Poema da Fome
BEM-ME-QUER
Sou alimento que chega à tua mesa nas horas mindinhas, eu, que sacio a fome dos teus e, ensino teu estômago a pensar.
Sou o calçado novo do teu filho, tuas botas confortáveis que acaricia teus pés, mas te impeço o caminhar.
Sou óculos de grau que te revela o argueiro, mas, te esconde o leão, sou venda de seda, sou grade, prisão.
Sou passagem aérea em avião de luxo, banco de couro, cálice de ouro, copo de vinho, sou conforto, sou torto, maquiado, sou O cala-boca.
Sou ultrassom, tomografia, ressonância, endoscopia, teste de aids, cesariana, vasectomia, bengala, dentadura, cadeira de rodas, não sou cura.
Sou abraço vazio, beijo gelado, dono do gado, chicote estalado, cerca de arame farpado, muro e cadeado.
Sou grande e pequena, do Norte, do Sul, de todas as regiões, sou fascista, imperialista, capitalista, racista, sexista, vampiro, sou mulher, sou homem, gigante e “anão”, da academia, do povão, sou ditoso, religioso.
Se eu fosse você não me queria, sou às oligarquias.
Piedade de mim,
Que meus olhos sejam abertos,
Piedade de mim,
Que minha fome seja matada pela boa comida que sacia a alma,
A fé do povo que acende a vela,
A dor do povo que chora na capela,
A fome do povo que morre na panela,
A alegria do povo que sacode a canela,
A esperança do povo que navega na caravela,
O amor que mora no peito que é só dela,
***
O Desespero botou a cara na rua
E estava tão feliz, pois matou a saudade
Do Medo e da Fome de quem tem
Sob os aplausos dos ditos “cidadãos de bem”.
E foi tanto brado e tanta festança
Do coro civil puxado pela D. Ignorância
Que afugentou personas non gratas
Como a Empatia, a Educação e a Tolerância.
Não podemos parar, porque se pararmos, alguém passará fome.
E quem tem pernas para andar e braços para agir é responsável por isso.
Sórdido
Seu algoz é fome...
Entre temores ambientais
Mostra se feliz com o mundo que não existe mais.
Justiça se faz de cega.
Se existe alguma justiça?
Nobres
Momento que vivemos apenas pela esperança de viver.
A tendência é o abandono.
Sendo assim mesmo mortos...
Pois é essa a justificativa.
Foi pedido ao tempo
para ficar mais um pouco
Saciar minha fome
Não se nega alimento ao homem
Estava esperando por um pedaço de oração
Deus, bom menino!
Fez muito mais
Me deu asas
Para voar no chão de sabão.
Se uma pessoa que tem um bom trabalho, não passa fome ou sede, não sente frio, tem uma casa onde morar, tem pessoas que gostam dela, não lhe falta nenhum membro do corpo e não sente qualquer dor física, ainda pensa constantemente em morrer, o que lhe falta?
GRATIDÃO!
É o que falta na vida dela.
Gratidão por tudo o que ela tem e muita gente gostaria de ter.
Nenhuma riqueza será suficiente para quem não agradece pelo que a vida lhe deu.
Do mesmo jeito que você gostaria de parar de comer, existem pessoas com fome querendo alimento
Do mesmo jeito que você gostaria de perder peso, tem pessoas querendo ganhar
Do mesmo jeito que você gostaria de ter alguém, tem pessoas que gostariam de estar sozinhos
Do mesmo jeito que você gostaria de ser mais velho, tem pessoas querendo voltar no tempo para reviverem sua juventude
A reflexão principal é, enquanto você tentar ir atrás do que não tem, muita gente gostaria de ter o que você tem ou ser quem você é
Seja grato sempre por tudo que você tem, e antes de querer algo diferente tente evoluir primeiro como ser humano.
O Deus desperto em teu olhar, ao ver a miséria da fome ao redor, aciona o Deus que vive em teu coração.
E assim a caridade se faz...!
As sementes que plantarmos produzirão não somente para a nossa fome, mas, também, para a necessidade de muitos.
A luz que acendermos clareará não apenas para os nossos pés, mas igualmente para os que conosco seguem na jornada terrena.
Um grande beijo em seu coração.
R&F Perazza.'.
Sofro de falta d'amor
Fome me escapa da pele
Pele sofre de fome
Fome mata a dor
Dor alimenta a fome
A fome me desespera
Também desespero a fome
Sou filha da sua quimera
Não raro ela me esconde
No fundo do seu penhor
Na casa da sua janela
O poço que me cavou
Sem por onde ela some
No barco da sua procela
A fome só me consome
Refúgio que me faz dela
Triste é quando a gente quer comer um sanduíche e não pode pagar.
Triste é a fome!
Nildinha Freitas
Fruto Proibido
A carne adocicada da fruta-pele
desliza ao céu da boca
amaciando a fome com seu gume
tirando lascas da língua
inocente de sua safra
chega ao estômago mostrando
ter apenas sabor idêntico,
e num simples deslizar sorrateiro de garganta
se desfaz de suas cascas de alimento
revelando ser fruto proibido
pronto pra saciar a vida
do degustador sedento pelo seu
sumo.
Daqui a alguns tempos os seres não morrerão de fome.
Iremos morrer contaminados aos poucos por fertilizantes.
Comeremos em mesas fartas, porém contaminados sem imaginar que o modificado geneticamente e molecularmente é oque está livre de impurezas.
Estão fortalecendo um bio tipo, o qual tomaremos remédios cada vez mais pesados mas como se fosse um formol pra viver sem prazer de viver, um mero está de olhos abertos, perceptível da dor em cada minúscula parte de nossos corpos.
E, pior, com antídotos e remédios os quais não surtem efeito, a não ser, o colateral.
O nordeste visto em outrora
só se via fome e tristeza
miséria, seca e escora
e prato vazio sobre a mesa
mas quem tá vindo de fora
que vê o Nordeste agora
se encanta com tanta beleza.
Não sei se um dia verei.
Os humanos lutando contra fome
e o descaso. Mudando o rumo da
desigualdade social e batalhando
individualmente para vencer
a própria corrupção.
CULINÁRIA DE PERNAMBUCO
A pessoa em Pernambuco
tem uma fome arretada...
num prato tem dobradinha,
e no outro tem buchada.
Sobremesa lhe dão bolo,
chamado Bolo de Rolo,
com recheio de goiabada.
[DIVERSIDADE NA PERCEPÇÃO DAS PAISAGENS]
Há uma paisagem da guerra, da miséria, da fome, do medo, das classes sociais em luta, da religiosidade, do lazer, da tecnologia, da moda, dos estilos arquitetônicos, do controle disciplinar, do poder midiático que se espraia sobre uma região e aí estabelece seu domínio e práticas manipuladoras sobre a população local. Estas diversas paisagens referentes a extratos específicos de problemas, ou a instâncias singulares da realidade, às vezes são perceptíveis espontaneamente, outras vezes não
[extraído de 'História, Espaço, Geografia'. Petrópolis: Editora Vozes, 2017, p.56].
