Romance Lunatic o O Sol guardava a Lua... Silasoliveira13

Romance Lunatic o

O Sol guardava a Lua debaixo da língua.
Por isso, ao anoitecer,
sua voz se tornava prata.
Ela lhe escrevia nas costas dos pássaros,
mas as cartas chegavam cheias de inverno.
Um dia, a saudade quebrou os relógios.
O Sol atravessou a noite descalço,
a Lua abriu uma porta em pleno fogo,
e os dois se abraçaram tão devagar
que ainda hoje
o horizonte não conseguiu fechar os olhos.


Descrição:

Este poema transforma o amor entre o Sol e a Lua numa experiência em que a saudade consegue alterar as leis do universo. Os dois representam aqueles que se amam, mas encontram na distância ou no tempo uma dificuldade para viver esse sentimento.
Quando “o Sol guardava a Lua debaixo da língua”, a imagem sugere um amor íntimo, mantido no lugar onde nascem as palavras, como um nome que se deseja pronunciar. Sua voz se tornar prata mostra que a presença da pessoa amada transforma até a maneira de se expressar: o Sol passa a carregar algo da Lua dentro de si.
As cartas escritas “nas costas dos pássaros” representam a tentativa de atravessar a distância. Elas chegarem “cheias de inverno” sugere a demora, a ausência do abraço e a tristeza que acompanha uma mensagem quando ela não pode trazer consigo quem a escreveu.
A mudança acontece quando “a saudade quebrou os relógios”. Nesse instante, o desejo de encontro ganha força para romper o tempo que os separava. O Sol atravessa a noite descalço, numa imagem de entrega e vulnerabilidade; a Lua abre uma porta no fogo, criando uma passagem onde parecia impossível entrar.
O abraço final se prolonga além de qualquer medida. Ao dizer que “o horizonte não conseguiu fechar os olhos”, o poema transforma a paisagem numa testemunha encantada. O encontro permanece suspenso, como se o universo quisesse continuar olhando. É essa a liberdade surrealista do texto: dar corpo à saudade e permitir que um amor, antes separado pelas horas, invente o próprio instante de existir.