A tarde alastrava sobre as várzeas... Monalisa Ogliari

A tarde alastrava sobre as várzeas encantadas e as almas vagavam na claridade sagrada das catedrais construídas com trabalho escravo, na vasta aragem a se espraiar nas páginas da eternidade. Eu me questionava quem fica e quem parte, quem é inerente e quem já vai tarde, pois acordei e a lógica me olhava atenta e me entreguei à razão, que muito sabe dos dividendos, a cobrar a velocidade do vento. A névoa alaranjada abraçava a paisagem abandonada de seres que não são mais nada. A chama da palavra rasgava a calma da alvorada. E muito mais eu pensava se na vida há quem permanece e na estrada muitos se esquecem. Era minha reflexão nas flores orquídeas de minha constatação. E deixo passar suave, sem alarde, quem parte. E me sinto mais serena se sei em quem depositar meus vales verdejantes nas colinas de ramagens esvoaçantes na exuberante luminosidade da tarde. Entre templos silentes, o azul tece preces de um tempo ascestral e me conduz ao natural elemento da natureza onde mora a certeza da sinceridade, pois tudo cresce no seu tempo. A essência perene desce lentamente pela veredas e eu me entretenho com segredos entre espelhos, que refletem nosso estado de espírito quando o crepúsculo veste a pele das serras e escurecem ecos celestes que percorrem vertentes. E cada verso fala em despedida se nunca sei o caminho da vida, mas o brilho invisível dos lírios se dilui, em sinos antigos que cintilam na vigília da alma em estado de perene calma. O passado se lembra sem viver, pois é uma forma de regresso e eu escolho seguir em frente, sempre em frente, pois a íris exibe caminhos de abundância em quem segue adiante. O meu boi morreu, o que será de mim? Manda buscar outro, oh maninha, lá no Piauí. Minha vida segue em cantiga de roda e eu mesma traço a minha rota. Eu sou meu poema autoral que nasceu na aurora boreal. Eu traço no infinito o meu próprio destino. Sempre em frente, sempre em frente.