Coleção pessoal de silasoliveira13
Confissões de uma Caneta- Versão original
Existe uma verdade que carrego dentro de mim há muito tempo.
Eu não me considero o autor das palavras mais bonitas que escrevo.
Sempre que termino uma poesia, uma crônica ou uma reflexão,
sinto que aquelas palavras não nasceram apenas da minha inteligência.
Elas chegaram até mim como uma brisa silenciosa.
Vieram prontas, tocaram meu coração e pediram apenas que eu lhes desse voz.
Por isso, gosto de pensar que não sou o escritor.
Sou apenas a caneta.
A caneta não escolhe as palavras.
Não cria as histórias.
Não conhece o destino daquilo que escreve.
Ela apenas se deixa conduzir pela mão de quem a segura.
É assim que me sinto diante de Deus.
Muitas vezes, enquanto escrevo, percebo que Ele coloca pensamentos na minha mente,
desperta sentimentos no meu coração e me conduz por caminhos que sozinho jamais encontraria.
Há momentos em que leio aquilo que escrevi e me pergunto de onde veio tanta beleza.
Então compreendo que não veio de mim.
Veio d’Ele.
Mas existe uma inquietação que nunca deixa de me visitar.
Se Deus inspira tantas sementes através das minhas palavras,
por que tantas delas ainda não floresceram dentro de mim?
Por que consigo falar sobre o perdão e, tantas vezes, ainda luto para perdoar?
Por que escrevo sobre a paz e continuo travando guerras dentro da minha própria alma?
Por que falo da confiança em Deus,
mas ainda corro para Ele apenas quando a tempestade destrói o jardim da minha vida?
Às vezes sinto-me como um jardineiro que conhece todas as flores pelo nome, mas ainda não aprendeu a cuidar do próprio canteiro.
Basta que as dificuldades apareçam, que alguém invada minha paz ou que os ventos derrubem aquilo que plantei, e então corro para Deus.
Procuro o Grande Agricultor.
Aquele que sabe reconstruir o que foi destruído, replantar o que morreu e devolver vida ao que parecia perdido.
E Ele nunca falha.
Nunca chega atrasado.
Nunca me abandona.
Sempre encontra uma maneira de transformar a terra seca em esperança.
Talvez seja por isso que continuo escrevendo.
Não porque me considere um homem santo.
Mas porque sou um homem profundamente necessitado do amor de Deus.
Quando falo d’Ele, sinto-me forte.
Quando escrevo sobre Ele, meu coração encontra paz.
Quando medito sobre Sua presença, tenho a certeza de que Ele habita dentro de mim,
ainda que minhas atitudes nem sempre revelem essa realidade.
Lembro-me das palavras de Santo Agostinho: “Deus estava dentro de mim enquanto eu O procurava do lado de fora.”
Talvez essa seja também a minha história.
Passei muito tempo procurando sinais extraordinários, quando o maior milagre sempre aconteceu no silêncio da minha própria alma.
Deus nunca deixou de falar comigo.
Falava através das inspirações.
Das pessoas que colocou em meu caminho.
Das portas que abriu.
Dos livramentos que só compreendi muitos anos depois.
Das palavras que surgiam quando eu me sentava para escrever.
Hoje entendo que não sou a fonte.
Sou apenas o instrumento.
Como um pequeno receptor que capta um sinal invisível e o transforma em algo que outras pessoas conseguem ouvir.
A mensagem nunca pertence ao receptor.
Ela vem de muito mais longe.
Talvez minha missão seja exatamente essa.
Receber.
Guardar.
Escrever.
E repartir.
Mas existe um desejo que ainda apresento a Deus em minhas orações.
Não quero ser apenas a caneta que escreve belas palavras para os outros.
Quero ser também o papel onde essas mesmas palavras fiquem gravadas.
Quero que cada frase inspirada transforme primeiro a minha própria vida.
Quero que o jardim floresça dentro de mim antes de perfumar o caminho de quem passa ao meu lado.
Porque, no fim, não desejo ser lembrado pelas palavras que escrevi.
Desejo apenas que, ao olhar para minha vida, as pessoas consigam perceber que Deus realmente segurou esta caneta.
E que, enquanto escrevia através dela, também escrevia, pacientemente, dentro do coração de quem a carregava.
O Que Te Faz Ser Você?
O que te faz ser você?
Não estou perguntando o seu nome.
Seu nome foi escolhido por alguém antes mesmo que você pudesse escolher qualquer coisa.
Também não estou perguntando sua profissão, sua idade, onde nasceu ou aquilo que conseguiu conquistar.
Estou perguntando algo mais difícil:
quando retiramos tudo aquilo que pode ser retirado de uma pessoa, o que permanece?
Talvez você responda:
“Minhas lembranças.”
Pode ser.
Somos profundamente feitos de memória.
Existe em nós a criança que fomos, mesmo quando ninguém mais consegue enxergá-la.
Ela ainda aparece em alguns medos inexplicáveis, em certas alegrias repentinas,
no cheiro de alguma comida, numa música antiga, numa fotografia esquecida dentro de uma gaveta.
O tempo envelhece o corpo, mas existem lugares dentro de nós onde o relógio nunca conseguiu entrar.
Talvez você seja também as pessoas que amou.
Porque ninguém passa verdadeiramente pela nossa vida sem deixar alguma coisa.
Há pessoas que nos ensinaram a amar.
Outras nos ensinaram a desconfiar.
Algumas nos mostraram a beleza da permanência.
Outras nos ensinaram, dolorosamente, o significado da ausência.
E assim vamos sendo construídos.
Um pouco pelas mãos que nos acariciaram.
Um pouco pelas mãos que nos feriram.
Um pouco pelos abraços que recebemos.
E muito pelos abraços que esperamos e nunca chegaram.
Mas ainda não é suficiente.
Porque, se fôssemos apenas aquilo que aconteceu conosco, seríamos prisioneiros da nossa história.
E não somos.
Existe alguma coisa extraordinária no ser humano:
podemos escolher o que fazer com aquilo que fizeram de nós.
Talvez seja aí que comece verdadeiramente aquilo que somos.
Você não escolheu todas as suas feridas.
Mas escolhe, todos os dias, se permitirá que elas firam outras pessoas.
Não escolheu todas as despedidas.
Mas pode escolher continuar amando mesmo depois de conhecer a dor da ausência.
Não escolheu todas as quedas.
Mas pode decidir se permanecerá no chão ou se transformará a cicatriz em aprendizado.
Por isso não somos apenas consequência.
Também somos escolha.
Somos aquilo que aconteceu conosco e aquilo que decidimos fazer depois.
Somos a resposta que demos à vida.
Talvez você seja suas contradições também.
A coragem que convive com o medo.
A fé que algumas vezes conversa com a dúvida.
A força que certas noites precisa chorar escondida.
A esperança que já pensou em desistir, mas amanheceu novamente.
Porque ser você não significa ser uma criatura perfeitamente coerente.
Significa carregar muitos mundos dentro do mesmo peito e, ainda assim,
continuar procurando um caminho entre eles.
Você também é aquilo que ama quando ninguém manda amar.
Aquilo que defende quando não existe recompensa.
Aquilo que faz quando ninguém está olhando.
As pequenas escolhas silenciosas dizem muito mais sobre uma pessoa do que os grandes discursos feitos diante de uma multidão.
Talvez caráter seja justamente aquilo que permanece quando desaparece a plateia.
Mas existe algo ainda mais profundo.
Você também é aquilo que procura.
Há pessoas que passam a vida procurando dinheiro.
Outras procuram reconhecimento.
Algumas procuram poder.
Outras procuram paz.
Há quem procure respostas.
Há quem procure perdão.
Há quem passe uma existência inteira procurando uma casa que talvez não seja feita de paredes,
mas de alguém diante de quem finalmente possa dizer:
“Aqui eu posso ser eu.”
Aquilo que procuramos revela muito sobre aquilo que somos.
Porque nossos desejos são espécies de bússolas secretas.
Eles apontam para lugares que nossos discursos nem sempre conseguem confessar.
E você também é suas perguntas.
Talvez até mais do que suas respostas.
As respostas envelhecem.
As certezas mudam.
As convicções amadurecem.
Mas existem perguntas que atravessam uma vida inteira:
Quem sou?
Por que estou aqui?
O que realmente importa?
A quem amei?
Quem amou melhor porque me conheceu?
O que deixarei quando partir?
Talvez viver seja passar anos tentando responder essas perguntas e descobrir, perto do final,
que o importante nunca foi terminar o questionário.
O importante foi a pessoa em que nos transformamos enquanto procurávamos as respostas.
Por isso, quando pergunto:
O que te faz ser você?
Não me diga apenas onde nasceu.
Conte-me onde renasceu.
Não me fale somente das suas vitórias.
Conte-me sobre a derrota que mudou sua maneira de enxergar o mundo.
Não me mostre apenas suas fotografias sorrindo.
Conte-me sobre a noite em que chorou sozinho e, mesmo assim, levantou-se na manhã seguinte.
Não me diga somente quem você ama.
Conte-me como você ama.
Não me fale apenas da sua fé.
Conte-me sobre as dúvidas que precisou atravessar para chegar até ela.
Não me mostre apenas suas cicatrizes.
Conte-me o que elas ensinaram.
Porque talvez você não seja uma coisa.
Talvez você seja uma travessia.
Uma obra que nunca fica completamente pronta.
Uma história que continua sendo escrita mesmo quando acredita ter chegado ao último capítulo.
Você é um pouco de ontem.
Um pouco de hoje.
E também alguma coisa que ainda não existe, mas silenciosamente está tentando nascer.
Talvez por isso seja impossível responder definitivamente à pergunta:
“Quem sou eu?”
Porque enquanto houver vida, haverá transformação.
E enquanto houver transformação, haverá alguma parte de nós ainda desconhecida esperando ser encontrada.
No fim, talvez aquilo que faça você ser você não seja apenas o que recebeu da vida.
Nem somente aquilo que perdeu.
Nem seus acertos.
Nem seus erros.
É a maneira como juntou todos esses pedaços e decidiu continuar.
Você é aquilo que a vida escreveu em você.
Mas é também aquilo que, apesar de tudo, você decidiu escrever de volta na vida.
“O Sangue que Ainda Corre”
Há momentos em que a vida deixa de pedir explicações.
Ela apenas nos coloca diante do espelho.
E talvez seja justamente diante dele que começam as confissões mais difíceis: quando já não podemos culpar o tempo, os outros, as circunstâncias ou os caminhos que escolheram por nós.
Eu também jurei verdades que eram mentiras.
Prometi permanências quando dentro de mim já existiam despedidas. Defendi certezas nas quais eu mesmo já não acreditava. Rompi acordos, abandonei caminhos, traí algumas versões de mim e carreguei durante anos a estranha sensação de que havia deixado pedaços da minha alma espalhados pelos lugares por onde passei.
Talvez viver seja também isso:
uma longa coleção de fidelidades e traições contra nós mesmos.
Existem ventos que chegam tarde.
Existem ventos que sopram com toda a força e, ainda assim, não conseguem mover aquilo que dentro de nós já deixou de girar.
Foi assim que descobri que nem todo vento é capaz de mover um moinho.
Há coisas que simplesmente param.
Amores.
Sonhos.
Convicções.
Amizades.
E até algumas partes de nós.
Mas o coração possui uma teimosia quase incompreensível: mesmo cercado pelos escombros daquilo que perdeu, continua batendo.
Carrego comigo os meus mortos.
E não falo apenas daqueles que a terra recebeu.
Existem mortos que continuam caminhando conosco.
São pessoas que partiram, amores que terminaram, cidades que abandonamos, juventudes que não voltam, abraços que ficaram presos na memória e versões de nós mesmos que jamais encontraremos novamente.
Somos um pouco cemitério.
Mas somos também nascimento.
Porque dentro do mesmo homem que enterra seus mortos existe outro tentando nascer todas as manhãs.
Eu venho de caminhos tortos.
Nunca consegui acreditar muito nas estradas perfeitamente desenhadas. Talvez porque minha própria existência tenha sido feita de desvios, quedas, retornos e perguntas.
Minha história não foi escrita com régua.
Foi escrita com cicatrizes.
Há sangue correndo dentro de mim que nasceu muito antes de mim.
Sangue de gente que amou, sofreu, atravessou oceanos, enterrou sonhos, criou filhos, perdeu pessoas, rezou em silêncio e continuou caminhando mesmo quando não havia nenhuma certeza esperando na próxima esquina.
Carregamos nossos antepassados sem perceber.
Talvez por isso algumas saudades não tenham nome.
Talvez certas dores sejam antigas demais para sabermos exatamente onde começaram.
Existe dentro de cada homem uma pátria invisível.
Uma terra que ele carrega mesmo quando vive longe dela.
Uma língua que continua morando dentro da boca.
Uma música que desperta lembranças.
Um cheiro que abre uma porta esquecida.
Uma palavra que, de repente, nos devolve à infância.
Podemos atravessar fronteiras, trocar de endereço, aprender outras línguas e envelhecer sob outros céus.
Mas há raízes que viajam conosco.
E talvez o verdadeiro exílio não seja viver distante da terra onde nascemos.
Talvez seja viver distante de quem realmente somos.
Durante muito tempo tentei obedecer aos ritos.
Depois rompi alguns deles.
Quebrei minhas próprias lanças.
Questionei minhas certezas.
Gritei contra aquilo que me prendia.
E percebi que existem gritos que não são revolta.
São nascimento.
Às vezes um homem precisa gritar para finalmente ouvir a própria voz.
Porque chega um momento em que já não importa parecer perfeito.
Importa permanecer inteiro.
Não importa quantas vezes a vida tenha nos derrubado.
Não importa quantos tratados tenhamos rompido com nossos sonhos.
Não importa quantos caminhos tortos existam atrás de nossos passos.
Existe uma diferença enorme entre estar ferido e estar vencido.
Feridas sangram.
Cicatrizes permanecem.
Lágrimas caem.
Mas nenhuma dessas coisas significa derrota.
A verdadeira derrota talvez aconteça somente quando entregamos a alguém ou ao medo, à culpa, ao passado o direito de decidir quem ainda podemos ser.
Por isso continuo.
Com meus mortos.
Com minhas lembranças.
Com minhas contradições.
Com meus caminhos tortos.
Com tudo aquilo que perdi e tudo aquilo que ainda espero encontrar.
Minha alma talvez tenha conhecido muitas prisões.
Mas meu sangue ainda corre.
E enquanto houver sangue correndo, haverá alguma coisa dentro de mim dizendo que a história ainda não terminou.
Talvez seja apenas um gemido.
Talvez seja um grito.
Talvez seja uma oração.
Não sei.
Sei apenas que ainda estou aqui.
E às vezes, depois de tudo o que atravessamos, permanecer de pé já é uma das formas mais bonitas de liberdade.
“A Sabedoria de Ajustar as Velas”
“Não podemos escolher a direção do vento, mas sempre é possível ajustar as velas.”
Durante muito tempo, talvez eu tenha confundido maturidade com controle.
Imaginava que amadurecer significava aprender a organizar a vida de tal maneira que quase nada pudesse sair do lugar.
Como se a experiência nos concedesse, pouco a pouco, algum poder secreto sobre o amanhã.
Mas a vida não funciona assim.
Podemos escolher a embarcação. Podemos estudar os mapas. Podemos calcular distâncias,
observar o horizonte e até decidir o porto para onde desejamos seguir.
Mas não escolhemos o vento.
E talvez uma das maiores dores humanas nasça justamente dessa dificuldade: queremos controlar aquilo que apenas podemos atravessar.
Há ventos que chegam fortes..
Uma perda.
Uma despedida.
Uma decepção.
Uma porta que se fecha quando tínhamos certeza de que se abriria.
Um amor que muda.
Um sonho que demora.
Uma notícia inesperada.
De repente, todo o mapa cuidadosamente desenhado já não parece servir para muita coisa.
É nesse momento que descobrimos a diferença entre controlar a vida e aprender a vivê-la.
O imaturo olha para a tempestade e pergunta:
“Por que o vento não sopra para onde eu quero?”
O homem amadurecido começa a fazer outra pergunta:
“Já que não posso mudar o vento, o que posso fazer com as minhas velas?”
Essa pequena mudança de pergunta pode transformar uma existência inteira.
Porque maturidade não significa ausência de medo. Não significa nunca sofrer, nunca hesitar ou possuir respostas para tudo.
Maturidade é compreender onde termina o nosso poder e onde começa a nossa capacidade de adaptação.
Existem coisas que dependem de nós.
Outras, simplesmente, não.
Não controlamos o comportamento das pessoas.
Não controlamos todas as despedidas.
Não controlamos o tempo.
Não controlamos completamente o corpo.
Não controlamos o passado.
E, por mais que façamos planos, jamais teremos domínio absoluto sobre o futuro.
Entretanto, existe uma pequena região sobre a qual ainda podemos exercer alguma autoridade:
a maneira como respondemos ao que nos acontece.
É ali que ficam as velas.
A vida pode mudar o vento, mas ainda podemos mudar nossa posição diante dele.
Podemos recolher uma vela durante a tempestade.
Podemos diminuir a velocidade.
Podemos mudar temporariamente a rota.
Podemos esperar.
Podemos recomeçar.
E, algumas vezes, podemos até descobrir um destino que jamais teríamos conhecido se o vento tivesse obedecido aos nossos planos.
Talvez por isso algumas das maiores transformações da nossa vida tenham começado justamente quando alguma coisa deu errado.
O caminho interrompido nos obrigou a procurar outra estrada.
A perda nos ensinou o valor da presença.
O fracasso nos apresentou à humildade.
A solidão nos colocou diante de nós mesmos.
A queda revelou forças que desconhecíamos possuir.
E aquilo que chamávamos de desvio talvez estivesse apenas nos ensinando outra maneira de navegar.
Há uma arrogância silenciosa na necessidade de controlar tudo.
Queremos que pessoas, acontecimentos, tempo e destino se comportem de acordo com os mapas que desenhamos.
Quando isso não acontece, sentimos que a vida nos traiu.
Mas talvez a vida nunca tenha prometido obedecer aos nossos mapas.
Ela apenas nos entregou um barco.
Algumas velas.
Um horizonte.
E a liberdade de aprender.
Maturidade, portanto, não é tornar-se senhor dos ventos.
É tornar-se marinheiro.
É olhar para o céu escurecendo e, mesmo sentindo medo, saber que ainda existem decisões possíveis.
É reconhecer que mudar a rota não significa necessariamente abandonar o destino.
Às vezes, para chegar ao mesmo porto, precisamos navegar por águas que jamais imaginávamos conhecer.
Outras vezes, precisamos ter coragem suficiente para admitir que aquele porto já não é mais o nosso.
Talvez seja essa uma das lições mais difíceis da existência:
nem toda mudança de direção é uma derrota.
Existem desvios que nos salvam.
Existem atrasos que nos protegem.
Existem tempestades que nos despertam.
Existem ventos contrários que fortalecem braços que haviam se acostumado demais à tranquilidade.
E existem caminhos que somente aparecem quando perdemos aquele que acreditávamos ser o único.
Hoje compreendo que viver não é possuir um mapa perfeito.
É aprender a ler o céu.
É perceber quando avançar, quando esperar, quando insistir e quando mudar.
É saber que algumas tempestades precisam ser enfrentadas e outras simplesmente atravessadas.
No fim, talvez ninguém chegue exatamente ao porto que imaginou quando começou a viagem.
Carregamos cicatrizes das tempestades, lembranças das águas tranquilas, saudades de quem navegou conosco e histórias de lugares onde jamais planejávamos estar.
Mas existe uma espécie de paz quando finalmente compreendemos que não precisamos controlar o oceano para continuar navegando.
O vento continuará mudando.
A vida continuará surpreendendo.
Algumas manhãs serão tranquilas. Outras chegarão carregadas de tempestades.
E nós continuaremos ali, pequenos diante da imensidão.
Mas enquanto ainda houver uma vela que possa ser ajustada, haverá também uma escolha possível.
Talvez amadurecer seja exatamente isso:
parar de exigir que o vento mude de direção e começar a aprender o que fazer com o vento que chegou.
Porque não é o mar tranquilo que revela o marinheiro.
É a maneira como ele ajusta as velas quando percebe que já não controla o caminho.
“Contos da Cidade Dourada”
Diziam que existia uma cidade onde o ouro crescia como mato.
Não era apenas uma metáfora. Para os olhos dos conquistadores, a América inteira parecia um jardim onde o ouro brotava do chão, a prata escorria das montanhas e a riqueza esperava, silenciosa, por mãos estrangeiras.
Chamaram-na de cidade dourada.
Uns lhe deram o nome de El Dorado. Outros a procuraram nas montanhas dos Andes, nos vales dos povos originários ou nas minas que pareciam não ter fim. Mas talvez a verdadeira cidade dourada nunca tenha sido um lugar. Talvez tenha sido uma maneira de olhar.
O ouro não era riqueza.
Era cobiça.
E a cobiça transforma qualquer paisagem em mercadoria.
Eduardo Galeano escreveu que a América Latina nasceu com as veias abertas.
É uma imagem impossível de esquecer.
Veias abertas não apenas porque lhe arrancaram o ouro, a prata, o açúcar, o café, a borracha e tantas outras riquezas. Mas porque também lhe roubaram o tempo. Roubaram a possibilidade de crescer no próprio ritmo. Roubaram histórias, línguas, culturas e até o direito de muitos povos contarem a própria versão do passado.
Quando um povo perde a memória, torna-se mais fácil convencê-lo de que nunca foi rico.
As montanhas de prata desapareceram.
As minas foram esvaziadas.
Os navios atravessaram o oceano carregados de tesouros.
Tudo aconteceu à luz do dia.
Sem máscaras.
Sem vergonha.
O assalto mais grandioso da história não precisou da escuridão da noite. Foi realizado sob o brilho do sol, registrado por cronistas, celebrado por impérios e justificado por discursos de civilização.
Há ladrões que escondem o rosto.
Há impérios que escondem a consciência.
A cidade dourada foi desaparecendo aos poucos.
Não porque o ouro acabou.
Mas porque quem o arrancava deixava para trás apenas o vazio.
Existe uma estranha lógica na ganância.
Ela nunca aprende a contemplar.
Sabe apenas possuir.
Tudo aquilo que toca perde o significado e ganha um preço.
Uma floresta deixa de ser floresta para se tornar madeira.
Um rio deixa de ser vida para se transformar em rota comercial.
Uma montanha deixa de ser sagrada para virar minério.
E um ser humano deixa de ser pessoa para tornar-se força de trabalho.
Talvez seja essa a maior pobreza da história.
Não a falta de ouro.
Mas a incapacidade de enxergar valor onde não existe lucro.
O mais inquietante é perceber que essa história ainda ecoa.
Mudaram os navios.
Mudaram as bandeiras.
Mudaram os discursos.
Mas a pergunta permanece a mesma: quem enriquece quando uma terra empobrece?
As veias de um continente não sangram apenas quando lhe retiram os metais preciosos.
Sangram também quando sua inteligência é desprezada, quando sua cultura é tratada como inferior, quando seus filhos acreditam que tudo o que vem de fora vale mais do que aquilo que nasceu em casa.
A cidade dourada continua existindo.
Não nas lendas.
Nem nas minas.
Ela vive escondida na dignidade de um povo que, apesar de séculos de exploração, continua produzindo arte, poesia, fé, música e esperança.
Porque há uma riqueza que nenhum conquistador conseguiu embarcar em seus navios.
A capacidade de recomeçar.
Talvez esse seja o verdadeiro ouro da América Latina.
Um ouro que não pode ser fundido, vendido ou roubado.
Um ouro que corre, silenciosamente, nas veias de quem ainda acredita que a história não termina com o saque, mas com a coragem de reconstruir aquilo que parecia perdido.
E talvez seja por isso que a cidade dourada nunca tenha sido encontrada.
Ela nunca esteve enterrada debaixo da terra.
Sempre esteve pulsando dentro das pessoas.
Dentro de cada um de nós; Latino Americano.
“A Versão de Mim Que Mora nos Olhos de Quem Me Ama”
Existe uma versão de nós que talvez nunca consigamos conhecer completamente.
Ela não mora no espelho.
Não aparece quando nos examinamos em silêncio.
Não se revela nas noites em que contamos nossos erros, nossas perdas e tudo aquilo que ainda não conseguimos ser.
Essa versão mora nos olhos de quem nos ama.
É curioso: passamos a vida inteira dentro de nós mesmos e, ainda assim, talvez sejamos as pessoas menos imparciais para dizer quem somos.
Conhecemos demais as nossas fraquezas.
Sabemos onde escondemos nossos medos, lembramos das palavras que gostaríamos de retirar, das oportunidades que desperdiçamos, das promessas que fizemos a nós mesmos e não cumprimos.
Carregamos os bastidores da própria existência.
Os outros, porém, muitas vezes enxergam o palco.
Enquanto eu me lembro das vezes em que quase desisti, alguém se lembra de que continuei.
Enquanto eu me condeno por ter sentido medo, alguém me considera corajoso justamente porque me viu caminhar apesar dele.
Enquanto eu penso que fiz tão pouco, talvez exista alguém guardando na memória uma palavra minha que chegou exatamente quando precisava.
E talvez seja essa uma das maiores ironias da existência:
somos capazes de transformar a vida de alguém sem perceber que fizemos isso.
Há pessoas que carregam uma versão nossa muito mais bonita do que aquela que carregamos dentro de nós.
Não porque estejam cegas.
O amor verdadeiro não é cegueira.
Talvez seja justamente o contrário.
Amar alguém é enxergar suas imperfeições e, ainda assim, não reduzir essa pessoa a elas.
Nós fazemos isso conosco o tempo inteiro: pegamos um erro e transformamos em identidade.
“Eu fracassei” lentamente se transforma em “eu sou um fracasso”.
“Eu tive medo” transforma-se em “eu sou covarde”.
“Eu não consegui” transforma-se em “eu não sou capaz”.
É assim que a consciência, quando ferida, falsifica nossa própria biografia.
Esquecemos todas as páginas e ficamos relendo justamente aquela em que caímos.
Mas quem nos ama talvez esteja lendo o livro inteiro.
Lembra-se das vezes em que fomos generosos quando ninguém estava olhando.
Das vezes em que permanecemos quando seria mais fácil partir.
Das pequenas bondades que nós mesmos esquecemos.
Das batalhas que vencemos sem comemorar.
Dos dias em que achávamos que estávamos apenas sobrevivendo, mas alguém, olhando de fora, enxergava coragem.
Talvez por isso existam momentos em que precisamos cometer um pequeno ato de humildade:
emprestar os olhos de alguém.
Quando nossa visão estiver turva, quando a tristeza diminuir aquilo que somos, quando a culpa exagerar aquilo que fizemos, talvez seja necessário perguntar silenciosamente:
Como me enxergaria alguém que verdadeiramente me ama?
Não para alimentar o ego.
Não para fugir das nossas responsabilidades.
Mas para recuperar a proporção das coisas.
Porque humildade não significa pensar menos de si.
Significa também não se condenar injustamente.
Às vezes acreditamos que conhecer a nós mesmos significa conhecer nossas sombras.
Mas conhecer-se verdadeiramente é ter coragem de reconhecer também a própria luz.
E essa talvez seja a parte mais difícil.
Aceitamos facilmente quando alguém aponta nossos defeitos, mas desconfiamos quando alguém reconhece nossa beleza.
Talvez porque exista dentro de nós um juiz muito antigo, acostumado a recolher provas contra nós mesmos.
Por isso, quando alguém disser:
“Você é mais forte do que imagina.”
Talvez não seja necessário responder imediatamente:
“Você não me conhece.”
Talvez conheça.
Talvez conheça uma parte sua que você perdeu de vista.
Talvez tenha testemunhado sua coragem justamente nos momentos em que você acreditava estar apenas tentando sobreviver.
Talvez tenha encontrado generosidade em gestos que para você pareciam pequenos.
Talvez enxergue possibilidades onde você só consegue enxergar limites.
Existe uma versão de você vivendo na memória das pessoas que você tocou.
Uma versão feita das palavras que ficaram depois que você foi embora, dos abraços que chegaram na hora certa, das conversas que impediram alguém de desistir, das risadas que tornaram determinado dia suportável.
Você talvez nunca conheça completamente essa pessoa.
Mas ela existe.
E haverá dias em que o espelho não será suficiente.
Dias em que a nossa própria consciência estará coberta pela neblina das decepções, do cansaço ou das culpas.
Nesses dias, talvez não seja fraqueza pedir emprestado o olhar daqueles que nos amam.
Às vezes precisamos enxergar a nós mesmos através de outros olhos até que os nossos voltem a reconhecer quem somos.
Porque talvez exista uma verdade muito simples escondida nisso tudo:
há pessoas que acreditam em nós não porque desconhecem nossas fraquezas, mas porque conheceram algo em nós que nossas fraquezas jamais conseguiram destruir.
E, algumas vezes, acreditar no amor de alguém também significa acreditar que aquilo que essa pessoa enxerga em nós pode ser verdade.
Quando o Texto Me Lê
Eu pensei que escrevia
para dizer ao mundo.
Mas escrevo
para escutar
o que ainda não sei.
A palavra sai achando
que sabe o caminho,
desfila segura,
convencida.
Até que eu volto.
Leio.
E o texto me olha de volta.
Ler o que escrevi
é chegar atrasado
a mim mesmo.
Um espelho sem rosto,
só gesto,
só intenção escancarada.
O medo se esconde
em frases longas,
cheias de vírgulas,
com medo do fim.
A coragem aparece
sem alarde,
num verbo simples
que não pede desculpa.
Enquanto escrevo,
defendo ideias.
Quando leio,
negocio com elas.
Descubro palavras
que não eram minhas
apenas passaram.
E verdades pequenas
que se sentaram
e ficaram.
O texto pergunta,
com ironia mansa:
Era isso mesmo?
Às vezes dói reler.
A genialidade de ontem
vira eco vazio hoje.
Outras vezes assusta:
fui eu
que escrevi isso?
Sim.
Fui eu.
Naquele dia.
Com aquele peso.
Com aquela lucidez possível.
O texto não mente:
ele registra o movimento.
Escrever não acaba
no ponto final.
Começa
quando o autor
vira leitor.
Ali,
o texto também escreve.
Aponta.
Ensina.
Cutuca.
Não grita.
Mas fica.
Quem não relê
perde metade da aula.
Porque escrever é falar.
E reler
é escutar.
E quase sempre
é na escuta
que a gente aprende.
No fim,
eu queria ensinar alguém.
Mas o papel, paciente,
me mostrou:
o aluno
era eu.
Pedras
As pedras nunca perguntam nosso nome.
Elas apenas estão espalhadas no caminho, acumuladas nos bolsos invisíveis da vida, empilhadas no peito quando o dia pesa demais.
Há pedras que tropeçam a gente. Pequenas, traiçoeiras, quase invisíveis. São as palavras mal ditas, os olhares que ferem sem tocar, as ausências que chegam antes da despedida. Outras são enormes, do tamanho de um não definitivo, de um sonho interrompido, de uma porta fechada por dentro.
Aprendi cedo que pedra não escolhe quem encontra. Rico ou pobre, descalço ou de sapato caro, todo mundo tropeça. A diferença está no que se faz depois da queda.
Tem gente que senta na pedra e faz dela morada. Constrói casa de lamento, coloca cortina de desculpa, serve café de amargura. Vive ali, endurecendo junto, confundindo peso com destino.
Mas há quem recolha a pedra com cuidado. Observe seus cantos, sinta sua aspereza, reconheça o machucado que causou e sigui. Algumas viram degraus. Outras, fundação. Algumas, quando lançadas longe, ainda fazem barulho ao cair, como se protestassem contra a própria inutilidade.
As pedras também guardam memória. Sabem onde a gente caiu, onde sangrou, onde quase desistiu. Por isso doem tanto quando reaparecem no mesmo trecho do caminho. Elas lembram: você já esteve aqui.
E mesmo assim, seguimos. Com os pés calejados, com a alma aprendendo a pisar melhor. Porque, no fim, o caminho não é feito só de chão liso. É feito de pedras que nos ensinaram equilíbrio, força e escolha.
Talvez a vida seja isso:
não a ausência de pedras,
mas a arte de decidir
quais carregamos,
quais usamos para subir
e quais deixamos onde estão
para que não sejamos nós
a endurecer primeiro.
O amor que não se conta
Há amores que não se anunciam.
Não porque sejam pequenos, mas porque são grandes demais para o barulho do mundo.
Vivem no silêncio confortável do peito, onde ninguém entra sem permissão.
É um amor que se reconhece no instante do encontro.
Quando os olhos veem a amada, o dia muda de tom.
O tempo desacelera.
O coração que fingia normalidade entrega-se sorrindo.
Esse amor é feliz em detalhes.
No jeito como ela caminha,
na curva distraída do riso,
na voz que chega antes da presença.
E quando a noite vem, eu sonho.
Um sonho tão profundo que acordo com o cheiro dela no ar, como se o sonho tivesse atravessado a realidade.
Ninguém sabe.
E talvez seja por isso que eu seja tão inteiro.
Quando estou longe, a saudade não pede licença.
Ela se instala no peito como uma casa antiga,
abre as janelas da memória
e deixa o vento passar por tudo o que foi sentido.
É uma saudade grande, quase física.
Daquelas que apertam o coração sem machucar,
porque doem de amor, não de ausência.
Esse amor não precisa de testemunhas.
Ele existe porque vive.
Porque pulsa.
Porque transforma dias comuns em eternidade breve.
É um amor que não se conta a ninguém.
Mas que conta tudo para quem sente.
“O Infinito em Fragmentos”
Não quero ser um. Quero ser todos. Quero sentir como o místico sente Deus, como o pagão sente a carne, como o engenheiro sente a precisão dos números. Quero contradizer-me, porque na contradição habita a totalidade. Ser coerente é ser parcial. É escolher uma porta e fechar todas as outras. Eu quero atravessar todas as portas simultaneamente, mesmo que para isso precise me estilhaçar em mil pedaços.
Inventei-me vários. Não por loucura, mas por necessidade metafísica. Como poderia um só homem conter o universo? Como poderia uma só voz cantar todas as canções possíveis? Então fragmentei-me. Fiz de minha ausência de centro a minha obra-prima. Onde outros construíram identidades sólidas como fortalezas, eu construí um arquipélago de ilhas que nunca se tocam mas pertencem ao mesmo oceano.
Há aquele que nega o pensamento e vê apenas o que existe. Há o que exalta os deuses antigos e a beleza sensorial do mundo. Há o engenheiro das palavras, frio e preciso. Há o que escreve mensagens cifradas sobre ocultismo e hermetismo. E há eu, que não sou nenhum deles e sou todos ao mesmo tempo, o maestro invisível de uma orquestra onde cada músico toca uma partitura diferente.
Sentir tudo de todas as maneiras. Não é dispersão. É ambição máxima. É querer ser o universo experimentando a si mesmo. Cada emoção possível, cada pensamento concebível, cada filosofia imaginável - tudo isso precisa ser vivido, sentido, expresso. Não posso me limitar a ser católico ou ateu, monárquico ou republicano, clássico ou moderno. Preciso ser todos esses e seus opostos, porque a verdade não está em nenhum deles mas na soma impossível de todos.
Os outros escrevem o que sentem. Eu sinto o que escrevo. Ou melhor: invento quem sinta o que preciso expressar. É uma fraude? Talvez. Mas é a fraude mais honesta que existe. Porque reconhece que toda identidade é ficção, todo “eu” é personagem, toda coerência é máscara. Eu apenas tive a coragem de admitir que sou teatro, e de fazer desse teatro a minha verdade.
Não tenho biografia. Tenho bibliografias. Não tenho psicologia. Tenho dramaturgia. Minha vida não está nos fatos que vivi mas nas vidas que criei. Enquanto outros buscam encontrar-se, eu me perdi propositadamente em todas as direções possíveis. E nessa perda encontrei algo maior que qualquer identidade individual poderia oferecer.
A unidade do ser é uma prisão confortável. “Conheça-te a ti mesmo”, diziam os gregos. Mas e se não houver um “ti mesmo” para conhecer? E se formos apenas potência pura, possibilidade infinita que se trai cada vez que escolhe uma forma? Preferi não escolher. Ou melhor: escolhi todas as escolhas, habitei todas as possibilidades.
Minha ausência de identidade fixa não é falha. É método. É filosofia encarnada. É a prova viva de que podemos ser mais que nos permitem ser. Que podemos explodir os limites do eu e nos espalhar por todos os eus possíveis. Que podemos fazer da multiplicidade não uma doença, mas uma arte.
Serei lembrado? Talvez. Mas por quem? Pelo sensacionista? Pelo heteronímico? Pelo ortónimo melancólico? Por todos e por nenhum. Porque minha obra não é o que escrevi. Minha obra sou eu - ou melhor, a ausência de mim transformada em constelação de presenças.
Sentir tudo de todas as maneiras. Viver todas as vidas. Morrer todas as mortes. Ser nenhum para poder ser todos.
Esta é a única identidade que aceito: a de não ter nenhuma.
E assim me tornei múltiplo, para que na multiplicidade coubesse o universo inteiro.
Pessoa: o nome perfeito para quem escolheu ser todas as pessoas possíveis.
“A Pedagogia da Derrota”
Ganhar ou perder? A pergunta reverbera através dos corredores da existência humana como um eco persistente, uma interrogação que nos persegue desde o primeiro jogo infantil até o último suspiro.
E nesta encruzilhada aparentemente simples, reside um dos paradoxos mais inquietantes da condição humana: somos ensinados a vencer, mas é o perder que verdadeiramente nos educa.
O ser humano é criatura refratária à derrota. Construímos civilizações inteiras sobre a premissa da vitória, erigimos monumentos aos vencedores, celebramos os triunfadores. A história, dizem, é escrita pelos que vencem. Mas o que não nos dizem é que a sabedoria é forjada pelos que perdem e conseguem, apesar de tudo, permanecer de pé.
Aceitar a perda é exercício de uma complexidade desconcertante. Vai contra todo o instinto de sobrevivência, contra a narrativa que construímos sobre nós mesmos como protagonistas destinados ao sucesso. Quando perdemos, não é apenas um jogo, uma competição ou uma oportunidade que se esvai é um fragmento da nossa própria mitologia pessoal que desmorona. E isso, essa demolição do ego, é insuportável.
Mas aqui reside o paradoxo luminoso: é justamente na perda que habitam as lições mais profundas. Ganhar nos confirma, nos valida, nos mantém confortavelmente instalados nas certezas que já possuíamos. A vitória é espelho que reflete o que queremos ver. A derrota, por outro lado, é vidro estilhaçado que nos obriga a olhar através dos cacos, a enxergar o que preferíamos ignorar.
Aprender a perder é, portanto, uma arte mais refinada que aprender a ganhar. Exige humildade essa virtude tão rara numa época de egos inflados e autopromoção incessante. Exige resiliência a capacidade de ser golpeado e não se deixar destruir. Exige, sobretudo, uma coragem particular: a coragem de olhar para o próprio fracasso sem desviar os olhos, sem buscar culpados externos, sem se refugiar em justificativas confortáveis.
Você saberia perder? A pergunta não é retórica. Saberia erguer-se de uma derrota sem amargor corrosivo? Conseguiria extrair da queda não um trauma, mas um ensinamento? Teria a grandeza de reconhecer que o adversário foi, naquele momento, melhor, mais preparado, mais merecedor e ainda assim não permitir que isso corroa sua autoestima?
A verdade desconfortável é que a maioria de nós não sabe. Perder nos torna defensivos, ressentidos, amargurados. Criamos narrativas alternativas onde fomos traídos pelas circunstâncias, pela injustiça, pela má sorte. Qualquer explicação serve, desde que não precisemos confrontar a possibilidade de que simplesmente não fomos bons o suficiente daquela vez.
Mas os sábios esses raros exemplares da espécie humana que conseguiram transcender o ego compreendem algo fundamental: a derrota é professora mais generosa que a vitória. Ela nos revela nossas fraquezas, expõe nossas ilusões, desmantela nossas arrogâncias. E ao fazer isso, abre espaço para o crescimento genuíno, aquele que não vem da acumulação de troféus, mas da transformação interior.
Talvez devêssemos inverter a equação. Em vez de ensinar as crianças apenas a vencer, deveríamos ensiná-las a perder com dignidade. A levantar-se sem ódio, a reconhecer a derrota sem desmoronar, a entender que fracassar não é tornar-se um fracassado é simplesmente participar da experiência humana em sua totalidade.
Porque a vida, essa competição implacável contra o tempo e contra nossas próprias limitações, garantirá que todos nós, invariavelmente, percamos. Perderemos disputas, oportunidades, pessoas amadas. A questão não é se vamos perder, mas como perderemos. Se desmoronaremos sob o peso da derrota ou se aprenderemos a dança delicada de cair e levantar, de ser derrotado sem ser destruído.
No fim, a vitória mais importante não é sobre adversários externos, mas sobre nossa própria incapacidade de aceitar a imperfeição, a vulnerabilidade, o fracasso. Saber perder é, paradoxalmente, a única vitória que realmente importa. Porque é a única que nos torna, finalmente, inteiramente humanos.
“A Tirania do Ausente”
Sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco o muito que temos. Esta sentença é diagnóstico impiedoso de uma humanidade doente de ingratidão e cega para a própria abundância.
Observe o homem moderno: possui teto, mesa farta, afetos que o cercam, saúde que o sustenta. Mas toda sua atenção está voltada para aquilo que não tem o cargo que não alcançou,
o reconhecimento que não recebeu, o amor que não conquistou, o dinheiro que não acumulou. Caminha sobre tapete de bênçãos sem olhar para baixo, com os olhos fixos no horizonte inalcançável das coisas ausentes.
Schopenhauer tinha razão: somos criaturas da falta perpétua. Não importa quanto possuamos o desejo já está correndo atrás do próximo objeto. Conseguimos o emprego sonhado e imediatamente queremos a promoção. Conquistamos o amor desejado e já olhamos para o que falta nele. Alcançamos a meta e sentimos vazio, porque a meta era apenas desculpa para não apreciar o caminho.
É perversão ontológica: transformamos presença em invisibilidade e ausência em obsessão. O filho saudável que brinca na sala é ignorado enquanto nos torturamos pelo filho que não tivemos.
A comida no prato é engolida sem sabor enquanto invejamos o banquete do vizinho. O presente que temos é desvalorizado pela promessa do futuro que talvez nunca chegue.
E quando finalmente conseguimos aquilo que faltava? Quando o pouco ausente se torna muito presente? Não gozamos. Não celebramos. Apenas deslocamos a falta para outro lugar. Porque não é a coisa que queremos é o querer que viciou nossa alma. Não é a conquista que buscamos é a angústia da busca que nos define.
Epicuro alertou há dois mil anos: aprende a viver com pouco e descobrirás que tens muito. Mas nós, surdos à sabedoria antiga, fazemos o oposto. Temos muito e vivemos como se tivéssemos pouco. Possuímos abundância e sentimos escassez. Somos ricos que vivem na mentalidade da pobreza não de bens, mas de gratidão.
Esta é cobrança que precisa ser feita: você, que reclama do pouco que falta, já agradeceu hoje pelo muito que tens? Você, que sofre pela promoção que não veio, já celebrou o emprego que possui enquanto milhões estão desempregados? Você, que chora pelo amor que terminou, já honrou os que permanecem ao seu lado? Você, que lamenta o que perdeu, já reconheceu o que nunca te foi tirado?
A ingratidão é forma sofisticada de cegueira. Não vemos o que está presente porque nossa visão está intoxicada pelo ausente. É como passar a vida procurando óculos que estão no próprio rosto enquanto procuramos, não enxergamos nada do que está diante de nós.
Marco Aurélio escrevia para si mesmo: “Quando acordares de manhã, pensa no privilégio que tens de estar vivo de respirar, de pensar, de apreciar, de amar.” Mas quantos de nós acordamos pensando nisto? Acordamos já contabilizando faltas, já lamentando ausências, já construindo listas de insatisfações.
Jesus disse: “Não vos inquieteis pelo dia de amanhã.” Mas vivemos perpetuamente inquietos não pelo amanhã apenas, mas por tudo que não temos hoje. Transformamos o presente em sala de espera angustiada pelo futuro. E quando o futuro chega, já estamos olhando para o próximo, numa fuga perpétua do agora.
Existe crueldade nesta escolha porque é escolha. Ninguém nos obriga a sofrer pelo pouco que falta. Escolhemos focar no vazio em vez da plenitude. Escolhemos a ferida pequena em vez da saúde ampla. Escolhemos a sombra fina em vez da luz abundante.
E o mais trágico: este sofrimento autoinfligido não produz nada. Não nos torna melhores. Não melhora nossa situação. Apenas consome a vida que temos enquanto esperamos pela vida que imaginamos merecer. Morremos de sede ao lado do poço, reclamando que não é oceano.
A vida te deu saúde? Agradeça antes de lamentar a beleza que não tens. Te deu família? Celebra antes de chorar pelos que partiram. Te deu trabalho? Honra antes de invejar o trabalho alheio. Te deu hoje? Vive antes de angustiar-te pelo amanhã.
Porque aquilo que tens hoje este corpo que respira, esta mente que pensa, estes olhos que leem estas palavras é exatamente aquilo que alguém que já partiu daria tudo para ter novamente. Tua vida comum é milagre impossível para os que jazem sob a terra.
Então para. Olha ao redor. Conta. Enumera. Lista tudo que tens antes de lamentar o que falta. E descobrirás verdade constrangedora: tens mais do que mereces, mais do que precisas, mais do que percebes.
Sofremos muito com o pouco que nos falta porque escolhemos sofrer. Gozamos pouco o muito que temos porque escolhemos não gozar. E um dia, quando tudo isso que ignoramos hoje nos for tirado, finalmente entenderemos tarde demais que éramos ricos e vivíamos como mendigos.
A cobrança é simples: para de reclamar e começa a agradecer. Para de contar faltas e começa a reconhecer presenças. Para de viver no exílio do que poderia ser e habita a plenitude do que é.
Porque a vida não te deve nada. Mas tu deves à vida o reconhecimento de tudo que ela já te deu.
A PIPA E A FLOR
Era uma vez uma pipa.
O menino que a fez estava alegre e imaginou que a pipa também estaria. Por isso fez nela uma cara risonha, colando tiras de papel de seda vermelho: dois olhos, um nariz, uma boca...
Ô pipa boa: levinha, travessa, subia alto...
Gostava de brincar com o perigo, vivia zombando dos fios e dos galhos das árvores.
- “Vocês não me pegam, vocês não me pegam...”
E enquanto ria sacudia o rabo em desafio.
Chegou até a rasgar o papel, num galho que foi mais rápido, mas o menino consertou, colando um remendo da mesma cor.
Mas aconteceu que num dia, ela estava começando a subir, correndo de um lado para o outro no vento, olhou para baixo e viu, lá num quintal, uma flor. Ela já havia visto muitas flores. Só que desta vez os seus olhos e os olhos da flor se encontraram, e ela sentiu uma coisa estranha. Não, não era a beleza da flor. Já vira outras, mais belas. Eram os olhos...
Quem não entende pensa que todos os olhos são parecidos, só diferentes na cor. Mas não é assim. Há olhos que agradam, acariciam a gente como se fossem mãos. Outros dão medo, ameaçam, acusam, quando a gente se percebe encarados por eles, dá um arrepio ruim elo corpo. Tem também os olhos que colam, hipnotizam, enfeitiçam...
Ah! Você não sabe o que é enfeitiçar?!
Enfeitiçar é virar a gente pelo avesso: as coisas boas ficam escondidas, não têm permissão para aparecer; e as coisas ruins começam a sair. Todo mundo é uma mistura de coisas boas e ruins; às vezes a gente está sorrindo, às vezes a gente está de cara feia. Mas o enfeitiçado fica sendo uma coisa só...
Pois é, o enfeitiçado não pode mais fazer o que ele quer, fica esquecido de quem ele era...
A pipa ficou enfeitiçada. Não mais queria ser pipa. Só queria ser uma coisa: fazer o que a florzinha quisesse. Ah! Ela era tão maravilhosa! Que felicidade se pudesse ficar de mãos dadas com ela, pelo resto dos seus dias...
E assim, resolver mudar de dono. Aproveitando-se de um vento forte, deu um puxão repentino na linha, ela arrebentou e a pipa foi cair, devagarzinho, ao lado da flor.
E deu a sua linha para ela segurar. Ela segurou forte.
Agora, sua linha nas mãos da flor, a pipa pensou que voar seria muito mais gostoso. Lá de cima conversaria com ela, e ao voltar lhe contaria estórias para que ela dormisse. E ela pediu:
- “Florzinha, me solta...” E a florzinha soltou.
A pipa subiu bem alto e seu coração bateu feliz. Quando se está lá no alto é bom saber que há alguém esperando, lá embaixo.
Mas a flor, aqui de baixo, percebeu que estava ficando triste. Não, não é que estivesse triste. Estava ficando com raiva. Que injustiça que a pipa pudesse voar tão alto, e ela tivesse de ficar plantada no não. E teve inveja da pipa.
Tinha raiva ao ver a felicidade da pipa, longe dela... Tinha raiva quando via as pipas lá em cima, tagarelando entre si. E ela flor, sozinha, deixada de fora.
- “Se a pipa me amasse de verdade não poderia estar feliz lá em cima, longe de mim. Ficaria o tempo todo aqui comigo...”
E à inveja juntou-se o ciúme.
Inveja é ficar infeliz vendo as coisas bonitas e boas que os outros têm, e nós não. Ciúme é a dor que dá quando a gente imagina a felicidade do outro, sem que a gente esteja com ele.
E a flor começou a ficar malvada. Ficava emburrada quando a pipa chegava. Exigia explicações de tudo. E a pipa começou a ter medo de ficar feliz, pois sabia que isto faria a flor sofrer.
E a flor aos poucos foi encurtando a linha. A pipa não podia mais voar.
Via ali do baixinho, de sobre o quintal (esta essa toda a distância que a flor lhe permitia voar) as pipas lá em cima... E sua boca foi ficando triste. E percebeu que já não gostava tanto da flor, como no início...
Essa história não terminou. Está acontecendo bem agora, em algum lugar... E há três jeitos de escrever o seu fim. Você é que vai escolher.
Primeiro: A pipa ficou tão triste que resolveu nunca mais voar.
- “Não vou te incomodar com os meus risos, Flor, mas também não vou te dar a alegria do meu sorriso”.
E assim ficou amarrada junto à flor, mas mais longe dela do que nunca, porque o seu coração estava em sonhos de vôos e nos risos de outros tempos.
Segundo: A flor, na verdade, era uma borboleta que uma bruxa má havia enfeitiçado e condenado a ficar fincada no chão. O feitiço só se quebraria no dia em que ela fosse capaz de dizer não à sua inveja e ao seu ciúme, e se sentisse feliz com a felicidade dos outros. E aconteceu que um dia, vendo a pipa voar, ela se esqueceu de si mesma por um instante e ficou feliz ao ver a felicidade da pipa. Quando isso aconteceu, o feitiço se quebrou, e ela voou, agora como borboleta, para o alto, e os dois, pipa e borboleta, puderam brincar juntos...
Terceiro: a pipa percebeu que havia mais alegria na liberdade de antigamente que nos abraços da flor. Porque aqueles eram abraços que amarravam. E assim, num dia de grande ventania, e se valendo de uma distração da flor, arrebentou a linha, e foi em busca de uma outra mão que ficasse feliz vendo-a voar nas alturas.
CONTO DE UMA MULA
Depois de passar um tempo fora do Brasil, voltei para minha cidade que tanto gosto. Chegando, fui ver o que havia mudado e saber as novidades. De “tão grande” que é, em poucas horas, consegui me atualizar sobre tudo.
Terminando o passeio, perguntei ao meu irmão onde poderia conhecer as meninas bonitas da cidade pois, pelo que me lembrava, era nas feirinhas de artesanato na praça principal, mas muita coisa mudou...
- Mas quero conhecer as meninas que têm uma beleza compatível com a minha! – exclamei em um tom bem sarcástico.
A procura não demorou dois dias. Não sei o que meu irmão fez, mas conseguiu me apresentar uma linda garota. Muito linda mesmo, só vendo para acreditar. Marcamos de sair algumas vezes para conversar e nos conhecer melhor. Quantas coisas conversamos... E eu ficava cada dia mais apaixonado.
Vinte dias depois estávamos namorando.
Ela falava de mim para as suas irmãs. Falava tanto que até ganhei um fã clube na casa dela. Toda a família, até o pai era meu fã sem nem mesmo me conhecer, pode isso?
Marcamos um dia para que pudesse visitá-los e enfim conhecê-los. Chamei um amigo, Frederico, e sua namorada, que era amiga da minha futura esposa, para irem juntos. Sim... Eu já estava pensando em casamento!
O grande dia chegou, a aventura estava apenas começando, iria conhecer a família dela no alto do São Francisco – e não pense que o rio, São Francisco é o nome da fazendo do meu futuro sogro e eu estava me achando por isso.
E lá fomos nós!
Saímos na madrugada de um sábado, em uma Brasília. Chovia tanto, até certo ponto estava tudo bem, isso enquanto estávamos em uma estrada de asfalto, mas depois... Aquele depois de mineiro sabe? Tudo tinha barro, as estradas, os meus amigos e a minha futura esposa, mas eu continuava me achando.
Os morros eram tão altos que pareciam que estavam nos levando para o céu. Cheguei a pensar em desistir, mas pensei bem e tudo parecia ser uma prova de amor onde eu estava sendo testado (mudança de posição – melhor adequação de leitura) e se eu falasse que queria desistir da viagem iria parecer má vontade minha de conhecer a família dela e todo fã clube criado para mim.
Levei uma prosa com meu amigo Frederico e com meu motorista que garantiy que nada iria nos impedir de chegar lá:
- Já dirigi em condições piores que essa, meu rapaz! E já estamos quase chegando.
O “quase chegando” demorou a manhã toda. Eu já não sentia minhas pernas, elas estavam dormentes, pois no banco de trás não tinha muito espaço para esticá-las.
E finalmente chegamos! Eu estava feliz em poder esticar minhas pernas e minha futura esposa em rever seus familiares. Todos estavam esperando no alpendre (nas fazendas é assim que são chamadas as varandas, né?), foi muto legal. O pai dela nos esperava bem na porta e, assim que chegamos ao alpendre, ele despachou as mulheres para a cozinha ficando lá apenas Frederico, ele e eu. Eu estava morrendo de vontade de ir ao banheiro, mas a vergonha de pedir falou mais alto.
Se me perguntarem sobre o que conversamos, não saberei porque meu foco estava todo na minha bexiga – prestes a estourar – e que a cada minuto a minha vontade de ir ao banheiro aumentava. Lembro apenas que ficamos um bom tempo lá.
Foi minha futura esposa quem me resgatou. Certo momento ela apareceu para avisar que o café estava pronto e para acompanhar tinha broa de milho e queijo “fresquim”. Aproveitei a deixa e fui ao banheiro – QUE SENSAÇÃO MARAVILHOSA! O único problema é que a descarga era aquela de caixa que tem que esperar encher para poder usar e eu tive que ficar esperando para conseguir dar a segunda descarga. A demora foi tanta que na hora que cheguei para tomar o café, a broa já estava um pouco fria.
Conversa vai, conversa vem... Fui percebendo que já tinha conquistado meu sogro. Pensei que estava tudo bem e na paz até que ele me chama para dar uma volta pela fazenda e conhecer a cabeceira dela. Não pensei duas vezes e respondi:
- Vamos sim, vou adorar o passeio! Essa fazenda me lembra a do meu avô.
Meu erro foi imaginar que iríamos de carro. Todo o passeio foi feito a pé (nossa que sofrimento!). Nunca tinha visto e subido um morro tão íngreme. A sensação que tive foi que estava subindo deitado e acho que tudo que comi assim que chegamos foi queimado no “exercício” que eu fiz. Fizemos uma parada em um lugar lindo e a vista de lá de cima era tão bonita. Ficamos um pouquinho por lá e meu futuro sogro já começou a andar novamente.
- Achei que nosso passeio acabava aqui. – disse a ele meio assustado
Ele riu e respondeu:
- Não chegamos ainda não, menino!
Andamos mais uns 20 minutos – detalhe: era só subida – para aí sim chegarmos à tal cabeceira da fazenda. Graças a Deus! Se tivesse que andar mais um pouco meu sogro iria ter que descer comigo nas costas, eu não tinha mais força nas pernas para dar um passo sequer.
A vista da cabeceira era muito bonita e a caminhada por lá não era tão ruim assim. Meu futuro sogro me levou a uma parte que era mata bem fechada, assim que chegamos lá ele começou a contar sobre cobras que viviam ali e não era qualquer tipo de cobra, não... Era uma tal de “jararacuçu”, se o nome já é difícil de ser escrito, imagina o quão pavoroso esse bicho deve ser (só de pensar eu morro de medo).
Onde estávamos era tão alto que o nome da fazenda (Ato de São Francisco) começou a fazer sentido. Lá eu realmente me sentia bem perto do céu e de São Francisco.
Começou a escurecer, minha apreensão de estar lá em cima começou a aumentar. Perguntei para meu futuro sogro se não já estava na hora de voltarmos. Ele percebeu meu medo e retomou a conversa sobre as tais cobras e seus perigos antes de começarmos a descida de volta.
Durante a descida ele me falava que elas, as cobras, cruzavam sempre esse caminho que estávamos fazendo para chegar ao ninho delas que era ali bem perto. Não esperei uma só palavra a mais dele e corri feito um corisco, chegando primeiro que ele em sua casa.
Depois dessa “fuga” eu só pensava: “Putz! Minha apresentação está indo de mal a pior. ”. Mas não terminou por aí não! No dia seguinte levantei bem cedo para tomar café e mais uma grande aventura me esperava. Imaginam o que era? Andar a cavalo! Dessa vez não iria desapontar minha digníssima futura esposa. Eu adoro andar a cavalo, vocês nem fazem ideia! Ele é meu animal preferido.
Então lá fomos nós, meu futuro cunhado trouxe os cavalos e logo me deu as rédeas de um bem pequeno, parecido com uma mula. Parecia que já estavam adivinhando que eu não me daria muito bem. Sim, eu disse que adoro andar a cavalo, mas a verdade é que eu não entendendo muito bem desse animal e as vezes que andei foi com meu pai.
E lá estava eu sentado na garupa dele.
Uma coisa que dizem sobre os cavalos que é verdade, é que eles têm uma percepção muito aguçada sobre quem está montando, se a pessoa tem ou não experiência ou até mesmo convivência com eles.
Bom, estava na cara que eu não tinha nenhuma experiência com cavalos. Assim que montei, o cavalo saiu em disparada em direção à porteira e eu não conseguia fazê-lo parar. Quem me salvou de passar uma vergonha ainda maior foi minha futura cunhada que foi ao meu encontro e conseguiu nos parar. Logo que todos montaram, começamos a nos movimentar e mais uma vez a minha mula saiu na frente em disparada. E, para piorar (mudança para ficar mais harmônica a leitura), eu não sabia como pará-la e muito menos onde era o freio do animal. Ela só parou porque fomos de encontro com uma porteira e todos estavam gritando ao fundo, mas assim que consegui abrir a porteira ela saiu em disparada novamente como se estivéssemos em uma corrida e, com isso tudo acabei batendo meus joelhos na porteira e indo parar no chão enquanto a mula corria pasto a fora. De longe essa foi a pior parte da minha apresentação aos pais da minha futura esposa.
Depois que eles garantiram que eu não tinha me machucado seriamente, as risadas começaram e tudo por causa de uma mula que não entendeu meus comandos e não me respeitou. No fim da história quem se saiu como super star foi a mula!
Estava envergonhado por todas as más impressões que causei, mas no fundo, e apesar de tudo, todos gostaram de mim e eu conquistei minha amada e sua família, mesmo com as mancadas.
Canto assombrado
Certo dia dois amigos, saindo de um bar a caminho de casa lá pelas altas da madruga.
E começaram a falar de assombração.
Um deles pergunta ao outro?
Genivaldo, você acredita em assombração?
Ele olhou para o amigo e disse: Porque está pergunta agora Astrubal?
Estamos num caminho que nem luz tem e você vem com uma pergunta sem pé e nem cabeça sô!
Disse Genivaldo.
Sei lá porque disse Astrubal. Estár aqui andando com cê e me veio isto na cabeça como se tivesse me soprando nos ouvido uma voz.
Genivaldo foi logo falando, para com esta conversa que não acredito em nada disto! Estás coisa só existe na cabeça da gente, assombração e uma imaginação do nosso subconsciente.
E Astrubal, começou a falar: sabe eu ouvi minha mãe e meu pai contar cada história e que era uma verdade verdadeira so!
Eles me contaram que morava em uma casa muito antiga no interior de minas, e eles tinha um restaurante que fazia comida para as pessoas que trabalhavam nas estradas. E era muita coisa pra fazer depois do espidiente, que era muitos pratos e copos pra lavar. Mas como o consaço falava mais forte, eles dormiam e de manhã eles lavavam toda prataria e os copos. Mas uma certa noite, minha mãe acordou com um certo barulho lá na cozinha e uma falazada que parecia que estava em uma festa. Minha mãe que tem um sono leve, abriu os olhos e passou a mão pra ver se meu pai estava deitado ainda. E não era mesmo que meu estava estava lá juntinho dela. Ela se levantou e foi olhar que estava lá embaixo lavando as louças, abriu a porta de vagarim e não viu e nem ouviu as vozes mais!
E Ginivaldo com olhos arregalados disse: para com está bobagem, fantasmas não existe. Vai vê que sua mãe e seu pai contava estas histórias só pra deixar você com medo so!
Mas Astrubal disse,não pra que eles ia dizer isto pra mim?
E aí continua história:
Aí minha mãe chamou o pai e disse que tem gente lavando as louças pra nois!
Como meu pai não ouviu nada e disse pra mãe: volta a dormir que isto é o cansaço que subiu na sua cabeça e fez que você ouvisse coisas.
Aí ela se acomodou na cama e voltou a dormir.
Mas tarde, foi o meu pai que acordou com a barulheira lá na cozinha, e ele fez a mesma coisa e passou a mão na cama pra ver se era minha mãe que estava lá em baixo lavando as louças.
Aí ele viu que minha mãe está deitada ainda e foi na porta do quarto e abriu uma cretazinha pra ver se via alguém… e não viu não nada!! Trancou a porta e chamou minha mãe e disse que ouviu e viu um homem grande lá embaixo na cozinha. Se abraçaram e ficaram ali mesmo quietos até o amanhecer.
Genivaldo já com um pouco de medo, pergunta. Porque contar uma história sem sentido desta! Assombração e só na nossa cabeça homem, quem morrer nunca volta. E já andando nas estrada de roça e escura, Genivaldo, disse vamos falar de outra coisa que desvia nosso pensamento desta história, vamos contar piada sô!
De repente um barulho assustador perto dele e Genivaldo saiu correndo feito um louco e gritava que não foi ele que começou a mexe com o demo e que não tinha nada a ver com a história!
E Astrubal, correu atrás dele e disse: Mas você disse que assombração e nossa imaginação e que vem de nossa cabeça. porque você saiu correndo feito louco?
Respondeu Genivaldo; nem sempre a gente espera pra saber se realmente existe ou se está em nossa cabeça.
Mas o meu subconsciente pediu pra mim correr !!!!
Nos mistérios de seu corpo eu descobri o prazer.
Nos mistérios de seu corpo, fica eu as vezes perdido com tanta beleza, suavidade e encanto. Gosto de correr os meus dedos em todas as curvas e em todas as partes mais ardente e sentir o seu calor. Vendo que seu corpo logo conresponde com os arrepios de desejos. Vou mais além levando-te a loucura.
Te beijo com muito carinho e com meus desejos em chamas que se notar e faço que sinta também que estou perdidamente apaixonado por você.
E juntos deliramos e nos amos com toda nossas forças.
Eu profundamente vou buscar o prazer que tanto desejamos. O seus gritos e suas palavras faladas baixinho junto com seus suspiros de prazer que me faz ir ao além. Quando chegamos ao ponto máximo que o prazer possa nos levar, este mesmo amor nos dá uma energia de podermos gritar juntos tudo aquilo que desejamos de nós, e neste momento sabes que eu sou seu por inteiro, cada centímetros de mim é só seu. E os mistérios eu os desvendei e assim eles serão sempre meus.
Nos mistérios de seu corpo eu descobri o prazer.
Nos mistérios de seu corpo, fica eu as vezes perdido de tanta beleza e suavidade e encanto. Gosto de correr os meus dedos em todas as curvas e sentir o seu calor. Ver que seu corpo logo responde com os arrepios de desejo. Vou mais além levando te a loucura.
Te beijo com desejos em chamas e faço que sinta também estou em chamas por você.
E juntos deliramos e amos.
Eu profundamente buscar o prazer que tanto desejamos. O seus gritos e seus suspiros de prazer que me faz ir ao além. Quando chegamos ao ponto máximo em que o prazer, o amor nos dá, gritamos juntos que não pra nunca acabar.
poesia
Uma dia pensei em escrever alguma coisa
Mas que está coisa tocasse um coração
Então comecei a escrever poemas, pensando em conquista um coração
Escreve tantas coisas que o coração me mandava escrever
Foi aí que ele, meu coração me mostrou você,
Porque você é a poesia que ele(coração) que queria que escrevesse e até hoje escrevo você em minhas poesias e no meu coração.
Arte
A arte é uma flor nascida no caminho da nossa vida, e que se desenvolve para suavizá-la.
Para lhe dar a verdadeira cor, a cor da liberdade.
A arte, nos ensina a valorizar o outro que é uma obra de arte divina.
Ressentimento
Hoje pude perceber que está vazio
ou quase vazio
Tudo se foi… e não tenho quase nada
Sobrou sim alguns restos
Sobrou ressentimento
Sobrou saudades
São coisas que vão mudar com o tempo
Vão cair no esquecimento
Para não virar sofrimento
Como pode um grande amor, acabar de um maneira tão sofrente!
Esta é a danada da vida
Sempre pregando peças na gente.
