A tarde era um cálice demarrado sobre... Monalisa Ogliari
A tarde era um cálice demarrado sobre os campos verdejantes de ramagens escarlates na boca que pronuncia a verdade sublime no instante exato de brilhar estrelas no céu e suas grandes constelações. E eu diria que seus olhos são dois abismos onde a eternidade repousa em minha memória densa de lembranças esquecidas, pois passa rápido a vida e as mãos desconhecem despedidas se acenam e não seguem em frente. Paradas, absortas no esvair de uma saudade abstrata, cuja raiz pousa os pés na terra vermelha e nascem constatações intermitentes, pois afirmar pode ser uma forma de negar indubitavelmente. E tudo é sempre mais do que parece ser, quando bem me faço entender, se a lógica diz e cala na escuridão da sala. A memória é um jardim de estátuas cobertas de musgo, já que a ação inexorável do tempo envelhece artefatos humanos enquanto a natureza cresce para além de si mesma em sua opulência e grandeza. O perfume dourado das magnólias adormece o crepúsculo e eu busco um impulso para encarar a noite e suas torrenciais correntezas. Ao ouvir o azul da tarde a doçura prateada da lua adormecia na perspicácia dos centros comerciais onde tudo tem um preço, até mesmo esquecer tinha a moeda do tempo no silêncio macio de sol envolvendo pensamentos na arquitetada paisagem da cidade planejada em minúcias para muitos e para poucos, quando se janta o almoço, em um alvoroço de viver freneticamente enquanto ainda temos um corpo. A aurora despertou lentamente os montes adormecidos e no café quente do copo eu questionava os minutos de sossego na inquietude melódica do dia a espraiar certezas vagas como um relógio antigo há muito tempo atrasado. Mas porque comer o passado se o presente tem sempre novos recomeços e a ternura genuína dos afetos alcançam glórias humildes no aconchego de um dia feliz?
