O MENINO QUE CRESCEU ENTRE AS MULHERES... Nereu Alves
O MENINO QUE CRESCEU ENTRE AS MULHERES
Durante muito tempo, pensei que conhecia a resposta. Mas a vida tem o estranho costume de esconder as perguntas mais importantes.
Foi um senhor muito importante na minha vida que, certo dia, me disse com firmeza:
— Você não gosta dos homens. É um puxa-saco das mulheres.
Sorri por fora. Por dentro, aquelas palavras fizeram ondas que demoraram muito para se acalmar.
Seria verdade?
Comecei a revisitar a minha própria história.
Foi então que percebi algo curioso: eu nunca deixei de ter grandes amigos homens. Eles sempre estiveram ao meu lado. Amigos leais, presentes, companheiros de caminhada. Portanto, o problema não era esse.
A questão era outra.
Desde menino, o universo feminino ocupava quase todo o meu horizonte.
Nasci cercado por mulheres.
Brinquei com meninas.
Ao longo da vida, trabalhei com muitas mulheres. Ouvi suas histórias, aprendi com elas, admirei suas forças e fragilidades. Sem perceber, elas se tornaram maioria nas minhas lembranças, nas minhas fotografias e em boa parte da minha trajetória.
Talvez tudo tenha começado muito antes de eu compreender o mundo.
A primeira mulher que amei foi minha mãe.
Ela era meu porto seguro, meu abrigo, meu primeiro amor. Quando uma mãe ocupa um lugar tão grande no coração de um filho, sua presença continua iluminando muitos caminhos, mesmo depois da ausência.
Talvez, em algum canto silencioso da infância, tenha faltado um pouco mais da referência masculina para equilibrar essa balança invisível.
Nunca havia pensado nisso.
Até aquele dia.
Aquela frase continuava voltando, como um eco.
E, quase sem perceber, comecei a me aproximar ainda mais dos homens.
Não porque me faltasse amizade.
Mas porque havia um universo que eu ainda podia descobrir.
E descobri.
Descobri conversas sem máscaras, gargalhadas espontâneas, abraços discretos, lealdades silenciosas e uma cumplicidade que não precisa ser explicada.
Descobri que, por trás de cada homem, mora um menino que o tempo nunca conseguiu apagar.
Nada disso diminuiu o carinho, o respeito e a admiração que sinto pelas mulheres.
Continuo acreditando que elas não nasceram para serem decifradas. Talvez tenham nascido apenas para serem amadas, respeitadas e admiradas.
Também nunca escondi quem sou. Desde muito cedo conheço meus sentimentos e o caminho do meu coração. Algumas mulheres imaginaram que poderiam mudar isso. Nunca conseguiram, porque ninguém transforma aquilo que já nasceu verdadeiro.
Hoje continuo admirando as mulheres.
Mas também aprendi a celebrar, com a mesma alegria, a amizade dos homens.
Talvez aquele senhor, tão importante na minha vida, nunca tenha imaginado o alcance daquelas palavras.
Uma única frase não mudou quem eu era.
Apenas abriu uma janela que permanecia fechada.
E, quando olhei através dela, percebi que meus amigos sempre estiveram ali, esperando apenas que eu enxergasse, com mais calma, a beleza da amizade entre homens.
No fim, descobri que o coração não precisa escolher entre um universo e outro.
Ele é grande o bastante para acolher ambos.
Nereu Alves
