Galo
O galo não é despertador, é poesia,
Cantando o início de mais um lindo dia.
E o cheiro... ah, o cheiro! Café em brasa,
Se misturando ao perfume que mora na casa.
O bolo de milho, de receita guardada,
Era a ponte doce da vida adoçada.
Mas nada, nada superava o calor
Do abraço da Vó, feito de puro amor.
No colo macio, o tempo parava,
Tudo de ruim ali se apagava.
Saudade que pulsa, lembrança que fica,
Daquele tempo onde a vida era rica.
Este é um recado para o ser humano que acorda mal humorado, procure aprender com o galo que canta para agradecer, se alegra mesmo antes do dia amanhecer.
Deserta
Era madrugada, não tão tarde, o galo já anunciava o clarão de um novo dia...
Era na verdade já alta a alvorada, falando
sozinha, como é o meu costume, amando
o deserto que havia na estrada deserta.
Eu empolgada, fugi desbravando lugares,
a minha alma inquieta, querendo chegar
sem saber aonde, antes de mim. Enquanto
ela se agoniava, eu sorria dizendo - Calma
que hoje você não vai me trazer nostalgia.
O Canto do Galo e a hora sagrada.
Na sombra fria rompeu a alvorada,
Cantou o galo à terra consternada;
E Pedro, a face em pranto consumida,
Viu sua fé por si mesma ferida.
Negou três vezes o Mestre querido,
Com voz de medo e coração vencido;
Mas cada som do galo anunciava
A luz que a culpa em lágrimas lavava.
O céu calou... Jesus não o ferira;
Somente o olhou com santa e doce lira.
Naquele olhar, sem ira nem censura,
Nasceu a flor da eterna compostura.
Cantou o galo. O mundo estremeceu.
O homem caiu... mas Deus não o esqueceu.
Quem chora o erro, ao bem torna outra vez,
Pois a humildade é filha da altivez.
Ó galo humilde, arauto da verdade,
Que despertaste a humana enfermidade,
Teu canto foi mais forte que o açoite,
Rasgando em luz a escuridão da noite.
Pedro caiu para melhor subir;
Quem sabe amar também sabe carpir.
E o Cristo, manso, ao ver sua aflição,
Fez do remorso um hino ao coração.
Assim, quando o pecado nos alcançar,
Que o galo torne em nós a despertar;
Porque a alma que aprende a se curvar
É a mesma que Deus torna a levantar.
Véspera de Ano Novo em Rodeio
O galo canta antes do Sol raiar,
o Ano Novo está dando
os primeiros sinais em mim,
A passarada começou a cantar
para a nossa cidade de Rodeio
no Médio Vale do Itajaí,
Nesta véspera de Ano Novo
desejo para mim e para ti
a tranquilidade para seguir adiante
para viver esta vida como quem
escreve um grande romance
e que nunca nos falte disposição
para não desistir de ser feliz.
Fui para Marajó logo ali
na Cachoeira do Arari,
O Cordão do Galo junto
com as crianças passaram
dançando e cantando,
Surpreendente você chegou
envolvendo e encantando,
Foi daí que me dei conta
que encontrei o Sol de amor,
que perdidamente me apaixonei
o meu melhor entreguei,
e é com contigo que eu estou,
e de ti não mais regressarei.
O Sol se pôs e a Lua se ergueu,
foi no Galo da Madrugada
que o amor para nós aconteceu
numa noite estrelada --
O mundo parecia que parou,
e no final era só você e eu.
Romperam o silêncio o galo cantando,
os passarinhos no meio da mata,
e o sino da Igreja Matriz São Francisco,
com a sua forte e contagiante badalada,
chamando a nossa vontade indomada.
A neblina repousando com o seu véu
de fada bem no meio da madrugada,
acordando lenta neste silêncio em Rodeio
dos jogos de poder e dos circos de horrores,
dos ruídos e das cortinas de fumaça.
Não se esqueça jamais de que aberrações
são criadas para rotular negativamente:
fraturar as sociedades, justificar tutelas
para desviar o foco do que realmente importa,
secar oceanos e acabar com florestas.
O que é de poesia e da sinuosidade
do Médio Vale do Itajaí dialoga por mim,
e, de certa forma, também por ti;
não podemos falar demais,
nós podemos dialogar com sonhos,
e ler silenciosamente lábios e olhos.
São 3 da manhã. Estou sentado à mesa da minha avó. As 2:45 o galo da Camila cantou. Estranhei o horário. Por que cantaria tão cedo? Mais cedo estive triste, minha tristeza se prolongou e eu estou sofrendo tão tarde… tão tarde, estou dizendo, mas talvez o tempo não seja lá questão alguma. Talvez, o sofrimento de que falo é que não saiba ver datas e as horas, mas ainda suspeito desse galo.
3390 📜 Se não foi o despertador nem as trovoadas lá fora nem o canto do galo nem alguém nos chamando, é mesmo correto isso de 'Acordarmo-nos'. Não é? Poizé!
O ENIGMA
Como uma canção que soa ao vento,
Ouço a cantiga enrouquecida de um galo.
De longe, avisto a paisagem patética, como um vão.
É como se alguma coisa parasse no tempo.
Uma estrada pedregulhada eu avisto, e caminho sem parar, sem nada ver.
Aquela paisagem vai chegando ou eu...
Que chego com ela?
Um cachorro magro me late. Em pouco,
A vista me parece escura, o enigma continua.
Chegarei ali, um dia? Talvez, um dia!
Um dia...
O Galo
Impotência, inutilidade, medo, pequenez. Chame como quiser. A verdade, é que as palavras jamais conseguirão expressar com exata precisão o que eu sinto ao ver aquilo. O que? Um galpão. Um imenso, fedorento e decadente galpão. Milhares de olhos tristes emolduram os rostos grandes. Bolas negras de inocência dilaceram meu coração em bilhões de pedaços. São os olhos da carne. É a comida demonstrando sentimentos adversos, tentando impor, de forma inútil, a vida que nunca lhes pertenceram.
O que acontecerá depois de hoje? A quem pertencerão?
Um futuro incerto, recheado de crescimento econômico está sendo pactuado em contratos legais de compra e venda. Eles não são animais, são coisas. Bens que nos pertencem e podem ser vendidos, assassinados, comidos ou amados. Nas jaulas frias, flashs de câmeras fotográficas inibem uma psique descontrolada. O bico frenético do galo negro morde, com demasiada ansiedade, meus dedos trêmulos.
“Você vai ficar bem”, tento dizer de forma inútil, enquanto percebo a mentira que escorre pela minha fina linha de voz. Falo como um sopro. As lágrimas me veem aos olhos, transformando diversos sentimentos em uma gota de agua palpável, a matéria da minha subjetividade não compreendida. O galo tem o olho esquerdo machucado, as patas são enormes, o corpo beira o absurdo. Hormônios. O animal foi vendido por quinhentos reais, as placas indicam que ele é o vencedor no quesito de reprodução de matrizes. Misturar raças e rações é o segredo para essa geração de aves mutantes. Claro, precisamos de galinhas fortes, recheadas com proteínas induzidas para nos dar alguma dose de energia. Mas ele não sabe, não percebe. Seu instinto diz que precisa reproduzir, seu corpo pede por comida, seus olhos ardem. O estresse diminui sua produtividade como galo. Meu Deus, será que o galo sabe que é galo? Acho que não. Está perdido na escola do professor Xavier para super dotados. O galo é um super galo. O galo me bica, pra tentar impor sua grandiosidade. O galo é apenas o galo que engole medalhas pela garganta e, ainda assim, não deixa de ser galo. Mas eu, a garota de fora que esconde o choro, sei que ele é apenas um galo que foi induzido a ser, literalmente, grandioso.
Vou embora, me despedindo daquele ser perturbado. Dobro à direita e encontro mais jaulas. Gaiolas pequenas enfestadas de animais sensíveis de pelugem branca reluzente. Eles são os melhores no quesito de pelugem, os melhores no quesito de carne, os melhores no quesito de venda. São coelhos. As orelhas pontiagudas saem por fora dos buracos minúsculos, os flashs desafiam a capacidade visual dos animais, induzindo-os a um estado de torpor. Os corpos trêmulos demonstram fragilidade. As placas brancas de madeira rústica, demonstram preços. Eles são separados de acordo com seus quesitos mais impressionantes. Crianças se amontoam à minha frente, com os dedos pequeníssimos a tocar-lhes o pelo premiado. Mães sorriem, tiram fotos, explicam a vida do ser que está enjaulado como algo banal, um destino certo, uma beleza que está ali para ser vista e depois esquecida. Nada de nos aprofundarmos. Corações tão rasos quanto seus interesses. Eles são a base sólida de um mundo já corrompido, a ignorância em massa que carregará para sempre os mais aptos nos ombros. A ignorância que alimenta a violência, que educa com cegueira, que vive em vão, que morre sem orgulhos.
Ao lado, uma loja de roupas vende casacos de pele, paralelo a uma loja de filhotes de chinchila. Mais fotos, mais crianças. O peso de não se ser ignorante em uma terra enfestada de burrice. Tento sair dali, trancar minha respiração, fechar meus olhos. Temo não suportar o abismo que se abre em frente aos meus passos febris. Mas suporto. Suporto o suficiente para chegar até o galpão ao lado, onde o meu principal destino se encontra: os bovinos.
Nada de jaulas, nada de flashs. Aqui, há somente vacas, bois e cheiro de estrume. Placas enormes indicam os melhores matadouros, a melhor vaca para alimento, o melhor touro para reprodução. Cartazes esplendorosos exibem, com certa soberba, o orgulho de um boi em especial. Não lembro com exatidão o nome dele, mas sei que era muito, muito especial. Seu Sêmen foi vendido para dois continentes. Sua espécie, sua raça, ou sei lá o que, eram do mais alto escalão de linhagem bovina. Se você quer carne macia e animais dóceis, venha até mim. Se você quer animais submissos e uma linhagem mais rápida, venha até mim. Meu boi é o melhor e maior reprodutor do mundo. Venha até mim.
Eu vou.
Vou até o boi de quem tanto falam e não vejo nada além de um boi. O boi que, de tanto ser exaltado como boi, também pode se ter esquecido de que era boi. Mas eu... Ah, eu sabia que ele era um boi. Ele não me vê, estava ocupado demais regurgitando aveia. Mas eu estava lá. E eu via. O tamanho anormal, o pelo excessivamente penteado. O principal objeto de consumo, a melhor propaganda possível do objeto mais caro. O capitalismo agindo na sua forma mais pura para manipular a pecuária de que tanto dependemos. Continuo olhando e vejo apenas um boi. Um boi lotado de compromissos, fotos, folders, medalhas, filhos e linhagens inteiras de comida. Ao lado, mais bois. Todos os tipos de bois. Não conheço raças nem nada, mas sei distinguir cores. Bois brancos, bois marrons, bois pretos. Todo tipo de boi. E todos os bois que eu vi, devolviam o olhar meio incerto. O destino que nada lhes trazia, a compaixão que não lhes era devida. Olhos tristes. Bolas negras, repletas de mistérios e amores não percebidos. Bolas negras que continuavam a perfurar meu coração.
Será que o galo sabia que era galo ou apenas se convencia do contrário?
Por que estou começando a perceber falhas na minha identidade que não condizem comigo mesma. E, talvez, também ache que sou um galo. Na minha fraqueza, na minha pequenez. A indústria que consome meu dinheiro, de forma indireta. A pecuária que me engole pelas pernas contra a minha vontade. O mundo gira, enquanto acho que sou galo. E, nesses giros em descompasso, me perco numa identidade já não tão natural. Sou um galo que não se reconhece como galo, e, talvez por isso, me intitule como humana.
VIDA DE PEÃO I
Vem raiando o dia, a aurora a despontar
Desperta o galo “campina”. é hora de levantar
Calço as “butina inda suja”, da noite passada
E tomo um preto selvagem,
pra encarar a alvorada.
Vida de peão rotineiro, e batalhador
Enfrenta solos agrestes deste interior
Lamenta o cheiro brejeiro que ficou pra trás
E um gosto de um beijo ardente
Do seu grande amor.
Um grito grosso de um berrante acende
Na madrugada ao alazão surpreende
A energia solta e leve na brisa
Essa paixão desse peão ameniza
Antes que venha a noite, vê os amigos
Conta estórias, relembra os perigos
As voltas dadas ao redor deste mundo
E os desafios dos oito segundos.
Com seu chapéu trinta x é agora
Olhar do touro diz que esta é a hora
E na arena aquela que o desprezou
Tão linda ainda faz lembrar uma flor
Momentos duros de pura emoção
O velho amor martela o coração
e desligado do rodeio é o fim
quando sem pena o boi derruba o peão.
O galo a cantar...a prenunciar...O Juízo iminente e a necessidade de nossa vigilância, súplicas e orações; para que não estejamos dormindo, o sono da morte; e sejamos supreendidos com a volta do nosso Supremo Redentor, já batendo na nossa porta!
Estava estupidamente alterado cantando de galo, catando seus grilos de meia idade, colhendo os seus gritos de profusão. Pensando... Aonde tinha deixado os seus bordões e as suas facetas. As suas barganhas e as suas gargalhadas cuspidas. Pensando no que se transformou. Estava parado com o seu relógio de pulso de meio século passado, exorcizado pelo tanto de merdas, ironizado pela sua falsidade verdadeira de se furar e golfar sangue em sua nova ferida de uma carne mal passada. Destruindo e matando qualquer coisa, qualquer coisa que pairasse em seu alterado canto de galo.
- Relacionados
- Canto do Galo
