Coleção pessoal de silasoliveira13
“Quando a Noite Esquece as Estrelas”
Há momentos em que a vida apaga o céu.
Não necessariamente porque tudo terminou, mas porque nossos olhos, cansados de procurar respostas, já não conseguem distinguir as estrelas.
É então que descobrimos uma verdade incômoda: quase nunca sabemos o quanto dependemos de uma luz até caminharmos pela escuridão.
Passamos boa parte da existência acreditando que somos suficientes. Construímos certezas, defendemos nossa independência, levantamos muros em torno das fragilidades e chamamos isso de força. Mas basta uma ausência, uma distância inesperada, uma noite um pouco mais longa, e percebemos que havia alguém iluminando silenciosamente partes de nós que jamais soubemos iluminar sozinhos.
Talvez seja isso que significa ter uma luz que nos guia.
Não é alguém que conhece o caminho inteiro. Não é alguém que possui todas as respostas.
É simplesmente uma presença diante da qual ainda conseguimos acreditar que existe uma manhã depois da noite.
E existem noites terríveis.
Noites em que voltamos para nós mesmos quebrados, envergonhados pelas escolhas que fizemos, carregando nas mãos os pedaços daquilo que jurávamos ser. Nessas horas, não precisamos necessariamente de alguém que nos salve. Precisamos de alguém que permaneça. Alguém que consiga olhar para nossas ruínas sem confundi-las com aquilo que somos.
Porque o ser humano não é apenas aquilo que conseguiu preservar.
Também somos aquilo que tentamos reconstruir.
Talvez por isso amar seja uma das formas mais difíceis de coragem. Amar alguém é saber que um dia a distância poderá chegar. É compreender que nenhuma promessa consegue impedir completamente a perda. É colocar alguma coisa preciosa demais sobre a mesa sabendo que a vida não oferece garantias.
E, mesmo assim, colocar.
Mas existe também uma advertência silenciosa nisso tudo: não podemos atravessar a existência de braços cruzados esperando que outra pessoa faça nascer o nosso amanhecer. Uma luz pode indicar o caminho, mas nossos pés ainda precisam caminhar.
Há uma espécie de cegueira que não nasce da escuridão, mas da desistência.
Quando paramos de procurar.
Quando deixamos de perguntar.
Quando aceitamos viver apenas daquilo que já sabemos.
Por isso precisamos continuar descobrindo alguma verdade nova, mesmo depois de tantas decepções. Precisamos conservar alguma capacidade de espanto. Talvez envelhecer verdadeiramente não seja acumular anos, mas perder a capacidade de ainda se maravilhar diante de alguém, de uma ideia, de uma manhã ou da possibilidade de começar novamente.
E talvez algumas pessoas atravessem nossa vida justamente para nos lembrar disso.
Elas não eliminam a noite.
Não afastam todas as tempestades.
Não prometem que voltaremos inteiros.
Apenas deixam uma pequena claridade acesa dentro de nós.
E quando tudo parece distante, quando nenhuma estrela permanece visível e quando o mundo inteiro parece ter esquecido o caminho de casa, compreendemos finalmente:
há luzes que enxergamos com os olhos.
E existem aquelas que só reconhecemos depois que o mundo escurece.
São essas que levamos conosco.
Porque algumas pessoas não iluminam simplesmente o nosso caminho.
Elas nos ensinam que, mesmo perdidos na noite, ainda existe dentro de nós alguma coisa procurando pelo amanhecer.
“Amar Não Foi Minha Culpa”
Há amores que terminam deixando saudade. Outros deixam perguntas.
E talvez as perguntas sejam mais difíceis de carregar, porque a saudade aprende a envelhecer conosco, enquanto uma pergunta sem resposta continua batendo à porta da consciência.
Onde estava a minha culpa?
Foi ter amado demais?
Foi ter chegado sem armadura, colocado o coração sobre a mesa e acreditado que sinceridade seria suficiente?
Porque existe uma estranha crueldade em certos encontros: alguém deseja nossa presença, mas recusa nosso afeto. Quer nossa atenção, mas teme nossa profundidade. Aproxima-se para sentir o calor e depois se afasta quando percebe que o fogo também ilumina aquilo que preferia esconder.
E quem amou fica procurando o próprio crime.
Revira palavras.
Reconstrói noites.
Interroga silêncios.
Procura naquela página branca da memória alguma frase que explique por que aquilo que parecia tão inteiro acabou deixando apenas espaços vazios.
Mas amar profundamente não deveria ser uma confissão de culpa.
O erro talvez não esteja na intensidade do sentimento, mas na ilusão de que todo amor oferecido encontrará do outro lado alguém disposto a recebê-lo com a mesma coragem.
Podemos entregar o corpo sem entregar a alma.
Podemos dividir uma cama sem dividir a verdade.
Podemos pronunciar palavras de amor enquanto escondemos de nós mesmos aquilo que realmente sentimos.
É por isso que a intimidade mais difícil não acontece quando dois corpos se aproximam. Acontece quando duas pessoas conseguem permanecer diante uma da outra sem máscaras.
E poucos suportam essa nudez.
Há quem prefira perder um grande amor a ser obrigado a olhar profundamente para si mesmo.
Então chega o dia em que precisamos parar de perguntar apenas por que alguém foi embora e começar a perguntar quem nos tornamos tentando fazê-lo ficar.
Talvez seja aí que a dor comece a se transformar em consciência.
Não quero uma verdade confortável.
Quero a verdade inteira.
Mesmo que doa.
Mesmo que destrua aquilo em que acreditei.
Mesmo que me obrigue a atravessar sozinho lugares que imaginei atravessar acompanhado.
Porque uma mentira pode oferecer abrigo por algum tempo, mas somente a verdade nos devolve a nós mesmos.
Por isso, se um dia você me mostrar onde ela está, eu caminharei em sua direção.
Não porque ainda espere recuperar aquilo que perdemos, mas porque compreendi que há algo maior do que permanecer ao lado de alguém:
permanecer inteiro diante de si mesmo.
E se ainda me perguntarem onde esteve minha culpa, talvez finalmente eu saiba responder.
Minha culpa não foi amar.
Talvez tenha sido acreditar que amar com todo o coração obrigaria outro coração a fazer o mesmo.
E essa é uma das verdades mais difíceis da existência:
o amor pode ser inteiro dentro de nós e, ainda assim, não ser suficiente para fazer duas pessoas permanecerem.
“A Parte de Mim Que Ninguém Domou”.
Há coisas que não aprendemos. Nascem conosco.
Correm no sangue, misturam-se à água que bebemos, escondem-se em algum lugar profundo onde ninguém consegue chegar para nos dizer quem devemos ser.
Tentaram me ensinar a caber.
A diminuir meus sonhos, moderar meus excessos, domesticar minhas vontades. Disseram que amar também era ceder, que viver ao lado de alguém exigia abandonar algumas partes de nós pelo caminho.
E talvez seja verdade.
Mas ninguém deveria precisar desaparecer para permanecer.
Durante muito tempo, encontrei abrigo onde acreditava estar protegido do mundo. Ali, entre certezas aparentemente indestrutíveis, pensei que pudesse descansar. Pensei que finalmente havia encontrado um lugar onde minha alma não precisaria pedir para existir.
Eu tinha uma mente selvagem.
E gostava dela assim.
Gostava daquela parte de mim que ainda sabia se espantar, que atravessava madrugadas imaginando futuros impossíveis, que acreditava que algumas pessoas poderiam caminhar juntas sem transformar o amor numa gaiola.
Mas o tempo tem uma maneira silenciosa de revelar aquilo que o coração insiste em esconder.
Um dia, acordei na beira de alguma coisa.
Você dormia tranquilamente.
Eu, não.
Você parecia ter todas as respostas.
Eu carregava perguntas demais.
Foi então que compreendi que duas pessoas podem dividir a mesma cama e estar vivendo em mundos completamente diferentes.
Podemos esconder aquilo que não queremos que ninguém descubra.
Podemos fechar as janelas para não ouvir o barulho da rua.
Podemos recolher os pedaços quebrados, colocá-los dentro de uma taça bonita e brindar como se nada tivesse acontecido.
E podemos chamar isso de amor.
Se quisermos.
Mas existe uma pergunta que nenhuma palavra consegue silenciar:
quando foi que amar passou a significar deixar de ser quem éramos?
Talvez o amor verdadeiro não seja aquele que nos doma.
Talvez seja justamente aquele diante do qual podemos permanecer indomáveis e imperfeitos, intensos, inquietos, inteiros.
Porque eu realmente acreditava em um amor sem fim.
Acreditava que nós dois acreditávamos.
E talvez seja essa a parte mais dolorosa de todas:
não descobrir que o amor terminou,
mas descobrir que, enquanto eu ainda acreditava no infinito,
você já havia encontrado o fim.
Quando Aprendemos a Enxergar
Há um momento em que os olhos deixam de servir apenas para ver. É quando aprendemos a ler aquilo que não está escrito, a escutar o que não foi pronunciado e a perceber, por trás das aparências, aquilo que insiste em permanecer escondido.
A arte nos ensina esse olhar.
Quando aprendemos a contemplar uma pintura, atravessar um poema, compreender uma música ou reconhecer o silêncio que existe entre duas palavras, alguma coisa dentro de nós abandona a ignorância. Não porque passamos a saber tudo, mas porque finalmente compreendemos o tamanho daquilo que ainda não sabemos.
E talvez seja essa uma das formas mais bonitas de inteligência: não se deixar seduzir facilmente.
Vivemos num tempo em que uma imagem bem construída pode se vestir de verdade. Uma fotografia manipulada pode fabricar felicidade. Uma frase bonita pode esconder o vazio. Um discurso educado pode carregar intenções que somente o pensamento atento consegue perceber.
Por isso, aprender a interpretar a arte é também aprender a interpretar o mundo.
Quem desenvolve sensibilidade começa a desconfiar das aparências perfeitas. Já não se deslumbra com qualquer fotografia cuidadosamente montada, nem entrega sua consciência às frases prontas que circulam como verdades absolutas. Aprende que nem toda beleza contém profundidade, assim como nem toda simplicidade significa pobreza de espírito.
A verdadeira cultura não deveria nos transformar em pessoas arrogantes. Deveria fazer exatamente o contrário: tornar-nos mais difíceis de enganar e mais humildes diante da complexidade da vida.
Porque estudar não é acumular palavras difíceis para impressionar os outros. Estudar é adquirir liberdade para pensar.
E talvez a arte exista justamente para isso: para arrancar os nossos olhos da superfície e nos ensinar que, entre aquilo que vemos e aquilo que realmente existe, há um território imenso chamado consciência.
A Estranha Fórmula de Existir
Há pessoas que amam as coisas simples como quem encontra nelas uma explicação para a própria vida. Um gesto pequeno, uma palavra despretensiosa, uma presença que permanece quando todas as grandes certezas já partiram.
Ele, porém, amava a si mesmo com uma paixão profunda, quase enraizada. Talvez porque tenha descoberto cedo que existir também exige essa estranha intimidade conosco: somos, ao mesmo tempo, nossa companhia e nosso enigma.
A existência humana parece obedecer a uma fórmula que ninguém consegue resolver inteiramente. Há nela o inevitável, o incompreensível e aquilo que, por mais que tentemos evitar, acaba nos encontrando.
Talvez por isso observemos os outros de maneira tão imperfeita. Julgamos uma vida inteira pela superfície de um instante. Transformamos pessoas em figuras planas, como personagens de uma antiga pintura, sem perceber as profundidades que existem atrás de seus olhos.
E, no entanto, são justamente as coisas aparentemente triviais que denunciam quem somos.
Há quem consiga descascar uma maçã numa única tira, conduzindo a faca lentamente ao redor do fruto sem interromper o movimento. Parece insignificante. Mas talvez viver seja exatamente isso: tentar atravessar os dias sem romper completamente o fio que nos liga a nós mesmos.
Há também pessoas que desaprenderam a sorrir. Não necessariamente porque lhes falte alegria, mas porque alguma coisa dentro delas se tornou pesada demais para alcançar o rosto.
E continuamos.
Amando.
Observando.
Errando.
Escrevendo.
Tentando dar nome ao que talvez nunca tenha nome.
No final da página aparece uma provocação quase irônica sobre a literatura: “Prosa russa, quantos crimes são cometidos em teu nome!”
Talvez seja uma brincadeira. Talvez seja uma acusação. Talvez seja apenas o escritor lembrando que até as palavras, quando pretendem explicar demais a existência, podem cometer seus pequenos crimes.
Porque a vida não nasceu para caber perfeitamente numa frase.
E talvez esteja justamente aí sua beleza:
existimos sem compreender completamente o que significa existir.
A Geografia da Perdição
“Eu não me perdi, mas experimentei a perdição.”
(Clarice Lispector)
Talvez exista uma distância imensa entre perder-se e conhecer a perdição. Quem se perde já não sabe para onde vai. Quem experimenta a perdição, porém, pode saber exatamente onde está e, mesmo assim, caminhar por territórios onde a razão aconselharia não entrar.
Viver também pode ser isso: chegar perto do abismo sem fazer dele morada. Conhecer a noite sem desistir da manhã. Provar o gosto amargo de certas escolhas e compreender, muito depois, que algumas cicatrizes não anunciam derrota; apenas testemunham que atravessamos lugares difíceis e conseguimos regressar.
Existem lugares dentro de nós onde não deveríamos morar.
Às vezes damos voz aos nossos medos, oferecemos cadeira às dúvidas e permitimos que determinadas tristezas permaneçam além do necessário. Há dias em que a esperança parece apenas uma palavra inventada para tornar a existência suportável. E, ainda assim, alguma coisa permanece acesa.
Por isso, talvez a frase seja tão poderosa:
Eu não me perdi.
Experimentei a perdição.
Há uma estranha sabedoria nisso. Quem conheceu suficientemente a escuridão talvez compreenda que a luz não serve apenas para iluminar o caminho ela também nos chama de volta.
A vida não exige que atravessemos o mundo intactos. Talvez exija apenas que, depois de cada tempestade, ainda sejamos capazes de reconhecer o nosso próprio nome.
Porque existem viagens das quais regressamos diferentes.
Há quedas que nos ensinam a dimensão da altura.
Há silêncios que nos devolvem a voz.
E existem perdições que, paradoxalmente, acabam revelando um caminho.
Eu não me perdi.
Apenas fui longe o bastante para descobrir onde, dentro de mim, ainda morava a vontade de voltar.
A Ilusão de Ser Livre
O ser humano pensa que é livre.
E talvez essa seja uma das ilusões mais elegantes que inventamos para suportar a vida.
Acordamos quando queremos desde que o relógio permita.
Trabalhamos onde escolhemos desde que alguém aceite nossa escolha.
Compramos uma casa e chamamos de nossa, mas continuamos pagando para mantê-la, protegê-la e modificá-la dentro de regras que não escrevemos.
Compramos um carro, mas para conduzi-lo precisamos de licença, registro, impostos, seguro e estradas governadas por leis.
Carregamos no bolso um pequeno universo chamado celular e, enquanto acreditamos possuir o mundo na palma da mão, deixamos pelo caminho rastros de onde estivemos, do que procuramos, do que compramos e até daquilo que desejamos.
Então, onde começa a liberdade?
Talvez tenhamos confundido liberdade com possibilidade.
Somos livres para escolher, mas quase nunca somos livres das consequências da escolha.
Somos livres para partir, mas existem fronteiras.
Livres para falar, mas existem responsabilidades.
Livres para possuir, mas existem obrigações.
Livres para sonhar e talvez seja justamente aí que nenhum sistema consiga nos alcançar completamente.
Porque a verdadeira prisão nem sempre possui grades.
Às vezes ela vem disfarçada de rotina.
De necessidade.
De medo.
De dívida.
De hábito.
De uma vida inteira obedecendo sem perguntar por quê.
E talvez a liberdade também não seja viver sem regras. Uma sociedade sem limites pode transformar a liberdade de um na violência contra o outro. O grande dilema humano é muito mais profundo: quanto de nossa liberdade entregamos para conseguirmos viver juntos e quanto entregamos simplesmente porque nos acostumamos a obedecer?
Nascemos dentro de um mundo que já estava pronto.
As fronteiras já estavam desenhadas.
As leis já estavam escritas.
O dinheiro já tinha valor.
O relógio já determinava as horas.
A propriedade já tinha dono.
E alguém já havia decidido que segunda-feira era dia de trabalhar.
Entramos no palco depois que a peça começou e passamos boa parte da existência seguindo um roteiro que não escrevemos.
Mas existe uma liberdade que começa exatamente quando percebemos isso.
É a liberdade da consciência.
Aquela pequena rebelião silenciosa de perguntar:
Por quê? Para quê? Quem decidiu? Precisa realmente ser assim?
Talvez o homem absolutamente livre nunca tenha existido.
Talvez liberdade não seja romper todas as correntes, porque algumas delas são necessárias para que possamos viver uns com os outros.
Mas existe uma diferença imensa entre aceitar conscientemente um limite e passar a vida inteira sem perceber que ele existe.
No fim, talvez ser livre não seja viver sem sistema, sem lei ou sem obrigação.
Talvez ser livre seja algo mais difícil:
conhecer as paredes que nos cercam e, ainda assim, conservar dentro de nós uma porta que ninguém tenha o direito de fechar.
“O Doce Lugar Onde os Livros Moram”
Eu morava em Macabéa, no Beco dos Milagres, e fique sabendo: Meus Passos Vêm de Longe. Talvez venham de um lugar onde os homens aprendem cedo que a vida é maior do que a estrada que conseguem enxergar e que, para atravessar certas distâncias, basta abrir um livro e aceitar o risco de nunca mais voltar sendo o mesmo.
Foi assim que um dia encontrei Dom Quixote. Vi aquele homem magro levantar sua lança contra os moinhos e compreendi que há uma espécie de dignidade reservada aos que ainda ousam lutar contra aquilo que o mundo inteiro já aceitou. Chamaram-no de louco. Talvez fosse. Mas desde então desconfio que algumas loucuras são apenas sonhos que se recusaram a aprender a linguagem da resignação.
Continuei andando.
Entrei no Grande Sertão: Veredas e descobri que o sertão não termina onde acaba a terra seca. O sertão entra no homem. Tem encruzilhadas, medos, demônios e perguntas que nenhuma estrada responde. Foi ali que encontrei também o Burrinho Pedrês e atravessei Campo Geral, percebendo que Guimarães Rosa sabia uma coisa que poucos sabem: até o silêncio de um bicho pode contar a história inteira de um homem.
Mais adiante encontrei Vidas Secas. E aquelas vidas me ensinaram que a fome também possui linguagem, embora quase nunca tenha voz. Vi homens, mulheres, crianças e uma cachorra atravessando uma terra onde até a esperança parecia precisar economizar água. Depois entrei n’O Cortiço e encontrei outro Brasil: apertado, barulhento, desigual, fervendo de desejos, misérias, preconceitos e sobrevivências. Ali compreendi que algumas casas possuem paredes, enquanto outras possuem destinos.
Mas continuei.
Porque meus passos vêm de longe.
Passei pela Memória do Cárcere e descobri que existem grades capazes de prender o corpo sem conseguir aprisionar o pensamento. E foi talvez por isso que, quando encontrei A Rosa do Povo, compreendi que a poesia também pode nascer no meio do concreto, da guerra, do medo e da injustiça. Há rosas que não foram feitas apenas para perfumar. Algumas nascem para incomodar o mundo.
Carreguei comigo O Livro dos Abraços, porque depois de tantas dores precisava acreditar que a humanidade ainda cabia no gesto de dois braços. Mas Eduardo Galeano não me deixou descansar por muito tempo. Abriu diante de mim As Veias Abertas da América Latina, e eu vi um continente belo sangrando através dos séculos: ouro, prata, terra, suor, povos e sonhos atravessados pela cobiça. Percebi então que há feridas que pertencem a uma pessoa e outras que atravessam gerações inteiras.
Foi nessa caminhada que encontrei O Santo e a Porca e aprendi a rir das contradições humanas, porque Ariano Suassuna sabia que até nossa miséria pode carregar graça, esperteza e uma profunda vontade de continuar vivendo. Depois veio A Cabeça do Santo, lembrando-me de que o extraordinário às vezes escolhe justamente os lugares esquecidos para acontecer.
Mas houve um livro diante do qual precisei diminuir os passos.
O Avesso da Pele.
Porque existem histórias que não pedem apenas leitura. Pedem consciência. Há peles sobre as quais o mundo escreveu violências antes mesmo de perguntar o nome de quem as carregava. E quando viramos essa pele pelo avesso, encontramos memória, identidade, amor, ausência e uma humanidade que tantas vezes tentaram reduzir à aparência.
Então compreendi por que havia caminhado tanto.
Eu não estava procurando o final de nenhuma história.
Estava procurando pedaços de mim.
Um pouco de mim ficou com Dom Quixote diante dos moinhos. Outro atravessou as veredas do grande sertão. Uma parte sentiu sede com as Vidas Secas, outra espiou pela janela d’O Cortiço. Fui prisioneiro por algumas páginas na Memória do Cárcere, segurei A Rosa do Povo entre as mãos, recebi O Livro dos Abraços contra o peito e senti correr diante de mim As Veias Abertas da América Latina.
Ri com O Santo e a Porca. Escutei os mistérios d’A Cabeça do Santo. Toquei, com cuidado, O Avesso da Pele. Atravessei Campo Geral ao lado de um Burrinho Pedrês e, depois de tanta terra, tanta gente, tanta dor e tanta beleza, cheguei aos Contos do Mar sem Fim.
Foi quando finalmente entendi:
eu nunca morei apenas numa casa.
Passei por Macabéa e pelo Beco dos Milagres. Cruzei sertões e veredas, conheci o cortiço e senti de perto as paredes do cárcere. Andei entre santos e porcas, colhi rosas, recebi abraços e encontrei homens, bichos, loucos e retirantes pelo caminho.
No fim, descobri que minha verdadeira morada sempre esteve nas páginas.
E fique sabendo, caso algum dia encontre minhas pegadas entre um livro e outro: meus passos vêm de longe.
Vêm de todos os escritores que me emprestaram seus olhos para que eu pudesse enxergar um pouco além dos meus.
Porque existem livros que a gente lê e coloca de volta na estante.
Mas existem outros que fazem justamente o contrário:
abrem a gente,
entram devagar,
e passam o resto da vida morando em nós.
“existem livros que a gente lê… e outros que passam o resto da vida morando em nós”
Enquanto Você Sonha Comigo
Se a noite me rouba o sono
e me faz na cama virar,
talvez seja o teu pensamento
que veio de longe me buscar.
Talvez enquanto estou acordado,
tentando em vão adormecer,
você esteja em algum sonho
procurando por mim sem saber.
E se for verdade esse encanto,
não quero a noite terminar:
prefiro perder algumas horas de sono
só para, em teus sonhos, ficar.
A Coragem de Amar
Amar, nos dias de hoje, exige coragem.
Porque amar é abrir a porta sabendo que alguém poderá conhecer nossos cômodos mais escondidos. É entregar o coração sem contrato, sem garantia, sem saber exatamente o que o amanhã fará de nós.
E eu tive essa coragem.
Amei profundamente. Entreguei corpo e alma.
Criei raízes nesse amor até já não saber onde terminavam as minhas e começavam as nossas.
São trinta e tantos anos dividindo a vida.
Houve dias de sol e dias difíceis. Houve risos, silêncios, abraços e certamente momentos em que permanecer exigiu mais força do que partir. Mas talvez esteja justamente aí uma das verdades do amor: ele não é feito somente daquilo que é bonito. É feito também da temperança que aprendemos quando duas vidas atravessam juntas as imperfeições do tempo.
Amar alguém por tantos anos não significa viver uma história perfeita.
Significa olhar para tudo o que passou e perceber: ainda estamos aqui.
Por isso digo sem vergonha e sem medo:
eu sou corajoso.
Porque me entreguei.
Porque criei raízes.
Porque permiti que alguém conhecesse profundamente quem eu sou.
E, depois de tantos anos, continuo acreditando que amar vale o risco.
Talvez essa seja uma das maiores coragens que um ser humano pode ter:
saber que o amor nos deixa vulneráveis e, mesmo assim, escolher amar.
A Alma Não Conta os Anos
O corpo envelhece.
As mãos mudam, os passos ficam diferentes, o espelho começa a contar histórias que muitas vezes nem percebemos quando estavam acontecendo.
Mas a alma parece não conhecer calendário.
Ela se lembra.
Lembra das coisas que fizemos, dos lugares por onde passamos, das pessoas que amamos e, principalmente, daquilo que um dia nos fez profundamente felizes.
Talvez seja por isso que algumas lembranças permaneçam tão jovens dentro de nós.
Você fecha os olhos e, por alguns segundos, já não tem a idade que o espelho mostra.
Está correndo outra vez.
Está dançando.
Está apaixonado.
Está rindo com aquelas pessoas.
Está vivendo aquela tarde que desapareceu há décadas, mas que dentro de você continua iluminada.
E há também a nossa sombra.
Essa companheira silenciosa que caminhou conosco quando éramos crianças, quando nos tornamos adultos e que continuará ao nosso lado enquanto houver luz suficiente para projetá-la no chão.
Talvez ela seja testemunha de todas as nossas versões.
O corpo pode cansar.
Os cabelos podem embranquecer.
O tempo pode deixar suas marcas.
Mas existem lugares dentro de nós onde ele jamais consegue chegar completamente.
Ali continuam nossas gargalhadas.
Nossos primeiros amores.
Nossas pequenas loucuras.
As músicas que dançamos.
Os abraços que recebemos.
E todas aquelas coisas simples que um dia fizeram a vida parecer infinita.
Por isso envelhecer não significa deixar para trás quem fomos.
Significa carregar conosco todas as pessoas que já fomos.
E talvez, quando estivermos muito velhos, ainda exista dentro daquele corpo cansado alguém fechando os olhos e sorrindo como antigamente.
Porque o corpo aprende a contar os anos.
A alma prefere contar lembranças.
Enquanto o Mundo Passa
Nem sempre dá para falar de amor. Há sentimentos que perdem um pouco da sua verdade quando tentamos transformá-los em palavras. Eu, pelo menos, prefiro viver o amor.
Prefiro sentir. Abraçar demoradamente, como quem encontrou no corpo do outro um lugar onde o tempo não tem pressa. Sentir o teu calor junto ao meu, ouvir o teu coração bater forte e perceber que o meu, quase sem querer, procura o mesmo compasso.
Amar, para mim, é isso: ter sentimentos que não precisam de explicação, sonhos que começam a pertencer a dois, vontades que encontram abrigo na presença de alguém. É querer estar perto sem precisar de motivo. É olhar para você e esquecer, por alguns instantes, que existe alguma coisa além de nós.
Talvez por isso eu não saiba falar de amor como quem conhece sua definição. Eu conheço o amor pelo toque, pelo abraço, pela saudade que nasce antes mesmo da despedida, pelo desejo silencioso de permanecer.
Não quero entender tudo o que sinto. Algumas coisas bonitas demais se desfazem quando tentamos explicá-las.
Quero apenas você perto.
Quero sentir teu coração contra o meu e deixar que eles conversem na linguagem que somente dois apaixonados compreendem.
E enquanto estivermos assim, que o mundo siga o seu caminho, contando suas horas, inventando suas urgências.
Que ele viva.
Que ele passe.
Porque, quando estou com você, não tenho nenhuma pressa de acompanhá-lo.
Eu Te Amo no Silêncio
Eu te amo.
E escolho te amar no silêncio, porque nele meu amor não conhece rejeição.
No silêncio, posso guardar você sem precisar explicar o tamanho do que sinto. Posso dizer seu nome dentro de mim e imaginar todas as palavras que talvez meus lábios jamais tenham coragem de pronunciar.
Prefiro te olhar à distância.
Não porque queira você longe, mas porque de perto seria impossível esconder o que meus olhos certamente entregariam.
Há uma beleza em você que me desarma.
E quando você se aproxima, tudo aquilo que ensaiei esconder perde o sentido. Minha prudência se desfaz, minhas certezas se confundem e meu coração parece esquecer que prometeu permanecer calado.
Por isso fico aqui, nessa distância pequena para os olhos e imensa para quem ama.
Talvez você nunca saiba.
Talvez algum dia perceba.
Mas existe algo estranhamente bonito em amar assim: sem possuir, sem exigir, sem interromper o caminho de quem se ama.
Eu te amo no silêncio porque ali ainda posso ter você sem perder você.
Mas confesso:
há dias em que o silêncio pesa.
Porque todo amor escondido sonha, secretamente, com o instante em que deixará de ser segredo.
E se algum dia você olhar demoradamente para mim, talvez descubra aquilo que minha boca tanto tentou esconder:
eu nunca estive apenas te olhando.
Eu estava te amando.
O Formato da Alma
Às vezes nos esprememos tanto para caber que esquecemos até o formato da nossa alma.
A alma também tem contornos. Tem lugares onde se alarga, desejos onde respira, sonhos onde encontra espaço para existir. É feita das coisas que amamos, das palavras que acreditamos, das delicadezas que guardamos e até das cicatrizes que aprendemos a carregar.
Mas, quando queremos muito pertencer, começamos a dobrá-la.
Dobramos uma vontade para não desagradar. Escondemos uma verdade para não perder alguém. Encolhemos um sonho para não parecer demais. Silenciamos aquilo que sentimos para continuar cabendo.
E a alma vai cedendo.
Um pouco hoje, outro pouco amanhã.
Até que aquilo que era inteiro começa a viver apertado dentro de nós.
Talvez venha daí um cansaço que o sono não resolve. Não é o corpo pedindo descanso. É a alma cansada de passar os dias numa forma que não é a sua.
Porque há lugares em que não precisamos partir para desaparecer.
Desaparecemos ficando.
Ficamos tanto tempo tentando caber que, quando finalmente conseguimos, já quase não estamos lá.
Mas nem todo lugar foi feito para nos receber.
E não caber não significa ser grande demais, difícil demais ou errado demais. Às vezes significa apenas que aquele espaço nunca teve o tamanho da nossa alma.
Talvez partir, então, não seja desistência.
Talvez seja desdobrar-se.
Devolver à alma cada parte que escondemos, cada sonho que diminuímos, cada verdade que calamos. E permitir que ela, depois de tanto tempo encolhida, volte lentamente ao seu formato original.
Porque existem lugares onde não precisamos diminuir nada para permanecer.
Lugares onde a alma pode chegar inteira.
E talvez pertencer seja exatamente isso:
encontrar onde podemos existir sem precisar desaparecer.
Ainda Bem Que Acordei a Tempo
Há uma canção interpretada por Ney Matogrosso que começa com uma imagem que sempre me impressionou: alguém tem um pesadelo e consegue acordar a tempo.
Hoje fui eu quem teve esse pesadelo.
Sonhei que você estava indo embora.
E naquele instante senti um vazio que não sabia que existia dentro de mim. Vieram sentimentos estranhos, medos que nunca havia experimentado, uma angústia quase sem sentido.
Sem sentido?
Não.
Hoje eu sei que não.
É que me acostumei com você.
Mas não esse acostumar que transforma alguém em rotina e faz sua presença perder o encanto. É justamente o contrário. Acostumei-me a ter você tão profundamente perto de mim que sua existência começou a fazer parte da minha própria maneira de existir.
Você está nos meus pensamentos.
Está naquilo que escrevo, naquilo que sinto, nas decisões que tomo e até nas coisas que observo quando caminho sozinho.
Você se tornou inspiração.
Tornou-se uma espécie de luz nos caminhos que ainda não sei percorrer.
Talvez você nem perceba.
Talvez nem goste de tudo aquilo que escrevo para você. Talvez algumas das minhas palavras pareçam exageradas e alguns dos meus sentimentos grandes demais. E quando tento transformar esse carinho em gestos, você quase nunca aceita.
Então encontrei outro jeito.
Eu escrevo.
Escrevo porque o papel não recua quando meu coração se aproxima.
Escrevo porque existem sentimentos que minhas mãos não conseguem entregar, mas minhas palavras conseguem alcançar.
Escrevo porque, quando não posso colocar alguma coisa diante de você, coloco um pedaço de mim numa frase e deixo ali.
Talvez seja essa a maneira que encontrei de amar você sem invadir o seu espaço: transformando sentimento em palavra.
Por isso aquele pesadelo me assustou tanto.
Não foi simplesmente imaginar você partindo.
Foi imaginar o silêncio que ficaria depois.
Quem estaria nos meus pensamentos?
Para quem eu escreveria aquelas coisas que somente você consegue despertar?
Onde colocaria todas essas palavras que nascem justamente porque você existe?
Então acordei.
E você ainda estava aqui.
Foi quando percebi que alguns pesadelos não chegam para anunciar uma perda. Às vezes, chegam apenas para nos mostrar o tamanho daquilo que temos enquanto ainda temos.
E eu tenho você na minha vida.
Talvez não da maneira que meus sonhos inventam.
Talvez não da maneira que meu coração gostaria algumas vezes.
Mas tenho sua presença, sua importância e tudo aquilo que você desperta em mim.
E isso significa muito.
Por isso, se algum dia você encontrar entre meus papéis tantas palavras falando de amor, não estranhe.
Elas existem porque você existe.
Ainda bem que aquele pesadelo terminou.
Ainda bem que acordei a tempo.
Porque até para transformar um pesadelo em poesia, de algum jeito, eu preciso encontrar você dentro de mim.
Te amo.
Enquanto Durar a Viagem
Hoje parei um pouco para pensar na vida e percebi uma coisa tão simples quanto assustadora: somos passageiros.
Chegamos sem saber exatamente onde começa a nossa viagem e seguimos sem conhecer a última estação. Entre uma coisa e outra existe esse breve intervalo a que chamamos vida.
E como passa rápido.
Talvez rápido demais para tanta coisa que adiamos.
Passamos por lugares bonitos sem olhar pela janela. Encontramos pessoas extraordinárias e nem sempre percebemos os mistérios que carregam. Economizamos abraços, adiamos palavras, escondemos sentimentos como se tivéssemos recebido a garantia de que haverá outra oportunidade.
Mas ninguém nos prometeu a próxima parada.
Por isso quero viver diferente.
Se sou passageiro, quero aproveitar todas as estações. Quero olhar pela janela. Quero descer quando alguma coisa bonita chamar minha atenção. Quero conhecer pessoas, ouvir histórias, descobrir mistérios e permitir que a vida ainda consiga me surpreender.
Quero sentir tudo aquilo que tenho direito de sentir.
E quero amar aos extremos.
Não quero economizar “eu te amo” para ocasiões especiais. Se eu amar você hoje, quero dizer hoje. Se sentir vontade de abraçar, quero abraçar. Se você me fizer feliz, quero que saiba. Se eu puder provocar seu sorriso, quero fazê-lo. E se conseguir arrancar de você uma daquelas gargalhadas que fazem esquecer por alguns segundos todas as preocupações do mundo, então alguma coisa deste breve passeio já terá valido a pena.
Porque você é minha companheira nesta passagem.
Não sei quantas estações ainda existem diante de nós. Ninguém sabe.
Mas enquanto estivermos no mesmo caminho, quero fazer da sua presença uma celebração.
Quero que você se divirta.
Quero que viva.
Quero que cada momento tenha a dignidade de ser único, justamente porque jamais voltará a acontecer da mesma maneira.
Talvez seja isso que finalmente estou compreendendo:
não precisamos decifrar completamente o amor para vivê-lo.
Podemos inventar nossa própria maneira de amar bonita, vasta, intensa, imperfeita e verdadeira.
Um dia, inevitavelmente, nossa viagem chegará à última parada.
Mas quando esse dia vier, eu não quero olhar para trás lamentando todos os sentimentos que tive medo de viver.
Quero poder dizer:
eu estive aqui.
Eu senti.
Eu amei.
Eu vivi.
E, durante uma parte preciosa dessa breve e misteriosa viagem, tive a felicidade de ter você sentada ao meu lado.
Asas da Liberdade
Quero ser uma gaivota com plumagem prateada. Planar nesta imensidão, fazer acrobacias e abraçar o mundo com minhas asas. Ir ao encontro da liberdade que espera, ansiosa, por minha chegada.
Alçar o voo mais rasante e incrível que jamais alguém poderia imaginar. Bater as asas sem me importar com o cansaço. Gritar sabendo que alguém me ouviria – e que meu grito soaria como música aos ouvidos de quem me acompanha.
Pousar nas mais infinitas ilhas oceânicas. Dançar ao som do vento e deixar-me levar pela brisa.
Ter o privilégio de contemplar as mais belas paisagens, os desenhos maravilhosos traçados pelas mãos do Senhor do universo – e ainda assim duvidar que tamanha beleza pudesse ter sido projetada.
Voar, voar, voar, e jamais cansar de sobrevoar os mares, ilhas e planícies. Das alturas, veria embarcações deslizando pelos oceanos, seguindo sua rota enquanto o sol desponta assim que a madrugada se despede com um aceno afetuoso.
Ser observada sob olhares investigativos de quem gostaria de estar no meu lugar sobrevoando o céu infinitamente azul. Sentir as nuvens tão próximas quanto o meu próprio coração, que bate acelerado dentro do peito.
Elevar, elevar, declinar; sentir o brilho do farol iluminando a orla; respirar o cheiro da maresia; ouvir o mar batendo nas pedras; admirar o brilho da noite estrelada e a lua com sua magia.
E quando o dia findar, e o sol se pôr deixando o seu rastro dourado, o cenário do entardecer aclamará em coro os suspiros de todos os que o contemplam.
Continuarei voando, voando, voando, até que minhas asas não aguentem mais. Então, pousarei para meu eterno descanso nas ilhas do pacífico.
Rita Padoin
Do Livro "As Musas do Vale"
Encontramos os verdadeiros amigos na medida em que enfrentamos as dificuldades que a vida coloca em nosso caminho.
“O Presságio de Ainda Viver”
A vida é breve, e sabemos disso. Talvez seja justamente essa consciência do efêmero que torne tão urgente a vontade de viver. Não quero atravessar meus dias como quem apenas cumpre uma obrigação silenciosa com o tempo; quero habitá-los, senti-los, experimentá-los até onde minhas possibilidades me permitirem. Trago comigo expectativas, algumas necessárias, outras talvez impossíveis, mas todas nascidas dessa inquietação de quem ainda deseja descobrir o que existe depois da próxima curva.
Hoje trago à vida todas as minhas vontades. Não como exigência arrogante diante do destino, mas como afirmação daquilo que ainda pulsa dentro de mim. Que seja a minha vontade que prevaleça sobre o medo, sobre a hesitação, sobre as conveniências que tantas vezes nos ensinam a desistir antes mesmo de tentar. Durante muito tempo aprendemos a aceitar o inevitável; talvez seja chegada a hora de também aprender a desejar o improvável.
Há em mim pressentimentos que não sei explicar, intuições que aparecem silenciosamente e certos presságios que encontro pelo caminho. Talvez sejam apenas devaneios; talvez sejam o prenúncio de alguma transformação. Não importa. Já não preciso compreender todos os enigmas para continuar caminhando. Algumas respostas somente aparecem depois que temos coragem de viver as perguntas.
A existência é um paradoxo extraordinário: sabemos que somos passageiros e, ainda assim, construímos sonhos como se tivéssemos a eternidade. Amamos sabendo que podemos perder. Começamos sabendo que tudo um dia termina. Guardamos lembranças de momentos efêmeros e descobrimos, com perplexidade, que justamente aquilo que durou tão pouco pode permanecer conosco para sempre.
Por isso não quero desperdiçar meus dias tentando domesticar o inusitado. Quero deixar algum espaço para o acaso, para a surpresa, para aquilo que ainda não possui nome. Quero contemplar uma manhã sem precisar saber como terminará a noite. Quero permitir que a vida me surpreenda e, sobretudo, conservar dentro de mim a capacidade de surpreender a própria vida.
Não desejo uma existência sem melancolia, porque até ela possui sua beleza e sua verdade. Não quero apagar a nostalgia, pois algumas saudades são testemunhas de que verdadeiramente estivemos vivos. Quero apenas que nenhuma delas seja maior que minha vontade de continuar. O passado merece sua morada na memória, mas não lhe darei as chaves do meu futuro.
Há algo de indizível nessa vontade de viver. Talvez porque viver plenamente não possa ser explicado apenas com palavras. É necessário tocar o instante, reconhecer sua sutileza e compreender que cada manhã pode trazer consigo um prenúncio, mas nunca uma garantia. O amanhã continuará sendo um enigma e aceito isso.
Se a vida é breve, que minha presença nela seja intensa. Se o tempo é inevitável, que não encontre em mim apenas resignação. Que encontre curiosidade, desejo, coragem e vontade. Não quero pedir licença ao futuro para desejar aquilo que ainda posso viver.
Hoje, portanto, não faço promessas à eternidade. Faço uma promessa ao instante: enquanto houver caminho, caminharei; enquanto houver desejo, desejarei; enquanto houver alguma coisa capaz de despertar minha perplexidade diante do mundo, continuarei procurando.
E se existir algum presságio nesta manhã, que seja este: ainda há vida diante de mim.
E enquanto houver vida, que prevaleça a minha vontade de vivê-la.
ALGUMAS PESSOAS NÃO FICAM EM NOSSAS VIDAS. FICAM EM NÓS.
Há pessoas que o tempo leva, mas não consegue retirar. Elas deixam de ocupar a cadeira, de atravessar a porta, de telefonar no fim do dia, de perguntar se chegamos bem. Um dia percebemos que já não fazem parte da rotina e, no entanto, estranhamente, continuam fazendo parte de nós. É uma das contradições mais bonitas e dolorosas da existência: alguém pode deixar nossa vida sem conseguir deixar aquilo que somos.
Talvez porque presença e permanência sejam coisas diferentes.
Presença é corpo, voz, abraço, convivência. Permanência é aquilo que sobrevive quando tudo isso já não está.
Há pessoas que permanecem durante décadas ao nosso lado e quase não modificam nossa essência. Outras passam por um pequeno trecho de nossa história e deixam marcas tão profundas que, muitos anos depois, ainda encontramos seus vestígios em nossos pensamentos.
Elas ficam numa palavra que aprendemos.
Num conselho que finalmente compreendemos tarde demais.
Numa música que evitamos ouvir porque conhecemos o caminho que ela percorre até chegar ao coração.
Num prato cujo cheiro devolve uma cozinha inteira à memória.
Num jeito de sorrir que, sem perceber, herdamos.
Num gesto que repetimos e de repente pensamos: “Era exatamente assim que aquela pessoa fazia.”
É então que compreendemos:
ninguém permanece apenas nas fotografias.
As pessoas permanecem também naquilo que modificaram em nós.
Talvez seja essa a forma mais misteriosa de continuidade humana.
Somos feitos não apenas de nós mesmos, mas também dos encontros que tivemos.
Carregamos pedaços daqueles que nos ensinaram alguma coisa, daqueles que nos amaram, daqueles que ferimos, daqueles que nos feriram, daqueles que seguraram nossa mão quando o mundo parecia grande demais.
Até algumas despedidas acabam participando da nossa construção.
Porque há pessoas que nos ensinaram pela presença.
E outras que somente conseguimos compreender depois da ausência.
O tempo passa e faz seu trabalho inevitável. Os rostos envelhecem nas fotografias enquanto permanecem jovens em determinadas lembranças. As vozes começam a perder detalhes. Algumas datas escapam. Certas conversas já não conseguimos reconstruir completamente.
E isso assusta.
Tememos esquecer.
Como se esquecer um detalhe significasse perder novamente aquela pessoa.
Mas talvez a memória mais profunda não esteja na capacidade de recordar exatamente o som de uma voz ou a roupa usada numa determinada tarde.
Talvez esteja naquilo que essa pessoa deixou incorporado em nossa maneira de existir.
Se alguém nos ensinou bondade e continuamos sendo bondosos, alguma coisa dela permanece.
Se alguém nos ensinou coragem e um dia encontramos força justamente quando pensávamos não possuir nenhuma, talvez aquela pessoa ainda esteja ali.
Se fomos profundamente amados e, por causa disso, aprendemos a amar melhor, então aquele amor não terminou quando a presença terminou.
Ele mudou de endereço.
Passou a morar em nós.
E talvez seja por isso que algumas ausências doem tanto.
Não choramos apenas porque alguém foi embora.
Choramos porque alguma parte da nossa própria história caminhava naquela pessoa.
Quando ela parte, parece levar consigo uma língua que somente nós dois falávamos, determinadas piadas que ninguém mais compreenderá da mesma maneira, pequenos rituais, apelidos, olhares e silêncios que nunca precisaram de tradução.
Há universos inteiros que existem somente entre duas pessoas.
Quando uma delas parte, a outra torna-se a última guardiã daquele mundo.
Isso é saudade.
Não apenas desejar alguém de volta.
Mas continuar carregando sozinho um lugar que antes era habitado por dois.
Por isso talvez não devamos lutar tanto contra a saudade.
Ela dói, mas também testemunha.
Diz silenciosamente: “Aqui existiu alguém importante.”
E existe dignidade nisso.
Ter amado alguém suficientemente para sentir sua ausência significa que, por algum tempo, duas existências deixaram de ser completamente separadas.
Uma entrou na história da outra.
E depois disso nenhuma despedida consegue desfazer totalmente o encontro.
A vida continuará.
Novas pessoas chegarão.
Outras também partirão.
Nós mesmos um dia seremos ausência na vida de alguém.
E talvez essa seja uma das perguntas mais profundas que podemos fazer enquanto ainda estamos aqui:
o que ficará de nós dentro daqueles que amamos?
Talvez não sejam nossas conquistas.
Talvez ninguém se lembre de quanto trabalhamos, do que possuímos ou de quantas vezes estivemos certos.
Mas alguém poderá lembrar que fomos gentis quando poderia ter sido diferente.
Que ouvimos quando aquela pessoa precisava falar.
Que oferecemos um abraço numa tarde difícil.
Que fizemos alguém rir quando a vida estava pesada.
Que dissemos “eu te amo” enquanto ainda havia tempo.
E então talvez compreendamos que permanecer nunca significou impedir uma despedida.
Permanecer é deixar alguma coisa boa de nós vivendo no outro.
Porque algumas pessoas realmente não ficam em nossas vidas.
O tempo, a distância, as escolhas e a própria morte podem levá-las para lugares onde nossos braços já não conseguem alcançar.
Mas existem lugares aos quais nem o tempo tem acesso.
E quando alguém conseguiu chegar até lá, quando alguém participou profundamente daquilo que nos tornamos, já não importa apenas quanto tempo permaneceu ao nosso lado.
Porque algumas pessoas vão embora da nossa história cotidiana…
mas continuam escrevendo, silenciosamente, dentro de nós.
