Menino e Menina

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O MENINO QUE CRESCEU ENTRE AS MULHERES

Durante muito tempo, pensei que conhecia a resposta. Mas a vida tem o estranho costume de esconder as perguntas mais importantes.

Foi um senhor muito importante na minha vida que, certo dia, me disse com firmeza:

— Você não gosta dos homens. É um puxa-saco das mulheres.

Sorri por fora. Por dentro, aquelas palavras fizeram ondas que demoraram muito para se acalmar.

Seria verdade?

Comecei a revisitar a minha própria história.

Foi então que percebi algo curioso: eu nunca deixei de ter grandes amigos homens. Eles sempre estiveram ao meu lado. Amigos leais, presentes, companheiros de caminhada. Portanto, o problema não era esse.

A questão era outra.

Desde menino, o universo feminino ocupava quase todo o meu horizonte.

Nasci cercado por mulheres.

Brinquei com meninas.

Ao longo da vida, trabalhei com muitas mulheres. Ouvi suas histórias, aprendi com elas, admirei suas forças e fragilidades. Sem perceber, elas se tornaram maioria nas minhas lembranças, nas minhas fotografias e em boa parte da minha trajetória.

Talvez tudo tenha começado muito antes de eu compreender o mundo.

A primeira mulher que amei foi minha mãe.

Ela era meu porto seguro, meu abrigo, meu primeiro amor. Quando uma mãe ocupa um lugar tão grande no coração de um filho, sua presença continua iluminando muitos caminhos, mesmo depois da ausência.

Talvez, em algum canto silencioso da infância, tenha faltado um pouco mais da referência masculina para equilibrar essa balança invisível.

Nunca havia pensado nisso.

Até aquele dia.

Aquela frase continuava voltando, como um eco.

E, quase sem perceber, comecei a me aproximar ainda mais dos homens.

Não porque me faltasse amizade.

Mas porque havia um universo que eu ainda podia descobrir.

E descobri.

Descobri conversas sem máscaras, gargalhadas espontâneas, abraços discretos, lealdades silenciosas e uma cumplicidade que não precisa ser explicada.

Descobri que, por trás de cada homem, mora um menino que o tempo nunca conseguiu apagar.

Nada disso diminuiu o carinho, o respeito e a admiração que sinto pelas mulheres.

Continuo acreditando que elas não nasceram para serem decifradas. Talvez tenham nascido apenas para serem amadas, respeitadas e admiradas.

Também nunca escondi quem sou. Desde muito cedo conheço meus sentimentos e o caminho do meu coração. Algumas mulheres imaginaram que poderiam mudar isso. Nunca conseguiram, porque ninguém transforma aquilo que já nasceu verdadeiro.

Hoje continuo admirando as mulheres.

Mas também aprendi a celebrar, com a mesma alegria, a amizade dos homens.

Talvez aquele senhor, tão importante na minha vida, nunca tenha imaginado o alcance daquelas palavras.

Uma única frase não mudou quem eu era.

Apenas abriu uma janela que permanecia fechada.

E, quando olhei através dela, percebi que meus amigos sempre estiveram ali, esperando apenas que eu enxergasse, com mais calma, a beleza da amizade entre homens.

No fim, descobri que o coração não precisa escolher entre um universo e outro.

Ele é grande o bastante para acolher ambos.

Nereu Alves

O menino que cresceu sem colo não precisa aprender a construir muros. Ele precisa aprender que o colo não é um lugar que se perde. É um lugar que se encontra. E quando ele encontrar o colo de d'Ela, talvez ele descubra que a vida nunca o deixou completamente. Ela apenas o ensinou a procurar o amor com as mãos. Agora, ele precisa aprender a procurá-lo com o coração.


... coisas sobre Ele

O menino que cresceu sem árvore aprendeu a ser o próprio tronco. Mas agora há uma mulher que quer ser o chão onde ele pode finalmente deitar. Ele não precisa mais segurar o mundo. Ele pode, pela primeira vez, ser segurado.

Tempo Moleque
Um menino atrevido, impiedoso, jamais nos espera.
Seu tic-tac corta a vida como lâmina afiada,
um compasso que não retorna,
arrasta dia e noite sem pedir licença,
e ri de nossa impotência.
Brinca de nos surpreender,
adora novidades;
por instantes parece parar —
mas é uma armadilha,
uma ilusão que nos faz acreditar que dominamos.
Segundos e minutos escorrem como areia entre os dedos;
tentamos congelá-lo em uma fotografia,
mas ele escapa, zombando,
e nada jamais será o mesmo.
Passa, passa, e nos deixa vazios,
restando apenas lembranças que ardem.
Esse moleque cruel pinta e borda nossas vidas,
sem medir consequências, sem pedir perdão.
Nada detém o seu riso impiedoso:
o tempo moleque, tirano invisível,
faz de nós simples humanos
seu brinquedo favorito.
Helaine Machado

Menino Levado
Helaine Machado
Quieto demais pra chamar atenção…
perigoso demais pra ignorar.
Não promete —
faz sentir.
Não corre atrás —
faz você ficar.
E quando se revela…
já é tarde demais
pra não querer mais.
Helaine Machado

– Não faz mal, eu vou matar ele.
– Que é isso menino, matares teu pai?
– Vou, sim. Eu já até que comecei. Matar não quer dizer a gente pegar o revólver de Buck Jones e fazer bum! Não é isso. A gente mata no coração. Vai deixando de querer bem. E um dia a pessoa morreu.

José Mauro de Vasconcelos
O meu pé de laranja lima. São Paulo: Melhoramentos, 2004.

Quero ser como o menino Davi: cuidar das ovelhas com paciência, cantar louvores com sua pequena harpa, e sonhar com o dia em que serei digno da coroa dos céus, podendo enfim estar na presença do Rei dos Exércitos, em um louvor eterno que transcende todo sofrimento.

Um menino de costas carrega nas mãos vazias
tudo o que não pôde salvar. O piano calado chora por dentro, o violão perdeu as cordas como quem perdeu a fé. Anjos sujos ajoelham na lama, pedindo perdão por não terem chegado a tempo. As máquinas, cansadas de pensar, aprenderam o silêncio. E mesmo assim, ao longe, a água insiste em cair, porque o mundo acaba muitas vezes, mas a vida sempre encontra um jeito de continuar descendo.

Minha infância ainda soluça em algum sótão da memória. Peço perdão ao menino que fui por não ter sido o herói que ele esperava.

Sou o adulto que tenta ser o abrigo para o menino que ainda chora em mim, esperando por uma justiça que o tempo não traz.

Dentro de mim ainda vive aquele menino ferido, o mesmo que um dia caiu de uma cachoeira, lançado contra a água gélida como se o mundo tivesse decidido testá-lo cedo demais. Eu ainda posso senti-lo atravessando o ar por um instante eterno, o silêncio antes do impacto, e depois… o choque brutal contra o frio, contra a pedra, contra a realidade dura do pedregal que não teve piedade. Durante muito tempo, tentei esquecer essa queda. Tentei agir como se levantar fosse suficiente, como se seguir em frente apagasse o que ficou cravado na pele e na alma. Mas a verdade é que ele nunca saiu de lá completamente… uma parte dele ficou presa naquele instante, molhada, tremendo, assustada, esperando que alguém voltasse. Hoje, eu volto. Hoje, eu desço até aquele lugar dentro de mim onde a água ainda é fria e o eco da queda ainda ressoa. E eu o abraço. Abraço com o calor que faltou naquele momento congelado, com a firmeza que o mundo não ofereceu quando ele se chocou contra a dureza da vida. Seguro aquele menino como quem resgata algo sagrado das profundezas, não para apagar a dor, mas para finalmente dizer: eu estou aqui agora… você não está mais sozinho. E então eu entendo. Ele nunca foi fraqueza. Ele foi o impacto que não destruiu, foi o corpo pequeno que resistiu à correnteza, foi o coração que, mesmo assustado, continuou batendo contra o frio, contra a pedra, contra tudo. Ele foi sobrevivência. E agora, ao invés de fugir daquela queda, eu a transformo em reencontro.
Permaneço com ele, no meio da água gelada, sobre as pedras irregulares da memória, até que o frio já não machuque como antes, até que o tremor se torne apenas lembrança, não mais prisão. Porque aprendi, da forma mais crua e mais verdadeira, que ninguém merece mais o meu amor do que aquele menino que caiu… e mesmo assim, não se perdeu de mim.


- Tiago Scheimann

Dentro de mim ainda vive aquele menino ferido, mas hoje eu o abraço, porque finalmente aprendi que ele também merece amor.

O tempo é um menino debochado
que tem a façanha de passar levando certos pesos,
Colocando certas coisas no lugar.

O amor é um menino enxerido,
E o coração oferecido.
Desconhece suas travessuras.

⁠Não me esqueço de que

o Menino Jesus nasceu em Belém,

A minha poesia e o meu

dom de fazer o bem sempre

ofereço sem ver a quem,

É Natal e o importante não

desistir e sempre seguir além.

Seja como um menino, volte a brincar!

Brinque com ela; seja um pouquinho menino, dance com ela na chuva, e se molhem.

Depois da Escuridão



Ele não nasceu herói,
nasceu menino marcado,
com o peso do mundo nos ombros
e o silêncio do medo guardado.


Entre sirenes e lágrimas antigas,
aprendeu que a dor não escolhe endereço,
que a cidade ensina cedo demais
o valor e o preço do próprio tropeço.


Quando o erro queimou como raio na pele,
ele quase acreditou que era o fim,
mas descobriu que caráter não é queda —
é levantar mesmo quando tudo diz “sim” para desistir.


E assim virou choque no sistema,
não por força, mas por decisão:
porque não é o erro que molda o homem —
é o que ele faz depois da escuridão.

Filho ( Pai de Menino )


Filho…
é no teu riso que eu encontro
o começo de tudo,
como se o mundo tivesse
sido criado de novo
toda vez que teus olhos
me procuram.


Ser pai de menino
é aprender a ser forte
sem deixar de ser abrigo,
é ensinar o caminho,
mas também caminhar junto,
mesmo quando a estrada ainda
nem existe.


Em tuas mãos pequenas
eu vejo sonhos que ainda
nem sabem o próprio nome,
e prometo, em silêncio,
ser teu escudo e teu chão,
quando o mundo tentar
ser grande demais pra você.


Meu filho…
se um dia te faltar coragem,
lembra de mim,
porque em cada parte tua,
eu deixei um pedaço meu
— pra você nunca esquecer
que é amado.

1948 📜 "Li, ainda menino, que um respeitável professor britânico desistiu de tornar-se escritor após ler Dostoievski. Segundo o professor, o russo já tinha escrito tudo o que ele gostaria de escrever!"