Mona Lisa

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Quando a borboleta se faz azul no dourado de sua asas, ancestrais antigos fazem suas casas, em tijolos de terra batido e a primavera ganha novo sentido. Cores no jardim evidenciam que flores desabrocham como a vida em estado de permanente transformação. Um antigo cão se faz fiel ao roer o osso e gatos andam sorrateiros em cima do telhado. Tudo é arado na calma estação de pessoas que viveram e hoje são transmutação. Também vivemos a calma de nossos dias, e se faz em paz todos os pequenos afazeres. A centopeia caminha seus múltiplos pés e a formiga inequívoca carrega imponente uma folha maior que seu corpo. Na vasta plantação o lavrador cava a terra e povoa a colheita de seu sustento, o farto alimento que sustenta o tempo presente do fruto que já foi semente. E cada um a seu jeito olha o horizonte e há fome de futuro, pois tudo acontece no agora e as horas demoram na casa que não tem relógio. No mar a maré baixa deixa transparecer suas conchas e os barcos seguem além e pescadores antigos armam suas redes e abundam colheita de peixes e muito mais satisfeitos voltam para casa. Na feira os peixes são vendidos como entidades fruto do trabalho justo e todos se alimentam. E a comida é mais que alimento, é um ritual da vida em movimento. Na cidade também os carros sustentam suas rodas e levam de um lugar ao outro anônimos trabalhadores, que honestamente caminham nos prédios altos que acolhe muitos cidadãos e eis que nada é em vão se os olhos estão claros e se é chão o mesmo de toda população. E o amor se faz em silêncio quando cada pessoa carrega seu passo manso a fazer da cidade um organismo vivo, muitas vezes apressados nos caminhos diários. Somos todos passageiros de nosso itinerário. Na estação de trem há muitas mãos para despedidas, mas cada um sabe da vida nas voltas da terra em rotação e mais bate um coração que se integra no ambiente e povoa mares de presença sem questionar ambivalência, pois a vida simples se faz sem complicação, pois passa veloz o veraneio de nossos pés na terra e por isso impera uma sede de viver, sem se derar em questionamento. O café se faz quase sozinho de tanto cotidiano e se esvai o ano nas teias de aranha, que silenciosamente tecem cada linha e eis que é uma armalho. Meu olhar e vasto como um campo de girassol. Olho para frente para o lado e tudo tem seu tempo exato. E todas as pessoas se bastam ao piscar os olhos em movimentos involuntários. Segue a vida em longa contemplação e a calma presente não parte de repente, pois são das retinas o longo observar ao ver o tempo passar. E não há grandes sobressaltos. Apenas uma vista que passa e se mostra vasta e tranquila quando o verso não aniquila a paz do cotidiano. E a vida vale a pena em seus vastos oceanos.

Quando o silêncio mora entre mim e o que consigo dizer há palavras prontas que se fartam na língua e em um momento oportuno os dedos tecem versos que mais clarifica o olhar sobre a vida. O amor idealizado perde sua força na altura do agora, pois o amor fraterno extrapola a gratidão dos que se fazem presente e comem na mesma mesa o mesmo alimento. E se fazem iguais e amáveis e isso é uma dádiva. Quando decidi te esquecer se fez um silêncio na sala, mas muito mais fala cada amanhecer, que renova nos olhos a vontade de viver. Observar o mundo em construção e o sentimento se faz pequeno então, se muito você se ausenta e esqueço as linhas de suas mãos e seus olhos partem lentamente em um navio sem volta e não há revolta se o coração se faz em paz e muito mais arde a realidade, que pede passos certeiros e não pode se perder em devaneios. Você foi um sonho e eis que a vida toda é um sonho e imagino que pinto um quadro, pois se é o quadro que me pinta. Segue o rei governando e sonhando com o seu poder. Quando acordar já será tarde e nada estará em seu comando. E o pobre que em sua pobreza sonha, sente real a escassez quando tudo falta. O poema segue onírico e te esquecer não é difícil, se novos sonhos povoam a íris. Você será lembrança de todas as memórias que carrego comigo. E seremos abrigo de outros corações, pois que há no mundo uma vasta população, e cada pessoa carrega sua singularidade e mais encantos acrescentam à verdade. É um movimento vão nadar contra a correnteza e melhor se faz ao deixar o rio levar e eis que você passará e carrego meu corpo, minha mente e minha alma. E em minha profunda calma não ei de me lamentar, pois todas as pontes foram feitas para se atravessar. O sol ameno tem seu jeito de colocar tudo no lugar. Ao te deixar, novos caminhos se abrem se olho em outra direção. A mente se faz perspicaz se organiza o passado e o presente para melhor receber o futuro. Nos versos de grande esperança os dias que virão trarão bonança e o mar bravio se acalma e já não é tenebroso como nas grandes navegações e o mar então liga os continentes e te esquecer é uma urgência, se o coração se gsta em vão se em você não há olhos que vejam o poema que almeja fazer uma jangada para atravessar o mar salgado e o meu amor era sagrado, mas que eis que então se faz passado. Esquecer é impossível se a mente carrega memórias e lembranças, mas há sempre um jeito de se conformar e deixar o tempo passar.

Merci. De novo me encontro aqui. Tenho novas ideias sobressaltos solenes que se apresenta à plateia. São esquivas todas as confissões, mas eis que não tenho adversários, se o verso cresce e não nomeio quem já se sabe nomeado. E cumpro a promessa, se mil poemas escrevo e muito mais será plantado, se minha alma lijongeira tem dois olhos encantados. Fartam-me assuntos se espreito a grandeza do mundo. E muito bem falo de você se escrevo diários que fazem do passado um presente encarnado. E me apraz mais a poesia do que a realidade, pois que o dia a dia tem sempre aquela velha mania de perguntar o horário. Aqui minhas rimas demoram e sou prolixa se me farto de vida e muito mais o poema convida. Você conhece bem meu vocabulário e não te espanta se não sou santa e vivo a noite como quem come o calendário, e se faz repetitivo se toda vez eu digo do sol, da noite, e do amor idealizado, pois que sou filha do tempo anacrônico e derramo romantismo quando já raiou o pós modernismo. E me encontro em todos os movimentos literários, se carrego em meu itinerário há tantos escritores passados e lhes dou vida quando a mente convida em frondosas terras já vividas. Descortino a língua portuguesa quando procuro novas certezas, a quebrar a lógica que não se encontra em qualquer loja, pois que arde o insensato na comida que se põe no prato. E me saceio se por um acaso eu falo e você me escuta, pois que são muitos os ouvintes e um só destinatário. Mas não se assuste se tudo se passa em um mundo imaginário e não ouso sair da poltrona e mexer no tabuleiro que ensina o mundo inteiro em minha compulsão de ser flor no chão. Como palavras se sou apenas uma pacata cidadã calada, que atravessa o céu e a madrugada para te falar inebriada. E leio a Bíblia como se nela acreditasse. Pois confesso ser uma farsa se me quero religiosa e tenho as mais duras perguntas que tortura o livro sagrado. E se digo que não acredito é porque acredito mais do é admissível. E não acreditar me seria impossível. Mas a teologia das línguas não se encontram e eu bem sei disso se apenas no verso fantasio. Colho esse tempo interessante, em que eu escrevo, e você escreve mais adiante, pois que temos fome de linguagem que nunca se farta. Cada um ao seu jeito leva o poema adiante e vale muito mais que diamante se a semente que se lança satisfaz a missão de nunca deixar endurecer o coração. Somos intensidade e muito mais nos fala a cidade se olhos penetrantes observam a engrenagem, e fazemos pouco, que é muito mais do não fazer nada. Me vejo compenetrada nas palavras ciladas que muito mais declara aquilo que cala. Se seus olhos não fossem tão doces, mais eis que me vejo enfeitiçada e acrescento rimas à sala. Uma longa jornada, e muito valerá se um dia olhar para e sentir que cumpriu sua missão em paz. Até mais, já que eu voltarei, pois a palavra é minha estrada e comigo divide a casa.

Eis que a solidão se fazia imponente e não era mais que uma chuva silenciosa, que arrasta as folhas em suas enxurradas de galhos ressequidos a se perder na estrada. A solidão muito mais aprofunda nossas raízes no peito vívido da terra, em seu teto de atmosfera que cobrem todos os homens e suas fragilidades campestres. Minha honra é destrinchar o horizonte e recuperar o ontem que ainda se faz no agora. Ponho-me a comer amoras e desce de meus lábios líquidos roxos quase pretos. A amora traz em seu significante o amor que se demora. Bebo a água que me bebe e se esvai na estratosfera das mãos que buscam reconciliação, pois que é vã ceifar a terra de nossas colheitas e se dispersam os sonhos inocentes que se desmancham na terra vermelha. Somos fios de esplendor na imersão da cores em construção. A solidão se faz solitude na medida da incompletude de todos os pássaros que sobrevoam a cidade. E se faz rara a felicidade autêntica na boca ao mostrar os dentes. No tribunal as colinas tomam as decisões e são rigorosas todos os processos da alma em estágios avançados de se clamar ao sagrado a absolvição de nosso sangue irmão, que em longa contemplação se saceiam de nuvem na quietude da noite que chega discreta a escurecer a voz do trovão nos pés dos elementos encandeados. Os versos perscrutam a vida e suas partidas que mais se fazem comedidas a salvar a alegria dos dias. Eu volto minha face ao mar e me elevo em grandes ondas que se fazem inquietas. O amor no ar me ilumina e mais preservo a retina ao filtrar as palavras e deixá-las ensolaradas a raiar até mesmo na madrugada. O coração é o riso do campo se tanto mais encantos florescem no jardim das orquídeas em festa. Um mar de afeto nos trás para bem mais perto. E o poema se faz em versos de amor que floresceram na inesperada construção do agora. O amor se demora em brilhos da íris que finalmente encontra abrigo e somos fraternal amigo.

Caminhava lúgubre pelas vielas de ruas inaudíveis da cidade a comer pormenoridades e sua face se voltava para o oeste em busca de raio de luz que esvanecia lentamente. O crepúsculo sideral se espraiava em plangentes notas de flauta que um camponês tocava cândido e se fazia em vaticínio a melancolia auroral discrepante do tempo. E se fartavam alimentos na mesa de colinas e ramagens abissais. Eram idílicas todas as cantigas como um lenitivo remédio de dores ocultas que na face eram duras a sorrir tristemente o seu ser descrente que no entanto era intermitente. O fulgor da lua se fazia contigente e iluminava matas escuras onde vagalumes piscavam seu brilho verde na nostalgia inocente dos olhos da infância. A voragem do vento consumia as folhas entregues ao chão e um redemoinho levava lembranças na mente distraída de farta bonança. O veludo silente se descortina no espetáculo estridente de gaitam desafinadas e o tudo era nada se a plateia alheia se achava embriagada de farta colheita que eu peguei emprestada na açucena flor da madrugada em lírio branco inebriada. O venta agora apascentado fazia acalanto nas mãos suaves e as linhas digitais se faziam todas iguais. A apoteose de meu humor grandiloquente alcançava picos de montanha e conquistar o mundo era o mínimo na megalomania de minha engenhosa sina que se fazia em cinsas quando a ludidez voltava à melodia e pequena se fazia muito mais a juntar retalhos na colcha fria que fazia. Eram estados mentais que a ciência desafia a colher a estabilidade do dia em desmesurada alegria. Conter as torrentes da euforia exigia um olhar humilde para si mesmo a despentear os cabelos da lógica. E era famosa em cada estação e imprevisíveis eram sua relação com a primavera. Era necessário um esvair de si para alcansar a poesia de dias impulsivos e incongruentes, mas belos em sua resistência ao alternar estados de humor como duas íris no mesmo rosto. Eis o que está posto. Se sou eu e não o outro. E não há lamento se a mente segue altiva e lança os olhos cativa a espraiar mares de contemplação no ser que não sente mais solidão. E tem um vasto e frondoso coração.

Tenho palavras tortas para encher a boca faminta e versos a perder a hora no infinito da língua. Sei que às vezes uso palavras repetidas. Mas quais são as palavras nunca foram comidas? E posso rimar palavras contidas onde tardam as margaridas. Nosso amor se demora e já se perdeu outrora, mas a criação é farta e a cria vira criador da própria vida. Abunda o roçado de nossas mãos que ignoram os calos e conversamos calados se há no céu sonhos alados. Ainda hei de ser a colheita de sua plantação se fartam poemas no chão, se mesmo distantes te levo no coração, onde perpassam todas as estações de nossa amizade frondosa, que pagam as tardes onerosas. E somos frutos evidentes de poesias que não mentem, pois que são nossas todas as sementes. E se faz ausente meu ser indiferente se na terra vermelha sou como uma vidente, e posso ler seus pensamentos e me sentar com eles. E conversamos longamente. De palavra em palavra se faz uma corrente e escrevemos convincentes que melhor se farta a mesa se compartilhamos nossa certeza. Será só imaginação? E eu diria que não, se os versos pegam meu dedo e mais palavras acrescentam à sua canção. Eis nossa inefável comunhão que fala abundante na sala. Vamos fazer um filme? Nossa vida já é um cinema, que lembra os dias presentes. Eu sei bem quando eu te vi pela primeira vez e desde então se escreve uma longa história, de fragmentos de memória. Somos elegantes se paramos um instante ao deixar a criação fazer novos razantes. Multiplicam-se as vozes se te fala Maria e me fala João. Dançamos quadrilha nas linhas de nossa mão. A vida e suas voltas que partem e nosso amor vira arte a encantar outros corações. Eis que há abundância no chão de nossa contemplação. Ainda que eu falasse a língua dos anjos e falasse a língua dos homens. Sem amor eu nada seria. E te dou meu mar e nossos oceanos bailam com ardor, no poema que não esconde a importância do amor. Livre se faz quando volta ao se abrir a gaiola. São nossos olhos gaivota que não querem deixar partir, pois juntos somos mais que dois e nossa conjunção alcança novos ares, no mar que te dei sagrado a levar sem dor as ondas do nosso amor.

No verso ameno a deslizar no tempo, escondem-se espaços de alvorada no céu estrelado que arbóreo faz a lua fluvial de rios inaudíveis que correm para o mar. O deleite se faz na criação e não levo o poema tão a sério, que cego se escreve nas linhas inquietas de minha mão a esculpir seu rosto na multidão. Elísios se fazem seus olhos se tons etéreos pintam o fulgor do espírito que caminha estradas incipientes que densas se fazem no verão tropical do país, no momento fugaz de pintar sua íris no lânguido estar de dedos em crise, que magnânimos se fazem no melífluo estar de cores a apascentar a face desmedida de minha vida oblíqua, que tanto se faz em despedidas e não deixa passar o ocaso plácido de um recôndido estágio ancestral, que busca no passado mais estrelas para fulgurantes brilho do corpo altivo que porventura será esquecido nas ramagens da terra vermelha. O trono da liberdade gloriosa se faz ainda mais formoso se foi conquistado com grande esforço. Silentes todas as palavras em reverência e o ser taciturno abre os braços e se alegra nas praças telúricas em que colinas encontram o horizonte e se constrói uma ponte entre as vicissitudes em zéfiro refrencante na brisa doce que enumera as dádivas do ser etéreo. Os ouvidos da liberdade se escutam em pássaros numerosos na terra frondosa de exuberantes cachoeiras em que se esquecera o numinoso caminho da paz, em longas ondas que o mar traz. Os olhos do amor vão sérios se não descortinam os mistérios que fazem as mãos entrelaçadas, pois que são distintas as jornadas, e a figura amada anda em outras várzeas de veredos caminhos desencontrados. Mais forte arde a criação que se compartilha em silêncio e fazem crescer edifícios de poemas e suas largas janelas amenas onde dormem as açucenas na sagaz repetição que a poesia aumenta. E lanço flores em seu corpo a consagrar o momento e parto fugidia, pois o encanto se passa como o dia nas cores do arrebol. Eis um bálsamo de alegria e esplendor, pois os corpos não se encontram e mais fartos encontram o amor que resistiu incansável ao tempo da dor, que é já passado. Seguimos encantados e a natureza observa os versos e aprova o deleitoso cámalo cerúleo no conspectro da admiração crisálida em tons de alvorada e amanhece nosso amor após longa madrugada e as almas são estradas de nossa felicidade rara.

Efêmero tempo que me acha distraída e não percebo a impermanência da vida a sorver o ar de persistente melancolia, que combato com bravura a tecer a alegria em fios de teia que fragmentam a pintura e o espaço, onde versos calados salvam os dias ilustres de paz e calmaria. Em um rio perene correm todas a margens e as várzeas crescem clandestinas. Saudades de águas desconhecidas como todas as partidas que levam no peito despedidas na plenitude serena que não encontra oposição e seguem todos em uma nova direção. A candura de um gato dormindo lembra a plenitude de estados oníricos e busco palavras que vão além do meu vocabulário, pois mais se faz encarnado o verso corretamente nomeado. Em devaneios lúcidos sinto o resplendor de minha respiração e um fulgor de esperança segue firme desde criança, pois eis que a terra árida arde desde de tenra idade. Estou proibida de sofrer, pois muito me acusam de ter prazer mórbido em comer miséria. E eis que sou obrigada a chorar calada, pois há quem se diz amigo e mais julga minha caminhada. Quisera a todos talvez entender que a dor não é um verso estilístico, mas é minha própria vida que me leva a estados que eu não gostaria. No entanto, são vãos todos os meus argumentos e sorrio abertamente tendo em meu peito correntes de longas privações de liberdade, que deixam um trauma de grades e luto diariamente para não me ausentar a realidade. Noite longa, noite insone. Amanhã será um novo dia e talvez eu floresça em poesia na cintilação de uma mente em estado de euforia, pois que é minha sina e me justifico várias vezes e inútil gastar minha língua se devo fingir utopia estando presa em minhas armadilhas. Em um arroubo eu diria que cada sabe de sua vida e há margaridas que encantem os meus olhos na noite de hoje. O idílio do amor idealizado mais me deixa fatigada se não conhece estrada de novos alentos a fazer do vento o frio cortante da madrugada no âmago de uma dor calculada, se é perigoso se expressar loquaz onde mora a censura dqueles que me são mais próximos. E sigo a escreve eloquente minha própria apatia que já não distingue a noite do dia. Sinto um cansaço na alma e é sublime minha resistência se em êxtase de dureza encontro a volúpia do poema e tento fazer valer a pena minhas fartas palavras que exigem um leitor compenetrado a se demorar com singeleza ao ouvir o poema na mesa de minhas confissões. Uma anônima na cidade a escrever pormenoridades como se altas glórias fossem. Faço minha serenidade na noite escura da cidade e te encontro em algum ponto da eternidade e não fingirei uma falsa felicidade, pois o orvalho conhece minha sinceridade e abro o meu diário público a quem quer que seja, haja visto que minha vida é um livro aberto e a alegria me espreita e tenta achar meu endereço. E por isso escrevo.

No trono da liberdade as borboletas entram pela janela e fazem festa nas suas almas a pousar seus pés de águia. Eu observo e não me movo nas cores mais belas entre elas entrelaçadas. Nesse momento não quero pensar em nada, apenas olhar e divagar sobre as cores variadas que me deixam sobressaltada. Faço uma pausa de pensar em glória e alegria e a natureza me convida a ver os pássaros que esvoaçam na planície de vales pouco explorados, como se carregassem o propósito da humanidade. Os ouvidos da liberdade plenos dos ditames de seu espírito, voltam os olhos ao sol e fios de prata tecem teias inequívocas e sua empreitada ardilosa é digna de exílio. Dispersam os sonhos de prosperidade em primaveras e as flores regozijam o mensageiro da misericórdia no suspiro do mar a trazer lágrimas do céu das memórias. Louvados sejam o céu e o mar, que a terra vermelha contrasta. E o dia se passa. A lua se ergueu na cidade na quietude do sono do sol. A madrugada fria murmura ao vento melodias. Seja o que for, continuaramos a ser. A chuva torrencial no solo da solidão levam os galhos mortos e muito mais enterra nossas raízes na terra. Eis o que se espera em um momento de poético otimismo. Andamos altivos a carregar nossa honra e há vida em muitos mares muitos nunca navegados, idílicas paisagem para esquecer as andanças de nossos caminhos sobre a estrada. Por tal frugalidade os rios riam e seguiam rotas de margem. Um homem quieto e magro silenciava o mês de maio e escondia seu entendimento que certeiro seguia sem qualquer lamento, pois acariava as cordas vocais e suas mãos tocavam flautas inaudíveis no tempo de meu esquecimento e eu me transportava para águas passadas que já não me acrescentava alimentos de vida e minha sina era deixar passar o que passado está. Eu sou uma palavra gentil que atravessa os dedos do verso. Eu sou a filhas dos elementos que enaltece o momento presente.

Quando a tarde organiza seus últimos argumentos a raiar no céu pássaros fragmentos, a opinião pública se mostra pragmática e cobra as horas do tempo arrastado no ardor do esquecimento de qualquer contratempo questionável. A tarde responde lânguida que são inefáveis os minutos da existência e é caro o azul celeste a se espraiar pelo ambiente. E mais tardam suas verdades existentes. Em aveludadas cores laranjadas o pôr do sol se despe do amarelo e reflete em águas a perder de íris. A alvíssima açucena se demora perene em lírios brancos convertidos na janela de paz que levo comigo. Nos meus olhos auríferos descortino a retina de um mar bravio e apascento as águas com o meu brilho a ensurdecer calafrios na lua imponente que esplendorosa doa seu brio. E desce uma noite fria sobre as de ramagens incertas e convalecem as insesatas flores do inverno. Navios partem e voltam, levam e trazem, e se julgam donos dos mares e das vidas exauridas de despedidas. E contumaz me desvio de desatinos desvios dos portos do meu destino. E há viventes que coadunam comigo, se lhes falo e me dão ouvidos, em suas escamas douradas que muito sabem das estradas. Deletério seria fingir que não vê e perder lagos elísios no enlevo sossego de quem já não se importa, pois que é inútil bater na porta de quem parte sem volta. No fulgor de um fausto tempo outras alegrias se diziam e voltavam comigo a rir e sorver o dia como quem escreve uma poesia no imarcescível interstício de uma flauta suave a acalentar os versos no impoluto momento de se desfazer e deixar a semente crescer. Novas frondes arbóreas cruzarão o horizonte e suaves sombras da tarde se farão eternidade.

Alvíssara é uma palavra pouco conhecida e significa boa notícia e nada poderia ser melhor do que estar vida no sossego do meu lar. Viva com muitos sonhos a alcançar e penso que poemas são uma ficção em metáforas e figuras de linguagem. Posso dizer que amo, e os versos já estão no passado. Porque minha vida transcende qualquer sentimento anímico. Eis que minha vida é um redemoinho que passa apressado e leva consigo o que já não vive em meu ser. É tempo de renascer no momento presente agora que áureo leva embora tudo aquilo que sobra, o que poderia ser é um conjectura que não tem importância a essa altura. E se falo em amor é pelo simples prazer em divagar, porque já comi o amor até o osso, e o amor não vem do esforço. É um sentimento cândido natural e muito mais escrevo sobre ele do que eu realmento sinto, como uma esmeralda que embeleza a estrada, mas não adorna o meu pescoço. Arde em minha vida a arte catártica no que está feito e é por isso que escrevo meus versos imperfeitos, porque sou o agora que se demora nos mares que sagrados que brilham cintilantes a inebriar o instante momento de minhas pegadas e se vão solitárias na praia, pois é um condição ontológica de quem sabe que se basta no dédalo labirinto de um ser contradito. Posso dizer se levo comigo todos os sonhos oníricos que se fartam no diáfano instante de cessar as despedidas, pois não hei de partir, se a vida é meu maior bem e a vida sempre transcende a si mesma, pois são meus olhos que tanto falam de aurora. E se o poema se repete é a existência insistente de permanecer até o último esvanecer. E que a estrada seja longa e haja sempre horizontes no efusivo sentido de um estar maior nos campos elísios que carrego comigo, no fecundo solo que escrevo transparente minhas palavras sinceras, que a minha mente escreve. Eu sou uma semente do ser que serei, pois minhas pegadas hão de ficar na areia de modo permanente e no fluente do dia mais se faz crescer minha alegria independente de qualquer outro vivente. E idílicas se fazem as colinas e ando certeira e altiva a enfrentar vicissitudes na inefável delicadeza do ser, pois a única certeza insondável que tenho é minha existência luminescente a lapidar um poema com a mais pura essência.

Quem é você que na face oculta da noite desbrava o chão dos versos a tecer um poema controverso? Sou sua face dúbia que não encontra espaço no chão da sala para me fartar de palavras inebriadas. Falo do amor que pode ser qualquer morada. Se esta rua fosse minha eu mandava ladrilhar com poesias antigas para eu mesma me fartar. E muito pouco cumpro daquilo que prometo, pois eis que esqueço sua face mascarada e me perco em palavras pesquisadas, que não alcançam meu vocabulário, que caminha qualquer estrada, pois a liberdade há de encontrar também a palavra. E muito mais falo ao peixes se meu poema não sabe a hora de parar e anda devagar a espreitar um novo conceito nas colchas de retalho que eu costuro e são maiores do que minha estatura. Vendo meus versos solenes a qualquer vivente que a linguagem experimente. Caranguejo não é peixe, caranguejo peixe é, nas ondas da vida eu sou a maré, que te convida a escutar minhas rimas de uma vida que ultrapassam minha sina. Sei do pouco o muito e cobra juros se perdida na colina suspira a existência perdida. E longo caminho se faz, o que para muito tato faz, mas meus passos têm pressa se a poesia se esvai e tenho nas mãos peixes numerosos que me escutam com atenção. Nada se faz além de andar em círculos e as verdades que eu não mais acredito, se está ausente a luz solar e sou visitante do meu próprio lar. Morre incongruente o passado obsoleto e já não protegem os amuletos, se nada se sente no momento presente e são incipientes todas as obras inacabadas, se não há mais pés que caminhe a estrada. O dia escureceu em minha mente e não há argumentos que me façam mudar de pensamento se já foram plantadas todos as sementes e estou abruptamente descrente de qualquer fruto que brote no chão. Eis uma canção que não se escreve, pois entardece o poema ausente de beleza plena a vagar no solo da realidade a inquietude de minhas mãos incertas se a face deslumbra o ardor frenético de um forte remédio que descortina o tédio e fazem os olhos verem o estático minuto da aurora que foi outrora festiva e convidativa, mas agora se farta de rima que muito pouco dizem e me resigno se minha sina é comprar uma passagem só de ida e esquecer o passado de minhas madrugadas. E há de haver novas estradas para fazer raiar minha alegria distante que não encontra rios de água cristalina a desviar a íris de qualquer lembrança fria. Novamente se faz despedida na inconstância do amor que morre todos os dias. Chamaria isso de vida.

Canto a beleza do mundo quando meus olhos descortinam a diversidade da vida, da natureza e da humanidade, e melhor se canta o silêncio que não podemos nomear no instante exato de se fazer mais lento o passo. Eu canto mesmo sem perfeição e nisso reside minha honra e minha recompensa, pois vive em mim a mesma atmosfera que vive em ti e os mares são salgados em todas a bocas. Ao buscar o belo, esquecemos todos os nossos caminhos e esquecer é lembrar novas direções de horizontes que se renovam a cada suspiro da aurora. Esquecer é salutar então, pois só assim o novo pode se aproximar com exatidão nos novos pés que pisam a grama verde. Se a natureza pensasse na vida nenhum rio buscaria o mar e se perderia entre as profundezas e a altura a habitar cavernas de esmeraldas e rubis ofuscadas pelo escuro fortuito. É preciso ter olhos atentos e humildes para visitar o pensamento mágico da terra, que se demora em cada pétala que o sol constrói. A esperança me rodeia e a visito uma vez a cada lua. E cantam as cigarras para o conforto daqueles que precisam preencher seu vazio com barulho. Eu sou filha dos elementos e todas as manhãs eu bebo orvalho na flores vívidas do dia. E por um instante eu sou a lembrança de um momento de felicidade, que se demora frágil nas colinas silentes de um esquecimento suave que leve passa a povoar novos ambientes. Se eu vejo em nossas naturezas magia e beleza, posso dizer que a magia e a beleza estão, na verdade, em mim mesma. Vivo para descobrir a beleza. O resto é uma espécie de espera, que em mim impera.

A tarde era um cálice demarrado sobre os campos verdejantes de ramagens escarlates na boca que pronuncia a verdade sublime no instante exato de brilhar estrelas no céu e suas grandes constelações. E eu diria que seus olhos são dois abismos onde a eternidade repousa em minha memória densa de lembranças esquecidas, pois passa rápido a vida e as mãos desconhecem despedidas se acenam e não seguem em frente. Paradas, absortas no esvair de uma saudade abstrata, cuja raiz pousa os pés na terra vermelha e nascem constatações intermitentes, pois afirmar pode ser uma forma de negar indubitavelmente. E tudo é sempre mais do que parece ser, quando bem me faço entender, se a lógica diz e cala na escuridão da sala. A memória é um jardim de estátuas cobertas de musgo, já que a ação inexorável do tempo envelhece artefatos humanos enquanto a natureza cresce para além de si mesma em sua opulência e grandeza. O perfume dourado das magnólias adormece o crepúsculo e eu busco um impulso para encarar a noite e suas torrenciais correntezas. Ao ouvir o azul da tarde a doçura prateada da lua adormecia na perspicácia dos centros comerciais onde tudo tem um preço, até mesmo esquecer tinha a moeda do tempo no silêncio macio de sol envolvendo pensamentos na arquitetada paisagem da cidade planejada em minúcias para muitos e para poucos, quando se janta o almoço, em um alvoroço de viver freneticamente enquanto ainda temos um corpo. A aurora despertou lentamente os montes adormecidos e no café quente do copo eu questionava os minutos de sossego na inquietude melódica do dia a espraiar certezas vagas como um relógio antigo há muito tempo atrasado. Mas porque comer o passado se o presente tem sempre novos recomeços e a ternura genuína dos afetos alcançam glórias humildes no aconchego de um dia feliz?

Na noite que tarda estrelas, as mãos tecem versos no chão e se podia dizer que era manhã, já que as palavras tudo aceitam dos versos descomprometidos com a verdade e eu não diria que é mentira se ardem as esmeraldas. A face reflete o mais puro céu azul e os girassóis deliram no amarelo altivo de uma vasta plantação. E se diria que o rubro de minha face era a vida queimando na melodia indizível das colinas esverdeadas que murmuravam fontes de água cristalina nas mãos de flauta. E se podia dizer sobretudo que tudo já foi dito, mas o poema contradito toca a margem do infinito e mais versos geram em minhas linhas digitais. As árvores falam o sussurrar das folhas ao vento e colorem de flores o chão e as ruas se fazem rosas, vermelhas e larajadas, uma camada farta de detalhes numerosos em sonhos de turquesa. O amor partiu em muitas tardes como uma imagem que se esvai e restam fotos antigas desprovidas de vida. E o amor já não é uma necessidade, haja visto o preço oneroso da vida, pois é preciso comer, morar, vestir e viver. Eis que o amor é um luxo e se procura a paz no esdrúxulo movimento de se manter em pé. E para tanto se pede um pouco de fé, na esperança desmedida de o mundo ser melhor e sermos melhores para o mundo. No entanto, navego no absurdo e planto flores no olhos plenos de palavras, que assim compõem uma paisagem que não distingue as estações e faz solar a escuridão da noite. Faz do sul o norte e tudo muda de lugar no poema a proclamar verdades de imensidão nos dedos que tecem rimas nas constatações violetas do corpo em êxtase, pois tudo são pormenoridades se escrevo e me escutam e nada tarda na vida que permanece no tempo. Seguimos fortes sem lamentos a poupar o rosto de lágrimas frágeis, porque se bem observar não há motivos para chorar, pois que estamos vivos e atravessamos todas as madrugadas frias.

A memória do futuro é a eternidade no nascimento da despedida arqueológica da alma na permanência da mudança como o amor que morreu antes de nascer, assim como uma semente infértil que não chegará a ser árvore. E isso é natural como são todos os ciclos da natureza, mas eu não nego que a alma se lamenta se por debaixo da árvore absolvia sua sombra, tudo no presente possível se o passado tivesse acontecido. Mas a distância íntima que acompanha minha íris é uma tempestade silenciando a cidade e eu diria que a chuva são lágrimas já que o rosto não saber chorar. No entanto, eu nego o movimento e evoco um dia solar se é inconsistente a saudade do que nunca existiu. O amor que sobrevive ao amor são versos incessantes que ocupam a ausência dos instantes. O abraço entre o ser e o nada é uma madrugada inerte que desconhece o voo dos pássaros e ouve passos estridentes do mistério do ambiente. A eloquência do vazio é uma ilusão se o amor nunca pisou o chão e escrevo solenemente sobre a clareza obscura dos sentimentos, na certeza da dúvida que encobre um enigma evidente em uma canção tão transparente. E poderia se dizer que falo do nada, mas a ausência tem inúmeros movimentos de deixar o peito sem ar na fadiga de tudo que faltar. Então a simplicidade incompreensível encontra seu lugar nas ternuras indizíveis. E a sombra luminosa da árvore é esquecida ao deixar o sol aquecer o corpo na primavera de dias que florescem no destino. Tudo é como deveria ser, se as rotas são conhecidas e cada um navega o mar que lhe foi destinado e já não se lamenta o passado se o poema nega a tristeza e muito mais alegrias põe na mesa na abundância de uma certeza clara de um pôr do sol laranjado a refletir na praia nossas melhores ações. Viver o presente é o melhor conselho da face que reflete o espelho.

A tarde alastrava sobre as várzeas encantadas e as almas vagavam na claridade sagrada das catedrais construídas com trabalho escravo, na vasta aragem a se espraiar nas páginas da eternidade. Eu me questionava quem fica e quem parte, quem é inerente e quem já vai tarde, pois acordei e a lógica me olhava atenta e me entreguei à razão, que muito sabe dos dividendos, a cobrar a velocidade do vento. A névoa alaranjada abraçava a paisagem abandonada de seres que não são mais nada. A chama da palavra rasgava a calma da alvorada. E muito mais eu pensava se na vida há quem permanece e na estrada muitos se esquecem. Era minha reflexão nas flores orquídeas de minha constatação. E deixo passar suave, sem alarde, quem parte. E me sinto mais serena se sei em quem depositar meus vales verdejantes nas colinas de ramagens esvoaçantes na exuberante luminosidade da tarde. Entre templos silentes, o azul tece preces de um tempo ascestral e me conduz ao natural elemento da natureza onde mora a certeza da sinceridade, pois tudo cresce no seu tempo. A essência perene desce lentamente pela veredas e eu me entretenho com segredos entre espelhos, que refletem nosso estado de espírito quando o crepúsculo veste a pele das serras e escurecem ecos celestes que percorrem vertentes. E cada verso fala em despedida se nunca sei o caminho da vida, mas o brilho invisível dos lírios se dilui, em sinos antigos que cintilam na vigília da alma em estado de perene calma. O passado se lembra sem viver, pois é uma forma de regresso e eu escolho seguir em frente, sempre em frente, pois a íris exibe caminhos de abundância em quem segue adiante. O meu boi morreu, o que será de mim? Manda buscar outro, oh maninha, lá no Piauí. Minha vida segue em cantiga de roda e eu mesma traço a minha rota. Eu sou meu poema autoral que nasceu na aurora boreal. Eu traço no infinito o meu próprio destino. Sempre em frente, sempre em frente.

O destino inscreve sigilos indecifráveis nos livros como cristais líquidos refletindo círculos. A íris exibia caminhos inacessíveis e eu desbravava as florestas com minhas mãos a encontrar o lugar da imensidão. O outono compôs sombras sobre os morros longínquos onde construí minha casa, que era uma morada íngreme e solitária. E não havia tempo, já que o cosmos envolve os olhos e os relógios dormem no colo dos séculos. Eu buscava meu propósito humano longe dos centros urbanos e o sol nascia sempre na mesma hora em que os olhos insones acordam. O fogo oculto dos montes movia os minutos em horizontes sonoros a cobrir o rosto do mundo. No cair da tarde esmaecida de tons tons laranjados, o crepúsculo flutuava sobre campos mudos e o vulto obscuro submergia no azul escuro profundo. Eu buscava mensageiros de mim em minhas retinas sem fim e o mais era um silêncio sossego de açucenas. As nuvens turvas conduziam o curso dos rios e as margens murmuravam o tempo que passa. O aroma violeta dos milênios repousava na dourada voz do universo. Eu tocava em uma flauta doce cantigas infantis que eu trazia na memória e a sonoridade se demorava nos campos de girassóis que deliravam de amarelo suas flores solares. A claridade das eras percorria corredores invisíveis na temperatura vermelha da saudade que já não existia, pois eu vivia o tempo atemporal e a vida se dividia em manhã, tarde e noite. Tudo com uma simplicidade absurda e eu não esperava mais nada do mundo a não ser a própria vida e o corpo que a sustenta. O aroma circular das constelações atravessava o silêncio do destino e eu seguia o desatino de sorver os dias no espaço tempo esquecido.

Na tarde nublada de domingo o crepúsculo derrama vinho púrpura sobre os ombros fatigados do horizonte. Não havia tristeza, apenas uma tarde que tardava todos os sonhos, mas não diria que todos, pois eram numerosos e sempre surgiam novos. A saudade possuía o perfume azul das distâncias impossíveis e eu me lembrava de quem quero bem, mas não sentia vontade de vê-lo. A melhor maneira de lidar com o passado é lembrando e deixando passar. O silêncio caminhava descalço pelos corredores da imensidão e eu diria que a vida é infinita nas incontáveis estradas de caminhos de lírios, margaridas e orquídeas vastas a ocupar o tempo da memória. E nasciam antúrios na lua que bordava rendas de prata nos cabelos da lógica. Eu mastigava lentamente o dia e não havia lamento maior que o vazio, mas isso é arte de domingo. O vento folheava as páginas de meu rosto e escrevia livros de longas histórias anônimas. Eu lacrimejava, porque o céu bebia o melancólico néctar do entardecer. Eu vivia a aurora despertando sinos entre as flores. O amor era uma estrela atrasada iluminando ruínas de primavera, no oceano que escondia relâmpagos adormecidos sobre sua pele de safira. À dezesseis horas eu te esperei, mas você não veio. E não vinha há cinco anos. Cai a chuva escrevendo cartas transparentes nas janelas do esquecimento. E eu fiz para você um chá, que esfriou na xícara. Como demoram as visitas. O destino tecia fios de ouro no acaso da cidade. Difícil se encontrar em uma cidade sem esquinas. A tristeza florescia como uma rosa violeta nos jardins dos desencontros. Mas eu estava apática, mas feliz, porque o universo respirava através do orvalho da noite. A saudade é um pássaro transparente preso à gaiola e eu rejeitava, já que eu amava a liberdade. A solidão vestia um manto amarelo e eu me imaginava em um campo de girassóis. Eu acho que eu nasci mesmo foi para ser feliz. As gaivotas no céu são livres e voam os passarinhos. Um dia hei de ter asas e esquecer as visitas em casa, se me amo mais que o próprio mundo. Eis meu pensamento mais profundo.

Sonhos suaves como um anelo arcano na introspectiva melancolia na aura de um espírito que se desvia de pensamentos inequívocos na alvorada do dia. São uma bruma cândida no âmago beneplácito do langor de um lago a se perder no remancear de cores quentes a se espraiar longamente. No deleite de um devaneio diletante que espreita a ponta do vento alvoroçado na dissonância efêmera de lânguidas begôneas que se estendem na luz solar a sonhar com vastos campos de papoulas coloridas. No enlevo escarlate de flores de antúrio esmaecido em salas escuras, cujo elísio é promessa de recompensa na terra. O fulgor de um campo de girassol resplandesce nas planícies incertas de nossas aspirações ocultas. E muito se diria de um inóspito solo em que florescem certezas ambivalentes a perder as lentes da retina, no inefável júbilo de alegrias expressivas que convidam a sorver a existência. Na lascívia lúgubre dos desejos impossíveis e por isso mesmo, muito mais desejáveis. É magnânimo nosso ser contradito que são um mísero abrigo de corações que não sabem mais arder na voluptuosa intercessão do agora urgente em pétalas de açucena alcançando o nirvana na terra vermelha de uma opulência insolente a se desmanchar em gotas suaves da madrugada. Pálidas rosas brancas ferem os dedos de sangue em seus espinhos inocentes. A plenitude terrestre vislumbra mares distantes. Sentir é preciso. Viver não é preciso no abismos que convidam. A profusão de grandes quimeras ardem em primaveras radiantes que enumeram flores no crepúsculo prístino de primazia em recôndidos pássaros que somem no horizonte. Meu rosto rubro falava de amor, mas minhas pálidas mãos mostravam sentimentos frágeis. E ressoavam cantigas antigas a perder de íris. O amor sereno se despedia soturno. E em vão as mãos buscavam um corpo que longe se exilava em outras ramagens. Solenemente acenei e na distância fui ignorada. Otimista pensei: Talvez em outra alvorada. Sigo sublime como um vagalume. E oscilo entre apagar e acender a luz, na vasta vereda de minha sina. Eis minha vida.