De Repente Nao mais que Derepente

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Aula de piano

Depois do almoço na sala vazia
A mãe subia pra se recostar
E no passado que a sala escondia
A menininha ficava a esperar
O professor de piano chegava
E começava uma nova lição
E a menininha, tão bonitinha
Enchia a casa feito um clarim
Abria o peito, mandava brasa
E solfejava assim:

Ai, ai, ai
Lá, sol, fá, mi, ré
Tira a não daí
Dó, dó, ré, dó, si
Aqui não dá pé
Mi, mi, fá, mi, ré
E agora o sol, fá
Pra lição acabar

Diz o refrão quem não chora não mama
Veio o sucesso e a consagração
Que finalmente deitaram na fama
Tendo atingido a total perfeição
Nunca se viu tanta variedade
A quatro mãos em concertos de amor
Mas na verdade tinham saudade
De quando ele era seu professor
E quando ela, menina e bela
Abria o berrador
Ai, ai, ai,
Lá, sol, fá, mi, ré

Vinicius de Moraes
Álbum "A arca de noé"

Nota: Música composta por Vinicius de Moraes e Toquinho

...Mais

Os anos enrugam a pele, mas viver sem entusiasmo enruga a alma.

Dedicatória:
Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.

E, DE REPENTE, CINQUENTA!

E, de repente,
Um susto!
A idade,
Sem avisar,
Veio
Chegando
Pra ficar,
Trazendo,
Em sua bagagem,
A fadiga
De uma viagem,
Mas trazendo,
Também, a alegria
De viver bem
Cada dia.

E, de repente,
Chegou!
A idade
Em mim
Se instalou,
Tentou fazer
De refém
Quem viveu
Plena
E além,
Além do que foi
Combinado
Ou do que era
Esperado.

Sem aviso,
Ou retardo,
A idade
Me alcançou,
Chegou-me
Bem,
Sutilmente
E invadiu
Minha mente,
Fazendo-me
Refletir
Na vida
Que eu vivi,
Vivendo
Intensamente
Tudo o que quis
Corpo e mente.

E, de repente,
Cinquenta!

Nem tudo
Primavera,
Também
Nem tudo
Quimera.
Cinquenta
Anos chegados
Com histórias
De assombro
E de agrado.
Cinquenta
Tons
Diferentes
Me tornaram
Quem sou
Realmente:
Uma mulher
Que é de fibra
E que aceita
O que lhe traz
A vida!

Agora
Já não é mais,
Já não é
Mais
De repente!
Agora são
Cinquenta anos
De espírito,
De corpo
E de mente!

Cinquenta anos
Chegou!
Os cinquenta
A mim
Me alcançou.
Domou
Por inteiro,
Completo
Este meu
Corpo inquieto.

Seja bem vindo,
Cinquenta!
Chegue e
Fique à vontade!
Te recebo
Com toda
A alegria
Que bem
Me trouxe
A idade.
Faça de mim
Tua casa
E me habite,
Como deve ser.
Te dei a
Prerrogativa
De fazer bem
Meu viver!

Saiba, porém,
De antemão,
Que sei bem
Como a ti
Receber,
Que também,
Nesta idade
Que chega,
Vou fazer
E acontecer,
E te aviso,
Com antecedência,
Pra não te pegar
De surpresa,
Que por mais
Cinquenta
Eu espero,
Pra viver
Com toda
A grandeza 🙏🏻🙏🏻🙏🏻!

Nara Minervino

Inserida por NaraMinervino

Não se faz nada de grande sem fanatismo.

O que é absurdo, e que não é, pode ser apenas uma questão de perspectiva.

Por vezes a curiosidade abre novos horizontes, quando não, acende a chama do entusiasmo para procurá-los.

Professores de grego são pessoas privilegiadas: poucos deles sabem grego e, os que sabem, não sabem mais nada.

O homem dá a vida pelo amor, e julga não ter dado nada.

Ninguém sobe tão alto como quem não sabe para onde vai.

É, sem dúvida, próprio do homem enganar-se na escolha das companhias, mas também o é não dar facilmente o braço a torcer.

Um sistema de legislação é sempre impotente se, paralelamente, não se criar um sistema de educação.

O difícil, vocês sabem, não é fácil...

Caso você não se programe, será programado pelos outros.

Nas ditaduras, a frase, famosa, de Descartes, mudou para «Existo, logo não penso».

Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

A calúnia é como uma moeda falsa: muitos que não gostariam de a ter emitido, fazem-na circular sem escrúpulos.

A um amigo não deves ofender nem a brincar.

Não me digas que este problema é difícil; se não fosse difícil não seria um problema.

A mulher raras vezes entende que amá-la eternamente não significa amá-la sem interrupção durante todo esse tempo.