nereualves
Paira no ar o cheiro do Ano do Cavalo.
2026 se aproxima...
E com ele, uma virada como poucas vezes se viu.
Pessoas ricas vão dormir ricas…
E acordarão com nada.
Pessoas pobres vão dormir pobres…
E despertarão com tudo.
O mundo está girando diferente.
Eu já vi isso acontecer.
E tudo isso… está prestes a acontecer de novo.
A verdadeira admiração nasce nos pequenos detalhes, porque as palavras voam, mas as atitudes ficam.”
— Nereu Alves
Carrego sangue judeu em
minhas veias e repudio O
ódio contra meu povo
assim como a violência na
Palestina. Que nossa
história nos ensine a
respeitar vidas, valorizar
nossas raízes e combater
toda forma de intolerância.
--Nereu Alves
“Liberdade sem responsabilidade é só libertinagem.”
Confundir direitos com permissividade e esquecer nossos deveres abre caminho para o caos e a desordem. Direitos têm valor apenas quando vêm acompanhados de responsabilidade. Respeitar regras e agir com consciência não limita a liberdade — fortalece-a e garante uma convivência justa para todos.
— Nereu Alves
Nas veias, corre o sangue de Portugal; no peito, um coração que ama; na essência, uma alma mundana.
– Nereu Alves
Oração da Noite
Que a noite venha suave,
trazendo o silêncio que acalma e o vento que leva as dores.
Que o amor, mesmo distante, ainda saiba o caminho de volta.
Há sentimentos que não precisam de palavras —
vivem no olhar, no gesto, no simples lembrar.
E quando o coração cansar,
que o céu o abrace com estrelas e esperança.
Porque amar, no fim, é isso:
seguir acreditando na luz,
mesmo quando a noite parece não ter fim.
— Nereu Alves
Ninguém entra num túnel desses por vontade própria.
A gente entra porque a vida empurra
e porque sair, às vezes, parece mais difícil que continuar.
Lá dentro, havia gente demais.
Corpos se esbarrando, pensamentos fora de lugar.
O túnel pulsava como um organismo antigo,
estreito demais para quem carregava pressa, culpa ou medo.
No chão, pequenos orifícios deixavam passar guias —
fios, artérias, destinos.
Disseram que aquilo mantinha a cidade viva.
Disseram também que, se rompesse, tudo viraria água.
Foi quando vi a janelinha.
Redonda, pequena, quase tímida.
Atrás dela, peixes atravessavam o silêncio
como se o mar não soubesse do nosso pânico.
Alguém gritou que ia romper.
A palavra bateu nas paredes
e voltou maior.
As pessoas correram sem saber para onde.
Eu fiquei.
Nem coragem, nem medo.
Só cansaço.
Então surgiram elas.
Criaturas compridas, estranhas,
como enguias que aprenderam a sorrir.
Uma parou, juntou as mãos
e agradeceu a Deus pela comida.
Ninguém riu.
O túnel respeitou.
Pouco depois, apareceu uma princesa brasileira.
Vestido simples.
Dignidade sem brilho.
Ela olhou o túnel, respirou fundo
e disse que ainda não era a hora de entrar.
Quando percebi, já estava na água.
Um lago que parecia piscina,
ou uma piscina que fingia ser lago.
A água era morna.
O corpo flutuava sem pedir licença à mente.
Havia pessoas conhecidas.
Sem passado pesado.
Sem perguntas difíceis.
Alguém trouxe um bolo de chocolate.
Comi.
E o mundo não desabou.
Em volta do lago, hotéis.
Todos provisórios.
Como quase tudo que dói
quando a gente insiste em chamar de definitivo.
Fiquei ali muito tempo.
Tempo suficiente para entender
que o túnel não era prisão.
Era travessia.
E que o mar, lá embaixo,
escuta melhor
quando a gente finalmente para de lutar.
Nereu Alves
Poema – Quando a Verdade Vem à Tona
O circo um dia se arma,
mas também um dia se fecha.
E quando as luzes se apagam,
sobra apenas o homem diante
da própria história.
Houve quem tivesse tudo nas mãos:
o país, a caneta, o povo, a fé.
Houve quem pudesse ter sido grande,
maior que o próprio tempo.
Mas escolheu o caminho da sombra,
da mentira repetida,
da palavra vazia
que feriu corações em plena dor.
Na pandemia, vimos janelas fechadas,
vidas partidas, lares em silêncio.
E ouvimos, do alto,
blasfêmias que machucavam mais
do que a solidão das ruas vazias.
Enquanto esperávamos a salvação
que só viria na vacina,
pessoas queridas se iam,
e a verdade era empurrada para longe.
Mas a mentira pode até boiar,
pode até enganar,
mas o azeite sempre sobe.
A verdade sempre encontra o caminho
de voltar ao topo.
E quando chega… ilumina.
Não é falta de visão,
de audição ou entendimento.
É escolha.
É o peso de acreditar
no que conforta,
e não no que liberta.
O Brasil precisa desapertar o peito,
abrir as janelas, deixar entrar luz.
Enterrar o que passou,
não para esquecer —
mas para aprender,
para crescer,
para renascer.
Somos um só povo,
um só chão,
um só sonho.
E quem já envelhece sabe:
a vida só vale quando deixa frutos.
É nosso dever plantar árvores
para aqueles que ainda virão,
assim como plantaram para nós.
Que venha a era da paz.
Que venha a era do abraço.
Que venha a era do amor
que não conhece rancor.
Porque Jesus nos ensinou
a amar o próximo,
e é desse amor que nasce
a verdadeira potência:
não a potência do poder,
mas a potência da união.
Que o Brasil floresça,
não pelo ódio,
mas pela esperança.
Que o futuro seja claro,
como um campo depois da chuva.
E que todos nós,
irmãos de uma mesma pátria,
possamos caminhar lado a lado,
transformando dor em luz,
e escuridão em amanhecer.
— Nereu Alves
A Voz na Rua Escura
As geladeiras estavam abertas, escancaradas como bocas sem controle.
Bebidas espalhadas, garrafas fora do lugar, o frio desperdiçado tentando conservar o que já não tinha ordem.
As pessoas passavam diante daquilo tudo como se fosse normal viver assim: portas abertas demais, excessos demais, consciência de menos.
A rua era escura, confusa, barulhenta.
Muita gente falando ao mesmo tempo, risos altos, copos cheios.
A cerveja circulava fácil — não por celebração, mas por esquecimento.
Todos pareciam um pouco fora de si, como se a lucidez tivesse sido deixada em casa, junto com as geladeiras abertas.
No meio da confusão, alguém começou a cantar.
Ou talvez eu.
O canto existia, mas não se impunha.
A música era engolida pelas vozes, pelos ruídos, pelo caos coletivo.
Cantar ali era inútil.
Segui andando e entrei numa loja.
Havia de tudo, coisas demais, sentidos de menos.
Até que, entre tanto excesso, algo chamou atenção: colchões.
Fileiras de descanso à venda.
Conforto exposto em silêncio, enquanto o mundo lá fora não sabia mais dormir.
Saí dali com a sensação de que ninguém descansa onde há barulho demais.
Foi então que me afastei.
Deixei a confusão para trás e fui até um lugar mais quieto, quase vazio.
Ali, sim, cantei.
A voz saiu limpa, inteira, bonita.
A cidade podia ouvir — se quisesse.
Mas nem todos querem ouvir o que é verdadeiro.
De uma janela, surgiu uma senhora.
Xingava, gesticulava, chamava aquilo de barulho, de falta de respeito, de pouca vergonha.
Não percebeu que era música.
Não reconheceu a beleza.
Há quem confunda harmonia com incômodo, e qualidade com afronta.
Continuei cantando.
Porque às vezes não é sobre agradar.
É sobre não se calar.
Mesmo que o mundo esteja bêbado,
as geladeiras abertas,
o descanso esquecido nas vitrines,
e a beleza incomode quem já desaprendeu a ouvir.
Nereu Alves
Planeta dos Macacos (Crônica de um Aquariano Deslocado no Tempo)
Às vezes eu me pergunto se não nasci adiantado demais.
Talvez seja coisa de aquariano futurista, desses que olham o mundo e sentem… vergonha alheia.
Outro dia vi uma imagem — daquelas que parecem piada pronta — um poderoso recebendo uma medalha da paz como se fosse troféu de gincana escolar. Confesso: meu cérebro travou. Meu coração riu nervoso. Minha alma pediu arrego.
Em pleno século XXI, com tecnologia de ponta, inteligência artificial, satélites no espaço e informação na palma da mão… o mundo parece comandado por gente que ainda brinca no jardim da infância.
Só que sem recreio.
E sem professora.
Às vezes tenho a impressão de que erramos o endereço cósmico e acordamos no Planeta dos Macacos.
Mas não aqueles macacos sábios dos documentários.
Aqui quem manda são os babuínos destrutivos, os chimpanzés do ego inflado, os gorilas da força bruta — todos disputando poder, berrando alto, batendo no peito e confundindo grito com liderança.
E olha que injustiça com os macacos…
Porque, sejamos honestos, os homens das cavernas talvez fossem mais evoluídos do que muita gente engravatada de hoje.
Chamam isso de palhaçada — mas não é.
Palhaço é artista.
Palhaço tem técnica, sensibilidade, inteligência emocional.
Palhaço nos faz rir porque pensa.
O que vemos por aí é só ridículo cru, vazio de alma e pobre de espírito.
Que humanidade é essa que anda para trás achando que é progresso?
Que líderes são esses que trocam empatia por espetáculo e poder por vaidade?
Que massa estranha é essa dentro da cabeça de tanta gente importante?
Mas aí respiro.
Porque se tudo está errado, é sinal de que ainda sabemos reconhecer o certo.
Se tudo parece absurdo, é porque ainda existe quem pense, questione, sinta.
Talvez o mundo esteja perdido…
Mas enquanto houver quem enxergue o ridículo, a ironia, a incoerência,
há esperança.
Porque o futuro não nasce do barulho dos babuínos,
nasce do silêncio de quem observa,
do olhar crítico,
e da coragem de dizer: isso não está normal.
E não está mesmo.
Mas calma.
Todo planeta em crise passa por uma fase primitiva antes de evoluir.
Que a gente não vire macaco.
Que a gente vire consciência.
Nereu Alves
Abro a janela e vejo a chuva cair.
Às vezes o céu está escuro, carregado. Outras vezes, como agora, a chuva cai com o céu claro, quase luminoso.
Não importa.
A chuva sempre transforma tudo em espetáculo.
Fico ali, parado, observando.
O som da chuva batendo no telhado, tocando a janela, encontrando o chão.
As gotinhas descendo pelas folhas do coqueiro, escorrendo pelas folhas largas da bananeira, seguindo caminhos que só a natureza conhece.
E o cheiro…
O cheiro da chuva é inconfundível.
Terra molhada, mato lavado, ar renovado.
Nesse instante, não há dúvida: estou vivo. Vivo de verdade.
A chuva tem esse poder silencioso.
Ela limpa, acalma, reorganiza o mundo.
Quando não destrói, ela canta.
Cada gota é uma nota, e a natureza inteira parece acompanhar essa música antiga, perfeita.
E então, quase sem avisar, a chuva passa.
O céu se abre.
O sol volta a brilhar, mais forte, mais quente.
As cores ficam mais intensas, o verde mais vivo, o brilho mais profundo.
Os pássaros retornam e cantam como se comemorassem.
Os galos anunciam o novo tempo.
A natureza entra em festa.
É uma chuva de bênçãos.
Tudo fica mais vivo depois dela.
E nós também.
O sol aquece a pele, o cheiro permanece no ar, a luz revela detalhes que antes estavam escondidos.
É impossível não entender, mesmo sem palavras:
a vida é exatamente isso.
A vida é como a natureza.
Nascer, viver, morrer.
Tudo é natural.
Tudo faz parte de um ciclo perfeito, ainda que a gente tente resistir.
Nada é nosso.
Estamos aqui de passagem, por empréstimo.
Chegamos sem nada e partimos sem nada.
O que fica é a vida que vivemos, o amor que espalhamos, o cuidado que tivemos com o outro e com o mundo.
Quantas pessoas já passaram por esta Terra?
Quantas fizeram coisas grandiosas, construíram histórias, deixaram marcas?
E, ainda assim, nada levaram além da própria passagem.
Por isso, o verdadeiro valor da vida não está no acúmulo,
mas na atenção.
No olhar.
No respeito.
A natureza nos ensina tudo.
Nela está a essência da vida.
Nela está a essência de Deus.
Somos criação, assim como as árvores, os rios, os animais, a chuva e o sol.
Tudo está ligado.
Tudo é sagrado.
Tudo é parte de um mesmo começo e de um mesmo fim.
Enquanto houver chuva,
enquanto houver verde,
enquanto houver sol aquecendo a terra,
haverá esperança.
Vale a pena viver com presença.
Vale a pena observar o que realmente importa.
Vale a pena cuidar, amar e respeitar tudo aquilo que Deus nos deu.
Porque a vida não pede pressa, nem respostas.
A vida pede contemplação.
E quem aprende a olhar a chuva,
a sentir o cheiro da terra,
a agradecer pelo simples fato de estar aqui,
esse já entendeu o maior espetáculo de todos:
o milagre de estar vivo.
— Nereu Alves
O poder, quando cai nas mãos erradas, não constrói. Ele corrói.
Corrói a alma. Corrói o caráter. Corrói a humanidade.
Estamos vivendo dias sombrios.
Enquanto líderes discutem o aumento do alcance de mísseis de longo alcance e o fortalecimento de arsenais nucleares, crianças morrem em silêncio — não por guerra, mas por fome.
Bilhões para destruir.
Centavos para salvar.
Eu sou um pobre mortal.
Não tenho exército. Não tenho poder. Não mando em nações.
Mas sei que vou morrer. E talvez seja exatamente essa consciência que falta aos que se acham eternos.
A vida é breve.
Breve demais para ser usada para alimentar ódio.
Breve demais para ser gasta defendendo crueldade.
Vi uma campanha da UNICEF:
“Com um real por dia você salva uma criança na África.”
Um real.
Há quem invista milhões para aperfeiçoar a morte.
Eu investi um real para proteger a vida.
Não vou salvar o mundo.
Mas se uma criança dormir alimentada por causa de um gesto meu, minha existência já fez sentido.
O que mais me assusta não são apenas os líderes que promovem a guerra.
O que mais me assusta são as pessoas boas que, por vaidade, por ideologia ou por conveniência, escolhem defender a maldade.
Parem.
Respirem.
Perguntem a si mesmos: que lado da história eu estou ajudando a escrever?
Porque um dia, quando tudo isso passar, não restarão discursos.
Restará a memória.
E a história será implacável.
Ela não lembrará quem acumulou poder.
Lembrará quem escolheu a vida.
MANCHETE DA NOSSA GERAÇÃO:
Em um tempo de armas apontadas para o mundo, alguns homens comuns escolheram apontar o coração para a humanidade.
Eu sou apenas um mortal.
Mas escolhi o lado da vida.
E você?
— Nereu Alves
Sou de coração aberto, mas não de permanências forçadas.
Onde falta verdade, eu me retiro… em silêncio e com dignidade.
✍️ Nereu Alves
O Inferno Pode Ser Aqui
Às vezes, me pego pensando que o inferno não é um lugar distante, escondido em alguma dimensão desconhecida. Talvez ele seja aqui mesmo — na Terra que pisamos todos os dias.
Não por falta de beleza. Pelo contrário.
Vivemos em um planeta onde o sol nasce com perfeição, onde a natureza é generosa, onde há fartura suficiente para todos. E, ainda assim, há fome. Há gente com mesas fartas e gente sem um pedaço de pão. Há quem viva em palácios… e há quem não tenha sequer um teto para dormir.
E então eu me pergunto: que lugar é esse?
Cresci conhecendo um Deus, dentro da minha religião. Um Deus de amor, de justiça. Mas o mundo me mostrou que existem muitos caminhos, muitas crenças, muitas formas de enxergar o divino. Cada um defendendo sua verdade como única.
E talvez seja aí que começa o nosso erro.
Porque, enquanto discutimos quem está certo, esquecemos de fazer o que realmente importa: sermos melhores.
Às vezes penso na possibilidade de outras vidas. Será que estamos aqui para aprender? Para corrigir erros? Será que quem hoje sofre já teve muito, e quem hoje tem muito já sofreu? Ou será que tudo isso é apenas o reflexo das escolhas que fazemos agora?
Não sei.
Mas sei que existe algo dentro de nós — uma voz silenciosa, firme — que nos diz o que é certo e o que é errado. Chamam isso de consciência.
E, mesmo assim, insistimos em ignorá-la.
O ser humano tem nas mãos tudo o que precisa para transformar este mundo em um paraíso. Temos tecnologia, inteligência, recursos. Poderíamos acabar com a fome, diminuir a dor, dar dignidade a todos.
Mas escolhemos competir, explorar, destruir.
Homens poderosos decidem guerras. Crianças pagam o preço. Povos inteiros sofrem. E o planeta, silencioso, vai sendo ferido.
E às vezes, num pensamento mais ousado, me pergunto: e se tudo isso aqui for um tipo de sanatório?
Um lugar onde almas vêm para se tratar.
Como se viéssemos de outras dimensões, de outros tempos, talvez até de outras galáxias… carregando erros, culpas, excessos — e aqui fosse um ponto de passagem. Um purgatório da existência.
Um espaço onde temos duas escolhas: nos curar… ou nos perder de vez.
Talvez alguns estejam em processo de cura — aprendendo a amar, a dividir, a compreender.
E outros… ainda dominados pela própria escuridão.
Se for assim, a Terra não seria apenas o inferno.
Nem totalmente o céu.
Seria um lugar de decisão.
Diante disso, é difícil não pensar: se isso não é o inferno… então o que é?
Talvez o inferno não seja um castigo imposto por Deus. Talvez seja uma construção humana. Um lugar que criamos quando nos afastamos do amor, da empatia, do respeito.
E talvez o céu também esteja aqui.
Ele aparece nos gestos simples, na bondade inesperada, no coração de quem ajuda sem esperar nada em troca. No pouco que se divide. No muito que se oferece.
No fim, talvez a Terra seja apenas isso: um campo de escolhas.
Onde, todos os dias, cada um de nós decide — consciente ou não — se quer alimentar o inferno… ou construir o céu.
Nereu Alves
Contravento das Almas e a Doutora do Avesso
Dizem que existe, escondida entre estradas que levam a lugar nenhum, uma cidade chamada Contravento das Almas.
E dizem mais: quem entra lá precisa tomar cuidado…
porque até a lógica costuma sair de cabeça pra baixo.
Em Contravento, quase todo mundo é especialista.
Especialista em tudo.
De manhã, o padeiro comenta geopolítica.
À tarde, o frentista resolve crises do país.
E à noite, a praça vira tribunal —
onde ninguém estudou direito… mas todos têm certeza absoluta.
Aliás, direito é o forte da cidade.
Há advogados de profissão…
de vocação…
e principalmente de ocasião.
Mas nenhuma figura é tão emblemática quanto ela:
A célebre Doutora do Avesso.
Uma espécie de artista da argumentação.
A Doutora não discute — ela transforma.
Pega um fato, vira pelo avesso, ajeita as palavras…
e devolve como se fosse outra coisa.
E o mais curioso?
Quase convence.
Sua especialidade são as causas difíceis.
Aquelas que tropeçam na própria lógica…
mas que, nas mãos dela, ganham maquiagem, discurso e até aplauso.
Há quem diga que já defendeu o indefensável com tamanha firmeza
que o público não sabia se discordava… ou ria.
Lembra um antigo julgamento da cidade —
em que o advogado foi tão brilhante
que o tribunal inteiro ficou dividido entre a sentença… e o espetáculo.
Em Contravento, isso não é exceção.
É método.
Porque ali, mais importante que a verdade…
é a versão.
E versões, meu amigo, não faltam.
A cidade já foi próspera — dizem os mais antigos.
Tinha comércio forte, ruas vivas, gente acreditando.
Hoje… ainda tem gente.
Mas acreditar virou artigo raro.
Os mesmos que reclamam que nada cresce
são os que não regam.
Os que criticam o comércio
são os que compram fora.
E os que desconfiam da própria terra
plantam dúvida até onde podia nascer esperança.
Há até um costume curioso:
Muitos fazem questão de que os filhos nasçam longe dali —
na capital, de preferência.
Como se o primeiro choro precisasse de endereço mais importante.
Mas o tempo passa…
E um dia, sem aviso, o menino solta:
— “Ô pai… fecha a porteira!”
E pronto.
Contravento reaparece.
Inteira.
Sem pedir licença.
Porque ninguém foge completamente do lugar
de onde aprendeu a ser.
Enquanto isso, na praça, o tribunal segue aberto.
A Doutora do Avesso discursa.
Alguém rebate.
Outro distorce.
E no fim… ninguém muda de ideia.
Mas todos saem com a sensação de vitória.
É uma cidade curiosa.
Não anda pra frente.
Não anda pra trás.
Ela gira.
Gira em torno de si mesma —
defendendo versões,
acusando verdades
e absolvendo ilusões.
E no meio desse espetáculo… sempre há aplausos.
Às vezes sinceros.
Às vezes por hábito.
Às vezes… só pra não ficar feio discordar.
Mas, ainda assim, existem alguns.
Poucos.
Gente que não discute — faz.
Não distorce — constrói.
Não precisa convencer — vive.
Esses não sobem no tribunal.
Não aparecem.
Não gritam.
Mas talvez — só talvez —
sejam eles que ainda impedem
que Contravento desapareça de vez…
engolida pelas próprias palavras.
Porque, no fim das contas…
Em Contravento das Almas, ninguém perde uma discussão —
a verdade é que já deixou de participar faz tempo.
✍️ Nereu Alves
O FUTURO SERÁ DAS MÁQUINAS… E DA HUMANIDADE
O mundo está mudando diante dos nossos olhos.
A velha sociedade, construída em cima da disputa, da fome, da desigualdade e da obsessão pelo dinheiro, começa lentamente a dar sinais de cansaço. De um lado, poucos com tudo. Do outro, milhões lutando apenas para sobreviver.
Mas o futuro não será como o presente.
As máquinas chegaram. E não vão embora.
A inteligência artificial, a automação, os robôs e os sistemas inteligentes estão assumindo tarefas que antes dependiam exclusivamente da força humana. Estamos entrando numa era em que o homem deixará de viver apenas para trabalhar.
As máquinas trabalharão.
Os homens viverão.
Claro que ainda existirão pessoas para criar, controlar e cuidar dessas máquinas. Mas a humanidade caminhará para outro tipo de existência. Uma vida menos baseada na sobrevivência e mais na dignidade.
O ouro perderá valor.
Diamantes não impressionarão mais.
A ostentação começará a parecer vazia diante de um planeta que buscará equilíbrio.
O verdadeiro valor será outro: alimento, saúde, paz, conhecimento, água, energia, tecnologia e qualidade de vida.
O mundo passará por uma transformação tão profunda que muitas coisas que hoje parecem eternas desaparecerão lentamente.
As guerras perderão sentido.
Bombas não matarão a fome.
A grande batalha do amanhã será contra a miséria.
E nesse novo mundo, países como a China já entenderam há muito tempo o caminho da tecnologia, da produção e da expansão silenciosa.
Hoje eles estão em toda parte.
Não veremos apenas chineses vivendo em outros países. Veremos chineses brasileiros, chineses americanos, chineses europeus. Misturados aos povos do mundo, ocupando espaços de liderança, política, tecnologia e economia.
A Índia também seguirá esse caminho.
Haverá uma enorme onda migratória global. Povos inteiros buscarão novos lugares para viver. Depois do caos, virá a acomodação. E então o mundo começará a se reorganizar.
As religiões perderão força.
As fronteiras ficarão menores.
E o ser humano talvez finalmente compreenda que nasceu para viver — não apenas para competir.
O maior inimigo da humanidade sempre foi o desequilíbrio.
O excesso de uns.
A falta de outros.
Enquanto poucos acumulam milhares de hectares, milhões não possuem um pedaço de chão. Isso não se sustentará eternamente.
O futuro será menos egoísta.
Mais coletivo.
Mais tecnológico.
E, paradoxalmente, mais humano.
Porque um planeta dominado por máquinas precisará redescobrir justamente aquilo que as máquinas nunca terão: alma, consciência, sensibilidade e compaixão.
O futuro não será perfeito.
Mas poderá ser mais digno.
E talvez o homem finalmente descubra que a verdadeira riqueza nunca esteve no ouro… mas na possibilidade de todos viverem em paz.
— Nereu Alves
