Poesia Amor Nao Realizado Olavo Bilac
Encrespa
Conte a história que quiser...
mas basta ler o meu cabelo
para saber quem é
a resistência
a voz que clama
a mulher da guerra
a mulher que luta contra tudo e contra todos,
a que sangra e proclama...
a preta de passado incerto,
certamente mal contado!!!
cada fio do meu crespo
para cima
para os lados
para frente
para baixo
para o mundo ...
alisado,
cacheado,
crespo todo
entrançado
na tua frente...
uma história,
uma multidão de ancestralidade...
uma raiz...
um conto
contado erroneamente pela mão branca...
Porque incomoda
ver as pretas
assumirem
sua raiz
na história,
na cultura
na escola,
na tv,
na casa da sogra,
na elite,
na suite,
na boutique
e no seu friz
encrespando poesia na veia da sociedade!!!
Perdão por fazer parte do crime que aos poucos ceifam sua vida.
Escrevo para minha pátria.
Ela é analfabeta.
Pura e reta.
Foi ela que disse a mim.
Foi assim, vou contar.
Meu Brasil se referiu ao madeiro.
Eu vi uma luz através do candeeiro.
Iluminou minha mente.
Eu indecente meio fuleiro.
Quis ouvir a voz.
Então diz meu Brasil.
Eu carrego a cruz por ti.
Meu povo me chicoteia.
Não entende minha bondade.
Quinhentos e vinte anos eu jorro fartura.
Mas o caráter da maldade.
Este é o homem a grande figura.
Tende a mim crucificar.
Não sei até quando suportarei.
Não sei se renascerei.
Então eu disse;
Perdão por fazer parte do crime que aos poucos ceifam sua vida.
De certa forma acho que já peguei chicote.
Bebi água do seu pote.
Fui alegoria e fui xote.
Mas amanhã, vou dar pinote.
O que pensa o povo dessa poesia.
Oh causadores da morte.
Giovane Silva Santos
Quanto menos tempo,
Mais frequente.
Quanto mais abraça,
Mais sufoca.
Quanto tempo tenho até a próxima?
Dia após dia
Cresce o cipó.
E ao fim do dia, é pó da construção
O homem é a construção.
O monumento é o transcorrer.
A interseção entre o real e o imaginário.
Um ponto.
O homem chora por dentro,
Para dentro é dimensão.
É direção!
Faz sentido e faz sentir.
Até breve, ou até longo.
Deixo meus comprimentos á onda.
A sabedoria está na mera existência de tudo, aquele que assume que sabe tudo perdeu se no no abismo da imaginação onde criamos uma ficção eterna do amor, da falsa felicidade, uma realidade so nossa.
Ivestimos energias tão negativas julgamos elas serem boas, Não podem dizer que está tudo bem no meio desta sucata capitalista, onde perde o pedreiro, o soldado abatido sem meios para viver e vence o vigarista que so gosta de lamber esta ficção.
Eu sou Deus e o Deus é tudo e esta sempre aqui tramontana que nunca vi… Deus.
Eu não sei, apenas assumi.
Sinédoque
toda vez que vejo um filme eu me apaixono
pela atriz eu penso
mas é pela personagem
eu penso mas é
pelo diretor mas é
pelo filme pelo cinema
pela arte eu penso
mas é pelo mundo
no mundo existe ela
com quem a atriz se parece
não, a personagem
(não, nenhuma das duas
que só me encantam por ela)
ela por quem penso
me apaixonar agora
e por quem canto há dias
a mesma música sem voz.
molhar as plantas
tudo tem barulho de mar
enceradeira isopor carro
em movimento aerosol
espirro pistola moeda
telha bombardeio cigarro
queimando pia degradê
cãimbra inseto monge
sua vizinha o futuro
tem barulho de mar
na camiseta no quadro
chinelo aeroporto gaiola
panela caverna birita
beijo tem biblioteca
também um curió bola
de chiclete sobretudo
um dinossauro alado
tem mar de todo tipo
de barulho e dentro
de cada mar um ralo
entupido de cabelos.
estou sempre indo ao seu encontro
chego de costas pra você achar que estou indo embora
saio de frente pra você achar que estou chegando
estou sempre perdido indo ao seu encontro
é assim a minha vida e o meu calendário
eu estou sempre indo ao seu encontro
não preciso ir mais longe pra saber
que estou sempre indo ao seu encontro.
jane quero uma surpresa
estou triste mereço
você me esperando
em Copacabana
dura e descalça
rindo da minha cara
dizendo pensou
que eu não viria.
Hoje é o aniversário da execução
de García Lorca e se alguma coisa
mudou desde então, foi pra pior
eu estou na Central do Brasil
esperando que alguém me ligue
com uma notícia boa
não tenho vontade de voltar para casa
não tenho vontade de ir trabalhar
não tenho vontade de quase nada
e espero me apaixonar nos próximos minutos
há qualquer coisa de perverso em tudo isso
penso em Antônio Conselheiro
e em seu cadáver profanado
a santidade do mundo
é sempre mais perigosa
que qualquer diabo
uma vez o eremita me sorriu
em uma carta de tarô e desde então
tenho colecionado abandonos
ocorre-me que talvez estejamos
vivendo o apocalipse
Havia crescido
e era definitivo:
já tão banal o forte gosto
da aguardente
de velhos tempos coisa alguma
nem o corpo
também a pele manifesta seu devir
extingue-se, camaleoa
de máscara em máscara
o bruto corpo da árvore castigada
ao cair das folhas.
Cresci
perdi castelos e pudores
perdi sorrisos, sim
perdi favores
deixei aos sóbrios a vitória
sobre o tempo
ganhei silêncios & temores
ganhei revolta
quando mais queria calma
ganhei suor e não o pão
ganhei o Ar
a plenitude do hemisfério
a anarquia nos trópicos
ganhei perdi
ganhei & perdi
uma metralhadora de espantos
em eterno ir e vir
Sonhei com uma cidade submersa
que desconhecia luz e era habitada
por estranhas criaturas fluorescentes
que sentiam fome e amor,
mas sobretudo fome, e adornavam
as almas com cantos de guerra e
silêncios rompidos à chibata
mas havia alma e isso bastava
porque na superfície nós não tínhamos
nem isso, e o sonho desdobrava-se
num turbilhão de imagens em
que eu via o amor ser inventado
e escurecer e as trevas eram tudo
e eu dormia e desesperadamente
sabia que ninguém viria coroar
minha agonia porque acordávamos
todos os dias e quem quer que
quisesse viver teria de saber
que aqui não se sonha, não,
não se sonha sem custo
e o meu custo, tão doce e terrível,
era a loucura daquela cidade
que já desaparecia outra vez
e a insuportável luz volvia
com a realidade e tudo
o que se podia fazer era secar
os olhos e observar o sol dormir
atrás do mundo
Melancolinear
Tenho os dentes
amarelados
e sempre que posso
mantenho-os todos
na boca fechada
sorrindo sem eles
estilo contido
e me envaideço
de minha proeza
porque não sorrir
nunca matou
ninguém
a matemática das ruas
e suas esquinas perpendiculares e calçadas paralelas
com imperfeições imperceptíveis
e quadras em retângulos
que terminam em praças circulares
por onde passam carros a sessenta por hora
e pessoas atarefadas
e onde se sentam pessoas
que jogam o tempo e os silêncios
aos pombos indiferentes
Se eu chego antes,
te pego com respeitos demais;
Se eu chego atrasada,
te pego casado e pai;
Então eu chego agora,
pra ver se é boa hora.
luz
vamos agora
que esta luz está boa
este dia de nuvens
melhor que o sol
estourado
este dia azul
mais que amarelo
vamos que é agora
esta foto
para a posteridade
mais que nós mesmos
podemos saber
se nem estivermos
mais juntos
nela, estaremos
nenhuma fotografia
se mede
em segundos
Coração sobre cama
Se de repente acordo
é madrugada
surpreende o coração
descansa sobre os lençóis
exausto
não tenho sede nem sono
e nem mais coração.
Se acordei e é madrugada
era pra ver você
que não está nesta cama.
Enquanto canto bem baixinho
os batimentos desaceleram
lentamente, quase imperceptível
até a voz sumir entre os lençóis.
Esperaremos a manhã
o coração e eu
e os jornais o carteiro as babás
colocarão as coisas no lugar:
o coração no peito
você à distância
os lençóis na lavanderia.
Mesmo com os olhos
semicerrados
nota-se, atrás da nuvem
do cigarro
na leveza dos ombros
e pescoço esguio
na colher que descansa
sobre o pires
na dobra folgada
da manga da camisa
nos livros apoiados
sem pressão
na estante e na estante
quase vazia
atrás de si, ela
moça arguta
que sorve o mundo
como quem sorve
por hábito
o café.
A noite esconde o mar que esconde
os barcos que esconde os marinheiros
mas ninguém tem os olhos fechados.
Todos se espreitam e se ouvem
sem sabê-lo. Os livros aparados
na estante dizem o que dizem
quando estão fechados? Estariam
apenas em silêncio?
Não há palavra que toque a coisa
mas há palavra que a invente.
Atravessar o vazio da sala de meias
pode ser a solução para vencer
a âncora desta noite porque todas
as noites parecem não ter fim
até que venha o sol anunciar
que nada é tão complicado
quanto parecia. O dia sucede.
Vontade
Entrar em casa sem que a porta
rangesse, sem que o cachorro
da vizinha farejasse minha vinda
sem que o sofá conservasse as
formas do meu corpo, sem que
eu precisasse tomar aquele copo
de água que toca o azulejo e emite
um som rouco, sem que houvesse
corpo. Entrar em casa como
a música entra nos ouvidos.
