O destino inscreve sigilos... Monalisa Ogliari

O destino inscreve sigilos indecifráveis nos livros como cristais líquidos refletindo círculos. A íris exibia caminhos inacessíveis e eu desbravava as florestas com minhas mãos a encontrar o lugar da imensidão. O outono compôs sombras sobre os morros longínquos onde construí minha casa, que era uma morada íngreme e solitária. E não havia tempo, já que o cosmos envolve os olhos e os relógios dormem no colo dos séculos. Eu buscava meu propósito humano longe dos centros urbanos e o sol nascia sempre na mesma hora em que os olhos insones acordam. O fogo oculto dos montes movia os minutos em horizontes sonoros a cobrir o rosto do mundo. No cair da tarde esmaecida de tons tons laranjados, o crepúsculo flutuava sobre campos mudos e o vulto obscuro submergia no azul escuro profundo. Eu buscava mensageiros de mim em minhas retinas sem fim e o mais era um silêncio sossego de açucenas. As nuvens turvas conduziam o curso dos rios e as margens murmuravam o tempo que passa. O aroma violeta dos milênios repousava na dourada voz do universo. Eu tocava em uma flauta doce cantigas infantis que eu trazia na memória e a sonoridade se demorava nos campos de girassóis que deliravam de amarelo suas flores solares. A claridade das eras percorria corredores invisíveis na temperatura vermelha da saudade que já não existia, pois eu vivia o tempo atemporal e a vida se dividia em manhã, tarde e noite. Tudo com uma simplicidade absurda e eu não esperava mais nada do mundo a não ser a própria vida e o corpo que a sustenta. O aroma circular das constelações atravessava o silêncio do destino e eu seguia o desatino de sorver os dias no espaço tempo esquecido.