Os Inocentes de uma Guerra
Desperto…
minhas mãos frias
crispam os dedos inertes
no gatilho da espingarda
Debaixo de mira
numa linha reta que dificilmente erro,
o alvo
Um corpo negro,
meio nu…
Apenas o cobrem os restos daquilo que foi
um camuflado zambiano
Veste no rosto,
encimado por um chapéu também camuflado,
a raiva
Para ele nós somos o invasor,
o inimigo a abater que importa liquidar
ainda que connosco tenha aprendido
rimas de civilização
Nós somos o invasor que (ele) quer
expulsar
destruir
aniquilar
E ele, para mim, o inimigo de ontem
será o amigo de amanhã
a quem hei-de abraçar
In “Há o Silêncio em Volta” (poética de guerra), edições Vieira da Silva do poeta Alvaro Giesta
Há corpos espalhados pelo chão
à minha frente
Nos seus rostos lívidos
cor de cera
morreu a esperança com a chegada da morte
no frio gume da catana
Jazem à sombra das mangueiras…
a morte passou por ali
Corpos decepados
esventrados
violentados
num rio de sangue pelo chão…
Ali apenas as varejeiras têm vida e voz
no zunido e na cegueira de beber
Sugam famintas de sede
o sangue ainda quente dos cadáveres
Zunem de sofreguidão na disputa
do sangue vertido
dos corpos esquartejados
pelos golpes das catanas
Para lá da orla da mata ainda o eco
dos gritos de vitória e os risos satânicos
de alegria e morte no ar
numa mistura de feitiço e de liamba
In “Há o Silêncio em Volta” (poética de guerra), edições Vieira da Silva do poeta Alvaro Giesta
Perdi os poemas ébrios
de ritmo
feitos ao sol da manhã
Esse tantã longínquo que me acordava
manhã cedinho
antes de subir na minha bicicleta
reduzida ao mínimo para pedalar até ao liceu,
acordava-me como uma loa,
cântico virginal
puro…
ou como um ritmo escondido
no regaço da mais linda mulata
da sanzala
Um poema ébrio de ritmo
órfico
em dionisíaca celebração
um cântico mestiço
místico
pagão
negro soneto espúrio
de um povo híbrido de muitos deuses
e de mais irmãos ainda…
Hoje o meu poema já não é ébrio
de ritmo
nem o som do tantã tem o sol puro
erguido pela manhã
cedinho
O meu poema é de sangue
e dor
lavrado pelo frenesim dos tiros
O tantã que me acordava
manhã cedinho
e trazia no som o ritmo
dos beijos,
hoje
já não me acorda deste sono
que não durmo
sobressaltado
O tantã traz agora na sua voz longínqua
o som próximo
da metralha
In “Há o Silêncio em Volta” (poética de guerra), edições Vieira da Silva do poeta Alvaro Giesta
No ar, o medo e o silêncio sepulcral
a invadir
os primeiros raios da manhã
Corações sobressaltados
em prece e oração…
muitos sem saberem sequer rezar
No trilho traiçoeiro
espreitava a morte a cada passo
que se desse em falso
na picada
Sem perder de vista o combatente
à nossa frente
perscrutávamos, no lusco fusco do alvorecer,
as sombras que se dissipavam
por entre as silhuetas das bissapas
Nas mãos doridas,
por matar,
o peso da G3 engatilhada
dos soldados
De repente o grito e a dor
pelo estrondo e pela morte trazida
no estilhado e no sopro da granada
As lágrimas morriam afogadas
pela raiva e ódio surdo
nos corpos amputados
In “Há o Silêncio em Volta” (poética de guerra), edições Vieira da Silva do poeta Alvaro Giesta
Entre os teus lábios
entreabertos
inchados pela morte
e gretados pelo calor que te calcinava
os ossos desfeitos
ainda antes de morreres,
passeava-se uma mosca varejeira
ufana de sua propriedade encontrada
No ar
adivinhava-se o som das palavras
que não chegaste a proferir…
Talvez uma oração…
ou uma prece ao teu deus de ti tão distraído
a quem imploraste a ajuda sem te socorrer
Ou à mulher distante
de quem não chegaste a conhecer
o filho que lhe deixaste no ventre
In “Há o Silêncio em Volta” (poética de guerra), edições Vieira da Silva do poeta Alvaro Giesta
Bum.
E quando tudo acabar, quando não sobrar mais nenhum motivo para seguir em frente nós continuaremos guerreando por nada, matando uns aos outros por nada, porque guerrear é o que nos motiva, o que move o mundo, o que gera lucros.
O que é a paz, senão o fim? O que faríamos depois, se não há motivos para brigas, para usar nossas armas ultramodernas criadas para derramar o sangue dos soldados, não do general, nem do líder, mas dos homens que mandamos travar nossas batalhas, das mães e filhos que esperam seu retorno em casa e, então tudo some em uma explosão?
Consideramo-nos tão evoluídos, sempre mais espertos, mais avançados, mais tudo menos nosso cérebro, aparentemente. Meras palavras não bastam para aplacar nossa fúria, precisamos de sangue nas mãos para nos satisfazer e ao longo de milhares de anos foi os fizemos, exterminamos etnias inteiras, algumas somente por uma diferença genética.
Se formos assim tão grandes como garantimos, por que nosso pensamento continua tão limitado, tão bárbaro? Terá que tudo vir abaixo para notar o quanto a cordialidade, a tolerância são importantes? Chamamo-nos seres racionais, mas racionalidade é a ultima coisa que passa na nossa cabeça em uma guerra, vemos os nossos perecerem ao nosso lado muitas vezes por um motivo já esquecido, lutamos porque precisamos vencer, mas o que estamos vencendo se no fim só nos restará sepulturas a serem cavadas?
Enquanto o massacre ocorre, os seres racionais que desencadearam a batalha se encontram sentados em suas poltronas de couro muito longe para verem o sofrimento, as mortes são somente números que serão repostos depois. Lutamos por essas pessoas, mas que são elas? Merecem que lutemos por eles, que não sabem nem nossos nomes?
É sobre isso que devemos refletir, vale á pena continuar com toda essa violência dentro e fora de nossos lares, nossos países? Para que continuar se podemos simplesmente parar, apaziguar, conversar.
Porque um dia não haverá mais nada, somente as cadeiras de couro girando vazias, assim como as vitórias conquistadas até agora.
11 de abril de 2014
Arrisco dizer que, se as pessoas levassem suas incertezas mais a sério, teríamos menos sangue e mais humanidade nas páginas dos livros de História.
O orgulho, a prepotência e o poder não dialogam para edificar conquistas recíprocas; impõem-se para incitar guerras ou homogeneizar pela divisão.
O Ditador tira as armas e impõe ao povo que se esconda, o Líder dispõe as armas e permite que o povo lute!
Advertência
Há poetas que só fazem versos de amor
Há poetas herméticos e concretistas
enquanto se fabricam
bombas atômicas e de hidrogênio
enquanto se preparam
exércitos para guerra
enquanto a fome estiola os povos...
Depois
eles farão versos de pavor e de remorso
e não escaparão ao castigo
porque a guerra e a fome
também os atingirão
e os poetas cairão no esquecimento…
Os bárbaros adorariam que todos nós entrássemos no jogo deles. Desse modo teriam provas da existência dessa guerra que só existe na cabeça deles.
Deus não escreve livros,
escreve homens e Universos.
Homens escrevem versos
e constroem pontes e fazem guerras.
Procurar a paz é como caminhar em um lugar sem enxergar nada... Você procura mas não sabe onde achar... Você busca a paz até nas pessoas, mas nem sempre acha... A paz não é somente o silêncio... Mas também a falta de guerra! E infilizmente conflitos nós achamamos em todos os lugares! Então tente parar de procurar a paz nos outros e busque a paz do seu interior.
