Um dos personagens mais célebres e acarinhados do folclore brasileiro, o Saci também é conhecido como Saci-Pererê ou Matimpererê, entre outros nomes.

Famoso pelas travessuras, rajadas de vento e assovios, o jovem caminha numa perna só e pode ser encarado como uma figura divertida ou aterradora, dependendo da versão da história.

A história do Saci-Pererê

O Saci-Pererê é um garoto negro que tem apenas uma perna e se desloca aos pulos, com grande velocidade. Ele fuma cachimbo e usa uma carapuça vermelha que é a fonte de seus poderes sobrenaturais. Segundo a lenda, quem roubar a carapuça do Saci passa a conseguir dominá-lo, já que ele é forçado a cumprir todas as ordens.

Habitando nas matas, o Saci visita as pessoas que moram nessas regiões e muita gente afirma já ter se encontrado com a criatura lendária. Ele pode se escutado, principalmente durante a noite, através de seus assovios e redemoinhos de vento. Por vezes, também monta cavalos, que galopam com rapidez, sobressaltando os humanos.

Saci Pererê na Mata

Quando invade as casas, ele adora fazer travessuras: trançar as crinas dos cavalos, dar nós nos panos de prato, apagar o fogo ou sabotar as receitas, entre outras diabruras próprias de um menino mal-comportado. Habitualmente, as brincadeiras do Saci são apenas jeitos de ocupar o seu tempo e dar umas boas gargalhadas à custa dos seres humanos.

A entidade folclórica também é vista, por vezes, nas estradas e nos caminhos. Em alguns casos, fala com os viajantes, pedindo fogo para acender o seu cachimbo. Noutras situações, porém, o Saci-Pererê assume uma postura ameaçadora e assusta aqueles que se cruzam com ele.

Origens da lenda e suas transformações

A lenda do Saci, assim como várias narrativas presentes no folclore brasileiro, é resultado da convergência de culturas que ocorreu no Brasil, durante o período da colonização.

Segundo aponta Luís da Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, é só entre o final do século XVIII e o início do século XIX que a lenda começa a ser mencionada nas obras de importantes folcloristas nacionais.

No entanto, a figura do Saci já estava presente há muito tempo no sul do Brasil, integrando as crenças de várias populações indígenas da região. Os Tupi-Guaranis foram importantes divulgadores do mito, que foi se espalhando gradualmente pelo resto do país e ganhando novas características.

O seu nome deriva do vocábulo tupi matintape're que está relacionado com o verbo “saltar”, em referência ao modo como o Saci se desloca. Inicialmente, era descrito como um pássaro, conhecido pelo canto que parecia um assovio e pelo jeito de ficar apoiado só numa pata.

Para estas comunidades, a sua aparição significava um encontro com o mundo espiritual ou uma visita dos antepassados que já tinham partido. Com o tempo, o Saci assumiu a forma humana, se tornando num menino com cabelos de fogo.

O enredo que se fixou na nossa memória coletiva revela influências europeias. O seu caráter travesso é semelhante ao de Kodolde, um diabinho alemão que adora pregar peças nos seres humanos.

Seus cabelos de fogo se transformaram numa carapuça vermelha, elemento que tinha uma conotação mágica em várias narrativas do folclore europeu. Em Portugal, falavam sobre um duende noturno chamado Pesadelo, que só poderia ser vencido por aquele que roubasse o objeto sobrenatural.

Finalmente, a lenda passou a ter referências dos contos africanos, trazidas pelos povos que foram escravizados. Assim, o Saci-Pererê se tornou um menino negro e passou a fumar cachimbo, já que o fumo era um elemento comum nas lendas do continente africano.

Representações famosas do Saci

A passagem do tempo popularizou a figura do Saci, que começou a ser representada na literatura, na arte, no cinema, nos videogames, nos quadrinhos, entre outras mídias. O autor Monteiro Lobato, que chegou a conduzir um inquérito nacional sobre o Saci-Pererê, escreveu diversas histórias infantis que incluem o personagem.

Saci-Pererê no programa Sítio do Picapau Amarelo
Saci-Pererê no programa Sítio do Picapau Amarelo.

Além de ser uma presença regular da série literária Sítio do Picapau Amarelo, ele também passou a aparecer da televisão, no programa infantil com o mesmo nome.

Já é em 2020, o Saci regressou “à telinha”, desta vez na série de fantasia Cidade Invisível, da Netlix. A trama criada por Carlos Saldanha veio apresentar o folclore brasileiro ao resto do mundo e se tornou um sucesso internacional imediato.

Encarado com simpatia pelo povo brasileiro, o Saci-Pererê ganhou até um dia comemorativo. Uma das datas que pretendem exaltar a importância das figuras folclóricas, o Dia do Saci é celebrado em 31 de outubro.

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