A Estranha Fórmula de Existir Há... Silasoliveira13
A Estranha Fórmula de Existir
Há pessoas que amam as coisas simples como quem encontra nelas uma explicação para a própria vida. Um gesto pequeno, uma palavra despretensiosa, uma presença que permanece quando todas as grandes certezas já partiram.
Ele, porém, amava a si mesmo com uma paixão profunda, quase enraizada. Talvez porque tenha descoberto cedo que existir também exige essa estranha intimidade conosco: somos, ao mesmo tempo, nossa companhia e nosso enigma.
A existência humana parece obedecer a uma fórmula que ninguém consegue resolver inteiramente. Há nela o inevitável, o incompreensível e aquilo que, por mais que tentemos evitar, acaba nos encontrando.
Talvez por isso observemos os outros de maneira tão imperfeita. Julgamos uma vida inteira pela superfície de um instante. Transformamos pessoas em figuras planas, como personagens de uma antiga pintura, sem perceber as profundidades que existem atrás de seus olhos.
E, no entanto, são justamente as coisas aparentemente triviais que denunciam quem somos.
Há quem consiga descascar uma maçã numa única tira, conduzindo a faca lentamente ao redor do fruto sem interromper o movimento. Parece insignificante. Mas talvez viver seja exatamente isso: tentar atravessar os dias sem romper completamente o fio que nos liga a nós mesmos.
Há também pessoas que desaprenderam a sorrir. Não necessariamente porque lhes falte alegria, mas porque alguma coisa dentro delas se tornou pesada demais para alcançar o rosto.
E continuamos.
Amando.
Observando.
Errando.
Escrevendo.
Tentando dar nome ao que talvez nunca tenha nome.
No final da página aparece uma provocação quase irônica sobre a literatura: “Prosa russa, quantos crimes são cometidos em teu nome!”
Talvez seja uma brincadeira. Talvez seja uma acusação. Talvez seja apenas o escritor lembrando que até as palavras, quando pretendem explicar demais a existência, podem cometer seus pequenos crimes.
Porque a vida não nasceu para caber perfeitamente numa frase.
E talvez esteja justamente aí sua beleza:
existimos sem compreender completamente o que significa existir.
