ENTRE PLATÃO, LULA E A JUSTIÇA Tenho... Silasoliveira13
ENTRE PLATÃO, LULA E A JUSTIÇA
Tenho pensado muito sobre política. Mas, quanto mais penso nela, mais percebo que talvez esteja pensando sobre mim mesmo.
Minha leitura de A República, de Platão, colocou diante de mim uma pergunta aparentemente simples: o que é justiça?
Parece uma pergunta distante do Brasil.
Não é.
Porque Platão não se contenta em perguntar se determinado governante é bom ou ruim. Ele amplia a questão. Pergunta que tipo de cidade estamos construindo, que ordem existe dentro dela e que espécie de seres humanos essa cidade produz.
E foi exatamente aí que, enquanto lia Platão, comecei a pensar em Lula.
Não porque Lula seja um personagem platônico. Não é.
Não porque o lulismo seja uma realização da cidade imaginada por Platão. Também não é.
A ligação que me interessa é outra.
Quero colocar Lula diante da pergunta de Platão.
E quero colocar minhas próprias convicções diante dela também.
Quando Lula chegou à Presidência vindo de uma trajetória sindical e falando historicamente aos trabalhadores e aos pobres, uma questão antiga ganhou uma forma brasileira muito concreta:
o que uma sociedade deve àqueles que estão na parte mais baixa de sua estrutura?
Essa pergunta me interessa mais do que simplesmente perguntar se alguém é de esquerda ou de direita.
Porque posso discutir Lula durante horas.
Posso discutir o PT.
Posso discutir capitalismo, socialismo, mercado, Estado, Bolsa Família, salário mínimo, empresários, bancos, sindicatos, pobres e ricos.
Mas Platão parece interromper toda essa discussão e perguntar:
“Muito bem. Mas onde está a justiça nisso tudo?”
É aí que o lulismo se torna filosoficamente interessante para mim.
Uma das interpretações mais conhecidas do lulismo vê nele uma tentativa de produzir mudanças sociais de maneira gradual, elevando as condições materiais dos mais pobres sem realizar uma ruptura completa com a ordem econômica existente.
E então nasce uma pergunta extraordinariamente difícil:
melhorar a vida do pobre dentro de uma estrutura desigual é fazer justiça ou apenas administrar melhor a desigualdade?
Essa pergunta não é contra Lula.
Também não é a favor de Lula.
É uma pergunta sobre Lula.
E, principalmente, é uma pergunta sobre nós.
Porque existe uma tensão muito interessante entre Platão e o fenômeno político que Lula representa.
Platão nos obriga a pensar na organização da cidade como um todo.
Lula nos obriga a olhar para dentro da cidade brasileira e enxergar pessoas concretas que historicamente estiveram na parte de baixo dela.
O pobre.
O trabalhador.
O retirante.
A empregada doméstica.
O homem que acorda antes do sol.
A mulher que cria filhos com muito pouco.
A família que sabe exatamente quanto custa um quilo de arroz porque alguns reais fazem diferença no final do mês.
Quando essas pessoas melhoram de vida, aconteceu apenas um fenômeno econômico?
Ou aconteceu alguma coisa relacionada à justiça?
Essa é uma pergunta que eu não quero responder depressa.
Porque Platão também me impede de cometer outro erro: imaginar que justiça seja simplesmente dar a alguém aquilo que eu, politicamente, considero correto.
Justiça precisa ser examinada.
E aqui surge minha inquietação com o lulismo.
Se uma política tira milhões de pessoas de determinadas condições de pobreza, aumenta renda, amplia consumo ou cria oportunidades, existe ali uma questão moral que não pode ser ignorada simplesmente porque alguém não gosta de Lula.
Mas o contrário também é verdadeiro.
Se permanecem estruturas profundas de desigualdade, concentração de riqueza, privilégios, corrupção, dependências políticas ou injustiças institucionais, não posso ignorá-las simplesmente porque gosto de Lula.
É nesse ponto que Platão se torna incômodo.
Porque ele não permite que minha preferência política seja minha definição de justiça.
E talvez seja exatamente disso que o Brasil esteja precisando: separar justiça de torcida.
Eu posso admirar Lula e interrogá-lo.
Posso discordar de Lula e reconhecer realizações de seus governos.
Posso considerar determinadas políticas sociais importantes sem transformar quem as executou em santo.
E posso reconhecer erros graves sem concluir que tudo aquilo que foi realizado perdeu automaticamente seu valor.
Platão me força a perguntar:
se fosse meu adversário político fazendo exatamente a mesma coisa, eu julgaria da mesma maneira?
Essa pergunta me incomoda.
Porque revela alguma coisa sobre mim.
Talvez minha maior dificuldade política não seja descobrir se Lula está certo ou errado.
Talvez seja descobrir se eu consigo reconhecer justiça quando ela vem das mãos de alguém de quem discordo e reconhecer injustiça quando ela vem das mãos de alguém que admiro.
Aí a discussão deixa de ser apenas sobre Lula.
Ela passa a ser sobre minha própria alma.
E isso é profundamente platônico.
Porque a cidade e o indivíduo começam a se encontrar.
A desordem política que condenamos lá fora pode também existir dentro de nós.
Desejo.
Paixão.
Medo.
Ressentimento.
Interesse.
Vontade de vencer.
Necessidade de pertencer a um grupo.
E nossa extraordinária capacidade de chamar de “verdade” aquilo que simplesmente gostaríamos que fosse verdade.
Por isso comecei a perceber que colocar Platão e Lula na mesma conversa não significa comparar dois homens separados por mais de dois mil anos.
Significa colocar uma experiência política brasileira diante de uma pergunta filosófica antiga.
O lulismo propõe, em uma de suas interpretações, mudança sem ruptura completa.
Então pergunto:
a justiça pode nascer da conciliação?
É possível colocar trabalhadores, empresários, bancos, sindicatos, movimentos sociais, pobres e ricos dentro da mesma estrutura e produzir progressivamente uma sociedade mais justa?
Ou chega um momento em que conciliar interesses incompatíveis significa preservar a própria injustiça?
Eu não sei.
E talvez uma das coisas mais honestas que eu possa escrever sobre política seja justamente:
eu não sei.
Estou procurando.
Porque não quero uma filosofia que simplesmente confirme meu voto.
Quero uma filosofia capaz de julgar meu voto.
Não quero Platão para provar que Lula está certo.
Também não quero Platão para provar que Lula está errado.
Quero Platão fazendo perguntas a Lula.
Quero Lula obrigando minhas leituras de Platão a saírem da Grécia antiga e caminharem pelas ruas do Brasil.
Quero os dois me obrigando a olhar para uma criança com fome e perguntar:
isso é apenas pobreza ou é injustiça?
Quero olhar para uma fortuna gigantesca ao lado da miséria e perguntar:
desigualdade é necessariamente injustiça? E, se não for sempre, em que momento passa a ser?
Quero olhar para o Estado e perguntar:
até onde ele deve ir para corrigir desigualdades?
Quero olhar para o mercado e perguntar:
quanta liberdade econômica uma sociedade pode preservar sem abandonar aqueles que ficaram para trás?
Quero olhar para Lula e perguntar:
quanto da desigualdade brasileira foi realmente transformado e quanto apenas foi administrado?
Mas quero olhar também para mim e fazer uma pergunta ainda mais difícil:
quanto da minha opinião sobre Lula nasce da justiça e quanto nasce da minha vontade?
Aí está o ponto.
Minha vontade importa.
Minha história importa.
Minhas experiências importam.
Minhas escolhas políticas importam.
Mas nenhuma delas deveria ser maior do que a verdade.
Talvez amadurecer politicamente seja justamente adquirir coragem para dizer:
se meu adversário estiver certo, reconhecerei.
Se meu lado estiver errado, criticarei.
Se os fatos destruírem uma opinião que carreguei durante anos, prefiro perder a opinião a perder meu compromisso com a verdade.
Por isso minha reflexão sobre Lula já não termina em Lula.
Ela passa por ele e chega a uma pergunta muito maior:
que Brasil poderia ser chamado de justo?
Um Brasil onde ninguém passa fome?
Um Brasil onde todos tenham oportunidades?
Um Brasil onde exista liberdade?
Um Brasil onde riqueza possa existir, mas miséria não?
Um Brasil onde o Estado seja suficientemente forte para proteger o vulnerável, mas não tão poderoso que sufoque a liberdade?
Talvez nossas divergências políticas comecem justamente porque respondemos de maneiras diferentes a essas perguntas.
E talvez possamos discutir essas respostas sem transformar uns aos outros em inimigos.
Por isso, quando alguém me perguntar de que lado estou, minha resposta hoje é mais complicada do que já foi.
Tenho minhas preferências.
Tenho minhas esperanças.
Tenho minhas críticas.
Mas quero permanecer diante da pergunta.
Quem tem poder?
Quem não tem?
Quem está comendo?
Quem está com fome?
Quem participa da riqueza produzida pelo país?
Quem ficou de fora?
Quem governa?
Para quem governa?
E, acima de tudo:
a cidade que estamos construindo pode ser chamada de justa?
Não sei o que Platão diria sobre Lula.
Não sei o que Lula responderia a Platão.
Mas sei qual conversa eu gostaria de assistir.
Platão perguntaria:
“Luiz Inácio, que cidade você considera justa?”
E depois de ouvir a resposta, provavelmente continuaria perguntando.
Talvez sobre riqueza.
Talvez sobre pobreza.
Talvez sobre poder.
Talvez sobre conciliação.
Talvez sobre os governantes.
Talvez sobre os governados.
Mas, quando terminasse de interrogar Lula, eu pediria a Platão:
“Agora pergunte a mim.”
Porque seria muito fácil usar a filosofia para colocar o governante no banco dos réus e deixar minha própria consciência confortavelmente sentada na plateia.
Não quero isso.
Quero que a mesma pergunta alcance os dois.
Lula:
o poder que você exerce produz justiça?
E eu:
a política que você deseja nasce realmente da justiça ou apenas daquilo que favorece suas próprias convicções?
Talvez seja aí que Platão, Lula e eu finalmente nos encontremos.
Não numa resposta.
Mas diante da mesma pergunta.
O que é uma sociedade justa e o que cada um de nós está disposto a sacrificar para construí-la?
