Sou_Cah

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Ela não escreveu para que mudasses. Ela escreveu para que Ele a visse, a lesse.


E não é uma queixa. É um convite para Ele escrever sobre si– sobre Ela, sobre Ele e Ela, sobre o ‘Nós’ sendo construido.


Não é um ultimato. É um limite interno e silencioso, que ela não quer que cresça.


A campainha toca muitas vezes n'Ela. Mas por querer ficar desta vez, Ela está com medo de não correr mais para abrir.


Então Ela fica ali, do lado de dentro, observando se Ele entra ou se apenas toca e vai embora.


Qualquer das duas respostas é uma resposta. Mas só tem uma que Ela deseja.




...coisas sobre Ela e Ele

No mínimo, Ela se deixaria atravessar por cada paisagem. Como quem não passa, mas fica.


Tentaria fotografar. Não só com os olhos, mas com aquilo que n’Ela sabe sentir cada instante que, em milésimos de segundo, lhe rouba o ar ou abre seus olhos em espanto manso… daqueles que Ela nem quer entender, só permanecer.


Esse momento é rápido, é muito breve. Talvez dure um “click”. Mas, quando acontece, já não é mais do mundo — é d’Ela. E fica.


Fica nos cheiros que não se explicam, nas cores que não se repetem, nos sons que atravessam sem pedir licença, na música, no barulho, no sol, no vento, no corpo…


E foi exatamente esse pequeno pedaço de eternidade que escolheu morar dentro d’Ela.


De repente, Ela olharia para o lado… (quero dizer, para frente… é mais provável, rs) e veria Ele.


E, então, tudo faria ainda mais sentido. Ficaria ainda mais bonito… não, bonito não. SU BLI ME.


ELE. A pessoa que tornou tudo isso possível, com uma dedicação silenciosa e uma entrega que não se mede, só se percebe, se nota.


E Ela… talvez não dissesse nada. Só agradeceria.


Pensando bem, Ele seria a paisagem da qual Ela não conseguiria (nem por vontade própria, caso existisse) desviar o olhar.


E, sim… acho que Ela estaria aproveitando. Na verdade… vivendo.




... coisas sobre Ela e Ele

Seria quase um sonho terminar o dia assim… nas suas mãos, que parecem saber onde o cansaço mora, no seu cheiro que me encontra antes mesmo de eu me explicar.


Deitar no seu peito… ouvir seu coração e o ritmo da sua respiração, como se o mundo inteiro, por um instante, resolvesse desacelerar comigo.


E então… adormecer no seu abraço. Não por exaustão, mas por entrega.


Como quem, finalmente, não precisa vigiar nada, nem sustentar força, e tampouco "segurar o dia nas mãos".


Adormecer ali, sentindo seu corpo presente, firme, quente… como um lugar seguro onde eu posso simplesmente existir.


Talvez nem seja sobre a massagem... talvez seja sobre encontrar em você um lugar onde eu possa descansar de mim.


Mas hoje eu só vou dar uma volta e aproveitar um pouco de silêncio.


Mesmo assim… ficou em mim essa vontade simples:


de um abraço sem pressa,


de um colo que acalma,


de alguém que, baixinho, me diga que vai ficar tudo bem."


... coisas sobre Ela e Ele.

Ela não queria um amor de vitrine.
Queria um amor de dentro –
daqueles que não se prova, se habita.


“Como foi seu dia? O que doeu? O que te fez sorrir?”
E esperar a resposta como quem espera a chuva no sertão. Sabendo que ela não enche o rio sozinha, mas molha a terra.


Palavras são como abraços: se soltas no ar, viram vento; se encostadas na pele, viram casa.


Ela queria um amor que lesse o silêncio dela não como ausência, mas como calma. Um amor que não apertasse a campainha só para ouvir o próprio dedo.


Um amor que entrasse, sentasse, perguntasse: E esse cansaço? E esse poema que você guardou no peito? Mostra?


Mas ele, coitado, aprendeu a encantar antes de aprender a ficar. Ela não o julga. Ela só se lembra de que tempo é a única coisa que não se recompra.


Então ela disse, com a delicadeza de quem já cansou de berrar na tempestade:


“Se for pra ser raso, que seja limpo, sem espuma de sabão.


Se for pra ser fundo, que seja devagar, com perguntas de verdade.


Eu topo os dois. Mas não topo mais dançar sozinha no meio da sala escura enquanto você aplaude da porta.”


E guardou o vestido.


Porque, como bem sabia...


“Há flores que desabrocham mesmo sem aplauso.


E há mulheres que viram jardim sozinhas – não por falta de jardineiro, mas por excesso de vida.”


Ela virou.


Toda vez que ele não perguntava, ela plantava mais uma rosa nela mesma.


... coisas sobre Ela e Ele

Ela aprendeu cedo que as coisas crescem devagar.


As sementes não gritam para serem plantadas. Elas apenas esperam, quietas, debaixo da terra escura. E quando a chuva vem, elas não perguntam se a chuva é verdadeira. Elas simplesmente se abrem.


Ela é assim.


Ela plantou palavras bonitas no peito dele. Cuidou como quem cuida de um jardim. Regou com silêncios, com perguntas, com poemas que ele nunca leu em voz alta.


Mas ele, coitado, é um homem de ação.


Ele não sabe que a terra precisa de tempo para florir. Ele acha que amor se resolve com presença, com café quente, com a mão firme na hora do aperto.


Ela não quer que ele resolva.
Ela quer que ele veja.


Que ele veja o mofo crescendo no canto do coração dela. Que ele veja as folhas amareladas de solidão. Que ele pergunte: "O que você está sentindo, minha terra?"


Em vez disso, ele traz um vaso novo.


Ela sorri. Agradece. Coloca a terra nova no vaso.
Mas o que ela queria mesmo era que ele sentasse na terra com ela.
E ficasse em silêncio.
Porque o silêncio, quando é compartilhado, é a chuva mais profunda.


... coisas sobre Ela e Ele

Ele aprendeu a cuidar com as mãos.


Porque as palavras, para ele, sempre escapavam pelos dedos. Escorregavam como areia. Então ele aprendeu a construir: casas, roteiros, equipamentos, segurança.


Ele acende a fogueira.
Ele aquece a comida.
Ele estende a mão para puxar quem caiu.


E, quando ela chega, ele mostra o que construiu: "Olha, isso é nosso. Isso é para você."


Ele pensa que o amor é isso: mostrar o que fez, oferecer o que tem, proteger o que é frágil.


Mas o fogo que aquece também queima.
E ele não entende por que ela às vezes se afasta do calor.
Ele pergunta: "Não estou aqui? Não estou te segurando?"


Ela quer que ele desça do fogo.
Que ele entre na caverna escura com ela.
Que ele sinta o frio que ela sente.
Mesmo que ele não saiba o que fazer lá dentro.


Ele não sabe que o amor não é um projeto.
É uma presença.
E que, às vezes, a melhor coisa que o fogo pode fazer é diminuir a chama.
E apenas brilhar.


... coisas sobre a Ele e Ela

Mapa e o Território... a visão de quem observa duas solidões que se amam.


Ele está no mapa.
Ela está no território.


No mapa, tudo é linha reta, distância calculada, destino traçado.
O mapa diz: "Estamos juntos."


Mas o território tem montanhas que não estão no mapa.
Tem vales escuros, rios que mudam de curso, ventos que o mapa não prevê.


Ela vive no território.
Ele vive no mapa.


Ela sente o vento no rosto.
Ele mede a velocidade do vento.
Ela chora porque a paisagem é bela e dolorosa.
Ele tenta fotografar a paisagem para ela não esquecer.


Os dois estão certos.


Mas o mapa não é o território.
E o território, sem o mapa, pode ser um labirinto.


O que vi, foi uma saudade que não se contenta com presença.
Uma presença que não entende a saudade.


Eles querem a mesma coisa: um ao outro.


Mas um quer o outro inteiro, com todas as raízes e espinhos.
O outro quer dar o seu melhor, sem saber que o seu melhor não é o suficiente para ela.


Ela precisa que ele desça do mapa.
Ele precisa que ela veja que o mapa também é um gesto de amor.


Enquanto isso, a noite cai sobre os dois.


E, na escuridão, eles se procuram.
Ele acende um fósforo.
Ela ouve o barulho do vento.
E, por um instante, os dois se encontram no mesmo lugar:
no desejo de ser compreendido.


Talvez seja isso, o amor.
Não a compreensão.
Mas a coragem de continuar se procurando, mesmo sem se achar.


... coisas sobre Ele e Ela

"O amor não é um problema a ser resolvido. É um mistério a ser vivido. E mistério, a gente não decifra. A gente contempla."

Ele acreditava que o amor era o corpo. E eu acreditava que o corpo era o começo.


Mas o meu amor, meu amor era a fresta. Aquela coisa que não se vê, que não se toca, que só se sente quando o silêncio se senta entre a gente e olha para nós. E ele, coitado, não entendia o silêncio. Ele o preenchia com a mão, com a boca, com o peso da presença.


Mas a presença dele, quando não tem a alma dentro, é um buraco. E eu caía. Toda vez. Ele me segurava, mas eu continuava caindo. Porque ele segurava a minha mão, e a mão segura o corpo, mas a queda... a queda ela segura a alma.


E ele não sabia segurar almas.


Eu queria lhe dizer: "Você está aqui, mas o seu isso não está aqui." E quando eu falava, ele me olhava como quem olha para o mar: achando bonito, mas sem entrar. E eu queria que ele entrasse, que afogasse um pouco, que sentisse o gosto do sal nos lábios.


Em vez disso, ele me tirava da água. E dizia: "Você está segura."


Mas eu não queria segurança. Eu queria o risco. Queria que ele se perdesse em mim para que eu pudesse, enfim, me achar.


Ele faz café, ele faz amor, ele faz planos. Mas fazer não é ser. E eu sou a coisa que não se faz. Eu sou a coisa que simplesmente é. E o que é, não cabe em xícara, nem em abraço, nem em projeto. O que é, só cabe no olho nu e na palavra atravessada.


E ele não atravessa palavras. Ele as resolve.


Como se o amor fosse uma conta a pagar.




... coisas sobre Ela e Ele

Eu sou um homem de cordas. Sei amarrar, sei segurar, sei salvar, sei puxar alguém do abismo.


Mas ela não queria ser salva do abismo. Ela queria que eu saltasse com ela.


E eu não sei saltar para o vazio.


Eu faço café, faço amor, faço planos. Porque o plano é a corda. O amor é a corda. O café é a corda. Eu me seguro em tudo o que faço para não sentir o que não sei nomear.


Ela me olha com uns olhos que pedem a coisa que não tem corda. A coisa que não tem segurança. A coisa que me desamarra. E eu tenho medo de me desamarrar, porque se eu me desamarrar, quem vai segurar o mundo?


Mas o que eu não conto a ela, e que me dói, é que o mundo, para ela, já está caindo. E eu só finjo que seguro.


Porque o que ela quer, o que ela quer é que eu seja a queda. Que eu despenque com ela. Que eu grite no vazio com ela.


Mas eu não sei gritar. Eu aprendi a engolir o grito. A transformar o grito em músculo, em ação, em estrada.


Ela quer o meu nome inteiro. E eu só sei dar o meu sobrenome. Ela quer o meu coração aberto. E eu só sei dar a minha mão fechada.


Ela diz que estou longe quando estou perto. E ela tem razão. A minha distância não é física. É a distância de um homem que aprendeu que olhar para dentro é olhar para a morte.


E eu estou com medo de morrer enquanto ainda estou vivo.


... coisas sobre Ele e Ela

Não era amor. Era o desejo de ser amor.


Eram duas solidões que se abraçavam na esperança de que o abraço se transformasse em luz. Mas a luz é dura. A luz mostra as rugas, os dentes amarelados, a poeira debaixo do tapete.


Eles não queriam a luz. Eles queriam o aconchego da mentira. Mas a vida é uma coisa que não pergunta. A vida pressiona.


E pressionada, a relação gritou.


Ela gritou com palavras bonitas e profundas. Ele gritou com ações práticas e silêncios. E o grito um do outro não era ouvido. Só a minha alma ouvia – a alma da escrita, que é a alma dos que veem o que os corpos escondem.


E o que eu vi foi isto: ele a ama com a força de quem constrói. Ela o ama com a força de quem desaba. Um constrói muros para protegê-la. Ela quer que os muros caiam para que o vento entre.


Ele não sabe que ela precisa do vento. Ela não sabe que ele precisa dos muros.


E assim, eles se amam como o dia e a noite se amam: nunca ao mesmo tempo, sempre na fronteira, sempre no instante em que um morre para que o outro nasça.


O amor deles é um parto eterno. E parto dói. Mas dói porque a vida está nascendo. E a vida? a vida é isso: a dor de vir ao mundo.


Eles ainda estão no começo da dor.


E o começo da dor, para os que não desistem, ainda pode ser o começo do mundo.


... coisas sobre Ela e Ele

Não tente entender o amor. Sinta-o. Como se sente o vento. Como se sente o medo. Como se sente a morte. Porque o amor, quando é verdadeiro, não se explica. Só é.

Ela é feita de um silêncio que não está vazio.


O silêncio dela é uma semente enterrada, esperando a chuva certa, a chuva que não vem para molhar a superfície, mas para descer fundo, até o lugar onde as coisas realmente crescem.


Ela escreve poemas em cadernos que ninguém vê. E, neles, ela não escreve sobre o amor. Ela escreve dentro do amor. Como quem escreve dentro de uma caverna, à luz de uma vela, escutando o eco das próprias palavras.


Ela tem o dom terrível de saber o que sente. E o fardo de ter que traduzir esse saber para quem não fala a mesma língua.


Ela é a terra. Não a terra que se pisa. A terra que se cultiva. A que devolve o que recebe, multiplicado. Ela recebeu gestos práticos e devolveu poesia. Recebeu presença e devolveu significado. Recebeu desejo e devolveu alma.


Mas a terra também cansa.


Cansa de explicar por que precisa de chuva. Cansa de ensinar que o sol, sozinho, não faz florir. Cansa de ser olhada como paisagem, quando o que ela quer é ser o lugar onde alguém escolhe morar.


Ela quer ser descoberta. Não explorada, não mapeada, não resolvida. Descoberta como se descobre um caminho que não estava no mapa: sem pressa, com os olhos, com os pés descalços, com a curiosidade de quem não tem medo de se perder.


Ela gosta do fogo. Ah, como ela gosta do fogo! Ela se aquece nele, se encanta com ele, se entrega a ele. Mas ela sabe que o fogo que não respeita a terra a transforma em cinza.


Ela quer um fogo que seja cúmplice. Que entenda que a terra precisa de tempo para absorver o calor. Que saiba queimar devagar, sem pressa de incendiar.


Ela já cansou de partir. Por isso, ela fica. Mesmo quando o silêncio aperta, ela fica. Porque ela acredita que o amor é uma construção lenta, como as raízes que abrem a pedra sem fazer barulho.


Ela acredita que o amor não é o que se fala. É o que se lembra. É o que se sente falta. É o que permanece mesmo quando a pessoa não está.


Ela é uma mulher que aprendeu a ser inteira sozinha. Mas ela quer, um dia, ser inteira acompanhada.


Ela não quer um herói. Ela quer um parceiro de silêncio. Alguém que sente com ela, não só ao lado dela. Alguém que não tenha medo de olhar para o fundo do poço e ver que, lá no fundo, não há monstro.


Há apenas mais ela. Esperando. Plantada. Viva.


Seu nome, em latim, significa "vazia". Mas que ironia. Porque ela é tudo o que há de mais cheio. Cheia de palavras não ditas, cheia de histórias não contadas, cheia de um amor que ainda espera ser alcançado.


E, enquanto espera, ela escreve.


Porque escrever, para ela, é o jeito de não secar. É o jeito de continuar sendo terra, mesmo quando a chuva demora.


... coisas sobre Ela

Ela explicava.


Explicava o que sentia, explicava o que pensava, explicava o que doía, explicava por que doía, explicava por que explicava.


E ela explicava porque acreditava — com a fé de quem ainda não foi completamente ferida — que a incompreensão era apenas falta de palavras certas. Que bastava a palavra exata, a frase bonita, o silêncio bem colocado, e ele finalmente veria o que ela via: o abismo dentro dela.


Mas a incompreensão, a incompreensão não era falta de palavra. Era falta de coragem. E coragem, meu Deus, coragem não se explica. Coragem se sente. Ou não se sente.


Ela sentia tudo.


Ela sentia o peso da mão dele no ombro, mesmo quando a mão não tinha alma. Ela sentia a distância nos beijos que vinham no horário certo. Ela sentia o vazio na frase "você é maravilhosa", porque a frase era sempre a mesma, sempre vazia, sempre o conforto de quem não quer olhar para dentro.


Ela olhava.


Ela olhava para ele e via o homem que ele podia ser. E isso era a sua condenação. Porque ver o que o outro pode ser, sem que ele queira ser, é um exercício de solidão insuportável.


Ela escrevia à noite. Quando o mundo calava, ela escrevia. Não poemas, não. Ela escrevia a coisa bruta, a coisa que não tinha nome, a coisa que latejava entre o estômago e a garganta. Ela escrevia porque escrever era o único jeito de não explodir.


Mas ela queria explodir.


Queria que um dia, em vez de ele dizer "vou fazer diferente", ele dissesse: "estou sentado no chão com você e não sei o que dizer, mas estou aqui." Queria que ele não resolvesse, não acalmasse, não se apressasse.


Queria que ele entrasse no silêncio dela.


E não entrasse para sair, para dar um beijo e ir embora. Entrasse para ficar. Para se perder junto com ela.


Ela não era carente. Cuidado com essa palavra. Carente é quem quer qualquer coisa. Ela queria tudo. Ou queria nada. O meio-termo, para ela, era a morte. E o meio-termo era o que ele oferecia. Com todo o carinho do mundo, ele oferecia a morte lenta, a morte suave, a morte que vem de mãos dadas e diz: "está tudo bem."


Mas não estava tudo bem.


Ela estava partida ao meio. E ele, ele segurava as duas metades e dizia que estava inteira. E ela, para não magoá-lo, fingia que estava inteira.


Mas as metades dela se cansaram de fingir.


Um dia, ela parou de explicar.


E ele não percebeu. Porque o silêncio dela, para ele, era alívio. E esse foi o golpe mais fundo. Saber que a ausência da sua voz era a paz do outro.


Ela não é vazia. Ela é cheia de uma coisa que ele não tem coragem de nomear. E enquanto ele não nomear, ela continuará sendo o que ele chama de "intensa" e o que ela chama de "viva".


E viver, viver é isso: uma coisa que não cabe, que transborda, que pede mais do que a conta do banco e a chave do carro e o beijo na testa antes de dormir.


Ela quer a tempestade dentro do quarto. Ela quer o grito que não precisa de motivo. Ela quer que ele a veja não quando ela está bonita, arrumada, feliz. Mas quando ela está no fundo do poço, suja, despenteada, silenciosa.


Ela quer ser amada no escuro.


Não no escuro do quarto. No escuro da alma.


E enquanto ele não descer até lá, ela vai continuar explicando. Explicando para si mesma que o amor é isso: a eterna espera de ser alcançado. Mas se assim for, ela escolhe esperar só, mas não sozinha.


... coisas sobre Ela

Não se engane com a delicadeza dela. Ela não é frágil. Ela é uma mulher que sobreviveu à própria profundidade. E isso, meu bem, isso é a coisa mais corajosa que existe.

O menino que cresceu sem colo não precisa aprender a construir muros. Ele precisa aprender que o colo não é um lugar que se perde. É um lugar que se encontra. E quando ele encontrar o colo de d'Ela, talvez ele descubra que a vida nunca o deixou completamente. Ela apenas o ensinou a procurar o amor com as mãos. Agora, ele precisa aprender a procurá-lo com o coração.


... coisas sobre Ele

Ele nunca teve uma árvore para chamar de sua.


Enquanto as outras crianças aprendiam a subir nos galhos, ele aprendia a amarrar cordas. Enquanto aprendiam a cair e serem apanhadas, ele aprendia a cair e se levantar sozinho.


Não havia braços esperando por ele no fim da queda.


Então ele fez das mãos a sua casa.


Ele descobriu cedo que o amor não é uma palavra que se diz. É um nó que se faz. E ele se tornou um artista dos nós — dos nós que seguram, dos nós que protegem, dos nós que salvam.


Mas há um nó que ele nunca aprendeu a dar: o nó que prende uma pessoa à outra sem corda.


Ele olha para Ela e vê uma mulher que ele ama com a força de quem nunca teve certeza de que o amor fica. Cada vez que Ela se aproxima, Ele sente o cheiro do que poderia perder. E ele aperta os punhos, como quem segura uma corda que pode se romper.


Ele cresceu aprendendo que o mundo é um lugar onde as pessoas somem. Não por maldade — por gravidade. Elas se vão como a neblina que ele vê das montanhas: estão ali, e de repente não estão mais.


Então ele segura.


Segura o trabalho, segura os projetos, segura o corpo dela na cama, segura a mão dela na rua. Segura como quem segura a própria existência.


Mas ele não segura as palavras.


As palavras, para ele, são como pássaros que ele não aprendeu a domesticar. Elas voam para longe antes que ele possa nomear o que sente. Porque nomear o que sente, para ele, é abrir a porta do quarto onde a vida já morreu. É lembrar que o colo que teve foi tirado dele.


Ele não fala sobre a ausência que o formou.


Não fala sobre a infância sem porta, sem quintal, sem o som de uma voz chamando pelo seu nome à noite. Não fala sobre o instante em que descobriu que o mundo não tem dívida com ninguém — que o amor não é um direito, é uma aposta.


Talvez Ele aposta n'Ela. Mas aposta com o medo de quem já perdeu a aposta mais importante da vida.


Ele não sabe que o amor não é uma corda. Que não precisa ser segurado com tanta força. Que o amor é como o vento: a gente não segura, a gente sente. E, sentindo, a gente não precisa ter medo de que ele vá embora — porque, mesmo quando vai, ele deixou marcas.


Ele tem marcas.


Cada gesto de cuidado que ele tem por Ela é uma marca da vida que ele perdeu. Cada vez que ele estende a mão para ajudar alguém, ele está repetindo o gesto que a vida não repetiu por ele.


Ele é um homem que aprendeu a ser pai e mãe de si mesmo.


E isso, meu amigo, isso é a coisa mais solitária que um ser humano pode ser.


Então ele não sabe como responder a perguntas. Quando Ela pergunta o que aconteceu, ele responde com o que acontece. Não com o que se sente.


Ela quer o sentimento. Ele oferece o fato.


Ela quer a presença. Ele oferece o corpo.


Ela quer a alma. Ele oferece o que tem: a corda, a proteção, o café quente, a carona, o abraço firme.


Mas não é suficiente. E ele sabe que não é suficiente. E isso, isso o faz sentir-se como um menino novamente: pequeno, incapaz, com as mãos vazias diante de uma mulher que merece mais do que ele sabe dar.


O que ele não entende é que ela não quer mais. Ela quer diferente.


Ela quer que ele se sente no chão com ela. Que ele não tente consertar. Que ele apenas fique. Que ele confie que ficar é suficiente.


Ele nunca aprendeu que ficar é suficiente.


Porque, na vida dele, ficar sempre foi o prelúdio da partida.


Mas agora, com Ela, ele pode aprender. Se ele tiver coragem de desaprender o que a sobrevivência ensinou. Se ele conseguir soltar a corda por um instante e sentir que o vazio não vai engoli-lo. Se ele conseguir acreditar que o amor não é uma coisa que se constrói para não cair — mas uma coisa em que se cai, e se é apanhado.


Ele já foi apanhado por Ela.


Agora, ele precisa aprender a se deixar cair.


... coisa sobre Ele

O menino que cresceu sem árvore aprendeu a ser o próprio tronco. Mas agora há uma mulher que quer ser o chão onde ele pode finalmente deitar. Ele não precisa mais segurar o mundo. Ele pode, pela primeira vez, ser segurado.

Ele não veio de um lugar que se possa apontar no mapa.


Veio de um lugar que se sente no osso: a certeza de que o amor não é um direito, é uma aposta. E ele, coitado, nunca teve sorte nas apostas.


Ele cresceu ouvindo o barulho das coisas que não foram ditas. O silêncio era a língua materna. E ele aprendeu a falar com as mãos, porque a boca, a boca só servia para o que era útil: pedir, responder, sobreviver.


Não havia sobrenome para carregar. Não havia história para contar. Não havia retrato na parede para lembrar de onde vinha. Então ele fez de si mesmo a própria origem. Construiu-se tijolo por tijolo, músculo por músculo, feito com a fúria de quem não teve colo e decidiu que não precisaria de nenhum.


Mas o corpo, o corpo é mais sábio que a vontade.


O corpo dele lembra o que a mente esqueceu. Lembra o frio, o vazio, o instante em que ele percebeu que o mundo não vinha salvar ninguém. Lembra a sensação de ser pequeno num quarto grande, sem voz, sem vez, sem braços.


Então ele fez dos braços uma fortaleza.


Protegeu-se com cordas, com equipamentos, com a certeza de que a segurança é uma coisa que se constrói. Ele não confiava no amor. Confiava no nó. Confiava na ancoragem. Confiava no que podia ver, tocar, testar.


Até que Ela chegou.


E ela, ela não era um nó. Ela era uma pergunta. Uma pergunta que não tinha resposta técnica. Uma pergunta que pedia algo que ele não sabia dar: a presença sem ação. O silêncio sem solução.


Ele a amava. Amava com uma intensidade que o assustava. Porque amar, para ele, era o prenúncio da perda. Cada vez que ele se entregava, o corpo lembrava: "isso vai acabar. tudo acaba. tudo foi embora."


E ele se preparava para o fim antes mesmo do começo.


Não porque quisesse. Mas porque a vida, a vida lhe ensinou que o amor é uma coisa que se vai. Que o colo que a gente encontra pode ser arrancado. Que a pessoa que a gente ama pode simplesmente... não estar mais.


Então ele segurava com força demais. Segurava como quem segura a própria existência. Porque, para ele, a existência sempre foi uma corda que ele mesmo amarrou. E ele não confiava que outra pessoa pudesse segurar a outra ponta.


Ela pedia que ele soltasse um pouco. Que confiasse. Que se permitisse cair.


Mas ele, coitado, ele olhava para o abismo e via todas as quedas que já teve. Via o instante em que o chão sumiu. Via o silêncio que não respondeu. Via a mão que se soltou.


Ele não podia cair de novo. Não ia sobreviver a outra queda.


Então ele ficou na borda. Ofereceu a mão, mas não deu o salto. Ofereceu a presença, mas não a alma. Ofereceu o corpo, mas não o coração inteiro.


Ela sentia a distância. Ela sentia que ele estava ali, mas não completamente. Que ele a amava, mas com um pé na porta, sempre pronto para ir embora antes que ela fosse.


E ele, ele não sabia que essa distância era a maior das perdas. Que, ao se preparar para a partida, ele já estava partindo.


Ele pensava que amar era proteger-se. Mas amar, amar é desproteger-se. É deixar que o outro veja o que ninguém viu. É confiar que, mesmo vendo tudo, o outro vai ficar.


Ele nunca teve a chance de aprender isso. Ninguém lhe ensinou que o amor pode ser um lugar onde a gente descansa. Para ele, o amor sempre foi um lugar onde a gente se prepara para a despedida.


Mas Ela, ela não era uma despedida. Era uma chegada.


E ele, que nunca chegou em lugar nenhum, precisava aprender a ficar.


... coisas sobre Ele

Ela não está errada. Ela não é 'intensa demais'. Ela está pedindo o que qualquer pessoa merece: ser vista, ser ouvida, ser acompanhada.


Mas agora Ela sabe que Ele não está se recusando a lhe dar isso por maldade. Ele está preso numa armadura que ele construiu para sobreviver.


E Ela sabe que isso não significa que deva aceitar menos. Significa que, se quiser continuar, vai precisar de paciência com limites; conversas francas sem a obrigação de ensinar sempre...


... e, acima de tudo, Ela precisa saber que pode amá-lo e ainda assim não conseguir ficar. Isso não é traição. É lucidez.


... coisas sobre Ela

Ele está disposto a aprender a amar de um jeito que ele nunca aprendeu?


Ela está disposta a esperar enquanto ele aprende — sem se perder no processo?


Se a resposta for sim para ambos, há futuro.


Se for não para qualquer um dos dois, o amor não será suficiente.


Porque amor, sozinho, nunca é suficiente. O que sustenta o amor é a coragem de mudar.


... coisas sobre Ela e Ele

Ele não sabe que o amor é a única coisa que não se perde quando a gente se entrega. O que se perde, quando a gente se fecha, é a chance de ser inteiro. E ele, ele merece ser inteiro.


É o que Ela acredita.

Ele construiu uma vida inteira sendo forte. Ele salva pessoas. Ele segurou o mundo com as mãos.


Mas o que ele está aprendendo agora é que o amor não é um resgate. O amor é um lugar onde a gente pode finalmente descansar.


Ele nunca teve um lugar assim. Não na infância. Não na vida.


Mas Ela está te oferecendo esse lugar. E ela não está pedindo que Ele seja perfeito. Ela está pedindo que apenas tente.


Que Ele se permita. Não para agradá-la, mas para e por Ele mesmo. Simplesmente porque merece saber o que é ser amado sem precisar segurar o mundo com as mãos.


... mas talvez Ele só não queira mesmo. Talvez, não com Ela.




... coisas sobre Ele

"Ele não podia cair de novo. Não ia sobreviver a outra queda.


Então ele ficou na borda. Ofereceu a mão, mas não deu o salto. Ofereceu a presença, mas não a alma. Ofereceu o corpo, mas não o coração inteiro.


Ela sentia a distância. Ela sentia que ele estava ali, mas não completamente. Que ele a amava, mas com um pé na porta, sempre pronto para ir embora antes que ela fosse.


E ele, ele não sabia que essa distância era a maior das perdas. Que, ao se preparar para a partida, ele já estava partindo".

A sinceridade d'Ele chegou bagunçada, como um quarto que ninguém arrumou há dias. E Ela não pediu que ele arrumasse — Ela disse: "senta comigo aqui no meio da bagunça que a gente vai arrumando juntos.


E um novo capítulo se inicia para Eles.




... coisas sobre Ele e Ela