos ruídos e do sol.
Aqui havia um poço
faz tempo
no centro do terreno
num caminhão vermelho
carregavam a uva.
Tens uma face
doce e tranqüila
que se reconstrói por si só
quando me assalta
a vontade
de raspá-la de vez
dos muros
arcaicos da mente
As árvores
foram abandonadas?
já não têm nome
sob o espesso córtice
não há mais que o vazio
uma passagem aberta
sem linfa
um ninho de mofo, de traças.
Por isso em três dias
virão abatê-la.
Por terra os frutos
carcomidos pelos vermes
tomados de assalto
pelas formigas esfomeadas
e as aranhas vermelhas
com suas bocas de tenazes.
Em volta da árvore
o tapete de folhas
maceradas na água.
Ontem trouxe para casa
um grande cesto de vime
cheio de damascos maduros
cor do sol
e mais doces que o mel.
Então a mim me olhaste
com um sorriso novo
aquele com que sonho
desde que estou no mundo.
Cheirava a giesta vermelha
a sálvia aveludada
a menta romana
a lavanda
a alecrim
que tem pequenas flores azuis
folhas delicadas
mas afiadas
como dentes de bebê.
E se for a árvore de Judas este amor
pendurado num canto apartado da casa.
As mãos perdidas nos cortes
nas cicatrizes dos beijos
nos pés inquietos, aguardando
percorrer o mesmo idêntico percurso.
Os nossos corpos não nos bastavam
nós os tínhamos trocado entre nós
por acaso ou para derrotar a sorte.
Agora a pele cinzela outras palavras
filtra a luz e aguarda distanciada
outros perfumes, ou os jogos da morte.
Alma
Acho que os sentimentos têm células,
pois as sinto remexer,
intensas libélulas
a se fundir e a se desprender.
Alimentam-se de lágrimas e risos,
sempre crescem.
A cada instante que vivo,
mais então se expandem,
mais amadurecem.
Seu núcleo me pede pulsações
e quando me perco pelas emoções,
ele se avoluma e me maltrata.
Chega a ser tão grande seu efeito,
que rompe o peito,sangra
e se dilata.
Ah minhas células emotivas!
Quero-as em mim
coladas e cativas
fazendo-me viver intensamente.
Eu as batizo com o nome de "alma"
e as responsabilizo a viver eternamente
ainda quando o coração se acalma
e põe-se a dormir
irreversivelmente.
