O DIA EM QUE A MARGEM SE MOVEU Naquela... Silasoliveira13

O DIA EM QUE A MARGEM SE MOVEU

Naquela manhã, minha camisa se recusou a sair do armário. Disse que conhecia meu corpo havia vinte anos e não aceitaria vestir alguém que começava a pensar diferente. Achei razoável: até os tecidos se acostumam a mandar na gente.
Fui à cozinha. O café esfriava desde a minha infância. À mesa, os hábitos ocupavam todas as cadeiras; um deles lia o jornal de amanhã e garantia que nada aconteceria. Quando anunciei que sairia, pediram que deixasse por escrito quem cuidaria das minhas desculpas.
Abri a porta. A rua estava enrolada sobre si mesma. Caminhei por meia hora e cheguei à minha própria nuca. Havia ali uma pequena placa: “Retorno obrigatório”. Reconheci a letra. Era minha.
Sentei na calçada, constrangido com aquela obra de engenharia que eu havia construído para nunca me surpreender.
Foi então que ouvi água dentro do peito.
Um rio atravessava minhas costelas. Na outra margem, alguém estendia roupas que eu ainda não tinha usado. Não consegui distinguir seu rosto, mas reconheci um gesto meu que julgava perdido.
Procurei uma ponte. Encontrei um funcionário sentado diante de uma prancheta.
Só autorizamos a passagem depois que o senhor tiver certeza.
Certeza de quê?
Ele consultou o regulamento. Todas as páginas estavam em branco.
Atrás de mim, a casa começou a chamar pelo meu nome. Chamava com a voz confortável de quem sabe exatamente onde nos dói.
Entrei na água com medo. A corrente levou algumas certezas; agarrei uma delas, mas estava oca e se desfez entre os dedos.
Quando alcancei o outro lado, não havia ninguém esperando. Apenas um varal e espaço para construir.
Olhei para trás. Minha antiga camisa acenava da janela, ainda vestida de mim.
Pela primeira vez, deixei que ela ficasse sem resposta.


Descrição:

Essa crônica fala sobre a dificuldade de mudar quando nos acostumamos tanto com uma forma de viver que ela começa a decidir por nós.
O surrealismo transforma esse conflito interior em acontecimentos impossíveis: a camisa protesta, os hábitos sentam à mesa e a rua conduz o personagem à própria nuca.
A camisa representa uma identidade antiga: aquilo que fomos durante tanto tempo e que já parece inseparável de nós. Sua resistência mostra como uma mudança pode provocar estranhamento até na maneira como nos reconhecemos. Os hábitos ocupando todas as cadeiras sugerem uma vida em que quase não sobra lugar para uma experiência nova.
A rua enrolada sobre si mesma representa a repetição. O personagem caminha, mas retorna a si mesmo sem descobrir nada. Quando reconhece sua letra na placa “Retorno obrigatório”, percebe sua participação nessa prisão: algumas limitações foram construídas por ele, talvez para se proteger do desconhecido.
O rio dentro do peito é o desejo de transformação. A travessia acontece no interior do personagem. Do outro lado, o gesto que ele julgava perdido sugere uma possibilidade de recuperar algo de si que a rotina havia sufocado.
O funcionário que exige certeza representa a tentativa de controlar o futuro antes de agir. Seu regulamento vazio revela que essa exigência não oferece orientação alguma. Já a casa chamando com uma voz familiar mostra a força do conforto: conhecemos nossas dores antigas e, por isso, podemos hesitar diante de uma vida diferente.
Ao entrar na água, o personagem continua com medo. Algumas certezas se desfazem porque não tinham a consistência que ele imaginava. E a outra margem está vazia: mudar não entrega uma vida pronta; abre espaço para construí-la.
A imagem final a camisa ainda “vestida de mim” mostra a antiga identidade sobrevivendo sem comandar seus passos. Deixá-la sem resposta é aceitar que o passado pode permanecer na memória enquanto a vida segue adiante.